Fim da 'taxa das blusinhas' é ponta do iceberg eleitoreiro
Por si só, a tal "taxa das blusinhas" tem impacto modesto na receita do governo e na economia, embora afete uma quantidade expressiva de consumidores. Sua revogação, porém, é uma amostra de como o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está disposto a sacrificar a prudência e a coerência administrativa em nome da corrida eleitoral.
A tributação de importações de pequeno valor, em especial provenientes da China, era uma demanda de varejistas nacionais que foi rapidamente encampada pela Fazenda petista, ansiosa por medidas capazes de elevar a arrecadação —e tentar, inutilmente, conter o déficit orçamentário impulsionado pela escalada contínua do gasto público.
É verdade que houve idas e vindas até a adoção da norma, pois Lula percebeu que haveria riscos para sua popularidade. No entanto, o presidente da República sancionou a norma —um imposto de 20% sobre importações até US$ 50, antes isentas— em junho de 2024, quando ela foi incluída pelo Congresso em mais um projeto do Executivo para auxílio à indústria automobilística.
Se o líder petista tomou a providência a contragosto, auxiliares importantes ficaram satisfeitos. O vice, Geraldo Alckmin, que ocupou também a pasta do Desenvolvimento, defendeu a proteção a empresas nacionais; o ex-ministro Fernando Haddad, da Fazenda, apontou a importância de evitar fraudes e contrabando —e a arrecadação federal ganhou cerca de R$ 5 bilhões anuais.
A decisão de revogar a taxa após menos de dois anos de vigência seria mais facilmente defendida por um governo preocupado em abrir a economia à competição externa, ou que não tivesse um déficit fiscal projetado em quase R$ 60 bilhões neste ano, sem contar gastos com juros.
Trata-se apenas, porém, de uma ponta de iceberg na ofensiva eleitoreira de Lula. Há apenas cinco dias, um levantamento da Folha apontou R$ 143,7 bilhões em benesses promovidas neste ano, entre gastos orçamentários e linhas de crédito.
De lá para cá, já se anunciaram R$ 11 bilhões para um novo plano de segurança pública, o fim da "taxa das blusinhas" e, nesta quarta-feira (13), mais subsídio para os combustíveis —desta vez, uma medida provisória para conter os preços da gasolina. Articula-se ainda no Congresso Nacional uma aprovação açodada da redução da jornada de trabalho.
Se, mesmo com esse ritmo frenético de uso da máquina pública, Lula permanece com baixos níveis de aprovação popular nas pesquisas de opinião, pode-se temer pelo que ainda virá nos quase cinco meses que restam até a abertura das urnas.
Recorde-se que, em 2022, Jair Bolsonaro (PL) chegou ao extremo de decretar um estado de emergência, aprovado com apoio da direita à esquerda, para viabilizar alta geral de gastos ao arrepio das leis fiscais e eleitorais. A polarização política, como se vê, vai incentivando heranças amargas para os governos seguintes.
A volta de Ciro: por que o Ceará virou teste decisivo na carreira do ex-presidenciável
Há dois desfechos antagônicos em teste na jornada de Ciro de volta às disputas estaduais: uma vitória dará fôlego político. Uma derrota dificilmente não sela o fim da sua carreira política.
O retorno ao ponto de partida
Desde a derrota nas urnas em 2022, quando obteve cerca de 3% dos votos no primeiro turno, Ciro acumulou reveses que fragilizaram sua posição no cenário nacional. Além do desempenho irrelevante nas urnas, o ex-presidenciável viu ruir o grupo político que construíra no Ceará. Nem a relação até então inabalável com o irmão Cid Gomes resistiu.
Em 2024, escapou o último reduto relevante sob sua liderança: José Sarto, então filiado ao PDT, perdeu a reeleição em Fortaleza, ainda no primeiro turno.
A filiação ao PSDB, sigla pela qual governou o Ceará nos anos 90, foi uma tentativa de se reapresentar ao eleitorado como o gestor técnico que um dia foi e que, na narrativa que tenta construir desde meados do ano passado, faz falta ao estado diante dos problemas de segurança pública e economia enfrentados na atual gestão petista.
