Provas apreendidas no caso Master devem ficar com PF
Por Editorial / O GLOBO
A segunda fase da operação que investiga suspeitas de fraudes no Banco Master expôs divergências entre o ministro Dias Toffoli, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), e a Polícia Federal (PF), responsável pelas investigações. Em despacho, Toffoli falou em “inércia” e “falta de empenho” da PF. Afirmou que a Procuradoria-Geral da República (PGR) requereu medidas cautelares no dia 6, autorizadas no dia 7. No dia 12, Toffoli determinou que fossem cumpridas em 24 horas, sob justificativa de haver “fartos indícios de práticas criminosas de todos os envolvidos”. Demorar, disse ele, resultaria em “prejuízo e ineficácia das providências”. A operação foi às ruas na quarta, dia 14.
A versão da PF é diferente. Em ofício ao Supremo, o diretor-geral Andrei Rodrigues argumentou que precisou de mais tempo para planejamento e organização das equipes. As críticas geraram descontentamento na polícia. Investigadores disseram à coluna de Malu Gaspar, do GLOBO, que as medidas cautelares haviam sido solicitadas à Justiça em outubro, um mês antes da liquidação do Master. As diligências, segundo esses investigadores, só foram autorizadas neste ano. Além de expor novas falcatruas, a operação revelou o envolvimento da Reag Investimentos, cuja liquidação foi decretada ontem pelo Banco Central (BC).
Contribuiu para o mal-estar entre STF e PF a determinação de Toffoli para que bens, documentos e materiais apreendidos fossem lacrados e mantidos sob custódia do STF. A decisão insólita gerou entre policiais o temor de que dados pudessem ser perdidos com a demora na perícia. Depois Toffoli determinou que as provas ficassem guardadas na PGR, sem que tenha havido pedido expresso do procurador-geral Paulo Gonet (ele só pedira para examiná-las). Em seguida, Toffoli indicou quatro peritos da PF que terão livre acesso ao material, com apoio da PGR.
Ora, as provas deveriam ficar sob custódia da PF, como em toda investigação. É a polícia que tem o dever de investigar, extrair informações do material apreendido e produzir provas válidas nos tribunais. Qualquer transtorno a tal rotina abre espaço para que elas sejam contestadas por advogados ciosos de achar brechas jurídicas para anular processos. Não faz sentido que as provas fiquem noutro lugar que não na PF.
É certo que um processo que atinge tantos interesses deve ser conduzido com cautela. Mas não se entende o motivo de tanto sigilo. O caso Master pode ser a maior fraude bancária do país. O mais saudável seria a apuração correr às claras. Da mesma forma, causa estranhamento a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, de abrir procedimento para apurar se houve vazamento de dados de ministros da Corte e seus familiares na Receita Federal e no Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Não foi informado que tipo de vazamento motivou a apuração. O segredo só alimenta versões especulativas em torno dos fatos, já que, coincidentemente, a decisão foi tomada depois de ter vindo à tona o contrato de R$ 130 milhões do Master com o escritório de familiares de Moraes.
A alfinetada de Alexandre de Moraes em Damares ao mandar Bolsonaro para a Papudinha
MALU GASPAR COM Por Johanns Eller e Rafael Moraes Moura — Brasília e Rio / O GLOBO
Ao transferir Jair Bolsonaro para o 19º Batalhão da Polícia Militar em Brasília, a Papudinha, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes aproveitou para alfinetar a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), aliada do ex-presidente que havia solicitado no último dia 8 uma vistoria institucional do Senado na cela de Bolsonaro na Superintendência da Polícia Federal (PF).
Damares, que é presidente da Comissão de Direitos Humanos da Casa e uma das maiores entusiastas do impeachment de Moraes, justificou o pedido citando relatos de “alagamento da área utilizada como cela, bem como de ruídos constantes provenientes de equipamentos de ar-condicionado”, circunstâncias que, de acordo com a parlamentar, prejudicariam “a salubridade do ambiente e o repouso adequado do custodiado”.
A senadora e amiga pessoal da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro protocolou o pedido depois que Bolsonaro sofreu uma queda na cela na madrugada do último dia 6. Damares argumentou também que a vistoria se justifica pelas condições de saúde do ex-presidente, que é idoso e passou por diversos procedimentos cirúrgicos, e ainda comparou a instalação da PF com a cela em que o presidente Lula cumpriu pena na Superintendência de Curitiba entre 2018 e 2019.
Na decisão de 36 páginas, Moraes disse que “não há dúvidas da existência de uma campanha de notícias fraudulentas com o intuito de tentar desqualificar e deslegitimar o Poder Judiciário”, ignorando as condições “absolutamente excepcionais e privilegiadas do cumprimento de pena” do ex-presidente da República. O magistrado fez questão de listar os privilégios, entre eles sala exclusiva e com o dobro do tamanho previsto na legislação penal, banheiro exclusivo, frigobar, televisão, ar-condicionado e entrega de comida preparada pela família.
“[Tais privilégios] não existem para os demais 384.586 (trezentos e oitenta e quatro mil, quinhentos e oitenta e seis) presos em regime fechado no Brasil”, frisou Moraes.
