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Vitória contra o atraso

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

A Câmara dos Deputados da Argentina aprovou, por 135 votos a 115, a proposta de reforma trabalhista do presidente Javier Milei, a mais profunda alteração nas regras que regem as relações entre empregadores e funcionários no país desde os anos 1970.

 

Embora o texto tenha de retornar ao Senado, por conta da eliminação de um artigo que reduziria pela metade o valor do auxílio-doença, já há acordo para a aprovação e posterior sanção presidencial na semana que vem.

 

Com isso, Milei terá um trunfo e tanto para abrir a sessão ordinária do Congresso, em 1.º de março, e seguir animando os legisladores argentinos a apoiarem suas medidas, que, além de já terem derrubado a outrora galopante inflação do país, buscam desemperrar a economia.

 

A exemplo do que ocorre no Brasil, o mercado de trabalho argentino é caracterizado por um elevado grau de informalidade, estimado em mais de 40%. Antes de Milei, sucessivos governos, incluindo os militares, tentaram sem sucesso modernizar a ultrapassada legislação trabalhista do país.

 

Entre outras mudanças, a reforma chancelada pelo Congresso promove a flexibilização de contratos, reduz a base de cálculo de indenizações em caso de demissão e permite a ampliação da jornada de trabalho, das atuais 8 horas diárias para até 12 horas por dia. A jornada semanal de trabalho, contudo, segue sendo de 48 horas semanais.

 

Todas essas medidas reduzem custos legais e administrativos para a contratação de funcionários, ou seja, podem ampliar a oferta formal de trabalho em cenário de crescimento econômico sustentado.

 

Diante de uma mudança com potenciais tão significativos, o peronismo agiu como se esperava: semeando o caos. A Confederação Geral do Trabalho (CGT), principal central sindical do país e base de sustentação da cada vez mais desacreditada oposição, convocou uma greve geral que paralisou o sistema de transportes e fechou estabelecimentos comerciais e serviços públicos. Partidas de futebol foram suspensas, e até mesmo o tráfego aéreo com outros países, como o Brasil, foi prejudicado.

 

A manobra tinha o objetivo de pressionar a Câmara a barrar a reforma trabalhista. Por anos, a instrumentalização dos sindicatos pelos peronistas, cuja folha corrida de desserviços à Argentina é extensa, serviu aos interesses daqueles cujo único compromisso é manter o país no atraso.

 

Mas algo definitivamente parece ter mudado na Argentina, que, cansada do modelo de Estado onipresente defendido pelos peronistas, elegeu o libertário Milei em 2023 em meio a uma profunda crise econômica.

 

Apesar dos transtornos provocados pela greve, a maior desde que Milei assumiu a presidência, o Congresso aprovou a reforma, em um claro sinal de que a era de descalabros peronistas vai ficando cada vez mais distante. Isso se refletiu no mercado, com bolsa em alta, dólar em baixa e risco país em queda.

 

Afinal, a percepção mais ou menos generalizada entre os investidores na Argentina é de que o mercado de trabalho mudou drasticamente e era necessária uma mudança igualmente profunda na legislação que o rege. Sempre haverá quem esperneie, mas a reforma era inevitável.

Terreno fértil para a corrupção

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

A retrospectiva de 2025 do Brasil para o Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional descreve um verdadeiro annus horribilis. Como resumem os pesquisadores, foi “um cenário especialmente crítico, marcado pela intensificação da atuação do crime organizado, pelo avanço de esquemas de macrocorrupção e por disputas institucionais que colocaram à prova os mecanismos de controle, transparência e responsabilização”. O Brasil parece estar consolidando um estágio avançado de captura institucional do sistema político e judiciário. A degradação é profunda, cumulativa e endêmica. Remédios existem, mas são frequentemente neutralizados.

 

As fraudes multibilionárias do Banco Master oferecem um raio-X da engrenagem da corrupção. Acumulam-se evidências de que seu controlador, Daniel Vorcaro, costurou a bom preço redes de influências nas instâncias de poder para explorar brechas regulatórias. Técnicos do Banco Central se viram isolados quando suas decisões contrariaram interesses poderosos. O que deveria seguir o roteiro trivial das crises de liquidez bancária converteu-se em anomalia institucional: interferências atípicas, deslocamentos de competências, sigilos injustificáveis e uma mobilização incomum de instâncias que, em episódios anteriores, preservaram distância das decisões técnicas do regulador.

