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Igualdade perante a lei, sem exceções

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Ao julgar a constitucionalidade do aumento de pena para crimes contra a honra (injúria, difamação e calúnia) praticados contra funcionários e autoridades públicas, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu mais do que um caso técnico de Direito Penal. Quando a Corte validou uma norma que agrava a punição caso a vítima seja agente do Estado, deu chancela a uma distinção jurídica que colide com o princípio republicano da igualdade perante a lei.

 

O processo discutia a compatibilidade desse regime especial do Código Penal com a Constituição de 1988. A maioria entendeu que a norma não cria censura nem restringe a crítica política, limitando-se a proteger a honra funcional de quem exerce cargos públicos. Os votos vencidos – em especial o do ministro Edson Fachin – advertiram para o risco evidente: transformar o exercício da função pública em fundamento para privilégio penal, invertendo a lógica das democracias liberais.

 

O que está em disputa não é o direito à proteção da honra das autoridades, mas a consagração de uma tutela agravada em favor de quem já dispõe de poder institucional, visibilidade e meios amplificados de resposta. Em sistemas constitucionais maduros, a regra é oposta: quanto maior a exposição pública, maior o ônus de tolerância ao dissenso, à crítica dura e até ao excesso retórico.

 

Ao validar a exceção, o STF normalizou uma assimetria perigosa. A função pública não amplia direitos privados; amplia deveres republicanos. Quando o Estado decide proteger seus próprios agentes com penas mais severas do que as aplicáveis aos cidadãos comuns, desloca o Direito Penal de sua finalidade igualitária para um papel simbólico de distinção. A lei deixa de falar em nome de todos e passa a falar a partir do poder.

Essa lógica perniciosa está enraizada na cultura política brasileira. Raymundo Faoro descreveu, em Os Donos do Poder, um estamento burocrático historicamente inclinado a confundir o público com o patrimonial. Roberto DaMatta, ao analisar o ritual do “Você sabe com quem está falando?”, mostrou como hierarquias informais sobrevivem sob a aparência da legalidade. José Murilo de Carvalho chamou esse fenômeno de “estadania”: direitos filtrados pela posição social, não pela cidadania plena.

 

A decisão do STF reverbera esse imaginário. A “carteirada”, mais do que mera vulgaridade, ganha verniz normativo. O recado transmitido à sociedade é inequívoco: há cidadãos de primeira classe, cuja honra vale mais do que a dos demais.

O voto de Fachin merece registro por romper com essa naturalização. Ao reafirmar que a igualdade perante a lei não comporta gradações baseadas em cargo ou função, ele recolocou o debate no terreno correto: o da Constituição como limite ao poder, não como instrumento de sua autoproteção. Em democracias liberais, autoridades não são figuras vulneráveis escudadas pelo Estado; são agentes submetidos a escrutínio reforçado.

 

O problema não se restringe ao Judiciário – embora nele os excessos recentes (a confusão entre proteção do Estado e proteção de autoridades; as críticas tratadas como “ataques”; o uso expansivo do Direito Penal para blindar agentes públicos) sejam mais visíveis. Trata-se de um ecossistema no qual Executivo, Legislativo e corporações públicas resistem à ideia de que poder implica responsabilidade acrescida, não blindagem jurídica. Na teoria democrática, todo poder emana do povo, e funcionários e autoridades públicas são seus servidores. Na prática, eles se comportam como se fosse o inverso. O privilégio penal é apenas uma das manifestações desse padrão.

 

Ao validar essa exceção, o Supremo perdeu a oportunidade de afirmar um princípio elementar da vida republicana: a lei não existe para poupar o poder de constrangimentos, mas para impedir que ele se converta em prerrogativa pessoal. Quando o Estado passa a se defender penalmente de seus próprios cidadãos, algo essencial já se deslocou.

 

Democracias não morrem apenas por golpes. Muitas se deformam por decisões retoricamente revestidas de virtuosismo republicano que, na prática, reforçam hierarquias autoritárias com a força da lei. Esse julgamento pertence a essa categoria.

