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Previsões para o presente - ANDRÉ CARVALHAL

“Ah o futuro...” Quem nunca pensou? E eu me pergunto que desejo é esse de sempre querermos planejar, saber ou adivinhar o que vem por aí. Desde que somos crianças nos perguntam: “O que você quer ser quando crescer?”. Mas já reparou que parece que é como se nunca chegássemos lá?! Estamos sempre (querendo e) querendo ser mais alguma coisa.

Seja na vida pessoal ou em questões profissionais, tenho sentido cada vez mais que o futuro é algo que está sempre a dois passos de nós. Sempre. Quando chegamos perto, ele anda mais dois passos e nunca chegamos lá. Ao mesmo tempo, somos e vivemos hoje o futuro que sonhamos e construímos um dia. Ou o que não sonhamos - ou não construímos - um dia.

Mas então o que é o futuro? “O futuro das nossas vidas”, “O futuro da nossa espécie”, “O futuro do trabalho, dos negócios”, “O futuro das relações”... Por todos os lados há pessoas tentando prever ou querendo respostas. Para mim, o futuro é um eterno presente. Um presente que se estende. São as nossas ações e movimentos que criam os futuros presentes.

A verdade sobre o futuro, é que não existe uma verdade sobre o futuro. Apesar de sonhos, desejos e projeções, ele é redefinido a todo momento e será criado por nós agora. Não importa quando seja esse agora. Pode ser hoje. Agora enquanto escrevo. Agora enquanto você está lendo. Agora enquanto você não está lendo.

Ah entendi. Então não preciso me preocupar com o futuro? É isso que estou querendo dizer? Não mesmo. Precisamos nos preocupar com o futuro. E muito. Sabe como? Prestando atenção no nosso presente. Nos nossos desejos, sonhos e ações. Precisamos estar cientes de que a vida que estamos levando hoje será responsável por criar – ou não – o nosso futuro. Sim. O nosso futuro. Coletivo. Porque não tem como pensar em futuro, se pensarmos somente de forma individual.

Faz um tempo que ouvimos que o nosso futuro está em jogo. Trabalhando com propaganda e moda durante muito tempo, eu me empenhei muito em tentar prever desejos, adivinhar o futuro, antecipar o futuro. Talvez tenha funcionado por um tempo. Ou não. Só sei que depois de tentar interferir tanto no futuro, comecei a sentir vontade de, escrever. Salvar o futuro. Pois compreendi o quanto estava colocando em risco a minha vida e a das próximas - e atuais - gerações.

Trabalhando com sustentabilidade já há um tempo, tenho vivido como é complexo o assunto. Tudo em nossa vida está totalmente entrelaçado e se quisermos pensar na continuidade da nossa espécie, precisamos entender que as questões e crises ambientais que nos cercam - e que estão de forma mais flagrantes relacionadas a ideia de sustentabilidade - na verdade são um reflexo de diversas outras questões e crises que fazem parte da nossa vida.

A “sustentabilidade”, da forma como vem sendo mais vendida (literalmente) pelo mercado, não será suficiente para reverter todos os danos que causamos no planeta até hoje. Digo isso pois percebo que muitas vezes ela reduz a solução de algo tão complexo, a uma coisa ou outra – geralmente mais um produto. O “consumo consciente” tem sido vendido como uma alternativa para o futuro. Mas será?

O consumo consciente, é apenas a parte visível de uma série de mudanças que precisam acontecer. Para que o consumo seja consciente, é preciso haver produção consciente, mercado consciente, pessoas conscientes - informadas, educadas. É preciso haver equilíbrio na distribuição de renda. É preciso haver consciência social e coletiva. É preciso haver noção de humanidade e principalmente de que todos as pessoas são parte da natureza. Viemos dela e dependemos dela para sobreviver.

Mas nos falta muita noção disso. Noção crítica. Desde muito cedo nos levam a ver (e usar) a natureza como algo que está ao nosso dispor. Raramente nos levam a pensar nos impactos das nossas ações e consumo. Muito pelo contrário. Muito do que está posto é para nos afastar da nossa essência, da nossa natureza e crescemos com a ideia de que precisamos de “muitas coisas” para nos colocar e manter no mundo. Mas será que precisamos disso tudo mesmo?

A natureza já dá sinais de esgotamento. E de que vai muto bem se pararmos com nossas atividades – veja o que aconteceu durante os fechamentos durante a pandemia. O ar ficou mais puro, as águas mais cristalinas e animais voltaram a seus habitats naturais. Isso tudo só comprova que precisamos rever os nossos hábitos e formas de fazer. O consumo consciente é um processo de corresponsabilidade no qual pessoas e empresas precisam se comprometer com mudanças.

Isso tudo sem contar que, além dos buracos da camada de ozônio, temos cada vez mais notícias de buracos internos. Os nossos. Funcionando dentro da lógica que nos habituamos desde cedo – de trabalho, vida pessoal, relacionamentos... – muitas pessoas não tiveram suas carências materiais e imateriais atendidas, e seguiram contribuindo – às vezes sem se dar conta, às vezes sem alternativa – com a destruição do planeta. Isso tem causado muito mal-estar e desconexão em muita gente. Mesmo em quem não está nem aí para o planeta.

A “sustentabilidade” e a manutenção do nosso presente, não está somente relacionada à utilização e gestão de recursos naturais. Tem a ver com a forma com que, primeiro, lidamos com a gente. Começa no real autoconhecimento. No entendimento de quem somos, das nossas necessidades, motivações, dos nossos papeis, direitos e deveres. Depois se espalha coletivamente - pois somos pessoas coletivas. Ações individuais podem ser o começo de muitas transformações, mas a noção de que de forma individual não salvaremos o futuro é urgente.

É preciso pensar também em pautas coletivas e sociais. Pensar em diversidade, inclusão. Pensar na forma como nos relacionamos com outras pessoas, com a natureza e também com a tecnologia. Pensar no que acreditamos. Nas ideias e falas corriqueiras que reproduzimos. Pensar no que temos feito pela nossa saúde e a do planeta. Pensar em quais candidaturas apoiamos e como nos relacionamos com elas – se cobramos, acompanhamos... Pensar em quais estruturais e imagens reforçamos ou ajudamos a descontruir. Em quais projetos e pessoas precisamos incentivar.

Pois é claro, não adianta só pensar, é preciso agir.

A partir desta semana, vou estar quinzenalmente por aqui propondo reflexões acerca de assuntos importantes que nos rodeiam e que contribuem - ou comprometem - o nosso futuro. A intenção nem sempre será trazer respostas fáceis ou prontas. Mas sim estimular a reflexão e o surgimento de novas perguntas, para libertar, equilibrar, conquistar, desenhar, plantar, regenerar, mudar e salvar o futuro. Tudo isso de forma bem leve, prática e propositiva. Vamos? O GLOBO

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