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Anvisa libera estudos com 3ª dose da AstraZeneca e com 'nova cloroquina' de Bolsonaro

Natália Cancian / FOLHA DE SP
BRASÍLIA

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) deu aval nesta segunda-feira (19) para dois novos estudos clínicos: um deles para um estudo sobre uma terceira dose da vacina contra Covid da AstraZeneca e outro para testes que avaliem a segurança e a eficácia de um remédio chamado proxalutamida.

Segundo a Anvisa, o estudo sobre a eficácia da terceira dose da AstraZeneca deve ser feito com participantes do estudo inicial da vacina no país, que receberam duas doses do imunizante com quatro semanas de intervalo entre elas.

A previsão é que esse grupo receba uma terceira dose de 11 a 13 meses após a segunda dose.

Os novos testes devem envolver 10 mil voluntários e ocorrer em cinco estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia e Rio Grande do Norte.

Serão incluídas pessoas com 18 e 55 anos com maior risco de exposição a uma infecção pelo coronavírus, como profissionais de saúde. Os testes não incluem gestantes e pessoas com doenças preexistentes, segundo a Anvisa.

Ainda de acordo com a agência, o aval corresponde à chamada fase 3 do estudo, quando é avaliada a eficácia de um novo medicamento ou imunizante. A pesquisa deve ser randomizada, controlada e no modelo simples-cego, ou seja, os voluntários serão dividos aleatoriamente em grupos (um recebe a vacina e o outro, placebo) e eles não saberão, a princípio, se tomaram vacina ou placebo. Após o fim da pesquisa, todos devem receber a vacina.

PROXALUTAMIDA

Além dos testes da terceira dose, a Anvisa também aprovou nesta segunda-feira um estudo clínico de um remédio chamado proxalutamida, um bloqueador de hormônios masculinos inicialmente testado para tumores de mama e próstata e alvo de estudos recentes para o tratamento da Covid.

O objetivo é verificar a eficácia do remédio na redução da infecção causada pelo coronavírus e no processo inflamatório gerado pela doença, diz a agência.

O medicamento tem sido apontado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) como uma nova aposta contra a Covid —em algumas ocasiões, o remédio foi citado junto com outros comprovavadamente ineficazes para a doença, como a cloroquina.

“Tem uma coisa que eu acompanho há algum tempo, e nós temos que estudar aqui no Brasil. Chama-se proxalutamida. Já tem uns três meses que isso aí... Não tá no mercado, é uma droga ainda em estudo, sendo estudada”, disse neste domingo (18).

Como a Folha mostrou, a aposta no medicamento também tem sido replicada por grupos bolsonaristas. Ainda não há, porém, estudos publicados em revistas de prestígio ou revisados por pares que confirmem a eficácia da droga contra a Covid.

A falta de dados completos sobre a proxalutamida como tratamento para a Covid tem gerado desconfiança entre especialistas, e uma pesquisa já feita com o remédio é alvo de questionamentos em órgãos como a Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa).

De acordo com a Anvisa, o estudo recém-aprovado será patrocinado pela empresa Suzhou Kintor Pharmaceuticals, que tem sede na China, e corresponde também à fase 3, a última etapa de testes clínicos.

A ideia é avaliar a eficácia e a segurança da droga em voluntários do sexo masculino com Covid leve a moderada.

Além do Brasil, onde devem participar 50 voluntários em Roraima e São Paulo, os testes devem ocorrer em mais seis países: Alemanha, Argentina, África do Sul, Ucrânia, México e Estados Unidos. O número total de participantes não foi divulgado.

 

Anvisa autoriza estudo clínico com proxalutamida no tratamento da covid-19

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou nesta segunda-feira, 19, a realização de um estudo clínico para avaliar a segurança e a eficácia do medicamento proxalutamida no tratamento da covid-19. O estudo envolverá 12 voluntários do estado de Roraima e outros 38 de São Paulo.