A asfixia das agências

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O governo federal terá de justificar ao Tribunal de Contas da União (TCU) os congelamentos orçamentários que se tornaram frequentes nas agências reguladoras. Foi determinado ainda à Casa Civil que apresente em até seis meses um plano para efetivar a autonomia financeira das agências auditadas pela Corte de Contas e que regulam os setores de energia elétrica (Aneel), petróleo e gás (ANP), telecomunicações (Anatel) e mineração (ANM).

 

Apesar de fazer referência às quatro agências que integraram o processo, a decisão tomada pelo TCU vale para todas as 11 autarquias federais que monitoram setores essenciais, a maioria deles resultante da privatização de serviços públicos. Cortes de recursos não poderão afetar a fiscalização nem o custeio dos órgãos que, de acordo com a avaliação do tribunal, têm sofrido uma “asfixia orçamentária” nos últimos dez anos.

 

O veredicto do TCU não traz novidade alguma, mas abre caminho para estancar uma sangria que há muito se reflete em prejuízo para o consumidor, exposto a um maior risco de falhas na prestação dos serviços. O sucateamento das agências é um processo antigo, e mesmo não sendo exclusividade do lulopetismo, é particularmente acentuado em governos do PT, crítico feroz tanto da privatização quanto da autonomia legal assegurada às agências.

 

Especificamente neste terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, as agências têm sido enxergadas pelo governo como meros instrumentos arrecadatórios. Repassam ao Tesouro os recursos que recebem por meio de taxas, tarifas e multas e recebem de volta autorização para utilizar parcela muitas vezes insuficiente para sua manutenção básica. Esse dinheiro fica sob risco de contingenciamento sempre que o governo determina que os ministérios (aos quais as agências estão vinculadas) congelem despesas para tentar corrigir desequilíbrios fiscais.

 

Como também é notório, apesar do apagão técnico e financeiro atual, algumas agências arrecadam mais do que necessitam para custear suas atividades, mas a prioridade do governo tem sido reforçar o caixa do Tesouro. O sucateamento impacta diretamente os cidadãos, expostos a uma série de problemas, que vão de atrasos na aprovação de produtos, como medicamentos, até uma maior exposição a fraudes no sistema financeiro, já que a Comissão de Valores Mobiliários também é uma autarquia regulatória.

 

Embora muitas vezes a convivência entre reguladores e regulados não seja fácil, não há como prescindir da atuação das instituições que garantem, principalmente, a segurança do mercado. Quando uma agência, como a ANP, informa que fechará as portas três dias úteis por semana para economizar dinheiro, como ocorreu no ano passado, é sinal de que o descaso do governo extrapolou qualquer limite. Assim como a vacância de cargos por meses a fio salienta, ao mesmo tempo, o pouco-caso do Executivo e o interesse em formar estoque para arranjos políticos.

 

 

A exigência do TCU está longe de se traduzir em solução para a atual crise regulatória. Mas tomara que seja o início de uma pressão mais forte para chegar a esse resultado.

O PT envelheceu mal no Nordeste

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

As eleições de 2026 projetam-se como um desafio sem precedentes à hegemonia política que a esquerda – e o PT, em particular – construiu ao longo de mais de duas décadas no Nordeste. Pesquisas de intenção de voto têm apontado vantagem de candidatos de centro-direita e direita em Estados centrais para o projeto petista, como Bahia, Maranhão e Ceará. Em outros, como Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte, a situação tampouco é confortável para a esquerda. O cenário só é menos adverso, hoje, no Piauí e em Pernambuco, mas essas exceções apenas reforçam que o mapa político da região não é um monólito.

 

Um estudo do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), ajuda a dimensionar a magnitude dessa possível inflexão. Mantido o panorama sugerido pelas pesquisas mais recentes, a esquerda poderá registrar, em 2026, seu pior desempenho em eleições para governador no Nordeste desde a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, em 2002. Segundo os dados apurados pelo professor Medeiros, em 2018, partidos do chamado campo progressista governavam Estados que concentravam cerca de 90% do eleitorado nordestino. Esse porcentual caiu para 74% em 2022 e pode recuar para 23% nas eleições deste ano. Caso isso se confirme, será um baque e tanto para o PT e partidos aliados, que há tempos têm no Nordeste seu principal reduto eleitoral.

