Previsões para o presente - ANDRÉ CARVALHAL
“Ah o futuro...” Quem nunca pensou? E eu me pergunto que desejo é esse de sempre querermos planejar, saber ou adivinhar o que vem por aí. Desde que somos crianças nos perguntam: “O que você quer ser quando crescer?”. Mas já reparou que parece que é como se nunca chegássemos lá?! Estamos sempre (querendo e) querendo ser mais alguma coisa.
Seja na vida pessoal ou em questões profissionais, tenho sentido cada vez mais que o futuro é algo que está sempre a dois passos de nós. Sempre. Quando chegamos perto, ele anda mais dois passos e nunca chegamos lá. Ao mesmo tempo, somos e vivemos hoje o futuro que sonhamos e construímos um dia. Ou o que não sonhamos - ou não construímos - um dia.
Mas então o que é o futuro? “O futuro das nossas vidas”, “O futuro da nossa espécie”, “O futuro do trabalho, dos negócios”, “O futuro das relações”... Por todos os lados há pessoas tentando prever ou querendo respostas. Para mim, o futuro é um eterno presente. Um presente que se estende. São as nossas ações e movimentos que criam os futuros presentes.
A verdade sobre o futuro, é que não existe uma verdade sobre o futuro. Apesar de sonhos, desejos e projeções, ele é redefinido a todo momento e será criado por nós agora. Não importa quando seja esse agora. Pode ser hoje. Agora enquanto escrevo. Agora enquanto você está lendo. Agora enquanto você não está lendo.
Ah entendi. Então não preciso me preocupar com o futuro? É isso que estou querendo dizer? Não mesmo. Precisamos nos preocupar com o futuro. E muito. Sabe como? Prestando atenção no nosso presente. Nos nossos desejos, sonhos e ações. Precisamos estar cientes de que a vida que estamos levando hoje será responsável por criar – ou não – o nosso futuro. Sim. O nosso futuro. Coletivo. Porque não tem como pensar em futuro, se pensarmos somente de forma individual.
Faz um tempo que ouvimos que o nosso futuro está em jogo. Trabalhando com propaganda e moda durante muito tempo, eu me empenhei muito em tentar prever desejos, adivinhar o futuro, antecipar o futuro. Talvez tenha funcionado por um tempo. Ou não. Só sei que depois de tentar interferir tanto no futuro, comecei a sentir vontade de, escrever. Salvar o futuro. Pois compreendi o quanto estava colocando em risco a minha vida e a das próximas - e atuais - gerações.
Trabalhando com sustentabilidade já há um tempo, tenho vivido como é complexo o assunto. Tudo em nossa vida está totalmente entrelaçado e se quisermos pensar na continuidade da nossa espécie, precisamos entender que as questões e crises ambientais que nos cercam - e que estão de forma mais flagrantes relacionadas a ideia de sustentabilidade - na verdade são um reflexo de diversas outras questões e crises que fazem parte da nossa vida.
A “sustentabilidade”, da forma como vem sendo mais vendida (literalmente) pelo mercado, não será suficiente para reverter todos os danos que causamos no planeta até hoje. Digo isso pois percebo que muitas vezes ela reduz a solução de algo tão complexo, a uma coisa ou outra – geralmente mais um produto. O “consumo consciente” tem sido vendido como uma alternativa para o futuro. Mas será?
O consumo consciente, é apenas a parte visível de uma série de mudanças que precisam acontecer. Para que o consumo seja consciente, é preciso haver produção consciente, mercado consciente, pessoas conscientes - informadas, educadas. É preciso haver equilíbrio na distribuição de renda. É preciso haver consciência social e coletiva. É preciso haver noção de humanidade e principalmente de que todos as pessoas são parte da natureza. Viemos dela e dependemos dela para sobreviver.
Mas nos falta muita noção disso. Noção crítica. Desde muito cedo nos levam a ver (e usar) a natureza como algo que está ao nosso dispor. Raramente nos levam a pensar nos impactos das nossas ações e consumo. Muito pelo contrário. Muito do que está posto é para nos afastar da nossa essência, da nossa natureza e crescemos com a ideia de que precisamos de “muitas coisas” para nos colocar e manter no mundo. Mas será que precisamos disso tudo mesmo?