A filiação ao PSDB, sigla pela qual governou o Ceará nos anos 90, foi uma tentativa de se reapresentar ao eleitorado como o gestor técnico que um dia foi e que, na narrativa que tenta construir desde meados do ano passado, faz falta ao estado diante dos problemas de segurança pública e economia enfrentados na atual gestão petista.
O PL, que abriga as lideranças alinhadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, está praticamente certo no palanque estadual do tucano. Para um político que construiu sua trajetória como alternativa tanto ao PT quanto à direita bolsonarista, aceitar esse flanco é uma contradição que precisará ser explicada ao eleitorado.
Os desfechos antagônicos
O que está em jogo em 2026 para Ciro vai além de uma disputa pelo Palácio da Abolição. Na prática, é um teste decisivo sobre sua própria relevância política.
Uma vitória no Ceará o mantém vivo como nome projetável para 2030. Uma derrota expressiva, após uma aliança que desafia sua própria base, pode representar o encerramento definitivo da carreira dele.
PF investiga esquema de fraudes em contratações públicas em Pindoretama e Ibiapina, no CE
A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta terça-feira (12), a "Operação Papel em Branco", que investiga um suposto esquema de fraudes em contratações públicas envolvendo serviços de papelaria nos municípios de Pindoretama e Ibiapina, no Ceará.
Ao todo, foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão em Fortaleza e Pindoretama, por determinação da Justiça Federal. A ação conta com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU).
Segundo a PF, a investigação apura possíveis irregularidades em dispensas de licitação realizadas por secretarias municipais, além de indícios de desvio de recursos públicos federais.
Durante a operação, os agentes buscam apreender documentos, aparelhos eletrônicos e outros materiais que possam auxiliar na identificação dos envolvidos e na análise da destinação do dinheiro público repassado aos municípios investigados.
Empresas movimentavam valores acima da capacidade operacional
As investigações começaram após um órgão de controle financeiro apontar movimentações consideradas incompatíveis com a capacidade operacional de empresas que participaram das contratações públicas. Também há suspeitas de repasses indevidos a agentes públicos.
De acordo com a Polícia Federal, os investigados poderão responder por crimes como corrupção, fraude em licitações e lavagem de dinheiro.
O material apreendido será analisado e as investigações seguem em andamento.
Limites para a inteligência artificial nas escolas
O avanço da inteligência artificial forçou sistemas de ensino em todo o mundo a se adaptarem a essa tecnologia. Reveladora desse movimento é a inclusão da disciplina letramento midiático e em inteligência artificial na próxima edição do Pisa, exame internacional de desempenho escolar, em 2029.
No Brasil, uma resolução de 2025 do Conselho Nacional de Educação tornou a educação digital e midiática obrigatória a partir deste ano. Na segunda (11), o órgão estabeleceu diretrizes para o uso de IA nos ensinos básico e superior por meio da aprovação de um parecer prévio —que ainda passará por consulta pública.
O CNE faz uma diferenciação necessária entre as formas de uso. Quanto mais a IA se aproxima de avaliar, vigiar ou decidir o destino do aluno, maior o risco.
No nível de baixo risco, ela serve de apoio administrativo e pedagógico, como em organização de materiais, acessibilidade, revisão de textos sem atribuição de nota e planejamento de aulas.
No risco moderado, a IA interage com alunos, mas não toma decisões automáticas relevantes, casos de tutores virtuais, feedback formativo e apoio à escrita.
O alto risco se dá quando é possível afetar diretamente notas, aprovação ou direitos dos alunos, como em correção automática de provas, monitoramento biométrico e perfilização de alunos com base em comportamento, desempenho e frequência.
Por último está o risco excessivo, único nível proibido: decisões automáticas sobre aprovação ou expulsão, perfilização para punição e vigilância emocional.
Todos os outros níveis, apesar de permitidos, precisam seguir exigências específicas, que incluem transparência, segurança da informação, restrição de uso de dados, revisão humana, avaliação de impacto, direito de contestação e supervisão contínua.