 

Há múltiplas explicações para essa possível mudança do perfil político-partidário dos governos estaduais da região. Como Medeiros disse ao Estadão, “o voto nordestino tornou-se mais volátil, urbano e pragmático”, mais sensível a questões como custo de vida, segurança pública e qualidade dos serviços públicos. Esse é um ponto crucial.

É fato que programas como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida, que durante muito tempo foram as vitrines eleitorais mais reluzentes do lulopetismo no Nordeste, passaram a ser percebidos como políticas de Estado. A associação quase automática entre esses programas e Lula perdeu força. É lícito inferir que grande parte do eleitorado nordestino se sente segura de que essas políticas públicas seguirão vigentes independentemente de quem esteja no poder.

 

Mas a explicação mais relevante talvez esteja na dificuldade crônica da esquerda em oferecer respostas aos problemas que hoje mais afligem os cidadãos. Segurança pública é o exemplo mais eloquente. A insistência em uma abordagem ideologizada, contaminada por uma leitura sociológica do problema da violência urbana que relativiza a responsabilidade do criminoso em nome de explicações estruturais, tem um preço eleitoral que partidos à direita não costumam pagar.

 

Dois grandes Estados governados pelo PT, Bahia e Ceará, são os exemplos mais bem acabados do fracasso da esquerda no campo da segurança pública. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que, em 2024, a Bahia registrou 40,6 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto o Ceará alcançou 37,5. Ambos só ficaram atrás do Amapá (45,1) como os Estados mais violentos do País. São números impossíveis de fazer frente ao discurso da direita nessa seara, que pode até não se materializar em boas políticas públicas, mas, no que concerne ao apelo eleitoral, funciona como garantia de que providências duras serão tomadas.

 

Naturalmente, nada disso autoriza predições categóricas. A política brasileira é volátil, e o próprio lulopetismo ainda dispõe de um ativo poderoso: a figura de Lula, incumbente cuja presença física em campanhas estaduais continua sendo decisiva para viabilizar candidaturas. Mas o fato de depender cada vez mais desse recurso revela fragilidade, não força. O carisma de Lula, por si só, não basta ante a cobrança de respostas concretas do próprio presidente às demandas de um eleitorado que mudou e ele parece não ter se dado conta.

 

O Nordeste continua plural e politicamente relevante. Justamente por isso, não é – e talvez nunca tenha sido – propriedade de um partido ou de um campo político. Se a esquerda perder espaço na região, não será por uma guinada ideológica dos nordestinos, mas pela incapacidade da esquerda de compreender que o eleitor de 2026 exige mais do que memória afetiva e programas sociais já consolidados.

O dever da Justiça Militar

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O procurador-geral do Ministério Público Militar, Clauro de Bortolli, apresentou ao Superior Tribunal Militar (STM) as representações para declaração de indignidade para o oficialato contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, capitão reformado do Exército, o almirante Almir Garnier e os generais Augusto Heleno, Walter Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira. Como se sabe, todos cumprem pena de prisão após terem sido condenados por tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes. Logo, a perda de posto e patente, no caso deles, é um dever legal e moral da Justiça Militar, não apenas como resposta à sociedade civil, mas como garantia da honorabilidade das próprias Forças Armadas.

 

Em 218 anos, a Justiça Militar jamais condenou oficiais generais que atentaram contra a democracia. E houve vários, como registra nossa sobressaltada história política. A eventual procedência das representações apresentadas pelo procurador-geral equivalerá à expulsão dos criminosos das Forças Armadas. “Tudo nesses processos é inédito”, resumiu a presidente do STM, Maria Elizabeth Rocha, uma das cinco civis com assento na corte. Como ela afirmou, trata-se de um julgamento “simbólico e paradigmático, capaz de definir o lugar do STM diante de crimes contra o Estado Democrático de Direito”.