 

A Anvisa informou que o estudo é de fase três, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. A substância será ministrada em participantes ambulatoriais do sexo masculino com covid-19 leve a moderada. Ainda não há comprovação sobre a eficácia do medicamento no tratamento para a covid e ele não deve ser usado para este fim.

Hospital
A Anvisa autorizou um estudo clínico com o medicamento proxalutamida no tratamento da covid-19 Foto: Tiago Queiroz/Estadão

O ensaio clínico é patrocinado pela empresa Suzhou Kintor Pharmaceuticals, sediada na China. Além do Brasil, os testes também serão realizados na Alemanha, Argentina, África do Sul, Ucrânia, México e Estados Unidos.

Os testes com proxalutamida fazem parte de uma estratégia chamada reposicionamento de fármacos. Isso acontece quando um medicamento que já existe é testado para outra função que não está descrita na bula. Esse método é vantajoso porque reduz o tempo e o custo de desenvolvimento de um remédio.

Adriano Andricopulo, químico medicinal e pesquisador do Instituto de Física da USP, explica que até o momento a proxalutamida não foi aprovada para tratar nenhuma doença em humanos. O remédio tem potencial antineoplásico — inibe o crescimento e a disseminação de tumores — e também está sendo investigado no tratamento do câncer de próstata. Ele ainda não está disponível em farmácias.

“Não há razão para entusiasmo em relação à proxalutamida até o momento. É mais um candidato em avaliação clínica”, diz Andricopulo. Ele lembra que ainda não há nenhum remédio contra a covid que seja eficaz e acessível. “A exceção é o remdesivir, que apresenta algumas limitações importantes, como baixa eficácia, limitada disponibilidade, elevado preço e via administração inadequada (intravenosa) para amplo tratamento”, pontua.

No Brasil, além do remdesivir, a Anvisa aprovou para o tratamento da covid os anticorpos monoclonais banlanivimabe e etesevimabe. Os remédios são indicados para pessoas acima de 12 anos e com mais de 40 quilos, com infecção comprovada em laboratório e que estejam no grupo de alto risco para a doença. O tratamento não deve ser administrado em pacientes que já estejam com quadro grave da doença. O uso é restrito a hospitais, sob prescrição médica, e não pode ser comercializado em farmácias. De acordo com o estudo clínico apresentado à agência, o tratamento reduz em até 70% o risco relativo da covid-19.

Até o momento, há alguns estudos sobre a eficácia da proxalutamida em pacientes com covid-19. “Mas nenhum produziu evidências conclusivas que permitam vislumbrar o seu uso seguro e eficaz para o tratamento da doença, seja na redução da infecção ou no controle do processo inflamatório causado pelo SARS-CoV-2”, fala o pesquisador. As principais iniciativas internacionais que estudam remédios para tratar a covid, Recovery (da Universidade de Oxford) e Solidarity (da Organização Mundial de Saúde), não incluíram a proxalutamida em suas linhas de pesquisa.

Marília Valli, pesquisadora de pós-doutorado no Laboratório de Química Medicinal do Instituto de Física da USP, acredita que o ideal é criar um remédio específico para a covid-19, já que o reposicionamento não vem dando resultado. “Mesmo com as vacinas, vai ser muito importante ter um medicamento para tratar a covid”, afirma.

Ela fala que o Brasil tem potencial para desenvolver um tratamento contra a doença, pois possui uma grande biodiversidade e muitos pesquisadores na área. No entanto, Marília fala que a falta de coordenação e de verba atrapalham o avanço desse tipo de pesquisa. “O investimento em ciência caiu drasticamente nos últimos dois anos. Para desenvolvermos medicamentos e vacinas, precisamos de investimento constante”, fala.

Apoio do presidente

A proxalutamida vem sendo defendida pelo presidente Jair Bolsonaro e pessoas próximas a ele desde março. Na época, um grupo de pesquisadores havia apresentado dados preliminares de um estudo com a proxalutamida feito no Amazonas. Os resultados foram compartilhados pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, em uma postagem no Twitter no mês de março. O artigo científico com os resultados da pesquisa só foi publicado nesta segunda-feira.