A natureza já dá sinais de esgotamento. E de que vai muto bem se pararmos com nossas atividades – veja o que aconteceu durante os fechamentos durante a pandemia. O ar ficou mais puro, as águas mais cristalinas e animais voltaram a seus habitats naturais. Isso tudo só comprova que precisamos rever os nossos hábitos e formas de fazer. O consumo consciente é um processo de corresponsabilidade no qual pessoas e empresas precisam se comprometer com mudanças.
Isso tudo sem contar que, além dos buracos da camada de ozônio, temos cada vez mais notícias de buracos internos. Os nossos. Funcionando dentro da lógica que nos habituamos desde cedo – de trabalho, vida pessoal, relacionamentos... – muitas pessoas não tiveram suas carências materiais e imateriais atendidas, e seguiram contribuindo – às vezes sem se dar conta, às vezes sem alternativa – com a destruição do planeta. Isso tem causado muito mal-estar e desconexão em muita gente. Mesmo em quem não está nem aí para o planeta.
A “sustentabilidade” e a manutenção do nosso presente, não está somente relacionada à utilização e gestão de recursos naturais. Tem a ver com a forma com que, primeiro, lidamos com a gente. Começa no real autoconhecimento. No entendimento de quem somos, das nossas necessidades, motivações, dos nossos papeis, direitos e deveres. Depois se espalha coletivamente - pois somos pessoas coletivas. Ações individuais podem ser o começo de muitas transformações, mas a noção de que de forma individual não salvaremos o futuro é urgente.
É preciso pensar também em pautas coletivas e sociais. Pensar em diversidade, inclusão. Pensar na forma como nos relacionamos com outras pessoas, com a natureza e também com a tecnologia. Pensar no que acreditamos. Nas ideias e falas corriqueiras que reproduzimos. Pensar no que temos feito pela nossa saúde e a do planeta. Pensar em quais candidaturas apoiamos e como nos relacionamos com elas – se cobramos, acompanhamos... Pensar em quais estruturais e imagens reforçamos ou ajudamos a descontruir. Em quais projetos e pessoas precisamos incentivar.
Pois é claro, não adianta só pensar, é preciso agir.
A partir desta semana, vou estar quinzenalmente por aqui propondo reflexões acerca de assuntos importantes que nos rodeiam e que contribuem - ou comprometem - o nosso futuro. A intenção nem sempre será trazer respostas fáceis ou prontas. Mas sim estimular a reflexão e o surgimento de novas perguntas, para libertar, equilibrar, conquistar, desenhar, plantar, regenerar, mudar e salvar o futuro. Tudo isso de forma bem leve, prática e propositiva. Vamos? O GLOBO
O Arrendamento de terras acompanha tendência e vê alta de valores
11 de julho de 2021 | 05h00
Acompanhando o mercado de compra e venda, o valor do arrendamento de terras para agricultura e pecuária registrou forte valorização nos últimos meses por conta da alta das cotações do produtos em reais e também do aumento do número de sacas de soja cobrada por hectare, que é a referência do aluguel.
Pesquisa da consultoria IHS Markit mostra que em 12 meses até dezembro de 2020, o último dado disponível, o aluguel da terra para produção de grãos nas principais regiões produtoras do País aumentou, em média, 72%. Para as áreas de algodão, a alta foi de 91% no mesmo período, seguida pela cana (15%) e pastagens (12%).
“Diferente do mercado de compra e venda, o de arrendamento é mais volátil, muitos contratos são indexados a produtos e a dinâmica é mais forte”, afirma Leydiane Brito, analista da consultoria e responsável pela pesquisa.
Luciano Borges, sócio da Borges Imóveis Rurais, diz que o valor do arrendamento mais que dobrou em reais nos últimos meses. “Quem estava pagando 8 sacas de soja por hectare, na renovação anual do contrato passou a pagar 10 ou até 12; quem pagava 15 sacas, foi para 18 ou 20.” Ele também observa que muitos estão interessados em comprar terras só para arrendar.