 

É disso que se trata. Passou da hora de militares traidores da Pátria prestarem contas de seus atos não apenas à Justiça Civil, mas também à Justiça Militar. É para isso, afinal, que existe uma estrutura judicial castrense em tempos de paz. Se oficiais do topo da carreira que ousaram empregar o treinamento, a autoridade e as armas que lhes foram conferidos pelo Estado contra o próprio povo e a Constituição não forem considerados indignos de pertencer às Forças Armadas, para que – ou a quem – serve a Justiça Militar em tempos de paz nesta república democrática?

 

Sob a liderança de Bolsonaro – um comandante-chefe que foi, ele próprio, um “mau militar”, nas palavras de Ernesto Geisel, e que chegou a ser proibido de pisar em quartéis por sua indisciplina e espírito golpista –, esses oficiais decidiram, de livre e espontânea vontade, conspirar contra a ordem constitucional para aferrá-lo no poder. Tramaram o assassinato do presidente eleito e de seu vice, Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin, além do assassinato de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, a fim de subverter a vontade popular expressa nas urnas de 2022. Se isso não basta para caracterizar indignidade para o oficialato, o que bastaria?

 

Circula na imprensa a informação de que os ministros do STM tendem a expulsar somente Bolsonaro e Braga Netto, preservando posto e patente de Paulo Sérgio Nogueira e Augusto Heleno, em consideração ao “histórico” de ambos na caserna. O destino de Garnier é incerto. Se assim for, o tribunal cometerá um grave erro. Eventuais serviços prestados ao País, por mais relevantes que tenham sido, não atenuam uma sedição armada. Ao contrário: só agravam a responsabilidade de quem traiu o juramento de lealdade à Constituição e os valores das Forças Armadas.

Há muito tempo, a Justiça Militar deve explicações à sociedade civil. Em 1988, o próprio STM absolveu Bolsonaro em uma representação que envolvia um plano para explodir bombas em unidades militares do Rio de Janeiro como forma de pressão salarial – plano cuja autoria Bolsonaro negou, mas que perícias confirmaram. Absolvido, foi reformado, tornou-se capitão e ingressou na política. O resto é uma lamentável história. Mais recentemente, em 2021, o então comandante do Exército, o mesmo Paulo Sérgio Nogueira, deixou impune o general intendente Eduardo Pazuello por participação em um comício ao lado de Bolsonaro, sendo ele um oficial da ativa, em flagrante violação à legislação militar.

 

A expulsão de Bolsonaro et caterva dos quadros do Exército e da Marinha enviará um potente sinal a todos os quartéis espalhados Brasil afora: militares não tomam parte nas lides políticas e devem obediência cega à Constituição e ao Estado Democrático de Direito. Servem ao Brasil, não a projetos pessoais ou aventuras autoritárias. A atual composição do STM tem diante de si a chance histórica de afirmar à Nação que a corte não é uma ermida para oficiais golpistas.

Internação involuntária de drogados é aceitável em casos excepcionais

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

O consumo de drogas por quem vive nas ruas é um problema quase intratável. No Brasil, passou a ser conhecido a partir do crescimento da Cracolândia, região no Centro de São Paulo onde chegou a haver entre 800 e 1.500 usuários. Não só em São Paulo, o consumo de drogas em espaços públicos preocupa prefeitos e governadores. As soluções recomendadas para o problema infelizmente jamais foram levadas a cabo de modo satisfatório. Não se trata de questão policial. A dificuldade está em oferecer atendimento médico e tratamento para que os dependentes possam se livrar do vício. Há obstáculos tanto para interná-los quanto para mantê-los internados. Daí a repetição, em sucessivos governos, de esvaziamento e retorno a áreas como a Cracolândia.

 

Mais cidades brasileiras têm adotado a internação involuntária, ou compulsória, dos dependentes de drogas. Cerca de 30% das capitais a praticam em algum nível, ou o tema está em discussão no Legislativo, revelou O GLOBO. A medida é aceita em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Maceió, Distrito Federal, Curitiba, Florianópolis,Niterói, Sorocaba, Chapecó, Blumenau, Criciúma e Balneário Camboriú.

