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Apostar em bets aumenta inadimplência e piora acesso ao crédito, diz estudo

Rafael Cariello / FOLHA DE SP

 

Um estudo inédito, que acompanhou a vida financeira de pessoas que começaram a fazer apostas online nos últimos anos, conseguiu medir o tamanho do prejuízo causado aos apostadores pelos jogos virtuais.

Ao comparar quem fez a primeira aposta após janeiro de 2025, quando o jogo foi regulamentado no Brasil, com quem ainda não tinha gastado dinheiro no "tigrinho" ou em palpites esportivos, economistas descobriram que, entre os apostadores, a proporção de pessoas em inadimplência se tornou em média 20% maior, nos 12 meses seguintes à primeira aposta, em comparação com o aumento das taxas de inadimplência entre quem não joga.

Os novos apostadores também passaram a atrasar o pagamento do cartão de crédito: a fração da conta do cartão em atraso cresceu em média 38,7% no primeiro ano depois do início das apostas, já descontada a evolução do mesmo indicador entre quem não faz apostas online.

O estudo foi conduzido por Sérgio Firpo, professor do Insper, e por pesquisadores da empresa Stone, que oferece serviços bancários e de pagamento a empreendedores e trabalhadores autônomos.

O artigo com os resultados da pesquisa, "Online Betting and Financial Distress: Evidence from Brazil" ("Apostas Online e Dificuldades Financeiras: Evidências do Brasil", em português), ainda não foi publicado em revista científica.

As informações de recebimento de recursos e de pagamentos feitos por milhões de clientes permitiram aos economistas identificar quem tirou recursos da conta bancária, via Pix, para pagar por jogos online, assim como identificar a primeira aposta e comparar as movimentações de apostadores com as de quem não joga.

Baseando-se em padrões de pagamentos (pequenos montantes recorrentes para os mesmos CNPJs, por exemplo) e em outros cruzamentos de dados, o estudo consegue observar as transferências para sites legalizados de apostas e também para os ilegais.

"A inadimplência sobe por um motivo simples", explicou Firpo. "O dinheiro que a pessoa manda para a bet é dinheiro que não está mais lá para pagar a fatura. E, para uma parcela dos apostadores, não é pouco. Um em cada dez apostadores manda para a bet mais de 20% de tudo o que sai da conta no mês. Quando um quinto do orçamento vai embora assim, uma conta que seria paga deixa de ser."

Entre as descobertas, feitas com o cruzamento de dados do Banco Central, está a de que quem começa a jogar sofre um corte no acesso ao crédito –no limite de empréstimos que os bancos colocam ao seu dispor– da ordem de 16% do valor a que tinha acesso antes de começar a jogar, descontada a evolução do limite de crédito geral da economia, medida pela oferta de recursos para quem nunca apostou.

Ou seja, os bancos parecem ser capazes de saber que seus potenciais tomadores de empréstimo começaram a jogar e buscam diminuir o risco de calote e de prejuízo no futuro, limitando o acesso do apostador ao crédito.

A redução de 16% no limite máximo de dinheiro que se pode pegar emprestado tem ordem de grandeza parecida com a dos efeitos sobre o acesso ao crédito provocados pela perda de emprego, disse Rômullo Carvalho, economista da Stone e um dos autores do artigo.

Em uma dissertação de mestrado defendida em 2023 na PUC-Rio, orientada por Carlos Viana de Carvalho e Gustavo Gonzaga, a economista Natália Corado mostrou que ser demitido (como parte de um processo de demissão em massa) provoca uma queda de aproximadamente 20% no limite do cartão de crédito oferecido ao trabalhador.

O estudo feito por Firpo, Carvalho e coautores procurou identificar o efeito das bets comparando a trajetória financeira dos novos apostadores à trajetória de pessoas semelhantes que ainda não haviam começado a apostar. Os dados de apostas e movimentação bancária vieram da Stone, e os efeitos financeiros (inadimplência, acesso a crédito), do Banco Central.