André Pessoa, sócio da consultoria Agroconsult, observa que, com o juros ainda em níveis baixos, houve uma realocação de portfólio de investimentos. Quem tinha uma aplicação em renda fixa, por exemplo, transferiu os recursos para compra de terra, que se valoriza 3% ao ano e ainda pode render um aluguel. O interesse pelo arrendamento apareceu também, segundo ele, entre profissionais liberais que não estão ligados diretamente ao agronegócio e fundos de investimento interessados nesses rendimentos.
Mas há também companhias do agronegócio que optaram pelo caminho do arrendamento para crescer por outras razões. Esse é o caso da SLC Agrícola, gigante da produção de grãos e fibras, com capital aberto na Bolsa. Neste ano, a empresa comprou duas concorrentes, mas as terras agrícolas não entraram na transação.
Com a Agrícola Xingu, a companhia fechou um contrato de arrendamento das terras por 15 anos e com a Terra Santa por 20 anos. “Em ambos os casos não compramos terras porque temos a estratégia de crescimento sem adquirir o ativo terra”, afirma o CEO da companhia, Aurélio Pivato.
Ele destaca que a decisão não está relacionada com o momento atual de alta de preços e foi tomada anteriormente. “Encerramos o ciclo de aquisição de áreas em 2015.” O executivo explica que crescer comprando terras exige muito mais capital em relação ao arrendamento. “A nossa estratégia é crescer com o menor investimento.”
O outro fator que levou a companhia escolher esse caminho é que a empresa está “comprada” em terras. “Temos 308 mil hectares de terras no portfólio”, diz Pivato. Antes dos dois negócios, a companhia cultivava áreas em 16 fazendas. Com as áreas da Terra Santa e da Agrícola Xingu, acrescentou mais seis fazendas. A fatia de terras próprias que era de 46% caiu para 36% e a de terras arrendadas subiu de 54% para 64%. A SLC cultiva áreas com soja, milho e algodão no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia, Maranhão, Piauí e Minas Gerais.
Comparação entre países
Apesar da elevação dos preços das terras para compra e arrendamento, as cotações no Brasil ainda são menores comparadas às de outros países em áreas semelhantes. Nas contas de Pivato, dependendo da região, um hectare para o cultivo de grãos varia entre US$ 5 mil e US$ 10 mil aqui. Na Argentina, esse preço gira em torno de US$ 15 mil e nos Estados Unidos, oscila entre US$ 20 mil e US$ 25 mil.
Entre os motivos apontados pelo executivo para que a terra brasileira, mesmo com preços em alta, continue barata em relação a outros países, estão a maior disponibilidade do ativo e as deficiências nas em infraestrutura e logística existentes no interior do País.
Arrendamento de terras acompanha tendência e vê alta de valores
11 de julho de 2021 | 05h00
Acompanhando o mercado de compra e venda, o valor do arrendamento de terras para agricultura e pecuária registrou forte valorização nos últimos meses por conta da alta das cotações do produtos em reais e também do aumento do número de sacas de soja cobrada por hectare, que é a referência do aluguel.
Pesquisa da consultoria IHS Markit mostra que em 12 meses até dezembro de 2020, o último dado disponível, o aluguel da terra para produção de grãos nas principais regiões produtoras do País aumentou, em média, 72%. Para as áreas de algodão, a alta foi de 91% no mesmo período, seguida pela cana (15%) e pastagens (12%).
“Diferente do mercado de compra e venda, o de arrendamento é mais volátil, muitos contratos são indexados a produtos e a dinâmica é mais forte”, afirma Leydiane Brito, analista da consultoria e responsável pela pesquisa.
Luciano Borges, sócio da Borges Imóveis Rurais, diz que o valor do arrendamento mais que dobrou em reais nos últimos meses. “Quem estava pagando 8 sacas de soja por hectare, na renovação anual do contrato passou a pagar 10 ou até 12; quem pagava 15 sacas, foi para 18 ou 20.” Ele também observa que muitos estão interessados em comprar terras só para arrendar.
