Um desfile de equívocos
Por Vera Magalhães / O GLOBO
O fuzuê armado com o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a Lula é um daqueles episódios que envolvem enorme risco para todos os envolvidos, mobilizam fartamente pessoas, instituições e espaço na imprensa — e podem não produzir ganho para ninguém.
Para a escola, o que deve ter parecido uma jogada genial no momento da definição do enredo pode ser um tiro n’água. Diferentemente de outras agremiações que faturam alto com patrocínio estatal diante de enredos igualmente laudatórios e feitos sob encomenda, as restrições da Justiça Eleitoral acabaram por blindar os cofres públicos.
Se a ideia era dar um jeito de furar a lógica do sobe num ano, cai no ano seguinte que marca os desfiles, não deixa de ser uma aposta arriscada. Diante dos erros técnicos e da visível discrepância com as escolas mais tradicionais e ricas, a possibilidade de a Niterói cair para a Série Ouro continua razoável.
E, caso isso aconteça, o que começou com uma enorme colher de chá para o presidente em pleno ano eleitoral virará um mico de proporção ainda maior, porque a oposição que hoje protesta e representa na Justiça Eleitoral ainda tripudiará traçando paralelos entre a sorte de carnaval e a das urnas.
Do ponto de vista político e eleitoral, que ganho pode haver para Lula e para o PT com a apresentação da vida do petista na Sapucaí? Nenhum. Quem não vota nele não tem por que mudar de ideia depois de acompanhar o desfile eivado de obviedades, puxa-saquismo e boa dose de mistificação.
Quem já vota no presidente terá no máximo uma chance a mais de cantar o jingle de 1989 disfarçado de samba-enredo. E o eleitor que Lula precisa cativar, aquele que até já votou nele, mas está descontente com seu governo, tem nesse episódio mais razões para se irritar que para ser reconquistado.
Tirando os fanáticos por esse ou aquele partido, o brasileiro médio não quer que atravessem seu samba com a antecipação da carnificina eleitoral. Para esses, a política na folia só tem graça como zoeira, para desopilar as agruras do dia a dia. Isso é muito diferente de levar a uma das festas mais emblemáticas da Terra um festival de proselitismo político que reproduz, num espaço recreativo, a polarização raivosa, com vaias de um lado e aplausos de outro.
Por fim, existe um enorme risco de a avalanche de representações na Justiça Eleitoral resultar pelo menos em multa para o próprio Lula, o PT, o governo ou alguns dos muitos que ignoraram as recomendações da cúpula do partido e da Advocacia-Geral da União e tiraram, sim, uma casquinha eleitoreira do desfile da escola de Niterói.
Ministros, deputados e até o vice-presidente compareceram a um camarote oficial da Prefeitura e, de lá, postaram, fizeram o L e cantaram o jingle-enredo a plenos pulmões, num episódio escancarado de campanha antecipada.
O que justifica tal aposta diante de tanto a perder e quase nada a ganhar? Difícil de enxergar à luz do marketing, da ciência política, da matemática ou do simples bom senso.
Lula cumpriu uma maratona carnavalesca nesse fevereiro eleitoral. Além do Rio, deu pinta no Recife e em Salvador. É uma boa notícia um presidente que reconhece a importância econômica, social, turística e cultural do carnaval, ainda mais quando se lembra o passado recente, com Jair Bolsonaro publicando até vídeo de golden shower nas redes sociais para estigmatizar a folia.
O objetivo, além de traçar essa diferença óbvia —e, aí sim, potencialmente positiva para o petista—, é demonstrar que ele está em boa forma física, já que sua idade é explorada por Flávio Bolsonaro para enfraquecê-lo.
Acontece que os obstáculos no caminho da reeleição de Lula vão muito além desse cálculo midiático e superficial. Se ele tivesse ficado longe da Sapucaí e proibido seus ministros de ir, postasse um agradecimento sóbrio à escola pela homenagem e seguido o baile, a chance de surpreender e agradar ao eleitor ressabiado seria maior.
Lula ao lado do prefeito do Rio, Eduardo Paes, e a dupla da Acadêmicos de Niterói — Foto: Ricardo Stuckert
Enxugando gelo nos Correios
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Os Correios começaram nesta semana a colocar em prática os compromissos que assumiram por meio do plano de reestruturação aprovado no fim do ano passado. A empresa pretende leiloar entre 60 e 70 imóveis ociosos em todo o País neste ano e prevê arrecadar R$ 1,5 bilhão com a medida. Parece uma meta ousada, para não dizer excessivamente otimista, tendo em vista que, nos últimos seis anos, a venda de lojas, centros de distribuição e escritórios rendeu valores bem mais modestos – foram apenas R$ 45,7 milhões, segundo reportagem do Estadão/Broadcast.
