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‘Elas estão matando pessoas’: Biden denuncia empresas de mídia social por desinformação sobre vacina

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2021 | 20h43

WASHINGTON - O presidente americano Joe Biden expressou frustração com empresas de mídia social nesta sexta-feira, 16, ao afirmar que plataformas como o Facebook estão "matando pessoas" ao permitir que desinformação sobre vacinas se espalhem.

A declaração contundente de Biden vem após semanas de queixas na Casa Branca sobre a disseminação de mentiras e desinformação sobre a vacina, enquanto o ritmo de imunização do país diminui e autoridades de saúde alertam para o perigo crescente da variante Delta.

Pouco antes de embarcar no Marine One para um fim de semana em Camp David, Maryland, Biden foi questionado sobre qual era sua mensagem para as plataformas de mídia social quando se tratava de desinformação relacionada à pandemia.

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O presidente americano Joe Biden criticou empresas de mídia social Foto: Brendan Smialowski/AFP

“Elas estão matando pessoas”, disse. “Olha, a única pandemia que temos está entre os não vacinados."

Biden falou um dia após o cirurgião-geral dos Estados Unidos , Vivek Murthy, usar sua primeira assessoria formal para criticar empresas de tecnologia e mídia social que não impedem a propagação de informações perigosas que representam "uma ameaça urgente à saúde pública".

O governo Biden já havia alertado sobre a disseminação de informações errôneas sobre vacinas e o coronavírus propagadas por várias fontes, incluindo políticos e veículos de notícias.  Nesta semana, no entanto, os funcionários da Casa Branca foram além e apontaram diretamente para as empresas de mídia social. A acusação  aconteceu depois de semanas de tentativas fracassadas de fazer o Facebook entregar informações detalhando quais mecanismos existem para combater a desinformação sobre a vacina, de acordo com uma pessoa familiarizada com o assunto.

"Há cerca de 12 pessoas produzindo 65% da desinformação contra vacinas nas redes sociais. Todas permanecem ativas no Facebook, embora algumas tenham até sido proibidas em outras plataformas pertencentes à empresa", afirmou a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, sem citar nomes. “O Facebook precisa ser mais rápido para remover mensagens perigosas e que violam as regras. Elas persistem por dias. É muito tempo. As informações viajam muito rápido”, acrescentou.

"A desinformação custa vidas", afirmou o diretor médico dos Estados Unidos, Vivek Murthy. "Os grupos de tecnologia permitiram que ela contaminasse o nosso ambiente", afirmou, pedindo uma ação "rápida e consistente contra os maiores distribuidores" de informações falsas.

Facebook rebate críticas

O grupo de Mark Zuckerberg, que contratou um exército de verificadores de dados independentes para tentar limpar seu conteúdo, rebateu as afirmações da Casa Branca. "Não irão nos distrair as acusações que não forem respaldadas por fatos", disse à Agência France-Presse um porta-voz do Facebook.

Mais de 2 bilhões de pessoas tiveram acesso à informações verificadas sobre a covid e as vacinas, muito mais do que em qualquer outro site, afirmou o grupo. "Mais de 3,3 milhões de americanos também usaram nossa ferramenta de busca sobre vacinas para pesquisar onde e como se vacinar. Os fatos mostram que o Facebook está ajudando a salvar vidas."

Antes, a empresa de Zuckerberg afirmou que havia removido mais de 18 milhões de informações incorretas sobre o novo coronavírus e distribuído informações confiáveis sobre a covid-19 e vacinas para mais de 2 bilhões de pessoas.

Vacinação perde o fôlego

Os Estados Unidos trabalham para dar novo gás à vacinação contra o coronavírus, especialmente em face da rápida disseminação da variante Delta. De acordo com as autoridades de saúde, o atual aumento de infecções e mortes por covid-19 em todo o país afeta quase exclusivamente pessoas que não foram vacinadas. "Há uma mensagem clara sendo transmitida: isso está se tornando uma pandemia de não vacinados", afirmou Rochelle Walensky, diretora dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) nesta sexta-feira.