Os efeitos encontrados para os clientes da Stone são indicativos do que esperar para os demais apostadores brasileiros, se for considerado que o mecanismo que gera o efeito —o gasto em bets que reduz a disponibilidade de recursos para pagar dívidas— independe da instituição financeira.

É razoável supor que será parecido o efeito de começar a apostar sobre as finanças de um cliente da Stone de determinada idade, renda e histórico de crédito ao efeito de usar essas plataformas de jogos para um apostador com as mesmas características, mas que não tenha conta na Stone. O que importa são as características do indivíduo relacionadas aos efeitos das apostas sobre a inadimplência e o crédito.

Quando mudam as características dos indivíduos –idade ou situação de crédito, por exemplo–, podem mudar também os efeitos. Mas a riqueza de dados à disposição dos pesquisadores permite saber de que maneira, precisamente, ocorre essa variação.

"Nós temos dados de milhões de pessoas, com grande variação sociodemográfica", observou Carvalho. "Há gente de todas as regiões, de diferentes históricos de crédito, de várias idades."

A diferença mais importante entre os clientes da Stone e os demais apostadores do país é de idade. Em média, os clientes do serviço bancário da Stone são um pouco mais velhos do que o perfil típico dos apostadores brasileiros, divulgado em relatório da Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda.

Firpo, Carvalho e coautores encontram, na pesquisa, que os indivíduos mais jovens comprometem uma fatia maior do orçamento com apostas e que os efeitos sobre a inadimplência são maiores nesse grupo. Como os jovens estão sub-representados entre os clientes da Stone, é possível concluir que os efeitos sobre a inadimplência são provavelmente ainda maiores, na população em geral, do que os resultados do estudo.

Embora tenha medido os efeitos individuais da decisão de começar a jogar online, Carvalho afirmou que faz sentido esperar efeitos agregados, macroeconômicos, das bets, como resultado da parcela cada vez maior da população que aposta nos sites de cassino e de palpite esportivo.

"A gente não mediu, mas sabemos que há 25 milhões de brasileiros que apostam, segundo o Ministério da Fazenda. Como a gente encontra efeito de contração de crédito no nosso estudo, provavelmente você tem efeitos de contração de crédito sobre o universo de apostadores. Então, sim, provavelmente tem efeitos macroeconômicos."

O avanço das bets, ele disse, pode agravar problemas de inadimplência e de comprometimento da renda das famílias, que já são altos nesse momento também por outras razões.

O efeito principal, medido no estudo, é o de começar a apostar sobre a vida financeira do apostador. Mas os autores também conseguem identificar, na direção contrária, uma relação entre estar inadimplente e começar a fazer apostas online. Uma parcela das apostas, mostra o estudo, pode estar sendo motivada por dificuldades financeiras prévias.

O movimento em conta observado pelo estudo revela que, nos primeiros seis meses de apostas, 82,5% dos apostadores não recebem qualquer recurso das bets. Nesse mesmo período, 90,8% transferiram para as plataformas mais dinheiro do que receberam de volta.

Tanto Carvalho quanto Sérgio Firpo avaliam que seria necessário aumentar as restrições impostas às bets.

"O cassino online", disse Firpo, referindo-se a jogos do tipo do tigrinho, "me parece o problema maior, porque é jogo contínuo, resolve em segundos e a pessoa repete muitas vezes seguidas." O economista afirmou que é preciso "impor limites duros ali, colocar custos claros".

O imposto atual de 13%, calculado sobre o total apostado menos os prêmios pagos pelas bets, não parece suficiente para conter a expansão do jogo e o prejuízo de quem aposta, observou Carvalho.

"Esse negócio só cresce", ele disse. "Se o objetivo da taxação é, assim como no caso do cigarro, reduzir o consumo, não parece que o nível atual seja efetivo. Essa taxação não é efetiva [para conter o volume de apostas]."

Irresponsabilidade fiscal agrava concentração de renda

Quando se trata de distribuição de renda no Brasil, há um número que o Palácio do Planalto gosta de repetir e outro que prefere não ver.

