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Persistem erros na gestão de vacinas contra Covid

Por  Editorial / O GLOBO

 

Cinco anos depois do início da pandemia, felizmente a Covid-19 é hoje uma doença sob controle, graças à vacinação maciça da população. Mas não vivemos num cenário de risco zero. O vírus ainda circula — e ainda mata. No ano passado, 5.960 brasileiros perderam a vida em consequência da doença. Ela foi estabilizada, por isso não deveria haver espaço para vacilos que ampliem os riscos. É fundamental manter a população vacinada, especialmente os grupos mais vulneráveis, como idosos, gestantes, crianças ou imunossuprimidos. O Ministério da Saúde, responsável por comprar as vacinas e distribuí-las, tem a obrigação de oferecê-las na versão atualizada para as novas cepas, uma vez que o vírus está em constante mutação. Infelizmente, não é o que tem ocorrido.

 

Apenas a vacina pediátrica está atualizada. A versão disponível nos postos para adultos protege contra a cepa XBB.1.5 da variante ômicron, e não contra a cepa JN.1, desde abril considerada o alvo a combater. Não se trata de detalhe irrelevante. Desde o início da pandemia, o vírus sofre mutações que lhe permitem driblar as barreiras impostas pelas vacinas. Daí a necessidade de atualização constante. Não que a vacina oferecida seja inútil — sempre é melhor tomar alguma do que nenhuma. Mas ela não confere a melhor proteção para o vírus em circulação. Tal fato faz diferença para os vulneráveis.

 

No afã de oferecer versões mais recentes, o Ministério da Saúde tem cometido erros. No fim do ano passado, firmou contrato com a Zalika Farmacêutica para receber doses da vacina indiana Covovax. É verdade que cláusulas preveem a entrega da vacina atualizada. Só que a versão da Covovax para a cepa JN.1 não fora autorizada pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), portanto não poderia ser usada no Brasil. A farmacêutica submeteu pedido de autorização, mas ele foi indeferido no início deste ano, sob o argumento de que os documentos apresentados não comprovavam que os padrões de qualidade seriam mantidos até o fim do prazo de validade.

 

Não foi a primeira mancada. No ano passado, o ministério recusou um lote de 3 milhões de doses da vacina da Moderna atualizadas para a cepa JN.1, numa troca envolvendo problemas no prazo de validade. O governo alegou que, na época, não havia autorização da Anvisa para essa versão. É verdade, mas a aprovação veio pouco tempo depois. Teria sido melhor que a pasta se entendesse com a Anvisa. Só agora o ministério informa que essas doses já estão em distribuição. Deveria haver um caminho mais ágil para a aprovação de versões atualizadas das mesmas vacinas, como noutros países.

 

O governo alega que a vacina da Zalika “protege contra formas graves da doença e hospitalizações, mesmo diante de novas variantes do vírus”. Mas não faz sentido gastar dinheiro para comprar vacinas defasadas. Se vai adquirir novas doses, o mais lógico é buscar produtos autorizados pela Anvisa para as cepas recentes. Não é o caso da Zalika. De nada adianta economizar em licitações se a vacina não oferece a melhor proteção. Quando na oposição, os petistas criticaram duramente o governo Jair Bolsonaro pelos atrasos na compra de vacinas durante a pandemia. Tinham razão. Mas os erros de gestão e planejamento continuam a se suceder, com desabastecimento frequente de vacinas. Não é justo impor ao cidadão um dilema entre não se vacinar ou tomar a versão desatualizada.

 

Vacinação contra a Covid--19 no Rio

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