Muitos dos que se recusam a tomar a vacina, apesar da fácil disponibilidade de doses nos Estados Unidos, disseram não confiar na imunização. O ceticismo é alimentado tanto por postagens falsas de ativistas antivacinas nas redes sociais, quanto por políticos republicanos que afirmam que as vacinas são parte das tentativas de controle do governo. /NYT e AFP

Pela primeira vez, maioria acha que pandemia de Covid está controlada no país, diz Datafolha

Angela Pinho /FOLHA DE SP
SÃO PAULO

Em um momento em que os casos de Covid-19 desaceleram no Brasil, mas seguem em patamar alto, a percepção de que a pandemia está sob controle no país é majoritária pela primeira vez, mostra pesquisa Datafolha.

Mais da metade da população avalia que a pandemia está em parcialmente controlada (53%) ou totalmente controlada (5%). Para 41%, ela está fora do controle, e 1% não sabe.

A pesquisa foi feita nos dias 7 e 8 de julho com 2.074 entrevistas presenciais com pessoas de 16 anos ou mais em 146 municípios. A margem de erro é dois pontos percentuais para mais ou para menos.

A percepção de que a pandemia está fora de controle é maior entre os que têm de 16 a 24 anos, os pretos (52%), os que reprovam o governo de Jair Bolsonaro (54%) e os que nunca confiam em suas falas (52%).

Mas mesmo nesses grupos ela não chega perto da observada no levantamento feito em março, pico da pandemia no país. Naquele momento, a parcela dos que viam ausência de controle chegou a ser de 79%.

Agora, pouco mais de 500 dias após o primeiro caso de Covid-19 no Brasil, as infecções desaceleram em 13 unidades da federação e se estabilizam em patamares altos nas demais.

O Brasil registrou na terça-feira (13) 42.466 novos casos e 1.273 mortes na média móvel semanal, números 23% e 19% menores, respectivamente, do que os de duas semanas atrás.

Embora a situação esteja ainda longe de ser confortável, o avanço é atribuído principalmente à vacinação. Até esta terça-feira, 54,8% dos brasileiros adultos estavam imunizados com ao menos uma dose, e 19,5% com o esquema completo.

Até o momento, a campanha de vacinação no Brasil conta com quatro imunizantes: Coronavac, AstraZeneca e Pfizer, que requerem duas aplicações, e Janssen, de dose única.

O processo de aquisição e produção das vacinas foi marcado por morosidade e falhas de eficiência pela gestão do presidente Jair Bolsonaro, investigada em CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) no Senado.

Seu governo ignorou ofertas da Pfizer em 2020 e enfrenta denúncias de pedido de propina para um suposto intermediário da AstraZeneca e de atuação suspeita para a aprovação da Covaxin.

Além disso, em diversos momentos o presidente disseminou desinformação sobre as vacinas, além de criar conflitos diplomáticos com a China, país onde é produzido IFA (ingrediente farmacêutico ativo) usado nas doses produzidas no Brasil.

Ainda assim, à medida que chegam novos lotes e a imunização avança para novas faixas etárias e grupos prioritários, melhora a avaliação do Ministério da Saúde na aquisição dos imunizantes.

O índice de ótimo/bom passou de 32% para 37%. Outros 30% avaliam como regular, 31% como ruim ou péssimo, e 2% não opinaram.

A insatisfação é maior entre os mais instruídos (46%) e os que reprovam o governo Bolsonaro (47%).

Para 60%, a imunização ainda ainda está mais lenta do que deveria, índice majoritário, mas ainda menor do que o registrado em março (76%), no fim da gestão do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, e em maio (70%). Outros 30% avaliam que ela está dentro do prazo e 9%, mais rápida do que deveria.

Junto ao aumento da percepção de eficiência, ao avanço da vacinação e à redução de casos e mortes, o Datafolha mostra que cai também a parcela dos brasileiros que dizem ter muito medo de pegar o coronavírus. Ela chegou a 55% em março e agora está em 46%. Outros 31% declaram ter um pouco de medo e 21%, não ter medo.

Há diferenças significativas de gênero e regionais. Entre as mulheres, 52% ainda afirmam ter muito medo, ante 39% dos homens. No Nordeste, o índice é de 51%, e no Sul, de 38%.

Apesar da redução geral da parcela da população com receio da doença, cientistas e autoridades de saúde alertam para a necessidade de manutenção das medidas de prevenção e distanciamento social, principalmente diante da circulação da variante delta, mais transmissível que as demais e detectada pela primeira vez na Índia e já presente no Brasil.