O primeiro é o índice de Gini, elaborado pelo IBGE a partir de pesquisa domiciliar sobre rendimentos recebidos pelas famílias, captando com maior precisão os oriundos do trabalho e de benefícios sociais, segundo o qual a concentração atingiu 0,506, numa escala de 0 a 1, em 2024 —o menor nível da série iniciada em 2012.

O segundo é um indicador baseado em dados das declarações do Imposto de Renda das pessoas físicas, que alcança mais amplamente os chamados ganhos de capital, como de aplicações financeiras, aluguéis, dividendos e outros. Com tal metodologia, a participação dos estratos mais ricos na renda nacional está em alta.

Segundo cálculos do economista Sérgio Gobetti e outros autores, a fatia do 1% mais rico passou de 20,4% em 2017 para 24,3% em 2023. A do 0,1% subiu de 9,1% para 12,5%, absorvendo cerca de 85% daquele acréscimo.

Estimativa do mesmo pesquisador, com base nos lançamentos de 2024, aponta a parcela da renda nacional detida pelo milésimo mais abonado da população em 13,1%, ante 10,2% em 2020. Quase um terço da variação recente seria atribuível à renda financeira.

A coexistência dos dois indicadores em direção oposta demonstra que políticas distributivas, quando não acompanhadas de disciplina fiscal, têm efeito limitado em ambiente de instabilidade macroeconômica.

A valorização do salário mínimo eleva benefícios previdenciários e assistenciais. O Bolsa Família e outros programas do gênero dão proteção aos mais pobres. Esse conjunto contribuiu para a queda do Gini domiciliar.

O que reduz a eficácia desse esforço é a trajetória das contas públicas. A dívida saltou de 71,7% do Produto Interno Bruto no fim de 2022 para 82,5% em julho deste 2026. A incerteza provocada por essa escalada, ao lado das pressões inflacionárias resultantes dos gastos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contribui para o aumento dos juros.

Famílias mais ricas, detentoras de ativos financeiros, apropriam-se dessa remuneração.

Sinais de esgotamento do modelo atual aparecem na perda de impulso da atividade econômica e no endividamento privado. No ano passado, ademais, o Gini do IBGE piorou marginalmente, para 0,511. É razoável supor que a concentração no extremo superior não tenha recuado.

Trata-se de uma redistribuição torta de renda, que não gera transformação social duradoura.

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Ressaca econômica

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

A expansão de apenas 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no segundo trimestre de 2026, conforme revelou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é a evidência mais bem acabada de que o modelo econômico vigente no País aproxima-se de uma ressaca. Não é de hoje que a economia brasileira vem perdendo fôlego, movimento que se renova a cada trimestre. Em termos anualizados, o PIB recuou de um pico de 3,6% no primeiro trimestre de 2025 para 1,9% no segundo trimestre deste ano.

 

É verdade também que nem o resultado do segundo trimestre, em linha com o esperado por analistas, nem a desaceleração mais ampla em curso surpreendem. A Selic em níveis persistentemente proibitivos tem cumprido o seu papel de esfriar uma economia que cresce de forma artificial, apoiada em gastos públicos e em consumo outrora elevado.

 

Contudo, a falta de surpresa a cada nova rodada de indicadores macroeconômicos não significa que o atual cenário e, em especial, o que se projeta para 2027 sejam menos preocupantes. Isso ocorre porque, apesar de a taxa Selic ter finalmente começado a cair em 2026, o ritmo de queda tem sido lento. A gastança sem freios do governo e a tendência de juros mais altos por um longo prazo nas economias desenvolvidas exigirá uma Selic ainda elevada por um bom tempo.

 

Paralelamente, por mais que o governo Lula siga estimulando o consumo da população – com linhas de crédito eleitoreiras que não deslancharam, a despeito das gambiarras da gestão petista –, o gasto das famílias estancou.

 

Na comparação com o primeiro trimestre de 2026, segundo o IBGE, o consumo das famílias teve variação negativa de 0,4%. Também pudera: endividado a juro alto, o brasileiro vê o espaço para o consumo se reduzir.