Imóveis, como se sabe, são ativos com alto custo de manutenção para qualquer empresa, e não seria diferente com os Correios, cujo estoque é de 2,3 mil unidades. Faz todo o sentido se livrar de galpões e prédios administrativos que estão fechados ou abandonados há anos. Mas o problema da empresa, como se sabe, é de outra natureza e magnitude e não há como resolvê-lo de maneira tão simples.
O prejuízo dos Correios no ano passado ainda não foi divulgado, mas a estimativa é de que as perdas ultrapassem a marca de R$ 10 bilhões. Não se trata de um resultado pontual, mas de um persistente desequilíbrio entre receitas e despesas que se agrava de maneira ininterrupta desde 2023 e que resultou em um buraco de R$ 20 bilhões.
No lugar dos Correios, qualquer empresa privada faria um esforço hercúleo para reduzir gastos. Mas, no governo Lula, a resposta é sempre apelar a receitas. A primeira solução foi um empréstimo de R$ 12 bilhões concedido por um consórcio de cinco bancos, entre eles Banco do Brasil e Caixa, montante que representou um alívio temporário para o caixa da empresa.
A segunda foi revelada em uma reportagem do jornal Valor, segundo a qual o Executivo cogita enviar ao Congresso uma proposta de revisão da lei postal, especialmente as regras que estabelecem a universalização dos serviços. Prestar serviços em todo o País, segundo os Correios, custa R$ 6 bilhões por ano, mas apenas o montante de R$ 1,9 bilhão é coberto por benefício fiscal.
Para financiar o valor em aberto e sustentar os Correios, o governo analisa a possibilidade de estabelecer a cobrança de uma taxa das companhias privadas que atuam no setor, repassar recursos do Orçamento Geral da União ou até mesmo deixar de atender a todos os municípios brasileiros.
A última mais parece um balão de ensaio. Basta imaginar a caravana de prefeitos que iria até Brasília para pressionar parlamentares e obrigar o governo a rever a medida. Ora, se nem mesmo uma estatal se dispõe a atuar em municípios mais isolados, não se deve esperar que uma empresa privada o faça sem cobrar caro por isso. Por outro lado, não há sentido em manter uma estatal que preste serviços apenas em locais lucrativos se a concorrência já o faz. Nesse caso, seria mais adequado privatizá-la ou simplesmente liquidá-la.
Impor uma contribuição às empresas tampouco parece crível, sobretudo se a ideia é replicar o modelo do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust). Desde que foi criado, em 2000, o fundo arrecadou cerca de R$ 62,5 bilhões, mas apenas 2,4% foram efetivamente aplicados em projetos do setor, a despeito de toda a pressão que as teles fazem para que os recursos sejam utilizados. É improvável que o Congresso esteja disposto a aprovar uma medida como essa.
Dado o histórico, a solução que mais combina com o governo Lula é o aporte de recursos públicos nos Correios. Não há espaço no Orçamento para uma despesa dessa monta, mas basta um malabarismo para que ela seja feita sem afetar as regras fiscais – como, aliás, governo e Congresso fizeram ao apoiar a retirada de investimentos do Ministério da Defesa do limite de despesas e da meta fiscal.
Mas o governo não parece estar com pressa neste momento e, se possível, empurrará o problema com a barriga até o limite, ou seja, para depois das eleições de outubro. A situação dos Correios é grave, mas o Executivo finge que não. Tal negacionismo não trará os Correios ao mundo dos vivos, mas certamente sairá caro para o Brasil.
A situação de Toffoli era insustentável
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A saída do ministro Dias Toffoli da relatoria das investigações envolvendo executivos do Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF), anunciada ontem à noite após uma reunião dos dez ministros da Corte, foi a solução institucional encontrada para conter uma crise que há meses tem degradado ainda mais a confiança pública na imparcialidade do STF.
Ao se afastar do caso, ainda que de forma negociada, vale dizer, sem o reconhecimento formal de seu evidente impedimento, Toffoli cessou, ao menos por ora, os danos que seu vínculo comercial com o Banco Master vinham causando à confiança pública na condução das investigações e, principalmente, à legalidade de uma provável ação penal que, ao final do inquérito da Polícia Federal (PF), tende a ser aberta contra Daniel Vorcaro et caterva. Nesse sentido, o afastamento de Toffoli era a medida processual saneadora fundamental para evitar nulidades futuras.