A internação compulsória sempre foi criticada como violação de direitos individuais incapaz de dar conta do problema no médio prazo. Mas em certos casos pode se justificar. Mudanças na Lei de Drogas e resoluções do Conselho Federal de Medicina deram respaldo a que parentes, responsáveis, servidores públicos de saúde, assistência social ou órgão de segurança solicitem a internação sem consentimento em situações excepcionais. A restrição de liberdade deve ser pelo menor tempo possível. É preciso informar em até 72 horas órgãos de controle como o Ministério Público (MP).

 

A aplicação das normas ainda alimenta debates. É indispensável que o MP monitore os centros de recolhimento para que sejam de fato centros de reabilitação, e não depósitos de gente. É essencial haver protocolos sustentados em conhecimento científico para tratar da questão. Além de atentarem contra a própria vida, os dependentes podem representar risco à segurança. É nesse contexto que a internação involuntária pode fazer sentido, sem desprezar a ressocialização desses pacientes. Uma mulher apareceu em reportagem do GLOBO sendo internada nas ruas de Curitiba, depois de ter sido abordada 175 vezes desde 2018. A cidade adotou em dezembro o protocolo de internação compulsória. Pode ser que agora ela tenha maior chance de receber tratamento contínuo.

Está claro que, mesmo que seja necessária ação da polícia no combate ao tráfico que alimenta as cracolândias pelo país, dissolvê-las pode significar apenas espalhar o problema a outras áreas. A própria Cracolândia paulistana não é mais a mesma. Ações policiais, sociais e urbanísticas, coordenadas entre prefeitura e governo estadual, começaram a mudar o local. Mas os usuários de drogas se espalharam. Sem a capacidade de oferecer tratamento para todos de forma contínua e estruturada, será impossível resolver o problema.

 

Equipes de acolhimento em ação em Curitiba (PR)Equipes de acolhimento em ação em Curitiba (PR) — Foto: Divulgação

 

Ala do STM quer julgar expulsão de Bolsonaro das Forças Armadas só depois das eleições

Por Rafael Moraes Moura — Brasília / COLUJNA DA MALU GASPAR / O GLOBO

 

Parte dos integrantes do Superior Tribunal Militar (STM) dizem reservadamente que preferem deixar para depois das eleições presidenciais o julgamento que pode resultar na expulsão das Forças Armadas de Jair BolsonaroWalter Braga NettoPaulo Sérgio Nogueira e do ex-comandante da Marinha Almir Garnier Santos.

 

De acordo com a apuração da coluna, essa é a posição majoritária dos ministros militares do tribunal, em que cinco dos 15 integrantes são civis. Os outros dez ministros vêm das Forças Armadas. Indicada pelo presidente Lula, a presidente da Corte, ministra Maria Elizabeth Rocha, só vota em caso de empate – e nesses casos é obrigada pelo regimento a votar a favor do réu.

 

Para essa “ala militar”, melhor esperar “a poeira baixar” para reduzir a pressão sobre o tribunal e evitar uma contaminação política no julgamento que vai analisar se os militares devem perder o posto e a patente.

 

Essa também é a torcida das defesas dos militares, que apostam na vitória de um candidato ao Palácio do Planalto do campo da direita para evitar um revés no STM. A concessão de um indulto a Bolsonaro e a anistia aos condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por envolvimento nos atos golpistas de 8 de Janeiro devem ser um dos principais temas da campanha presidencial.

Enquanto o julgamento de Bolsonaro e dos generais foi feito de forma conjunta no Supremo, por integrarem o chamado “núcleo crucial” da trama golpista, no STM cada réu vai ter um relator e um revisor próprios e cada processo vai seguir o seu ritmo.

 

Isso porque o Ministério Público Militar entrou com cinco representações “para declaração de indignidade para o oficialato”, uma para cada condenado do Supremo.

Divergências

Em tese, uma representação dessa natureza leva, pelo menos, seis meses para ser analisada pelo plenário, avaliam integrantes da Corte militar.