 

Tanto os dados do próprio governo como os de consultorias privadas têm mostrado níveis recordes de endividamento, comprometimento de renda e inadimplência entre as pessoas físicas. As jurídicas, sobretudo as pequenas e médias empresas, também têm enfrentado dificuldades para sobreviver, como demonstra a onda de recuperações judiciais que varre o País.

 

E tudo isso se dá em um momento em que o nível de emprego é quase pleno no Brasil. A desaceleração já em curso, porém, deve mexer nas taxas de ocupação e de desalento, hoje mais favoráveis.

 

Resta evidente que quem quer que vença as eleições presidenciais em outubro receberá, em 2027, uma economia em estado de fadiga. A era ébria do estímulo ao consumo dá claros sinais de esgotamento.

 

Para piorar, a taxa de investimento produtivo, como os gastos em infraestrutura e capital humano que permitem ganhos de longo prazo, ficou em 16,1% no primeiro trimestre, inferior à média histórica, já bastante baixa, entre 17% e 18%.

 

Enquanto seguir apostando em estímulos que nada estimulam a não ser inflação, sem privilegiar o aumento da produtividade, o Brasil seguirá se condenando a um crescimento bastante aquém de seu potencial, consolidando-se como país de renda média.

As externalidades da violência

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Uma pesquisa nacional encomendada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostrou o tamanho das externalidades negativas da violência no País.

 

Por exemplo, nada menos que 84% dos brasileiros dizem que a criminalidade afeta seu orçamento familiar. Chegam a 35% os que se viram afetados por golpes e fraudes e os que tiveram de cortar gastos com itens como alimentação e pagamento de contas em razão dessa violência. Além disso, 60% disseram que encontraram dificuldades para executar uma atividade profissional por causa da “presença de facções, milícias ou crime organizado”, 51% relataram ter deixado de comprar algo por medo de cair em algum golpe e 25% afirmaram ter rejeitado uma oportunidade de trabalho por temer a violência.

 

A pesquisa mensura, assim, como a falta de segurança prejudica o cotidiano e a economia dos brasileiros de modo claro. A mensagem que os cidadãos estão transmitindo é alarmante: primeiro, porque os entrevistados vocalizam o impacto da violência sobre suas vidas; segundo, porque denunciam uma afronta à sua dignidade. E não é digna a vida quando 1 em cada 3 pessoas afirma ter de remanejar recursos financeiros originalmente destinados à alimentação e aos estudos para se sentir mais segura, ao recorrer a uma viagem em transporte por aplicativo, por exemplo.

 

Decerto deve ser por isso que 24% dos entrevistados disseram ter deixado de frequentar algum tipo de comércio, restaurante ou espaço de lazer por temer serem vítimas de algum crime. E 38% afirmaram que já não usam mais um bem, como celular nas ruas, por medo. Não importa que as estatísticas digam que há queda nas taxas de homicídios, roubos ou furtos, ou de outros tipos de crimes. Em que pesem os dados oficiais, não são nada triviais os efeitos do medo da violência sobre a vida dos cidadãos, com profundos impactos sobre seu comportamento, consumo, lazer e trabalho.

E o problema se espraia pela sociedade. Outro levantamento, também da Fiesp, mostrou o custo imposto pela violência para as empresas. No estudo qualitativo, foram ouvidos representantes de 285 indústrias paulistas de transformação e os relatos preocupam: 4 em cada 10 empresas disseram que já foram vítimas de algum crime no último ano; 1 em cada 5 afirmou que já foi vítima de crimes virtuais; e 1 em cada 4 relatou ter deixado de investir ou expandir seus negócios por causa da violência.

 

Além de frear o crescimento do setor produtivo, a violência é onerosa. Segundo a Fiesp, 98% das indústrias relataram ter despesas com segurança privada, seguro e monitoramento. Quase 1 em cada 5 empresas vítimas teve perdas superiores a 1% do faturamento anual com o crime. E nada menos do que 70% das empresas reclamaram da perda de competitividade.