Em entrevista ao Estadão Verifica em março, um dos coautores do estudo, Carlos Wambier, afirmou que os pesquisadores não confirmavam que a proxalutamida seria a cura para a covid-19. Wambier é professor assistente do Departamento de Dermatologia da Universidade de Brown, nos EUA. Ele falou, na oportunidade, que ainda eram necessárias mais investigações sobre o remédio, inclusive para validar se o mesmo efeito poderia ser observado em diferentes populações e com variantes virais.

Um mês depois, em abril, o presidente falou sobre os supostos benefícios do remédio em uma live em sua página no Facebook ao lado do médico Hélio Angotti Neto, secretário nacional de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde do Ministério da Saúde. Na época, Angotti disse que a droga se mostrava “muito promissora”, apesar de não haver estudos clínicos publicados que comprovem a afirmação.

No último domingo, ao deixar o Hospital Vila Nova Star, onde estava internado em São Paulo com um quadro de obstrução intestinal, o chefe do executivo voltou a falar do remédio. “Tem uma coisa que eu já acompanho há algum tempo, e nós temos que estudar aqui no Brasil, chama-se proxalutamida”, afirmou. O presidente mencionou que pediria uma investigação sobre o medicamento.

A pesquisadora Marilia Valli reforça que os resultados sobre o uso do medicamento no tratamento da covid são preliminares. “Mais uma vez, o presidente pegou um estudo bastante preliminar e está fazendo propaganda como se fosse a cura da doença”, fala.

Maioria dos Estados deve ter escolas abertas em agosto; só 12 redes já retomaram aula presencial

Jessica Brasil Skroch, Ítalo Cosme, Leon Ferrari, Especiais para o Estadão

19 de julho de 2021 | 15h04

Com a vacinação dos professores e a queda de indicadores da pandemia, agosto deve marcar um retorno mais amplo das atividades presenciais das redes estaduais de ensino. Até aqui, só 12 Estados reabriram as escolas após a quarentena demandada pelo cenário anterior de crescimento das infecções. O ritmo tem sido mais lento do que outras flexibilizações de regras anticovid notadas nas últimas semanas. Na rede privada, por outro lado, os alunos já foram liberados para voltar em pelo menos 22 Estados e no Distrito Federal. 

Os números são de levantamento feito pelo Estadão junto a governos estaduais. Daquelas que ainda não liberaram a volta, dez redes estaduais e a do Distrito Federal pretendem convocar os alunos no próximo mês. Na Paraíba e no Acre, isso está previsto para setembro. Bahia e Roraima ainda não definiram cronograma de retorno. 

O Brasil foi um dos países onde alunos ficaram mais tempo fora dos colégios, fechados inicialmente em março de 2020 para conter a transmissão do vírus. Com isso, educadores estimam graves prejuízos de aprendizagem e socioemocionais aos alunos, sobretudo os mais vulneráveis.

Aulas online
A estudante de Boa Vista, Beatriz Eduarda, aluna do 3º ano da escola estadual Lobo D'Almada, segue em aulas online Foto: Elvis Freitas/Estadão

Na pandemia, especialistas criticaram parte dos gestores, que priorizaram a reabertura de shoppings, bares e igrejas em detrimento das escolas. E o Ministério da Educação (MEC), por sua vez, vem sendo considerado omisso, por falta de apoio às redes na implementação de classes remotas ou preparação dos colégios para a reabertura.  

Em Roraima,um protocolo experimental de retorno gradual deve ser implementado ainda este ano, mas somente após a Vigilância Sanitária informar o balanço de professores vacinados. O retorno presencial total é previsto para 2022. A Bahia também disse adotar modelo 100% remoto e monitorar índices da covid.