 

Os descontos ilegais, igualmente multibilionários, em aposentadorias do INSS por sindicatos e associações expuseram a corrupção como rotina administrativa. O roubo não dependeu de obras estatais faraônicas ou propinas cinematográficas, mas prosperou na gestão ordinária do Estado, aproveitando-se da fragilidade de controles internos e da inércia administrativa ante alertas reiterados.

 

A CPMI que deveria esclarecer responsabilidades e corrigir falhas estruturais tornou-se refém de constrangimentos e se mostra incapaz de atacar os núcleos decisórios. O escândalo ilustra um padrão: o crime se espalha no tempo, envolve múltiplos governos e atravessa espectros partidários num verdadeiro festival de “telhados de vidro”, diluindo a responsabilização e desmobilizando o ímpeto corretivo.

 

A degradação do combate à corrupção não decorre de um único Poder, mas de vícios do Legislativo, Executivo e Judiciário que se retroalimentam. Por vias distintas, cada um contribui para um ambiente de baixa responsabilização e alta tolerância institucional.

No topo da Justiça, as anulações em massa das condenações da Lava Jato, as mudanças jurisprudenciais erráticas, a concentração do poder e a naturalização de conflitos de interesses fizeram com que o Judiciário deixasse de ser uma instância de contenção e passasse a operar como fator de desestabilização do sistema anticorrupção. Não necessariamente por corrupção direta, mas por perda de credibilidade, previsibilidade e imparcialidade.

 

O Executivo trata a corrupção como um problema de reputação, não como risco sistêmico. Órgãos de controle são enfraquecidos, aliados suspeitos são escudados em nome da “governabilidade”, os discursos não se traduzem em prioridades administrativas e as respostas aos escândalos são tardias e defensivas.

O Congresso se mostra como um epicentro da corrupção, não necessariamente – ou não só – por crimes isolados, mas pela institucionalização de incentivos perversos: opacidade, dispersão de responsabilidades, blindagem corporativa. Proliferam mecanismos nebulosos de gasto público e robustece-se a resistência a medidas de integridade, como regras de rastreabilidade ou eficácia. As CPIs são esvaziadas e instrumentalizadas para encenação política ou chantagem recíproca.

 

O balanço não é inteiramente sombrio. A Operação Carbono Oculto atingiu as engrenagens financeiras do crime organizado; o Supremo Tribunal Federal (STF) busca resgatar alguma racionalidade sobre as emendas parlamentares; o Senado, sob pressão popular, abortou a chamada “PEC da Blindagem”.

 

Os anticorpos existem, mas estão debilitados e atuam em desvantagem. Na soma dos fatores, prevalecem um Executivo conivente, um Legislativo opaco e um Judiciário desmoralizado como árbitro imparcial, criando um terreno fértil para que o câncer da corrupção prospere.

Inflação em queda é vitória do BC

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação, tende a chegar, em meados deste ano, a seu nível mais próximo do centro da meta inflacionária de 3% para o acumulado em 12 meses, informou recente reportagem do Estadão com base em estimativas do mercado financeiro. Especialistas ouvidos consideram a tendência consistente e concordam que pode servir à exploração eleitoral, embora as opiniões se dividam sobre o peso que a economia terá na campanha.

 

De fato, o monitoramento do Banco Central (BC), que traça o paralelo entre a meta de inflação ao longo do tempo e o IPCA efetivamente registrado, lista também as tendências futuras no horizonte de um ano, captadas pelo boletim Focus, e mostra a inflação ao redor de 3,3% de março a julho deste ano. O mais próximo que o IPCA chegou da meta de 3%, em vigor desde janeiro de 2024, foi em abril daquele ano, com 3,69% – e por pouco tempo, já que no mês seguinte voltou a se aproximar dos 4%, numa escalada que levou a taxa aos 5,53% em abril de 2025.

 

Durante todo esse período, o Banco Central resistiu à pressão incessante do Planalto e do PT para afrouxar a política monetária, enfrentamento que foi ainda mais intenso nos dois primeiros anos do mandato de Lula da Silva, quando o banco ainda era presidido pelo indicado da gestão anterior, como manda a lei da autonomia. Foi a austeridade do BC que criou as condições para a atual expectativa de queda consistente da inflação, apesar da política de gastos crescentes do governo.