 

Um dado relevante é que quase um terço das empresas consultadas que sofreram algum tipo de violência respondeu que não fez boletim de ocorrência porque “não traria resultado”. Isso mostra o grau de desalento do setor produtivo com o Estado quando se trata de segurança pública. O efeito da violência ou do medo da violência, portanto, se manifesta de diversas formas. As empresas e os cidadãos precisam que o Estado cumpra sua função precípua, que é proteger a vida, o patrimônio e a propriedade dos contribuintes. Se isso não acontece, os brasileiros acabam pagando duas vezes por sua segurança, por meio dos impostos e também por meio de despesas com segurança privada ou em razão dos prejuízos causados pela violência em si – e ainda assim não têm garantia de paz para empreender, trabalhar, estudar e se divertir.

 

Tudo isso ajuda a aumentar drasticamente o chamado “custo Brasil”. Uma sociedade que precisa se preocupar cotidianamente com a violência e que toma decisões econômicas em função disso não tem energia e dinheiro suficiente para investir em aumento de produtividade e na busca da prosperidade. Perdem todos, mas sobretudo aqueles que têm menos recursos para se defender.

Gonet pede arquivamento de denúncias de Vorcaro, que prometeu delatar ‘atual governo’

Por Fausto Macedo, Felipe de Paula e Aguirre Talento / O ESTADÃO DE SP

 

SÃO PAULO E BRASÍLIA — O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu nesta quarta-feira, 2, o arquivamento de denúncias feitas pelo banqueiro Daniel Vorcaro sobre supostas ameaças que alega ter sofrido na prisão para não firmar um acordo de colaboração premiada. As declarações foram dadas pelo banqueiro no gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso Master, durante oitiva realizada na última quinta, 27.

 

Como revelou o Estadão, Vorcaro afirmou, em depoimento prestado à equipe do ministro, que quer delatar integrantes do “atual governo” do presidente Lula e citaria nessa delação a realização de viagem com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Ele, porém, não deu detalhes nem indicou provas dessa relação. 

 

Gonet, no entanto, anotou que Vorcaro não deu “qualquer sinalização de potencialidade probatória ou vício de vontade a justificar a renovação da proposta negociada”.

 

O PGR, citado em diálogos do banqueiro, afirmou em seu parecer que “do exame acurado dos termos da oitiva prestada, constata-se que o declarante não noticiou fato concreto ou juridicamente delimitado capaz de impulsionar providências investigativas próprias”. Gonet pontuou que o relato de Vorcaro não conferiu “mínimo elemento de verossimilhança”.

 

O depoimento foi visto com desconfiança pelos investigadores, que veem na iniciativa uma ação de Vorcaro para tentar tumultuar a apuração e forçar a retomada da negociação de uma terceira delação premiada.

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A defesa de Vorcaro pediu a realização desse depoimento a André Mendonça sob argumento de que ele estava sendo alvo de ameaças da PF para não fazer sua delação premiada. A PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR) rejeitaram duas propostas de delação apresentadas pelo banqueiro, sob o entendimento de que ele escondeu informações e não entregou provas novas.

 

Gonet aparece citado em conversas com o banqueiro. Como mostrou o Estadão, o procurador-geral trocou mensagens com Vorcaro por meio de um interlocutor e chegou a pedir para levar o filho numa viagem a Londres bancada pelo Banco Master.

 

A PGR argumenta que a rejeição da delação premiada de Vorcaro estava devidamente fundamentada e também foi acompanhada pela Procuradoria. “O indeferimento formalizado pela autoridade policial em ato fundamentado respaldou-se justamente na ausência de acréscimo informativo de natureza inédita, conclusão reiterada por esta Procuradoria-Geral da República que, ao examinar o acervo ofertado, igualmente recusou o pacto ante a manifesta debilidade de seu conteúdo”, disse o procurador-geral da República.