Estudo recente publicado na revista Nature mostra que pessoas vacinadas com apenas uma dose das vacinas da AstraZeneca ou da Pfizer produzem anticorpos que mal têm efeito sobre a variante, que também é mais transmissível do que as demais. Proteção razoável, de mais de 60% em ambos os casos, é alcançada apenas após segunda dose.

Além disso, independentemente da variante, o fato de nenhuma vacina ter 100% de eficácia aumenta os riscos comunitários de uma alta circulação do vírus.

É por isso que, nas últimas semanas, países que já tiveram a pandemia mais controlada têm registrado aumento de casos, e parte deles anuncia novas medidas de prevenção.

Israel, que saiu na frente na imunização, anunciou no domingo (11) que dará uma terceira dose da Pfizer a adultos com sistema imunológico enfraquecido e estuda ampliar a medida. Metade dos 46 pacientes internados em estado grave por Covid no país estava imunizada.

Na Coreia do Sul, país modelo na testagem e no rastreamento de contatos, também há alta de casos, atribuída à variante delta, o que levou o governo a intensificar as medidas de distanciamento social.

Na Europa, o número de casos também aumentou 39,7% na semana de 28 de junho a 4 de julho em relação à anterior, e o de mortes, 6,4%.

Na França, o presidente Emannuel Macron anunciou que um passe sanitário será exigido para o acesso a bares e instituições culturais e determinou que todos os profissionais de saúde sejam imunizados até o dia 15.

Por outro lado, no Reino Unido, que também enfrenta aumento de casos, a exigência nacional de uso de máscaras deixa de valer na semana que vem. O uso do acessório continuará a ser exigido no transporte público de Londres por determinação da administração local.

 

Apagão da ditadura - folha de sp

Havia muito não se registrava em Cuba algo parecido. No domingo (11), as ruas de Havana e de diversas outras localidades da ilha foram tomadas por gritos de “liberdade” e “abaixo a ditadura”, nas maiores manifestações populares desde o começo dos anos 1990, quando o fim da União Soviética levou a economia local à bancarrota.

O motivo da raiva dos cubanos também é parecido com o de décadas atrás. Protestam sobretudo contra as condições de vida precárias e a dramática escassez de produtos, ambas agravadas neste período de pandemia.

Iniciadas no pequeno município de San Antonio de los Baños, onde centenas de pessoas saíram exigindo vacinas para a Covid-19 e protestando contra os longos apagões de eletricidade, as manifestações transmutaram-se em demandas por liberdade e ataques ao regime.

Enquanto os atos se espalhavam pelo país, o presidente Miguel Díaz-Canel apressou-se a ir à televisão culpar os inimigos de sempre: o embargo econômico e os Estados Unidos, que estariam fomentando a revolta popular.

Se é verdade que o anacrônico bloqueio econômico e financeiro estabelecido na Guerra Fria contribui para as dificuldades de Cuba, também é fato que, desde então, tem servido às autoridades da ilha para justificar todas as desgraças produzidas por décadas de fracassado planejamento estatal.

Historicamente frágil, a economia cubana soçobrou com o advento da pandemia. O Produto Interno Bruto do país encolheu impressionantes 11% no ano passado, muito em razão do colapso do setor de turismo, uma das principais fontes de renda da população.

Minguaram as remessas de dólares enviadas por cubanos radicados no exterior para suas famílias. Escassearam alimentos e remédios.

Não bastasse a calamidade econômica, a população sofre com o recrudescimento da pandemia. O país registrou nos últimos dias recordes de casos e mortes.

Previsivelmente, a ditadura agiu para sufocar a multidão dissonante. Díaz-Canel convocou “os revolucionários” do país a combater os manifestantes —muitos dos quais foram presos— e promoveu um grotesco corte da internet.

Também na incapacidade de aprender do regime, bem como de seus apoiadores na esquerda brasileira e mundial, os eventos de agora se parecem com os do passado.

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Precisa e o Ministério da Saúde fazem guerra de versões sobre preço da Covaxin

Vinícius Valfré, Júlia Affonso, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2021 | 17h16

BRASÍLIA - Em depoimento à CPI da Covid, nesta quarta-feira, 14, a diretora da Precisa MedicamentosEmanuela Medrades, classificou como “mentiroso” um documento que o Ministério da Saúde enviou como resposta oficial à Câmara dos Deputados e no qual consta uma oferta de preço da vacina Covaxin, em 20 de novembro, a US$ 10 a dose. Na sua versão, esse valor foi apresentado apenas como “expectativa”. 