Em nota subscrita por todos os ministros, o Supremo afirmou não haver impedimento legal de Toffoli e destacou que ele atendeu a todos os pedidos formulados pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR) no curso das investigações. Foi um claro ato de desagravo ao ministro, pois pululam razões de fato e de direito no sentido diametralmente oposto. Mas, ao fim e ao cabo, prevaleceu a prudência de resguardar o Supremo e evitar vícios processuais que possam contaminar os desdobramentos penais de uma investigação de altíssima sensibilidade político-institucional.
A crise reputacional do STF foi agravada pela revelação de que Toffoli era sócio oculto da Maridt, empresa – formalmente controlada por dois de seus irmãos – que realizou negócios com fundos e indivíduos ligados ao Banco Master e a Vorcaro, pessoalmente. Um relatório sigiloso da PF, encaminhado ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, teria detalhado a extensão dessas relações e levantado dúvidas sobre a natureza da participação do ministro na empresa. A Lei Orgânica da Magistratura autoriza juízes a deter participação societária e receber dividendos, mas veda o exercício de funções de gestão. É justamente a suspeita que recai sobre Toffoli. Como seguir supervisionando diligências diante disso?
Seja qual for o teor do relatório da PF, a mera existência do documento já bastava para colocar acima de qualquer dúvida a imperiosa necessidade de Toffoli se afastar da relatoria do caso enquanto é investigada toda a extensão de sua relação com a Maridt e desta com o Banco Master.
Ao agir coletivamente diante desses novos fatos, o STF evitou o prolongamento de um desgaste de consequências imprevisíveis pela recalcitrância de Toffoli em deixar o caso. A alternativa – prolongar o impasse até eventual julgamento de uma arguição de suspeição – exporia ainda mais a Corte. A solução negociada, embora tardia, não deixa de ser bem-vinda.
A bem da verdade, Toffoli jamais deveria ter aceitado a relatoria do caso Master quando o processo lhe foi distribuído por sorteio, no final de novembro do ano passado. Se, como agora se sabe, o ministro tinha conhecimento das relações societárias da Maridt e das conexões da empresa e de seus irmãos com Vorcaro e interpostas pessoas que poderiam suscitar dúvida sobre sua imparcialidade, o gesto de boa-fé e republicanismo teria sido a recusa. Teria sido uma louvável manifestação de respeito à lei processual e ao próprio Supremo, dragado para uma gravíssima crise reputacional causada pelo comportamento impróprio de alguns de seus ministros.
Não são poucos os que apostam na confusão para que, adiante, uma eventual ação penal contra Vorcaro et caterva venha a ter o mesmo destino da Lava Jato. Recorde-se que o próprio Toffoli, por muito menos do que os elementos de suspeição que ora pesam sobre ele, fez tábula rasa da maior operação de combate à corrupção de que o País já teve notícia, o que não apenas exonerou muitos criminosos confessos, como hoje permite que posem como vítimas. Vorcaro não poderia ter um sonho mais doce do que esse.
Toffoli: Relatório da PF tem ligações com Vorcaro, convite para festa e conversas sobre pagamento
Por Malu Gaspar e Johanns Eller — Brasília e Rio / O GLOBO
O relatório da Polícia Federal (PF) sobre as conexões entre Dias Toffoli e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, elenca telefonemas entre os dois, o envio de um convite para uma festa de aniversário do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e conversas de Vorcaro com outras pessoas a respeito de pagamentos relacionados ao resort Tayayá, da família do ministro.
Esses são alguns dos muitos itens que recheiam o material, que tem cerca de 200 páginas e tem sido descrito por integrantes do Supremo como “nitroglicerina pura”. O documento está sendo avaliado pelo presidente do Supremo, Edson Fachin, que já pediu explicações a Toffoli e vai decidir o encaminhamento da suspeição contra o ministro, que é o relator das investigações do Master no Tribunal.
Entregue na segunda-feira (9) pessoalmente a Fachin pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, o documento não pede expressamente a suspeição de Toffoli, mas enumera os achados no celular Vorcaro que indicariam ser impossível o ministro não só permanecer à frente da relatoria, mas também participar do julgamento do caso pelo plenário da Corte.
Já interlocutores de Toffoli têm dito que não existe nenhum elemento realmente relevante no material além do envio de um convite de aniversário que não foi respondido e quatro ligações.
Ainda assim, segundo a colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, o próprio ministro do STF admite aos mais próximos ter recebido dinheiro da empresa Maridt, dona do resort, que em 2021 vendeu sua participação para um fundo administrado por familiares de Vorcaro. Segundo Toffoli, os repasses seriam regulares, uma vez que ele também é sócio da empresa junto com os irmãos, José Carlos e José Eugênio. Até agora não se sabia que o magistrado era sócio diretamente da Maridt.
