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Papa apresenta credenciais políticas em encíclica sobre IA

Figura desconhecida até há pouco mais de um ano, Robert Prevost vai deixando a sombra do popular Francisco e afirmando uma identidade política como o papa Leão 14.

Após ensaiar um conflito aberto com Donald Trump devido às ofensivas armadas dos Estados Unidos, o primeiro pontífice americano apresentou suas credenciais. Na segunda-feira (25), publicou sua encíclica de estreia.

Tais documentos servem tanto como guia espiritual ao 1,4 bilhão de católicos no mundo quanto comentário moral acerca de temas prementes. Com sua "Magnifica Humanitas" ("Humanidade Magnífica", em latim), Leão 14 fez a segunda opção, e não sem simbolismo —a encíclica foi publicada no aniversário de 135 anos de uma famosa antecessora, "Rerum Novarum" ("Das Coisas Novas").

Naquele texto, Leão 13, predecessor de Prevost no uso do nome papal, dissecava desigualdades decorrentes da industrialização nascente. Abriu caminho para o que Pio 12 chamou de "doutrina social da Igreja" em 1950.

Com habilidade e um texto salpicado de citações eruditas e da cultura pop, com direito a "A Lista de Schindler" de Steven Spielberg e "O Senhor dos Anéis" de J. R. R. Tolkien, Leão 14 resume o trajeto até a atual revolução tecnológica da inteligência artificial.

O papa aborda os riscos de um avanço desenfreado, a começar pela ameaça aos empregos e pela criação de monopólios, chegando a tons mais sombrios: "Nenhum algoritmo pode fazer a guerra moralmente aceitável".

Apesar disso, Leão 14 não adotou catastrofismo ou ludismo ante o que vê como um avanço inevitável da ciência. Pediu regulação, mas deixou suas reservas mais severas para proponentes da migração da consciência humana para máquinas.

Prevost trouxe ao lançamento do texto um dos cofundadores da Anthropic, uma das líderes do setor, que tem se estranhado com Trump. Se isso prova a abertura proposta, também arrisca dar uma chancela da Igreja aos monopolistas que denuncia.

"Magnifica Humanitas" foca na IA, mas tem um escopo amplo e histórico: num ponto, Leão 14 lamenta os 18 séculos em que o Vaticano não combateu a escravidão. "Por isso, em nome da Igreja, eu sinceramente peço perdão."

O embate com Trump, nunca nominado, permeia o texto. O papa defende o multilateralismo e afirma não existir guerra justa.

Após os mui políticos 26 anos do polonês João Paulo 2º na Santa Sé, o alemão Bento 16 (2005-13) só abordou temas espinhosos em 1 de suas 3 encíclicas. Francisco (2013-25) foi mais prolífico, dedicando 2 de seus 4 textos a atualidades. A urgência de Leão 14 sugere que ele seguirá os passos do antecessor argentino.

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