“O peticionante não logrou alterar a premissa fática que culminou na negativa anterior, não se vislumbrando qualquer sinalização de potencialidade probatória ou vício de vontade a justificar a renovação da proposta negociada”, escreveu Gonet. 

 

terceira negociação de delação premiada, mas a manifestação da PGR deve enterrar de vez essa possibilidade. Além disso, a PGR assinou recentemente um acordo de colaboração com o fundador da corretora Reag, João Carlos Mansur, que apresentou detalhes sobre os crimes financeiros do Banco Master e de Vorcaro, o que esvaziou ainda mais a sua proposta.

 

Ou STF é ágil sobre Moraes, ou Senado será

As revelações sobre a proximidade entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e Daniel Vorcaro, artífice da maior fraude bancária da História brasileira, deixaram o país estarrecido. Elas exigem providências imediatas, sem tergiversação. Por isso deve ser repudiada com veemência a manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) que defendeu a nulidade das provas recolhidas pela Polícia Federal (PF). O presidente do STF, ministro Edson Fachin, tem o dever de convocar com urgência o plenário da Corte para examinar a questão.

 

Em resposta ao ministro André Mendonça, relator do caso Master, o procurador-geral Paulo Gonet afirmou que as provas deveriam ser anuladas, alegando não caber a um juiz como Mendonça conduzir investigação, prerrogativa do Ministério Público. Ora, em nenhum momento Mendonça pediu para investigar Moraes ou conduziu inquérito. Apenas, tendo esbarrado em mensagens descobertas de modo fortuito, pediu que a PF, por meio de perícia técnica, descobrisse formalmente quem era o destinatário. Uma vez elucidada a dúvida, fez o que manda a lei: solicitou manifestação da PGR e informou a presidência do STF, levantando o sigilo diante do interesse público e pedindo exame presencial do plenário.

 

O próprio Fachin reconheceu em nota que “os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional” e ressaltou haver “sérios elementos de fatos” que exigem “serenidade, responsabilidade e firmeza”. Em seguida, disse que “anunciará, no tempo devido e sem precipitação, as medidas cabíveis e necessárias”. Diante da gravidade dos fatos, porém, o risco maior está não na precipitação, mas na procrastinação.

Pelas evidências, Vorcaro não apenas remunerava o escritório de advocacia da mulher de Moraes por meio de um contrato milionário sem paralelo no mundo do Direito. Também fornecia aviões e helicópteros, municiou os filhos do casal com cartões de crédito e enviou nada menos que 52 mensagens ao ministro nos dias que antecederam a prisão, tentando obter informações sobre as investigações, bloqueá-las e até saber se deveria sair do país. Nas mensagens a Moraes, Vorcaro faz pedidos explícitos de ajuda a personagens que a PF identifica como Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Todos esses fatos, até agora, continuam à espera de explicações dos envolvidos.

Como foi citado pela PF, Gonet jamais deveria ter se pronunciado em nome da PGR. “Nada impede que um subprocurador assuma a atribuição para atuar junto ao plenário”, disse em entrevista à GloboNews o jurista Gustavo Sampaio, da Universidade Federal Fluminense. Seria, como diz ele, “de bom alvitre”. Quanto a Moraes, parece evidente haver elementos suficientes para justificar abertura de inquérito contra ele. Seria, é verdade, fato inédito nos 135 anos de STF. Mas está previsto nas regras. Daí a necessidade de que a questão seja examinada com urgência pelo plenário. Se Moraes ou Gonet insistirem em impedir seus pares de julgar o parecer da PGR, estará claro o desejo de esconder tudo. Equivalerá a uma confissão de culpa, situação em que o melhor seria renunciarem ao cargo. Ou então o Senado — instituição responsável por julgar ministros do Supremo e o procurador-geral por crime de responsabilidade — entrará em ação, deflagrando uma disputa entre as instituições. Seria o pior dos cenários.

 

EDITORIAL DE O GLOBO

 

O  presidente do STF, Edson FachinO presidente do STF, Edson Fachin — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

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