 

Mas, por óbvio, não será a imagem que o lulopetismo irá explorar na campanha eleitoral. Por certo, deve tentar surfar uma onda que não escalou, mas que não restem dúvidas: a busca pelo controle da inflação está sendo um esforço solitário do Banco Central.

 

Diante do alívio do cenário, o Comitê de Política Monetária (Copom) adiantou que pretende iniciar na reunião de março o ciclo de queda da taxa básica de juros, hoje em exorbitantes 15% ao ano. Mas fez questão de reafirmar “o firme compromisso” de trazer a inflação à meta. Há quem considere a meta de inflação irreal, mas, como o próprio presidente do BC, Gabriel Galípolo, declarou, o debate mais importante é sobre por que o País tem dificuldade de fazer a inflação convergir para a meta mesmo com juros tão altos.

 

Este jornal, mais uma vez, defende que a política fiscal tem de acompanhar o esforço da política monetária. Por mais restritivos que sejam os juros, a linha econômica do lulopetismo é incompatível com o controle inflacionário. Ao irrigar a economia com recursos públicos, com incentivo ao crédito, subvenções em série e simultâneos programas de distribuição de renda, Lula ao mesmo tempo fragiliza as contas do governo, que gasta muito mais do que arrecada, e gira o motor do consumo além do que a produção nacional é capaz de sustentar.

 

O quadro mais tranquilo da inflação neste início de 2026 ainda embute riscos e, como destaca o economista André Braz, da FGV, é preciso entender o que está por trás dos preços, como eles se formam e quais forças estão em jogo a cada momento.

Rombo estatal fora do Orçamento

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Depois de normalizar a retirada dos mais variados gastos federais do balanço orçamentário para vender a ilusão de ter acomodado o resultado fiscal aos limites do arcabouço, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva chega a outro patamar em matéria de manobra e projeta que neste ano o déficit das estatais seja de apenas R$ 1,07 bilhão. Para quem pergunta como isso será possível diante da previsão do próprio decreto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de déficit primário de R$ 9,1 bilhões apenas com os Correios, a resposta é simples: basta excluir o rombo do cálculo.

 

Um dia depois de apresentar a LDO, o governo retificou dados e deixou claro que, sem a exclusão de grande parte dos déficits, a estimativa de rombo das estatais para 2026 seria de R$ 15,3 bilhões. E, assim, a gestão lulopetista inaugura uma nova fase de sua habitual farsa fiscal: além de deixar de fora boa parte dos gastos federais, agora esconde o saldo negativo de estatais ineficientes.

 

A manobra foi desenhada em dezembro de 2025, com uma medida incluída no projeto da LDO deste ano, aprovada pelo Congresso, que abriu caminho para retirar até R$ 10 bilhões em despesas do Programa de Dispêndios Globais destinadas a estatais com plano de reequilíbrio econômico-financeiro. Parece – e foi – feita sob medida para os Correios, que, atolados na pior crise de sua história, apresentaram um mês antes um plano de reestruturação para se habilitar a um empréstimo bancário de R$ 12 bilhões, garantido pelo Tesouro Nacional.

 

A empresa já recebeu R$ 10 bilhões, cifra semelhante ao que o Congresso permitiu que fosse retirado das despesas destinadas às estatais. Mesmo assim, a direção dos Correios reforça que irá precisar de, ao menos, mais R$ 8 bilhões para tocar uma reestruturação cercada de incertezas diante do gigantesco rombo acumulado pela estatal.

 

Na LDO o governo projetou déficit de R$ 8,2 bilhões para 2026, mas recalibrou depois de um documento da própria estatal revelar a expectativa de chegar a dezembro com saldo negativo de R$ 9,1 bilhões. A lista de revisões governamentais, aliás, merece destaque pela enorme diferença nos valores dos resultados das estatais. Alguns exemplos: o déficit da Emgepron cai de R$ 17,79 bilhões para R$ 3,1 bilhões; Hemobrás, de R$ 8,59 bilhões para R$ 967 milhões; Infraero, de R$ 4,36 bilhões para R$ 655 milhões; e Serpro, de déficit de R$ 3,56 bilhões para superávit de R$ 285 milhões.