O parecer também inclui a IA no currículo para que alunos compreendam o funcionamento da ferramenta por meio de análise crítica que identifique limites, fragilidades e periculosidade.
Para lidar com as desigualdades entre redes de ensino, indica-se a necessidade de ampliar a inclusão digital, com adaptação a especificidades locais e regime de cooperação federativa.
Segundo a TIC Educação de 2025, pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil, só 54% dos professores tiveram formação sobre ferramentas digitais. Assim, ainda é preciso expandir a capacitação da categoria.
No geral, o parecer é bem-vindo, já que promove a tecnologia sem descuidar da integridade do ensino e dos direitos dos alunos.
Plano de última hora para a segurança pública
Não é por falta de planos nacionais que a segurança pública brasileira vai mal. A depender do critério utilizado, pode-se contar uma dezena deles desde 2000, quando o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) inaugurou a série com o seu PNSP.
Só neste seu terceiro mandato, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já lançou o esquecido Programa de Ação na Segurança (PAS), em 2023, e o Brasil Contra o Crime Organizado, que veio à luz nesta terça-feira (12). Entre um e outro, também mandou ao Congresso uma proposta de emenda constitucional voltada ao setor e um projeto, alterado e convertido em lei, para o combate às facções.
Decerto a mais recente iniciativa —anunciada a poucos meses das eleições para Presidência da República, Congresso Nacional, governos e assembleias estaduais— não será a mais promissora da lista. Mas ao menos Lula terá providências a elencar nos debates que travará com adversários à direita que farão da segurança sua bandeira.
O tema, sem dúvida, é de alta relevância para o eleitorado. Em pesquisa feita pelo Datafolha em dezembro de 2025, 16% dos entrevistados apontaram a segurança como o principal problema do país, percentual só superado pela saúde (20%).
Em março deste ano, 41% afirmaram notar a presença do crime organizado no bairro onde vivem, e similares 40% disseram ter sido vítimas de algum crime nos últimos 12 meses.
Para seu novo plano, a administração petista promete R$ 1 bilhão do Orçamento federal e mais R$ 10 bilhões em empréstimos do BNDES aos governos estaduais —valores que não chegam a impressionar perto dos R$ 143,7 bilhões em benesses já prometidas neste ano eleitoral.
Os quatro eixos principais para a aplicação dos recursos são corretos: combate ao tráfico de armas, asfixia financeira das facções, qualificação das investigações de crimes graves e fortalecimento do sistema prisional. Mas não é por prioridades erradas que os planos para o setor têm sido pouco eficazes.
Há problemas de continuidade de um governo para outro e de coordenação entre as ações da administração federal e dos estados. Tais deficiências são agravadas por divergências ideológicas entre Lula e os governadores, em grande parte de linha conservadora. Não à toa, a PEC da Segurança está parada no Senado.
A direita pode ter captado melhor os anseios do eleitorado nessa seara, mas segue presa a um ideário populista que combina aumento de penas e operações espetaculosas, não raro letais. A vertente bolsonarista piora a receita com liberação de armas, corporativismo policial e defesa da temerária equiparação de facções a grupos terroristas.
Resta esperar que o flagelo imposto por PCC, CV e congêneres a comunidades inteiras, além de sua infiltração crescente no poder público e na economia, por fim leve à superação desses obstáculos políticos e federativos.
Taxa das blusinhas, Desenrola 2.0 e crédito a motoristas de app: governo Lula acelera medidas de olho nas eleições
Por Bernardo Lima — Brasília / O GLOBO
Mirando um aumento de popularidade a cinco meses da eleição, o governo do presidente Lula acelerou o anúncio e a preparação de medidas para tentar estimular o crescimento e aumentar a renda do trabalhador. Entre as iniciativas, está o fim da chamada “taxa das blusinhas”, anunciada nesta terça-feira, e políticas de crédito, como o novo Desenrola Brasil e linhas de crédito para taxistas e motoristas de aplicativo, financiamento que ainda será oficializado.