André Pessoa, sócio da consultoria Agroconsult, observa que, com o juros ainda em níveis baixos, houve uma realocação de portfólio de investimentos. Quem tinha uma aplicação em renda fixa, por exemplo, transferiu os recursos para compra de terra, que se valoriza 3% ao ano e ainda pode render um aluguel. O interesse pelo arrendamento apareceu também, segundo ele, entre profissionais liberais que não estão ligados diretamente ao agronegócio e fundos de investimento interessados nesses rendimentos.
Mas há também companhias do agronegócio que optaram pelo caminho do arrendamento para crescer por outras razões. Esse é o caso da SLC Agrícola, gigante da produção de grãos e fibras, com capital aberto na Bolsa. Neste ano, a empresa comprou duas concorrentes, mas as terras agrícolas não entraram na transação.
Com a Agrícola Xingu, a companhia fechou um contrato de arrendamento das terras por 15 anos e com a Terra Santa por 20 anos. “Em ambos os casos não compramos terras porque temos a estratégia de crescimento sem adquirir o ativo terra”, afirma o CEO da companhia, Aurélio Pivato.
Ele destaca que a decisão não está relacionada com o momento atual de alta de preços e foi tomada anteriormente. “Encerramos o ciclo de aquisição de áreas em 2015.” O executivo explica que crescer comprando terras exige muito mais capital em relação ao arrendamento. “A nossa estratégia é crescer com o menor investimento.”
O outro fator que levou a companhia escolher esse caminho é que a empresa está “comprada” em terras. “Temos 308 mil hectares de terras no portfólio”, diz Pivato. Antes dos dois negócios, a companhia cultivava áreas em 16 fazendas. Com as áreas da Terra Santa e da Agrícola Xingu, acrescentou mais seis fazendas. A fatia de terras próprias que era de 46% caiu para 36% e a de terras arrendadas subiu de 54% para 64%. A SLC cultiva áreas com soja, milho e algodão no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia, Maranhão, Piauí e Minas Gerais.
Comparação entre países
Apesar da elevação dos preços das terras para compra e arrendamento, as cotações no Brasil ainda são menores comparadas às de outros países em áreas semelhantes. Nas contas de Pivato, dependendo da região, um hectare para o cultivo de grãos varia entre US$ 5 mil e US$ 10 mil aqui. Na Argentina, esse preço gira em torno de US$ 15 mil e nos Estados Unidos, oscila entre US$ 20 mil e US$ 25 mil.
Entre os motivos apontados pelo executivo para que a terra brasileira, mesmo com preços em alta, continue barata em relação a outros países, estão a maior disponibilidade do ativo e as deficiências nas em infraestrutura e logística existentes no interior do País.
Preço de terras dispara no Brasil e atinge o maior valor em 20 anos
Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo
Fazia dez anos que o produtor rural e agrônomo Guilherme Pinezzi Honório, dono da agropecuária Agro Oeste, da região do Vale do Araguaia, no Mato Grosso, não comprava terras. Com 11,3 mil hectares ocupados com soja, milho, gergelim e pastagens, ele decidiu expandir o negócio em março deste ano. Adquiriu duas áreas de pastagens. Uma de 750 hectares e outra de 2,5 mil hectares nos municípios de Serra Dourada (MT) e São Félix do Araguaia (MT).
Honório foi às compras no momento em que as terras agrícolas atingiram a maior cotação média em 20 anos no País. A alta foi de quase 18% nos preços médios em 12 meses até abril, segundo pesquisa da consultoria IHS Markit, que acompanha o mercado de terras para o agronegócio em 133 regiões do Brasil desde 2001. O levantamento se baseia em informações de corretores sobre negócios fechados, dados das secretarias da agricultura, cooperativas e avaliação patrimonial feita por peritos.
“Paguei 25% a mais do que pretendia, mas achei que seria o momento de comprar para não ter de pagar mais caro ainda no futuro”, diz Honório. Ele conta que já tinha planos de expandir a área e que não foi levado pelo “efeito manada” – quando a maior parte do mercado, por impulso, caminha para a mesma direção e inflaciona os preços.