É por isso que as defesas apostam em um pedido de vista, caso os julgamentos se iniciem ainda neste ano, o que serviria para ganhar tempo e empurrar o desfecho para 2027.

 

O próprio modus operandi do STM favorece a interrupção dos julgamentos, já que os ministros não têm o hábito de compartilhar o voto com os colegas antes da sessão, o que dificulta a construção de consensos previamente. E num tribunal composto por 15 ministros, as divergências são comuns.

 

“Como foram individualizadas as denúncias, as decisões não precisam ser tão uniformes quanto foi a do STF, mas precisam ter um eixo direcionador comum. O STM estará sob um foco onde nunca esteve”, diz uma fonte que acompanha de perto os desdobramentos do caso.

“A pergunta de um milhão de dólares é se os ministros militares vão se alinhar ou não. Porque os civis a gente sabe que cada um votará de um jeito. Mas os militares são uma incógnita.”

‘Democrata’

No caso de Bolsonaro, um sorteio eletrônico deixou o processo do ex-presidente nas mãos de um ministro militar – o tenente-brigadeiro do ar Carlos Vuyk de Aquino. “Aviadores costumam ter raciocínio bem cartesiano. É um ministro experiente e independente”, comenta um colega de Aquino que pediu para não ser identificado.

 

Em 2018, Aquino disse não ter dúvidas de que a democracia é o melhor regime para governar um povo. “Sempre fui um democrata e não vejo a menor possibilidade de ser diferente”, frisou em sua sabatina, após ser indicado ao cargo pelo então presidente Michel Temer. A pergunta foi enviada por uma moradora de Mato Grosso no portal do Senado e lida na ocasião.

 “E a gente vê nitidamente que o Brasil vem praticando isso de forma muito transparente, muito clara, quando o povo se manifesta nas urnas e escolhe os seus representantes; os representantes do povo que estarão aqui nesta Casa, fazendo as leis e conduzindo os destinos do nosso País.” 

Fuzilamento de músico

Em um dos casos mais rumorosos julgados recentemente pelo STM, Aquino votou em dezembro de 2024 a favor de reduzir as penas dos militares envolvidos na morte do músico Evaldo Rosa, cujo carro foi alvo de 62 tiros, e do catador de lixo Luciano Macedo.

Antes, nesse mesmo julgamento, o ministro chegou a endossar uma questão preliminar apresentada de ofício pelo ministro Artur Vidigal de Oliveira para anular a ação sob a alegação de cerceamento ao princípio da ampla defesa dos militares, já que todos tinham o mesmo advogado, o que inviabilizaria, em tese, um eventual confronto de versões dos réus.

 

Essa questão preliminar previa a preservação das provas e a retomada do processo, com defensores diferentes para cada militar, mas foi rejeitada pela maioria dos ministros do STM. Aquino acabou votando pela redução das penas ao julgar o mérito do caso.

As penas, que haviam sido fixadas pela primeira instância entre 28 anos e 31 anos de prisão, caíram para menos de quatro anos, já que a maioria dos ministros do STM reclassificou os homicídios de dolosos para culposos (quando não há a intenção de matar).

A revisora

Já a revisora do caso de Bolsonaro é a ministra civil Verônica Sterman, indicada ao STM por Lula em 2025, com o apoio da primeira-dama Janja e da ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann

Verônica defendeu Gleisi e o ex-marido dela, o ex-ministro Paulo Bernardo, em casos da Operação Lava-Jato.

Antes de ingressar no STM, ela não tinha experiência no ramo do direito militar. 

“O papel do Judiciário deve ser, acima de tudo, o de julgar sem colorido ideológico. A imparcialidade e a independência da magistratura são princípios inegociáveis para que as decisões sejam tomadas com base na Constituição e na lei”, disse Verônica em sua sabatina, em agosto do ano passado.

“A confiança da sociedade na justiça depende da garantia de que julgamentos sejam pautados exclusivamente pelos preceitos normativos e pelo compromisso com o Estado democrático de direito.”

 

A ministra foi aprovada no plenário do Senado com 51 votos favoráveis e apenas 16 contrários.

 

 

 

 

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