A decisão anunciada por Lula e ministros no Palácio do Planalto nesta terça vinha sendo defendida pela ala política do governo. Nos levantamentos internos do Planalto, a "taxa das blusinhas" é apontada como um dos principais pontos de desgaste do governo. A avaliação é de que a mudança precisa produzir efeito concreto nas compras de menor valor, beneficiando principalmente a população de baixa renda.
O termo "taxa das blusinhas" é usado para se referir ao programa Remessa Conforme, criado para permitir a cobrança do Imposto de Importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. Antes, na prática, o imposto era zerado. Para compras acima de US$ 50, segue valendo a alíquota de 60%. A partir desta terça, as compras até este valor não pagarão imposto, de acordo com o governo.
Segundo dados da Receita Federal, nos primeiros quatro meses de 2026, o governo arrecadou R$ 1,78 bilhão em imposto de importação sobre encomendas internacionais.O debate sobre o assunto voltou diante do esforço do Palácio do Planalto para ampliar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva diante do avanço da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas.
Com a avaliação de que é preciso melhorar a percepção da população sobre renda, o governo vem trabalhando em medidas para reduzir o custo do crédito e o comprometimento da renda das famílias com dívidas.
Novo Desenrola
Na última segunda-feira, Lula anunciou uma nova edição do Desenrola Brasil, lançado inicialmente pelo governo em 2023. Segundo o Banco Central, quase 30% (29,7%) da renda dos brasileiros é consumida pelo pagamento de dívidas, o maior patamar da série histórica, iniciada em 2005.
A expectativa do governo é que o programa alcance até 27 milhões de brasileiros e permita a renegociação de cerca de R$ 100 bilhões em dívidas. Para viabilizar os descontos, o governo vai oferecer até R$ 15 bilhões em garantias do FGO (Fundo Garantidor de Operações) aos bancos.
Motoristas
Em sequência, a equipe econômica do governo finaliza os detalhes de uma linha de crédito subsidiado que será destinada a motoristas de aplicativo e taxistas. A ideia é oferecer juros abaixo dos praticados no mercado e da Selic, hoje em 14,50%. O alto patamar dos juros tem sido usado pelo governo como argumento para as políticas de financiamento.
Neste caso, por exemplo, integrantes do governo dizem que o programa deve ter juros ao redor de 12% ao ano, bem abaixo da taxa de mercado, que roda acima de 20% ao ano.
Os motoristas estão entre as categorias em que o governo Lula busca melhorar a aprovação. No fim do mês passado, o Executivo ampliou o programa Move Brasil, que oferece crédito mais barato para a compra de caminhões. A linha de crédito vai oferecer até R$ 21 bilhões, sendo R$ 14,5 bilhões do Tesouro Nacional e R$ 6,7 bilhões em recursos adicionais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Minha Casa Minha Vida
As políticas de financiamento também têm como foco o setor imobiliário. Na última semana, o governo anunciou a redução de juros e ampliação do prazo de pagamento de uma linha de crédito do Minha Casa, Minha Vida usada para reformas e melhorias habitacionais. O programa também teve ampliação das faixas de renda.
Em março, o governo ampliou em R$ 20 bilhões os recursos do Fundo Social do programa para viabilizar a construção de 1 milhão de unidades habitacionais até o final deste ano. O orçamento total do ano é de R$ 45 bilhões. Segundo o governo, os novos recursos terão como prioridade o financiamento da Faixa 3 do programa, voltada para famílias com renda mensal entre R$ 5 mil e R$ 9,6 mil, atingindo também famílias de classe média. As faixas também foram atualizadas.
Consignado
Junto com o novo Desenrola Brasil 2.0, o governo Lula anunciou também mudanças no consignado do INSS, mudando a margem de empréstimos para aposentados de 45% para 40%. O prazo de pagamento foi ampliado de 96 meses para 108 meses, e será autorizado um prazo de carência de 120 dias para começar a pagar as parcelas.
O consignado privado também foi alvo de mudanças pelo governo no final de março que define a 1 ponto percentual a diferença entre os juros nominais do contrato e o custo efetivo total, que inclui tributos e seguro. A taxa média de juros dessas operações girava em torno de 3,66% ao mês, segundo o Ministério da Fazenda.