 

O próprio déficit primário total das estatais foi revisto de R$ 11,07 bilhões para R$ 15,3 bilhões, resultado que exigiria do Executivo uma compensação no orçamento fiscal, com redução do espaço para gastos públicos. Isso, claro, sem os expurgos que fizeram o rombo cair para pouco mais de R$ 1 bilhão. A “mágica” resolveu o que se tornaria um grande problema para Lula, um notório gastador de dinheiro público. E, como sempre, a opção pelo corte de gastos foi substituída por um “puxadinho” nas contas públicas.

 

De exceção em exceção, o governo cria um rol de excepcionalidades com potencial para mascarar em mais de uma centena de bilhões de reais o rombo deixado pelo terceiro mandato de Lula. Embora diga estar cumprindo a meta fiscal, o petista, em nome de seu projeto expansionista, tem abusado de artifícios para gastar sem registrar.

 

Assim tem feito em programas de distribuição de renda, investimento do PAC, ajuda emergencial a Estados e municípios, precatórios, gastos em saúde e educação com uso do Fundo Social, despesas com Defesa e com ressarcimento às vítimas de fraudes no INSS, entre outras.

 

A prática tem produzido fantasias como a de 2025, ano em que, com o resultado formal de déficit de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB), o governo diz ter cumprido oficialmente a meta do arcabouço, que previa margem de 0,25% do PIB para déficit. Ocorre que, sem os providenciais expurgos da engenharia contábil do governo, o saldo real foi déficit de 0,48% do PIB, quase o dobro do fixado pelas regras fiscais. Uma pérola do ilusionismo fiscal que o governo se esmera em lapidar em 2026, ano de eleições presidenciais.

Reduzir jornada requer prudência

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O impasse entre o governo Lula e o Congresso Nacional em relação à redução da jornada de trabalho evidencia a necessidade de debater o tema com mais comedimento. A meses da disputa eleitoral, não há a menor condição de discutir uma proposta dessa natureza com a profundidade que ela merece, sopesando os profundos impactos de uma mudança como essa na economia brasileira e em setores como a indústria e o agronegócio.

 

De um lado está o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que apensou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) a outra PEC, de autoria de Reginaldo Lopes (PT-MG), apresentada em 2019. Ambas tratam da redução da jornada de trabalho das atuais 44 horas para 36 horas semanais, mas a primeira entraria em vigor 360 dias após a promulgação, enquanto a segunda estabelece um prazo de dez anos para que isso ocorra. A proposta, segundo Motta, pode ser votada já em maio deste ano.

 

O governo, por sua vez, prefere enviar um Projeto de Lei Complementar (PLP) com urgência constitucional para tratar do assunto, regime que acelera a tramitação do texto e tranca a pauta de votações na Câmara caso ele não seja apreciado em 45 dias. O projeto diminui a jornada para 40 horas semanais, conta com o apoio das centrais sindicais e é mais fácil de ser aprovado, pois precisa de maioria simples, enquanto uma PEC exige maioria qualificada e dois turnos de votação.

 

As divergências expressam mais uma disputa pela paternidade da benesse do que uma preocupação com as consequências da medida. É óbvio que todo trabalhador gostaria de trabalhar menos sem ter perda salarial. A questão é saber se o setor privado tem condições de arcar com isso. E uma reportagem publicada pelo Estadão deixa claro que essa conta não fecha assim tão facilmente.

 

Um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que o custo do emprego formal aumentaria 25,1%, ou R$ 178,8 bilhões, caso a jornada de trabalho fosse reduzida para 36 horas semanais. A medida resultaria em redução na produção, perda de produtividade, retração econômica, dificuldade de adaptação para micro e pequenas empresas, elevação da inflação e, por óbvio, aumento da informalidade.

 

Mesmo o agronegócio, que, diferentemente da indústria de transformação, teve aumento da produtividade nos últimos 30 anos, projeta um aumento no custo da mão de obra de até 25% e um risco de perda de vagas de 1% a 2%. Não se trata de catastrofismo, mas de realidade. Basta observar experiências internacionais para saber que a redução da jornada de trabalho não leva à criação de mais empregos formais.