O produtor considera que o momento permitiu a decisão porque os seus produtos – soja, milho e bovinos – estão muito valorizados. Além disso, com o juro básico, a Selic, ainda em nível baixo comparado a anos recentes, ele conseguiu obter crédito rural para custeio tendo uma despesa financeira menor. Com isso, pode usar os recursos próprios para adquirir terras.
Juro baixo, demanda crescente por grãos e carnes que elevaram os preços desses itens no mercado internacional, especialmente com a pandemia, e dólar em alta criaram uma tempestade perfeita para a forte valorização das terras agrícolas.
Leydiane Brito, analista da consultoria IHS Markit e responsável pela pesquisa, observa que o mercado ficou estagnado por um longo período, desde 2014.
Com boom das commodities agropecuárias a partir de 2020 e avanços na infraestrutura, como a pavimentação da BR-163 no Centro-Oeste e projetos ferroviários, como o Ferrogrão, que liga o Mato Grosso ao Pará, os negócios de compra e venda voltaram a acontecer, e o preço da terra subiu.
“Todas as terras aumentaram de preço”, afirma o consultor André Pessoa, sócio da Agroconsult. Mas ele observa que restrições ambientais que dificultam a abertura de novas áreas de mata provocaram uma valorização maior em regiões maduras de produção.
Terras para grãos
Segundo a pesquisa, a maior alta de preço ocorreu nas terras para grãos, as mais caras, que aumentaram quase 30% em 12 meses até abril na média do País. Na sequência, estão as áreas para café e florestas plantadas, cujos preços tiveram elevação de 14% no período, seguidas pelas pastagens (11,5%) e cana de açúcar (10%). Com agronegócio consolidado, o Paraná é o Estado com hectare mais caro para grãos, valendo, em média, quase R$ 50 mil. Em Cascavel (PR), área consolidada e em produção, o valor vai de R$ 80 mil a R$ 100 mil, por exemplo.
Rondonópolis e outras cidades do Mato Grosso, como Tangará da Serra, Sinop lideram o ranking de alta, com avanços na casa de 60% a 70% em 12 meses nas terras para grãos. Mato Grosso também aparece na dianteira nas pastagens, com alta de 81% no valor do hectare em 12 meses. De 30 municípios com maior valorização de terras para grãos e pastagem, o Mato Grosso lidera com mais da metade das cidades.
“O que a gente tem mais observado são produtores investindo em áreas de pastagens degradadas para transformá-las em áreas de lavoura”, afirma Leydiane. Foi o que Honório fez. “Comprei áreas de pecuária com a possibilidade de conversão para lavoura”, diz o produtor, lembrando que desta forma não há desmatamento.
Mauro Melo, sócio da imobiliária Fazendas Mato Grosso, conta que as terras mais procuradas para compra neste momento estão no Mato Grosso, Tocantins, oeste da Bahia e Pará. A razão é que nessas regiões existem áreas de pasto que podem ser transformadas em lavouras por um custo menor, comparado ao da aquisição de uma terra onde já se cultivam grãos.
Quem está à procura de terras neste momento são os grandes grupos agropecuários, diz o corretor. Mas há empresários da indústria e do comércio que estão aplicando as sobras de caixa no agronegócio. “Chegou também dinheiro de fora: os investidores vêm através de empresas com um sócio brasileiro.”
Mercado aquecido
O boom no mercado de compra e venda de terras começou com a pandemia, explica Melo. A imobiliária dele, por exemplo, que normalmente vendia entre 15 e 20 fazendas por ano, chegou a fechar 30 negócios com terras em apenas seis meses. “Até espantei, foi o maior aumento no volume de negócios nos últimos 20 anos,”, afirma. Ele pondera, no entanto, que hoje o mercado continua aquecido, porém em ritmo mais moderado.
Essa também é a avaliação do corretor Luciano Borges, sócio da Borges Imóveis Rurais, com forte atuação no Mato Grosso, Goiás, Pará e Tocantins. “As negociações estavam bem mais quentes e agora deu uma estabilizada.” Com os preços nas alturas, ele diz que nos últimos meses os compradores recuaram no fechamento de negócios, na expectativa de que os preços retrocedam. Mas as cotações continuam firmes.
