Trump resgata Lula no meio do precipício
Sem conserto. Uma pesquisa Quaest iluminou as consequências. Para 72%, Trump erra ao impor a sanção tarifária, 79% imaginam que o golpe afetará suas vidas pessoais, e 57% negam à Casa Branca o direito de opinar sobre o processo contra a camarilha golpista. À sombra do pendão auriverde, a desaprovação de Lula, que subira de 43% para 57% em menos de um ano, retrocedeu até 53%. Montado num ginete branco, o chefe do Maga resgata Lula no meio do precipício.
Pacificação ilusória, impossível. A tarifa-sanção descortina os limites da política da imitação. Como cantar as glórias de Trump quando é o Brasil inteiro que está na mira? Como conciliar as prioridades da direita extremista, “anti-Sistema”, com os imperativos eleitorais da direita institucional? O “bolsonarismo moderado” é uma quimera — eis o dilema insolúvel da direita.
O autoexílio do Zero Três implica uma cisão absoluta:
— Não estou buscando convencimento da população, estou buscando pressionar o Moraes.
Sua aventura subversiva não serve nem mesmo ao Zero Um, um senador que depende de votos, ou ao réu Bolsonaro, agora com tornozeleira, descrito pelo filho pródigo como “refém do Sistema”. O primeiro insistiu no indulto, mas deplorou a sanção. O segundo declarou-se inocente, ao menos desse crime:
— Não existe nenhum lobby meu.
Não é boa hora para desfraldar a bandeira das estrelas.
Sobretudo, porém, a nuvem tóxica impôs aos governadores da direita uma penosa transição discursiva. Zema corrigiu-se, finalmente qualificando a sanção como “injusta”. Tarcísio abandonou seu perene exercício de equilibrismo, agarrando-se à barra mais baixa: — Neste momento, estou olhando para São Paulo, para o seu setor industrial, para sua indústria aeronáutica, de máquinas e equipamentos, para nosso agronegócio, para nossos empreendedores e trabalhadores.
Anistia prévia, indulto? As aves daqui podiam gorjear como as de lá enquanto o estandarte do perdão aos chefes golpistas circunscrevia-se à esfera da política nacional. A intervenção de Trump ergue o desafio de uma escolha: America First ou Brasil First. De agora em diante, as aves com pretensões eleitorais terão de reaprender a gorjear.