A equipe da coluna apurou que a transação entre a companhia dos Toffoli e o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e tido pelos investigadores como um de seus principais operadores, é um dos temas destacados no relatório. Zettel seria, inclusive, um interlocutor constante do banqueiro, e o resort do ministro, um dos assuntos tratados entre eles.
Em nota oficial, Toffoli afirmou que o relatório da PF trata de “ilações” e sustenta que a corporação não tem legitimidade para pedir sua suspeição por não ser parte no processo. E prosseguiu: “Quanto ao conteúdo do pedido, a resposta será apresentada pelo ministro ao presidente da Corte”.
Embate com PF
Toffoli já estava sob pressão para deixar a relatoria do Master antes da repercussão do elo entre o resort e seus irmãos e do dossiê entregue pelo diretor-geral da Polícia Federal a Fachin. Desde que assumiu o caso, o ministro concedeu uma série de decisões controversas que colocaram em xeque sua isonomia para permanecer à frente do processo.
O magistrado assumiu a relatoria após atender a um pedido da defesa de Daniel Vorcaro que defendia que o processo fosse para o Supremo, porque o nome de um político com foro privilegiado, o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), surgiu entre os documentos apreendidos pela PF.
Toffoli determinou o sigilo da investigação no mesmo dia em que foi a Lima, no Peru, de carona em um jatinho com o advogado de um dos diretores do Master, para assisti à final da Libertadores de 2025. A aeronave pertencia ao empresário Luiz Pastore, que foi filmado visitando o ministro no Tayayá ao lado do banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, em vídeo de 2023 revelado pelo Metrópoles.
Posteriormente, Dias Toffoli ordenou que a custódia das provas apreendidas ficasse com o Supremo e que todas as oitivas ocorressem na Corte, e não na Polícia Federal. Às vésperas do Natal, o ministro ainda determinou uma acareação entre o CEO do Master, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, no dia 30 de dezembro antes da realização de qualquer depoimento.
Toffoli acabou voltando atrás e autorizou que o trio depusesse a uma delegada da PF, a quem caberia a decisão sobre a necessidade de acareação. Mesmo assim, Toffoli elaborou uma extensa lista de perguntas para os depoentes, o que não é usual. Como revelamos na coluna, a inquirição de Vorcaro foi marcada por questionamentos à decisão do BC de liquidar o Master no lugar de indagações sobre as fraudes na venda de carteiras para o BRB apontadas pelos investigadores.
Em janeiro, o magistrado acusou a PF de “inércia” e “falta de empenho” por ter deflagrado a segunda fase da Operação Compliance Zero um dia após o prazo determinado por ele. A corporação, por sua vez, argumentou à época que só pôde dar início às diligências após confirmar todos os endereços dos alvos. Como mostramos no blog, as medidas já haviam sido solicitadas à Justiça em outubro de 2025, um mês antes da megaoperação que prendeu Vorcaro e da liquidação do Master pelo BC.
Outras duas decisões fizeram crescer a insatisfação com Toffoli na Polícia Federal. O ministro inicialmente barrou o acesso dos investigadores ao material apreendido na segunda etapa da operação, o que provocou diversas críticas. Depois, recuou e autorizou o acesso do Ministério Público Federal (MPF) ao material. Por último, liberou a perícia da PF, mas restrita a quatro agentes indicados por ele.
No dia seguinte, determinou que a Polícia Federal apresentasse um novo cronograma para os depoimentos dos investigados e diminuiu de seis para dois dias o prazo para o cumprimento das inquirições, intervalo considerado exíguo por integrantes da corporação.
TSE mantém mandato do senador Jorge Seif (PL-SC) por unanimidade
O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) rejeitou por unanimidade nesta quinta (12) o recurso que pedia a cassação e a inelegibilidade do senador Jorge Seif (PL-SC).
Os ministros seguiram voto do relator. O ministro Floriano de Azevedo Marques reconheceu "penumbra" em gastos de campanha do senador, mas considerou que não havia provas de que Seif estaria nos voos feitos pelas aeronaves da rede de lojas Havan. O senador comemorou a decisão e afirmou que ela representa uma "vitória do povo".
"A verdade pode até ser atacada, mas ela nunca deixa de existir", declarou.
O parlamentar foi acusado de abuso de poder econômico. Ele teria se beneficiado da estrutura da Havan no estado durante sua campanha em 2022. O processo estava previsto para ser julgado em 2024, mas o tribunal entendeu que era necessário aprofundar as investigações e adiou o caso.