Além da disparada de preços, houve redução nos prazos de pagamento. Antes do boom de vendas era possível quitar a compra em até seis ou sete anos. “Hoje no máximo são três anos, quando muito em quatro anos”, diz Borges. Com a forte valorização das terras, quem vende sem ter outro negócio de compra engatilhado teme, com o passar do tempo, não conseguir adquirir nem uma área equivalente à que vendeu.
Diante de tantas mudanças num mercado que até pouco tempo atrás se mantinha estagnado, a pergunta que fica é se esse aquecimento continua. Para a analista da consultoria, a perspectiva é que o mercado de terras se sustente nesse ritmo ao menos no curto prazo. “Há muita procura e existem condições para ela continuar: o PIB (Produto Interno Bruto) agropecuário continua crescendo, os projetos logísticos avançam e há perspectivas de maiores aportes por parte de fundos de investimentos também.”
Agronegócio bate recordes e cidades do interior veem salto no consumo de luxo
Vinicius Neder e Bruno Villas Bôas, O Estado de S.Paulo
RIO - Produtor de soja na divisa do Maranhão com o Pará, Gerson Kyt decidiu fixar a residência da família no condomínio Alphaville Flamboyant, residencial de luxo em Goiânia (GO), a “capital do agronegócio”. Para encurtar o deslocamento para suas fazendas, comprou em junho um avião turboélice da americana Piper, modelo Matrix. Kyt é um exemplo da ascensão de riqueza vivida nos grandes polos de agronegócio do País, após anos de safras recordes e preços nas alturas.
Esse ciclo de bonança teve sua força renovada neste ano. A receita agrícola com a produção de grãos e culturas perenes deve chegar a R$ 787,9 bilhões – um salto de 53% sobre 2020, segundo projeções da consultoria MacroSector, que leva em conta dados de produção do IBGE e de preços da FGV. Os produtores de grãos devem puxar a expansão da renda, com faturamento de R$ 594,1 bilhões, alta de 68% ante o ano anterior.
Toda essa riqueza extra se reflete em mais vendas de carros, aviões e também no varejo. O desempenho do comércio de janeiro a maio em todo o País foi de alta de 7,2% sobre igual período do ano passado, segundo Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA). Nos polos do agronegócio, essa alta foi de mais de 18%. O desempenho das vendas de veículos também é bem superior à média nacional nas principais cidades do setor agrícola. Essa prosperidade ainda se reflete no comércio de luxo e na venda de jatos executivos.
No caso de Kyt, o avião vai ajudar a economizar tempo de deslocamentos até suas fazendas no Maranhão, onde ele planta 13 mil hectares de soja.
E ele não está sozinho nessa tendência. O pecuarista e empresário Arlindo Vilela, 52 anos, pretende comprar nas próximas semanas um avião turboélice, na faixa de R$ 4 milhões, para substituir dois monomotores. “As distâncias são grandes e as estradas, bem ruins. O avião dá agilidade. Não é barato, mas tem muita serventia. Os passageiros usam botina no avião, ninguém entra de salto”, disse Vilela, que é dono de uma fazenda em Rondonópolis (MT).
Influência
O topo da renda do agronegócio tem levantado voo de outros mercados de luxo. Os emplacamentos de carros “premium” – como Audi, Mercedes, BMW, Land Rover – cresceram em duas “áreas operacionais” de Mato Grosso: Rondonópolis, ao sul de Cuiabá, e Sinop, ao norte, mesma região de Lucas do Rio Verde e Sorriso. A demanda do agronegócio está no radar da alemã BMW, que foca em produtores, profissionais liberais e comerciantes das regiões, informa a marca.
De Brasnorte, noroeste de Mato Grosso, o pecuarista Aldo Rezende Júnior mede a evolução do poder de compra dos produtores em bois. Nas contas dele, há três anos, eram necessários cerca de 60 bois gordos para comprar uma picape. Hoje, são 35. “A valorização do boi, nesse sentido, permitiu ao produtor trocar a picape por uma mais nova, reformar a casa”, conta.