O documento foi revelado pelo Estadão, em 3 de julho. O contrato para a importação dos imunizantes produzidos pelo laboratório indiano Bharat Biotech foi fechado, em 25 de fevereiro, por US$ 15 a dose. A elevação do preço, o maior pago pelo governo brasileiro por uma vacina, é investigada pela CPI.

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Emanuela Batista de Souza Medrades, diretora da Precisa Medicamentos  Foto: GABRIELA BILÓ / ESTADÃO

Primeiro, a diretora foi taxativa. Em resposta ao senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da comissão, ela afirmou que o documento é mentiroso. "A memória da reunião é mentirosa. É isso?", perguntou o senador. "Sim, senador, é mentirosa".

Em seguida, após o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), ler todo o documento, ela fez um reparo à afirmação. Disse que os US$ 10 foram apresentados como  "expectativa". "Foi apresentado como uma expectativa e não como uma proposta, não como oferta", afirmou.

Procurado várias vezes pelo Estadão, o Ministério da Saúde jamais se manifestou sobre o porquê ter fechado o contrato com valor 50% maior do que o colocado no relatório da reunião de novembro.

Emanuela Medrades confirmou a veracidade das informações no documento. Fez apenas dois reparos. Além da informação sobre o preço, disse que havia uma incorreção quanto à característica da vacina.

Segundo ela, não é correta a menção de que a Covaxin seria em "pó liofilizado". O imunizante seria uma solução injetável pronta para aplicação.

O valor de US$ 15 por dose da Covaxin é 1.000% mais alto do que a Bharat estimou em agosto de 2020 - seis meses antes de o contrato com o Ministério da Saúde ser assinado.

Telegrama da embaixada brasileira na Índia registrou que, em um evento na Índia, a Bharat informou que o preço por dose da vacina, quando estivesse pronta, poderia ser de 100 rúpias (US$ 1,34, na cotação da época). A informação também foi antecipada pelo Estadão.

Este valor não chegou a ser oferecido ao governo brasileiro. Em abril deste ano, após ter fechado contrato com o Brasil, a empresa divulgou uma tabela de preços com valores mais altos para exportação do que para o mercado interno.

À CPI, Emanuela Medrades confirmou que o presidente da Bharat, Krishna Ella, afirmou na época que "a Covaxin custaria menos que uma garrafa de água". Segundo ela, o valor de agosto de 2020 nunca foi ofertado e, na ocasião, "o produto não tinha sido precificado nem pra Índia nem pra nenhum outro lugar".

No ministério, as principais negociações para a compra da Covaxin foram lideradas pelo ex-secretário-executivo da pasta, Elcio Franco. Número 2 da gestão Pazuello, ele participou da reunião de 20 de novembro.

Coronel do Exército, Elcio Franco se tornou um dos principais alvos da CPI. Os senadores apuram se ele e os demais integrantes da pasta agiram para favorecer a Precisa, intermediária da compra da Covaxin, em detrimento de ofertas feitas diretamente por grandes farmacêuticas, como a Pfizer.

Por decisão dele mesmo, desde 29 de janeiro todas as tratativas relacionadas à vacina contra a covid-19 foram centralizadas na secretaria-executiva, como antecipou o Estadão

Em 6 de março, portanto nove dias após o fechamento do contrato para entrega de 20 milhões de doses da Covaxin, Elcio Franco pediu a compra de mais 50 milhões de unidades. Ele também ainda não se manifestou sobre os motivos que o levaram a solicitar o acréscimo.

O militar foi exonerado em 26 de março, com a saída de Pazuello. Foi nomeado, em 22 de abril, assessor especial da Casa Civil. O contrato, no valor de R$ 1,614 bilhão, foi suspenso no último dia 29. A decisão foi tomada após virem à tona denúncias de que houve pressão por parte de integrantes do ministério para acelerar a importação dos imunizantes, mesmo com inconsistências no processo.

A hora da responsabilidade social

O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 03h00

Em todo o mundo a pandemia despertou o debate sobre o papel do Estado na proteção aos vulneráveis e no incentivo à sua autonomia. Isso num momento em que as transformações tecnológicas criam modalidades de trabalho descobertas pelas proteções vinculadas ao emprego assalariado. No Brasil, a questão é premente, porque após a recessão dos anos 2014-16, a informalidade aumentou. Os desafios implicados nas políticas públicas para os mais vulneráveis foram tema de um seminário promovido pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV em parceria com o Estado.