Já na rede paulista, por exemplo, as escolas poderão a partir de agosto receber a totalidade dos alunos, se respeitado o distanciamento de um metro entre pessoas. São Paulo foi um dos primeiros a reabrir as salas de aula. As redes estaduais cuidam, na maioria, de alunos das séries finais do ensino fundamental (11 a 14 anos) e do ensino médio - neste caso, como os adolescentes estão no fim do ensino básico, o pouco tempo para recuperar o conteúdo até o fim do ciclo é um desafio. 

“Queremos que quando os alunos voltem, encontrem um ambiente muito melhor”, diz a diretora do Departamento de Educação Básica de Roraima, Raimunda Rodrigues, citando reformas nas escolas e lembrando de perdas diversas durante a pandemia. Mesmo com a vacinação liberada aos profissionais da educação, a gestora informa que campanhas serão necessárias para atrair o público mais resistente.

No 3º ano do ensino médio na rede roraimense, Beatriz Eduarda Sousa, de 18 anos, recorreu a aulas de reforço e pré-vestibular para tentar o sonho: uma vaga em psicologia na universidade federal. “Foi muito difícil e ainda está sendo, pois nós alunos nunca tivemos o costume de ter aulas online”, conta ela, de Boa Vista. 

“As maiores dificuldades que senti foram os desânimos, medos e com certeza a ansiedade. Querendo ou não, sair de casa e ir para a aula ajudava na hora das provas, de tirar dúvidas, diz a jovem, que destaca o privilégio de os pais poderem pagar cursos extras. Ela também começou a trabalhar em uma academia para ajudar nos gastos. 

Alunos com mais recursos, em geral, retornaram à sala de aula mais cedo em várias regiões. A rede do Piauí prevê regresso presencial em agosto, mas unidades privadas adotaram o ensino híbrido em janeiro. A rede potiguar também planeja voltar no mês que vem, enquanto as particulares retomaram ainda em 2020. 

Sete capitais ainda não têm previsão de retorno

Até julho, apenas 13 capitais já haviam retornado parcialmente às atividades presenciais de suas redes de ensino. Entre aquelas que optaram por atividades remotas, quatro pretendem voltar à escola em agosto, três em setembro e sete permanecem sem previsão de retorno. As redes municipais atendem, na maioria, as séries iniciais do ensino fundamental (6 a 10 anos) e a educação infantil (creche e pré-escola), justamente os alunos que têm mais dificuldades de acompanhar aulas online. 

Belo Horizonte, por exemplo, iniciou o retorno da educação infantil em maio, após quase 12 meses de creches fechadas. A partir disso, fez a liberação gradativa das séries seguintes, mas alunos do 6º ao 9º ano voltam só em 5 de agosto.

Outras capitais decidiram por retorno mais tardio. É o caso de Rio Branco, que pretende retomar depois que todos os professores tomarem a 2ª dose da vacina, o que acontecerá na 2ª quinzena de setembro. Como Rio Branco, Belém e Aracaju também estimam o retorno das atividades presenciais em setembro. No caso da capital do Sergipe, a abertura de colégios particulares também não foi liberada. 

Maceió, por outro lado, segue sem previsão de regresso. Os docentes da rede devem receber a 2ª dose da vacina na 2ª semana de agosto, mas a Secretaria de Educação informa que as aulas presenciais voltarão quando houver segurança tanto para trabalhadores, como para estudantes.

Evasão e acolhimento são pontos de alerta

“Todas as evidências levantadas até o momento, seja no Brasil ou no exterior, demonstram que os estudantes deixaram de aprender durante a pandemia”, diz Alexandre Schneider, pesquisador do Centro de Estudos em Política e Economia do Setor Público da FGV. 

Para o ex-secretário municipal de Educação de São Paulo, o modelo remoto não substitui perfeitamente o presencial, sobretudo no ensino básico. É preciso considerar o “elevado contingente de crianças e adolescentes que vivem em condições precárias, sem internet, sem dispositivos eletrônicos ou mesmo um lugar adequado para estudar”. 