 

É até esperado que o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, menospreze os riscos à economia, tendo em vista seu histórico como sindicalista, mas é inaceitável que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, corrobore essa visão ingênua. Talvez somente a vontade de deixar a pasta o quanto antes e assumir a coordenação da campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva explique o fato de Haddad ter dito que a redução da jornada não teria impacto fiscal, como se a queda do emprego formal e a redução da atividade produtiva não diminuísse a arrecadação de impostos nem aumentasse os gastos com o seguro-desemprego.

 

Procurada pela reportagem, a Fazenda recomendou a leitura de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) segundo o qual a redução da jornada aumentaria o custo do valor horário do trabalho em 7,14% a 15,32%, índice que poderia ser absorvido pelas empresas sem grande impacto na economia. Mas o mesmo estudo reconhece que 79,7% dos trabalhadores formais cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais. Os próprios autores, no entanto, têm a humildade de reconhecer que suas conclusões não esgotam o debate e que avanços futuros dependem “de aprofundamento analítico e de novas investigações”.

 

Com a economia em desaceleração, desemprego em níveis historicamente baixos e inflação ainda acima da meta, tudo o que o governo e o Congresso deveriam ter era prudência, e não pressa em fazer essa discussão. Só mesmo conveniências políticas explicam tanta urgência.

Quebra de patentes de canetas emagrecedoras é oportunismo eleitoral

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

Está contaminado por oportunismo eleitoral o movimento que ganha força na Câmara para quebrar a patente dos medicamentos Mounjaro e Zepbound, usados no tratamento de diabetes e obesidade. Além de não haver justificativa plausível para a iniciativa, ela tem tudo para criar atritos com a indústria farmacêutica, inibir investimentos em pesquisa, levar insegurança jurídica ao setor e expor o país a retaliações. Não há dúvida de que o Brasil teria mais a perder que a ganhar.

 

No início do mês, o plenário da Câmara aprovou urgência para analisar o Projeto de Lei do deputado Mário Heringer (PDT-MG) para quebrar a patente. Com isso, ele pode ser votado a qualquer momento sem passar por comissões. Heringer argumenta que a obesidade é um problema grave de saúde pública e que os preços altos impedem o acesso (uma caixa de Mounjaro com quatro canetas custa de R$ 1,4 mil a R$ 3 mil). “É um medicamento elitizado, e queremos transformá-lo numa ferramenta de saúde pública”, disse.

 

Pela legislação brasileira, novos medicamentos são protegidos por até 20 anos a partir do pedido de registro no Instituto Nacional de Propriedade Industrial — a patente do Mounjaro vai até 2036. É justo que a farmacêutica responsável pelo custo de descoberta e desenvolvimento possa ter exclusividade na venda por um período determinado. A americana Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, afirma que “o enfraquecimento das proteções de propriedade intelectual tornará o Brasil menos atraente para futuros investimentos em inovação”.

 

A quebra de patente pode ser justificável, mas é fato extremamente raro. Em três décadas desde a criação da lei brasileira, ocorreu uma única vez, em 2007, com o medicamento Efavirenz, usado por pacientes com HIV. Tratava-se de situação específica. Ele era oferecido na rede pública, e a permissão para fabricação na Fiocruz proporcionou economia. Em 2021, em plena pandemia, aprovou-se quebra da patente de vacinas e remédios, mas os próprios laboratórios incentivaram um acordo.

 

É verdade que a obesidade é um problema grave de saúde pública. Entre 2006 e 2024, cresceu 118% e hoje atinge um em cada quatro adultos no Brasil. Mas não se trata de situação de emergência ou calamidade que justifique quebrar a patente de um medicamento. Até porque não há desabastecimento no mercado, e há produtos similares. As canetas emagrecedoras ainda são caras e, ao menos por enquanto, não há perspectiva de que sejam oferecidas pelo SUS. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, diz que, em relação ao Mounjaro, seguirá a Organização Mundial da Saúde. “Neste momento, não existe esse debate lá”, afirmou.

 

Se está realmente preocupado com o avanço da obesidade no país, o Congresso faria melhor em apoiar políticas públicas que, desde cedo, melhorassem a alimentação dos brasileiros, incentivando produtos saudáveis em detrimento dos ultraprocessados. Apostar em batalhas de fundo eleitoreiro certamente não resolverá o problema e criará outros, afugentando indústrias e investimentos do país.

 

Mounjaro é uma das canetas emagrecedorasMounjaro é uma das canetas emagrecedoras — Foto: George Frey/Bloomberg

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