Pelos cálculos de Daniel Duque, do Ibre, no fim de 2019, 21% da população (44,5 milhões de brasileiros) vivia abaixo da linha de pobreza de US$ 5,50 por dia. Em 2020, o auxílio emergencial reduziu temporariamente esse montante para 18,3%. Mas, sem a transferência de renda, estima-se que a proporção tenha saltado para 29,5%: ou seja, quase 18 milhões de brasileiros caíram na pobreza.

A pressão pela requalificação dos programas sociais parece irrefreável. O governo chegou a ensaiar dois programas – o Renda Brasil e o Renda Cidadã – que oscilaram entre inócuos e insustentáveis. O Supremo Tribunal Federal acaba de determinar a obrigação do Executivo de submeter ao Parlamento um programa de renda básica previsto numa lei aprovada há 17 anos que nunca saiu do papel. O Senado decidiu pautar a discussão do projeto de Lei de Responsabilidade Social.

O Brasil tem alguns bons modelos de transferência de renda. Segundo Luis Henrique Paiva, do Ipea, o Bolsa Família pode ser aprimorado, por exemplo, com critérios de reajustes que o defendam da inflação e com medidas que eliminem as filas. Mas Paiva e os participantes do seminário apontaram unanimemente diversas avaliações que comprovam a eficácia do programa.

Mas, aparte os casos de sucesso, há muitas insuficiências. Manoel Pires, do Ibre, apontou a carência de políticas de capacitação, treinamento e inclusão produtiva. Menos de 1% do Fundo de Amparo ao Trabalhador, por exemplo, é empregado nesse tipo de ação. Pires destacou ainda a importância de programas de inclusão digital.

Além das falhas estruturais, há desafios conjunturais. Historicamente, as redes de proteção estão atreladas à contribuição dos trabalhadores formais. Mas a revolução digital, acelerada pela pandemia, está expandindo modalidades informais e autônomas. A estrutura previdenciária, por exemplo, financiada por taxas compulsórias sobre as folhas de pagamento, precisará ser não apenas reajustada, mas reformulada. Será ainda incontornável pensar em formas mais amplas de proteção, como, por exemplo, um seguro para trabalhadores informais.

O problema do financiamento é particularmente pertinente ante as pressões fiscais e a perspectiva de uma Reforma Tributária. Como destacou Fernando Veloso, do Ibre, subsídios excessivos, exceções no pagamento de impostos ou má tributação de dividendos são alguns pontos que precisam ser repensados se se quiser dar sustentabilidade às políticas sociais. Fontes sem impacto fiscal, como o remanejamento de emendas parlamentares, também deveriam ser consideradas.

Outra questão é a equação entre prestações universais e focalizadas. Como apontou Paiva, um benefício igual para todos os brasileiros seria fatalmente baixo demais, prejudicando os mais pobres. Não se pode renunciar a algum tipo de focalização, ainda que os nichos focados possam receber benefícios universais. A pobreza das crianças no Brasil, por exemplo, é o dobro da média da população e 10 vezes maior que a registrada entre os idosos. Nesse sentido, uma renda básica para crianças poderia ser eficaz no combate à pobreza.

Neste momento, a base mais qualificada para um debate construtivo é o projeto de Lei de Responsabilidade Social. Em tese, o projeto combina sustentabilidade fiscal com ações diferenciadas de transferência de renda para os miseráveis, seguridade contra a volatilidade de renda e emprego para os trabalhadores pobres, estímulo à emancipação econômica e promoção de oportunidades para os jovens. Em boa hora o Senado colocará o projeto no foco de suas deliberações.

As Santas Casas e as políticas públicas

Ruy Martins Altenfelder Silva, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 03h00

Misericórdia do latim “miseris codare”. E os miseráveis são todas as pessoas que de um modo ou de outro se encontram em necessidade.

Na busca das origens das Santas Casas, o padre italiano Antonio Puca, autor do livro pesquisa As Santas Casas de Misericórdia – de Florença a São Paulo, a epopeia da caridade, encontra as raízes das irmandades fundadas por São Pedro Mártir, em 1244 e pela rainha Leonor de Lencastre, em 1498.