É vedado a candidatos receber doação de empresas. O uso de aeronave de empresas privadas nas campanhas se enquadraria como uma forma de doação, por isso também é ilegal.
O Ministério Público estadual deu parecer favorável à cassação. A ação foi movida pela coligação liderada pelo PSD em Santa Catarina —Seif ainda tem quatro dos oito anos de mandato pela frente.
"Como foi dito desde o voto do ministro relator, há comprovação de fatos com provas indiciárias do ocorrido. O que não há é prova cabal que possa levar a uma cassação de mandato neste caso", disse a ministra Cármen Lúcia, presidente do TSE.
Casca de banana
Por Merval Pereira / O GLOBO
Nunca houve uma escola de samba que elogiasse um governo em ano eleitoral. Já houve homenagens a políticos mortos, como Getúlio Vargas ou JK, e até vivos, como Lula no primeiro ano de seu primeiro mandato, mas nunca houve exploração eleitoral meses antes de uma eleição presidencial. Sabe aquela velha história de alguém que procura problemas e atravessa a rua para escorregar numa casca de banana? O próprio Lula deveria ter recusado a homenagem, mas, ao contrário, procurando se aproveitar dela. É, evidentemente, uma burla da lei, já exposta como campanha antecipada, fora da hora prevista pela legislação. Já houve muita gente sendo punida por causa disso.
O ex-presidente Bolsonaro tornou-se inelegível devido ao abuso de poder político identificado na reunião com embaixadores estrangeiros em que atacou as urnas eletrônicas. Como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dificilmente cassa a vitória de um candidato, ainda mais a presidente da República, a questão será resolvida antes da eleição de outubro, podendo se transformar em obstáculo à candidatura de Lula à reeleição. O TSE será presidido na eleição pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Nunes Marques, que votou contra a punição a Bolsonaro considerando que a reunião não teve capacidade de influir no resultado da eleição.
A pena para campanha fora de época pode variar de uma simples multa até a inelegibilidade e, certamente, dependerá do momento político. Não é bom para Lula a imagem de arrogância, além de haver o risco adicional de manifestação antipetista em pleno Sambódromo. Ele não está preocupado com isso porque, como já disse a ex-presidente Dilma certa ocasião, “a gente faz o diabo para se eleger”. Alguma autoridade deveria intervir — ou a própria Liesa deveria proibir esse tipo de comportamento de uma escola de samba, mas já está muito em cima da hora, seria traumático. Antes, o famoso ministro do “Vai Dar Merda”, criado por Chico Buarque, deveria ter entrado na pista para impedir esse desfile.
O TSE poderia intervir, mas a alegação é que, sem saber exatamente como será o desfile, haveria censura prévia. Poderia pedir para a escola que homenageará Lula, a Acadêmicos de Niterói, mandar o roteiro completo para análise. Pelo que já se sabe, o refrão do samba-enredo é o jingle mais conhecido de “Olê, Olê, Olá, Lula, Lula”. Haverá referências explícitas ao ex-presidente Bolsonaro, retratado como vampiro com Marcelo Adnet no papel, e aos programas sociais dos governos petistas. O próprio Lula será representado por um artista famoso ainda não revelado.
Não há nenhuma relação direta de favorecimento entre carnaval e vitória eleitoral, embora, ao aparecer para milhões de pessoas na transmissão do evento, o homenageado Lula será exibido por cerca 90 minutos para o país todo. Antes mesmo de ser candidato oficial, mas já famoso pela “caça aos marajás”, o ex-presidente Collor aproveitou o Sambódromo para testar sua popularidade. Andou pela pista de ponta a ponta e foi delirantemente aplaudido. Escola de samba e futebol são coisas nossas, brasileiras, que não interferem no ânimo do eleitor de maneira direta. Presidentes foram eleitos a despeito do sucesso ou do fracasso da seleção brasileira de futebol.
Claro que, em 1994, ao receber a seleção tetracampeã do mundo com o presidente Itamar Franco, o candidato governista, Fernando Henrique Cardoso, teve vantagem momentânea ao carregar a taça. Quatro anos depois, venceu a reeleição presidencial no primeiro turno, apesar da derrota da seleção nacional, demonstrando que foi o Plano Real, e não o futebol, que o colocou lá. Em 2002, o pentacampeonato mundial não impediu que Lula vencesse a eleição presidencial contra José Serra, o candidato do governo. A Copa do Mundo no Brasil, em 2014, ao contrário, foi um momento de exposição negativa para o governo Dilma, vaiada na inauguração da Arena Corinthians e na final no Maracanã.