E a influência do agronegócio não para por aí. Consultor de marcas de luxo, Carlos Ferreirinha, ex-presidente da Louis Vuitton no País, afirma que a geração de renda do agronegócio respondeu por mais de 65% do crescimento do setor no País nos últimos seis anos. “O impacto positivo não fica restrito às regiões produtoras, uma vez que os agricultores têm um segundo endereço em grandes cidades”, afirma.
As áreas de alta renda dos bancos perceberam a tendência e têm voltado sua atenção aos endinheirados do interior, com mais de R$ 3 milhões para investir. Dados da Anbima, associação do mercado financeiro, mostram que o setor “private” cresceu 32% de dezembro de 2015 a dezembro de 2020 no Centro-Oeste. Na média nacional, o avanço foi de 11%.
O Santander busca o público do agronegócio ativamente. Hoje, o setor responde por 2% a 3% do segmento de fortunas do banco, mas a intenção é escalar essa fatia para 15% a 20%, explica o diretor do Santander Private Banking, Vitor Ohtsuki. Além do Centro-Oeste, os alvos são o interior de São Paulo e o Sul. “Temos um projeto de crescer o ‘private banking’ como um todo e estamos aumentando a equipe em 60 pessoas. Um dos focos desse crescimento é o agronegócio, exatamente porque é um dos setores que mais crescem no País, mesmo em período de crise econômica.”
Receita do agronegócio se reflete no varejo e em serviços
Mesmo com a crise da covid-19, o agronegócio conseguiu impulsionar as vendas do varejo em geral e do segmento de serviços, como bares e restaurantes, nas regiões produtoras no ano passado. O resultado foi superior ao da média nacional, conforme o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA), indicador da empresa de cartões com base nas transações que passam pelas maquininhas, levantadas a pedido do Estadão.
Segundo o indicador, as vendas nacionais nominais (sem descontar inflação) recuaram 10,4% em 2020, efeito do baque da covid-19. Já as 20 cidades líderes da produção agropecuária tiveram alta de 6,2% em relação a 2019. A diferença se manteve em 2021, com alta acumulada de 7,2% até maio, na média nacional, ante salto de 18,4% nos municípios agrícolas. “Se não tivesse a pandemia, o crescimento das vendas nas cidades do agronegócio teria sido ainda melhor? Talvez, mas, mesmo com a pandemia, o desempenho nelas é melhor do que no País como um todo”, afirma Pedro Lippi, chefe de Inteligência da Cielo.
O movimento do agronegócio na economia regional se dá de diferentes formas, segundo especialistas. Produtores e empregados das fazendas gastam no comércio, nos restaurantes e nos salões de beleza das cidades próximas. Fabricantes de maquinário instalam escritórios comerciais e contratam vendedores – que também consomem no varejo. Plantas de beneficiamento da agroindústria, como usinas de etanol e frigoríficos, geram empregos industriais, incrementando mais a demanda.
“O uso da renda que sobra depois dos investimentos no próprio setor vai movimentar a região, incluindo os demais setores. O agronegócio pode criar emprego nos serviços na medida em que gera consumo”, diz o professor Geraldo Barros, coordenador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP.
/ COLABOROU MÁRCIA DE CHIARA, DE SÃO PAULO
Bolsonaro, Trump, a CPI e os generais americanos
11 de julho de 2021 | 03h00
O Brasil destacou-se em Cannes, mais uma vez, com o diretor Spike Lee, presidente do júri do festival de cinema, igualando o presidente Jair Bolsonaro a Donald Trump e a Vladimir Putin. Trump, ídolo do presidente brasileiro, foi derrotado ao tentar a reeleição, mas, antes de partir, estimulou uma invasão do Congresso. Seu discípulo anotou a lição e já anunciou algo parecido no Brasil. Em 7 de janeiro, um dia depois do ataque ao Capitólio, Jair Bolsonaro ameaçou: “Se nós não tivermos o voto impresso em 22, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que o dos Estados Unidos”. Na ocasião, ele voltou a falar de fraude na eleição de 2018 – sem prova, como sempre, e pondo em dúvida, como de costume, a seriedade da Justiça Eleitoral.