Destaque para as dificuldades financeiras cíclicas permanentes de todas elas, onde as causas são coincidentes: maiores responsabilidades e menores aportes financeiros.

A Misericórdia de Lisboa (1851) passou por grave crise financeira e diversas medidas foram implantadas: em síntese, “maior rigor no controle das despesas e na fiscalização das obras; e prestação de contas ao governo”.

Simultaneamente, em face da aplicação das leis de desamortização, a Misericórdia de Lisboa viu-se obrigada a vender parte significativa dos bens imobiliários e aplicar o produto da venda em títulos do Tesouro.

Vítimas de falta de interesse crônica pela saúde pública, as Santas Casas de Misericórdia sobrevivem graças aos esforços daqueles que trabalham nelas e ao trabalho voluntário de membros das comunidades locais. Seus conselhos administrativos (mesas) tentam conciliar as diferenças entre o alto custo da medicina moderna e os pagamentos simbólicos, frequentemente atrasados, buscando renda atendendo clientes privados e economizando com sua própria produção de alguns remédios, alimentos, caixões e outros bens.

Muitas vezes os presidentes precisam lutar incansavelmente com as autoridades para conseguirem receber o pagamento de impostos devidos a seus hospitais. As Misericórdias costumavam receber doações, eram incluídas em testamentos privados, uma tradição que praticamente desapareceu com o advento dos planos de saúde oficiais e privados.

As admiráveis Misericórdias estão entre as mais dedicadas, extensas, perseverantes e duráveis instituições humanas. No caso brasileiro, nem todas as realidades atingem o mesmo padrão, mesmo por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), do qual depende a maior parcela de recursos para sua gestão.

Compreende-se que as Santas Casas de um Estado ou as das periferias sejam penalizadas em relação às existentes nos grandes centros urbanos. Daí a urgente necessidade de uma profunda reforma na direção da subsidiariedade.

Os milhares de Santas Casas de Misericórdia brasileiras somam dois terços dos leitos hospitalares no País. Elas também têm servido para o ensino médico. A Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo é um exemplo de instituição modelar.

Não posso deixar de mencionar os relevantes papéis dos humanistas Cristhiano e Mário Altenfelder, meus tios. Como é tradição na Santa Casa, os seus provedores chegam ao cargo depois de ocuparem diversos e importantes postos na vida pública do Brasil e do exterior. Homens maduros, experientes, vacinados contra as emoções externas, guardando o coração de moços e o ideal de cidadãos que os embates da vida jamais fizeram esquecer, era de esperar que, satisfeitos embora, considerassem essa missão apenas como outra de longa série.

Quem os conhecia decorava os princípios que seguiam para quem exerce cargo de direção: ser capaz de amar o próximo; ser moderado e justo em qualquer situação; adaptar-se ao trabalho e gostar dele; atualizar-se sem deslumbramento e jamais perder o bom senso; recusar, corajosamente a liderança da mediocridade; viver a vida com realidade. Ela é o que é e não o que gostaríamos que fosse; ter mecanismos de defesa sadios, elevados, jamais desarrazoados ou mesquinhos; considerar sempre valores de larga duração; libertar-se de emoções infantis. Ser adulto, ter maturidade.

O relevante papel dos hospitais filantrópicos sinaliza as urgentes e inadiáveis providências que precisam ser tomadas pelo poder público: Renegociação de suas dívidas, reposição parcial ou total das dívidas das perdas acumuladas, revisão e adequação da tabela do SUS e oferta de linhas favorecidas.

É cada vez mais urgente a revisão da política pública da saúde para evitar a repetição da crise que o Conselho Federal de Medicina chamou de “mais um episódio dramático na história da saúde pública brasileira”. Crise esta que pode se agravar com a pressão dos milhares de pacientes que estão abandonando os planos de saúde em razão dos custos e da crise econômico-financeira conjuntural e queda da qualidade no atendimento particular e que engrossou as filas das portas estreitas da rede pública de saúde, agravada pela pandemia que vem atacando os seres humanos.

A relevância dessas instituições sinaliza urgentes, inadiáveis e necessárias providências. Santas Casas: Casas Santas (Paulo Bomfim e Jorge Mansur).


PRESIDENTE DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS JURÍDICAS (APLJ) E DO CONSELHO SUPERIOR DE ESTUDOS AVANÇADOS (CONSEA/IRS)

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