Há o risco, acrescenta ele, “de ampliação da evasão escolar dada a desconexão de um grande contingente de estudantes de suas escolas no período”. Segundo Schneider, serão necessárias políticas educacionais e também de apoio, como recuperação de conteúdos e acolhimento. 

Anna Helena Altenfelder, presidente do Cenpec Educação, diz que a situação nas redes municipais é ainda mais preocupante. “Falta coordenação nacional, que deveria ser feita pelo MEC”, avalia. Ela analisa que a demora no retorno presencial às aulas se deve, principalmente, à falta de planejamento de Estados e municípios e ao atraso da vacinação em todo País.  

Ceará realiza avaliação para mensurar impacto da suspensão das aulas

A rede cearense, que agenda o retorno presencial para agosto, vai colocar em curso uma estratégia de avaliação diagnóstica, apontada por especialistas como essencial para identificar as principais defasagens e grupos mais prejudicados. 

Parceria entre a Secretaria da Educação e a Universidade Estadual (Uece) prevê uma avaliação amostral em todas as 184 cidades cearenses, com turmas do 5º ao 9º anos do ensino fundamental e o 3º do médio. 

A aplicação segue métricas de diagnóstico em larga escala, como as do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), organizado pelo MEC. Com isso, os resultados poderão ser comparados com a série histórica. 

Conforme Jorge Lira, cientista chefe da Educação do Estado, a amostra considera, por exemplo, o nível socioeconômico do aluno, tipo e modalidade da escola, localidade, gênero dos respondentes. “O Ceará ganha autonomia com produtos pedagógicos para um novo horizonte de práticas pedagógicas. Começar a personalizar e acompanhar mais de perto o aluno ou grupos de alunos, principalmente respeitar as diferenças”, pontua.

As aplicações já foram finalizadas com o ensino médio e último ano do ensino fundamental. No 5º ano está sendo aplicado. Detentora da maior rede de ensino do estado, Fortaleza só deve aplicar as avaliações em agosto ou setembro. 

Secretária executiva do Ensino Médio e Profissional da pasta cearense da Educação, Jucineide Fernandes afirma que as atividades letivas dos próximos meses serão orientadas conforme o que for observado nos testes. “No 2º semestre, agiremos no sentido de propor ações e estratégias para a rede com o objetivo de garantir as aprendizagens essenciais a todos os estudantes que concluam a educação básica”, ressalta. 

Após fazer avaliação diagnóstica própria em sua rede, o governo de São Paulo afirmou estimar 11 anos para recuperar a aprendizagem perdida em Matemática durante a pandemia nos anos iniciais do ensino fundamental. Alunos do 5.º ano da rede estadual perderam habilidades que já haviam adquirido, mostram os resultados do teste. Hoje, um aluno de 10 anos tem desempenho pior do que ele mesmo tinha quando estava com 8 anos. A secretaria paulista elaborou um projeto de recuperação de aprendizagem, com contratação de mais professores para reforço escolar. 

Ônibus de projeto social oferece banho e refeição a quem vive na rua em Recife

Jorge Cosme / FOLHA DE SP
RECIFE

Cassiano Silva de Lima ainda era garoto quando começou a participar das distribuições de comida promovidas pelo pai, o ex-jogador do Vasco da Gama Josué Benedito de Lima. Hoje, aos 42 anos, ele afirma que essa experiência o motivou a desenvolver o projeto social que oferece banho para a população sem teto da Região Metropolitana do Recife (RMR).

Empresário no ramo de ambulâncias, Cassiano conta que sempre quis se envolver em alguma ação beneficente, mas não sabia exatamente o que fazer. “Comecei então a observar que a população de rua não tinha onde tomar banho”, lembra.

Cassiano dividiu a insatisfação com quatro amigos e, em agosto de 2019, o trailer do Banho Recife, também chamado de Banho de Cidadania Recife, saiu às ruas pela primeira vez. No início, o equipamento atraiu muitos olhares desconfiados. “Várias pessoas ficaram com medo, achavam que era uma questão de polícia, ficaram um pouco com o pé atrás. Mas depois de um mês já se tornaram amigos”, lembra Cassiano.