Como Trump, Bolsonaro fracassará na tentativa de reeleição, se o resultado no próximo ano refletir as atuais pesquisas de intenção de voto. Além disso, a derrota será por diferença bem maior que a verificada nos Estados Unidos. Lula, segundo as sondagens, será o mais votado, com folga, no primeiro turno. No segundo, o atual presidente será batido por qualquer dos principais concorrentes.
As chamadas forças de centro ainda poderão juntar-se para apoiar um nome promissor. De fato, talvez nem haja candidatura Bolsonaro, em 2022, se o presidente da Câmara desengavetar os pedidos de impeachment. Em dois anos e meio de atos e palavras irresponsáveis, de mistura de assuntos familiares com assuntos públicos, de mentiras e desgoverno, acumularam-se razões mais que suficientes para a extinção de um mandato desastroso. Mas em relação a seu guru americano o presidente Bolsonaro tem alguma vantagem – vantagem para ele e para sua família, sem dúvida, e imensa desvantagem para os cidadãos empenhados em ganhar a vida seriamente.
Parte dessa vantagem é a relação entre governo e Forças Armadas, um vínculo muito diferente, na gestão Bolsonaro, do previsto na Constituição brasileira e do observado nos Estados Unidos. Exemplo: em junho do ano passado, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas americanas, general Mark Milley, pediu desculpas por haver acompanhado o presidente Trump numa caminhada até uma igreja próxima da Casa Branca. Diante da igreja, o presidente posou empunhando uma Bíblia. A polícia abriu caminho para o presidente dispersando com violência um protesto contra o racismo.
“Eu não deveria estar lá”, disse o general. “Minha presença causou a impressão de que os militares estão envolvidos em política interna. Precisamos”, acrescentou, “honrar um princípio essencial da República: o de que as Forças Armadas não são políticas.” As tentativas de Trump de envolver militares na repressão a manifestações de rua foram criticadas por seu secretário da Defesa, por ex-secretários e por mais de 80 altos oficiais. As Forças Armadas dos Estados Unidos mostram seu poderio, todos os dias, em boa parte do mundo, mas são discretas em casa e respeitam a democracia.
No Brasil de Bolsonaro, um general da ativa foi nomeado ministro da Saúde, encheu sua pasta de militares, todos ou quase todos sem competência para as novas funções, e resumiu numa frase escandalosa sua fidelidade ao chefe: um manda, outro obedece. Outros ministérios e secretarias já haviam sido entregues a pessoas de origem militar.
Confiado ao general Pazuello, ao coronel Elcio Franco (secretário executivo) e a figuras como a Capitã Cloroquina, o Ministério da Saúde atuou de forma desastrosa durante a pandemia. O envio do “kit covid” a Manaus talvez tenha sido a obra-prima da gestão Pazuello. O kit famigerado continha maravilhas como hidroxicloroquina e ivermectina, comprovadamente ineficazes contra a covid-19, mas as pessoas hospitalizadas precisavam de oxigênio para respirar. O conjunto da obra, no entanto, é muito mais impressionante que qualquer obra-prima, desde a militarização do setor de saúde.
Nomes de funcionários conhecidos pela patente militar, com destaque para o coronel Elcio Franco, foram citados por depoentes, nas sessões da CPI da Covid. As citações tornaram-se mais chocantes quando surgiram acusações de corrupção na negociação de vacinas – malandros tentando lucrar enquanto faltavam imunizantes e as mortes pela covid se multiplicavam. Numa das sessões, o presidente da CPI, senador Omar Aziz, falou sobre como “os bons das Forças Armadas” deveriam estar envergonhados com algumas pessoas envolvidas em falcatruas. Essas pessoas foram descritas como o “lado podre das Forças Armadas”.
Os comandantes militares, liderados pelo ministro da Defesa, repudiaram a fala de Aziz como “grave, infundada e irresponsável”. Nem infundada, nem irresponsável, de fato. O ministro e os comandantes voltaram-se contra o alvo errado, em vez de condenar o envolvimento de militares em escândalos e a desastrada militarização do governo pelo presidente Bolsonaro. Fariam muito melhor se aprendessem com a lamentável experiência recente, meditassem sobre o exemplo do general Mark Milley e se indignassem quando Bolsonaro usa a expressão “meu Exército”.
JORNALISTA