A iniciativa ocorre todas as quartas-feiras, oferecendo corte de cabelo, banho (com direito a sabonete, xampu, condicionador, perfume e desodorante), kit de higiene (com camisinha, absorvente, creme dental e escova de dente) e marmita.

“O banho proporciona dignidade. Acho que depois de respirar, se alimentar e se hidratar, a maior necessidade da pessoa é o banho”, diz o empresário. Hoje são atendidas cerca de mil pessoas por mês, como Igor Ferreira, 22, e a esposa Ana Lúcia dos Santos, 23, que dormem na calçada no centro do Recife com duas filhas, de seis e um ano. O casal sobrevive de bicos e da ajuda de terceiros. “É legal ter esse projeto, porque tomar banho para quem vive na rua é muito difícil. As pessoas cobram, e nosso dinheiro é muito pouco”, diz Igor.

À medida que o projeto foi se tornando mais conhecido, vieram os pedidos para que fosse levado a outras localidades. O problema era que o trailer pesava mais de uma tonelada, o que dificultava o deslocamento. Os diretores então adquiriram um ônibus, adaptado com banheiros, armários e refrigeração, que passou a visitar outros pontos do Recife, além de Olinda, São Lourenço da Mata, Paulista e Jaboatão dos Guararapes.

Todo o trabalho assistencial é feito por voluntários. O grupo no WhatsApp conta com 170 participantes. “Quando eu preciso de alguma coisa, aviso lá no grupo. Não dou 24 horas para conseguir”, diz Cassiano.

O empresário, no entanto, conta que todo novato se choca quando conhece a população de rua de perto. “As pessoas se surpreendem porque existe de tudo. Tem advogado e até gente que fala outros idiomas, mas que, por vários problemas, como intolerância da família no caso dos homossexuais, acaba na rua.”

A pandemia da Covid-19 provocou algumas alterações no projeto, que estava em fase de ampliação, com a realização de atendimentos médicos. Essa etapa teve que ser suspensa. O número de voluntários também foi reduzido: de 25, agora são apenas oito. Apesar das dificuldades, o projeto nunca parou. "A gente não expõe mais nada do lado de fora e as filas são feitas mantendo o distanciamento.”

Com o agravamento da fome, o projeto passou a doar cestas básicas. Em 2020, foram distribuídas dez toneladas de alimentos. Em 2021, já são seis toneladas. Cassiano tem o sonho de ver o projeto crescer. Quer que o Banho Recife esteja nas ruas mais de um dia da semana. Lima, o pai do empresário, continuou oferecendo sopa até os últimos dias de vida. Cassiano pretende seguir o exemplo. “É a minha missão.” Doações podem ser feitas por meio do PIX 89873521453.

Futebol abre nesta semana os portões dos estádios para a volta do torcedor

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2021 | 05h00

A bolha do futebol estourou e os clubes brasileiros se preparam para trazer de volta o torcedor. O Flamengo abre os portões dos estádios nesta semana com o aval da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), em partida na Libertadores, no DF, cuja secretaria de saúde local deu sinal verde para que isso pudesse ocorrer. Serão 17 mil torcedores, os primeiros desde a parada por causa da pandemia. O Rio não liberou o público.

Outras capitais do Brasil tratam do assunto entre a apreensão da doença que ainda não foi controlada e o otimismo com os números despencando. Para muitos não há mais como segurar o torcedor nem a vontade dos clubes de retomar de onde eles pararam, com apetite pelo dinheiro que vai voltar a pingar em seus caixas.

Estádio Mané Garrincha
Estádio Mané Garrincha receberá torcida para jogo do Flamengo na Libertadores Foto: Divulgação

Mas não pode ser só isso. O Brasil acompanha a queda dos números de contaminados e mortes com entusiasmo, mas com os pés atrás. Não se tem certeza de nada como no princípio. Vacinação, uso de máscara e isolamento seguem sendo as recomendações da ciência e de seus representantes.

O País, mesmo a despeito de uma CPI em marcha que investiga a participação do governo e do Ministério da Saúde na péssima condução da compra de vacinas e da cada vez mais embananada situação do presidente Jair Bolsonaro e de seus pares nesse negócio que cheira mal, avança agora satisfatoriamente na campanha de vacinação, chegando perto dos 100 milhões com a primeira dose e crescimento gradativo em relação à segunda, que imuniza.

O futebol olha para esse cenário com bons olhos e alguns interesses. O primeiro deles é recuperar a alegria de torcer num estádio, como aconteceu na Eurocopa e como vai ocorrer na retomada dos campeonatos europeus em agosto, assim como se vê em algumas outras modalidades esportivas ao redor do mundo, como a Fórmula 1, que em Silverstone, Inglaterra, recebeu ontem 140 mil seguidores para ver a vitória do inglês Lewis Hamilton.

O segundo motivo é voltar a contar com o dinheiro do torcedor, da compra de entradas até o consumo dentro do estádio, o chamado ‘matchday’. O mercado esportivo movimenta R$ 191 bilhões em dias de jogos. No Brasil, esse valor é de aproximadamente R$ 765 milhões por temporada. Uma estimativa nos EUA aponta que uma família de quatro pessoas gasta, em média, US$ 650 numa partida de basquete da NBA.

O esporte precisa do torcedor. Especialistas ouvidos pelo Estadão durante a semana passada, porém, comentaram o assunto com cautela. A própria CBF, na voz do presidente da Comissão de Médicos, Jorge Pagura, diz que a volta do público ao futebol nesse momento ainda é precipitada. O Flamengo dá de ombros. Na verdade, se pudesse, o time da Gávea já teria retomado a vida normal há meses. Sempre foi negacionista em relação à pandemia. O que não quer dizer que seus jogadores pensem da mesma forma. Eles, como dizem, são pagos para jogar, mas numa pandemia poderiam agir mais por conta própria. O fato é que o Flamengo não está sozinho na mesa. Há outros clubes que se preparam para abrir os portões aos famintos torcedores, como os de Minas.

Aos poucos, não tenho dúvidas de que a retomada vai atingir a todos do Brasileirão e Série B. Se o futebol pudesse esperar mais um mês seria mais seguro, começar em setembro, com a chegada e produção de mais vacinas e, consequentemente, de mais gente imunizada. A volta vai ser gradual, sem que as arenas entreguem ao público suas capacidades máximas. Os protocolos vão existir. Haverá torcedores conscientes e outros nem tanto. Haverá gente vacinada e testada e gente sem proteção.

O mundo às avessas, a covid-19 e o presidente

Celso Lafer, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2021 | 03h00

O impacto da covid-19, que se vem prolongando no tempo, é opressivo. Trouxe uma ruptura da “normalidade do normal”. Vem vitimando contínua e indiscriminadamente e impondo à nossa gente o mastigar do pão da aflição e o sorver o amargor do sofrimento. As necessárias medidas de isolamento afetaram todos os setores das atividades, com graves consequências econômicas e humanas. Impuseram significativos limites ao convívio social. Deram a força do concreto ao esquema do pensar e da expressão do clássico tópos literário do “mundo às avessas”. Este articula com a ruptura da “normalidade do normal” um estado lamentável das coisas, instigando a indignação. São as razões mais abrangentes dessa indignação com a maneira como o governo federal vem conduzindo as políticas públicas de saúde em nosso país o que norteia este artigo.

A pandemia do coronavírus surpreendeu governantes e governados. É um fato excepcional, que resulta da conjunção pouco frequente de certas circunstâncias. Não foi algo indeterminado que se esgota no âmbito do acaso. Mostrou o alcance irradiador do inesperado, dificilmente previsível pela escala global que assumiu quando se compara seu impacto e sua duração com prévias conhecidas pandemias do mundo contemporâneo.

O coronavírus pôs na pauta o novo dos riscos que vêm trazendo uma grande crise global da saúde pública. Esta se propaga por obra da porosidade das fronteiras, que internalizam, e ao mesmo tempo magnificam, pela dinâmica da era digital, os problemas internacionais na vida dos países. Evidenciou que as sociedades contemporâneas, inseridas para o bem e para o mal num mundo interconectado e interdependente, são sociedades de risco. Correm muito mais do que no passado o risco de se afundarem, vitimadas pelo desgorgolamento (a decapitação) que Gil Vicente, recorrendo ao tópos do mundo às avessas, se referiu no Auto Pastoril Português.

Uma sociedade de riscos, incluídos os manufaturados pela ação humana, como é o caso do meio ambiente e da sustentabilidade, exige a capacidade de orientar-se no mundo “que não dá a ninguém inocência nem garantia”, como dizia Guimarães Rosa. Pressupõe, na condução das políticas públicas, a responsabilidade e a seriedade na gestão de riscos. É o caso dos desafios da diplomacia das vacinas em matéria de política externa e dos grandes temas do multilateralismo da governança global.

Num mundo caracterizado pela velocidade dos processos com os quais a cultura científica da pesquisa básica e aplicada expande as fronteiras do conhecimento, a gestão dos riscos transcende o clássico “standard” da prudência. Requer a presença do papel da ciência e do conhecimento e dos seus valores de racionalidade e transparência, para identificar apropriadamente os riscos, mitigá-los e controlá-los.

Daí a inconformidade com este estado lamentável das coisas em nosso país proveniente da postura negacionista do presidente e de seu governo quanto ao papel da ciência e do conhecimento no enfrentamento da crise do coronavírus, que aprofunda um “mundo às avessas”.

O negacionismo se expressa por ações e omissões que a CPI está apurando. São agravadas pelas palavras do presidente. Estas ignoram o proceder com a dignidade e o decoro do cargo, que é o “standard” de conduta presidencial lícita, prevista na Lei 1.079, de 10 de abril de 1950.

Dignitas – dignidade –, ensina Cicero, é ter bons sentimentos para com a res publica e dar provas aos homens de bem desses sentimentos. Decoro, que, como dignidade, provém do latim decet, o que convém, o que é apropriado, manifesta-se pela compostura no exercício da função pública. Nem um nem outro se encontram nas palavras de ruptura e improvisações mal concebidas do presidente, que alimentam a insegurança, corroem a confiança e dividem o País.

Não atendem ao papel que se espera de liderança, que é o de definir construtivamente rumos para a sociedade. São incompatíveis com o zelo que deve presidir as políticas públicas de saúde numa situação-limite como a da pandemia.

Ensina o padre Antônio Vieira que “o verdadeiro zelo teme o perigo e trata dos remédios”, advertindo que “o maior perigo não é quando se teme o perigo, é quando se teme o remédio”. Os remédios são aqueles que o estágio atual do conhecimento e da ciência, validados pelos pesquisadores nacionais e internacionais, indica em matéria de contenção e mitigação dos riscos da pandemia. Entre eles, vacinas e o seu papel imunizador, máscaras, isolamento social, administração da sobrecarga dos cuidados hospitalares a serem implantados sem atropelos e desvios de qualquer natureza e sem o ímpeto desagregador das competências concorrentes dos Estados e dos municípios.

O presidente ignora a advertência do padre Antônio Vieira: teme o perigo e com a opacidade intencional da consciência ignora os remédios. Dessa maneira vai prolongando o mal-estar do nosso quotidiano de um “mundo às avessas” com suas omissões, ações e palavras, reveladoras de um modo de ser que não se ajusta à dignidade e ao decoro de seu cargo.


PROFESSOR EMÉRITO DA USP, FOI MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES (1992 E 2001-2002)

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