Em referência às supostas irregularidades elencadas pela senadora, o ministro do Supremo afirmou na decisão que Damares agiu “em completo dissociamento da realidade fática e processual dos autos” ao solicitar a vistoria.
Por fim, Alexandre de Moraes rejeitou a inspeção da Comissão de Direitos Humanos do Senado liderada pela senadora do Republicanos porque, com a transferência de Jair Bolsonaro para a Papudinha, o objetivo da vistoria deixou de existir.
Visita à Papuda
Em novembro do ano passado, antes de Moraes determinar o início da execução da pena, Damares chegou a visitar as instalações do Complexo Penitenciário da Papuda.
Um grupo de quatro senadores visitou a Papuda e elaborou um relatório que aponta “deficiências estruturais e procedimentais que comprometem a segurança e a dignidade humana no atendimento médico aos detentos”.
Acompanharam Damares na ocasião os senadores Eduardo Girão (Novo-CE), Izalci Lucas (PL-DF) e Márcio Bittar (PL-AC), que também integram a comissão e assinaram o documento.
Segundo o relatório, o Complexo Penitenciário da Papuda e o 19º Batalhão de Polícia Militar do Distrito Federal não tinham à época da inspeção “médico em regime de plantão contínuo (24h)”, com atendimento médico “realizado apenas em horários específicos, de 9 às 17 horas em dias úteis, quando há profissional disponível na unidade”.
Na decisão em que determinou a transferência de Bolsonaro para a Papudinha, no entanto, o ministro Alexandre de Moraes apontou que atualmente a Papudinha possui médico em regime de plantão de 24 horas, além de posto de saúde com equipe composta por dois médicos clínicos, três enfermeiros, dois dentistas, um assistente social, dois psicólogos, um fisioterapeuta, três técnicos de enfermagem, um psiquiatra e um farmacêutico.
De acordo com Moraes, a transferência de Jair Bolsonaro para a “Papudinha” permitirá ao ex-presidente mais tempo de visita com familiares e um maior número de refeições diárias, além da realização de exercícios e de “banho de sol” quando quiser, inclusive com a instalação de aparelhos para fisioterapia.
Toffoli deve se afastar do caso Master
O ministro Dias Toffoli perdeu todas as condições necessárias para arbitrar com imparcialidade e diligência técnica o estrepitoso escândalo do banco Master e por isso deveria se afastar do caso.
Não há razão para a investigação ter subido para o Supremo Tribunal Federal (STF). O motivo invocado, o fato de um deputado federal ter feito negociação imobiliária com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, serviu de pretexto para um desaforamento que interessa apenas à máfia que se implantou naquela organização financeira.
Os infratores decerto se regozijaram com a decretação do sigilo sobre o inquérito, um dos primeiros atos do magistrado que poucos dias antes viajara num jato particular com o advogado de um diretor investigado do Master.
O circuito dos saqueadores terá festejado a "acareação", ordenada por Toffoli ao arrepio dos protocolos, entre suspeitos de orquestrar uma fraude bancária de proporções inauditas na história do Brasil e um diretor do Banco Central, órgão responsável por investigar as falcatruas.
O recuo parcial e a revelação, por esta Folha, de conexões de negócios entre irmãos e primo do ministro com um fundo envolvido nos desvios não demoveram Toffoli de seguir com determinações abstrusas. Ele custou a assentir ao pedido da Polícia Federal, abonado pela Procuradoria, de novas diligências.
Em uma nova decisão despropositada e incomum, mandou a polícia depositar as provas colhidas no Supremo Tribunal Federal. Contraditado, fez mais um de seus recuos parciais e ordenou que o material migrasse para a Procuradoria-Geral da República (PGR), quando deveria seguir diretamente para as perícias da PF.
O resultado visível do comportamento do ministro é tão somente abafar notícias incômodas, controlar as informações que o público recebe e prejudicar e intimidar os agentes do Estado encarregados da investigação. A República ganharia com o seu afastamento do inquérito.
Causa espécie, por falar em inquéritos, a abertura de mais uma apuração sigilosa de ofício pelo ministro Alexandre de Moraes, desta vez contra a Receita Federal e o Coaf —serviço de monitoramento de transações financeiras. Ele estaria contrariado com um suposto vazamento de dados pessoais de integrantes da corte.
Com a sua atitude, Moraes reincide na prática heterodoxa de colocar-se ele próprio, um julgador, na posição de investigador e de potencial vítima. Seu movimento e os de Tofffoli pavimentam um caminho errado de reagir ao noticiário sobre as fraudes financeiras bilionárias e as teias de corrupção em torno do Master.
Que a corte não se feche em copas corporativistas para defender o indefensável. A democracia não corre risco nenhum a não ser o de varrer corrupção para debaixo do tapete. A sociedade tem o direito à plena informação e exige a responsabilização dos que delinquiram nesse enorme escândalo, sejam quem forem.
A Justiça suspende remoção de post de Nikolas que associa PT a tráfico
O GLOBO
O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) suspendeu a decisão que determinava a remoção de uma publicação do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) na rede social X, em que o parlamentar se refere ao Partido dos Trabalhadores (PT) como “Partido dos Traficantes”. A decisão é do desembargador Fabrício Fontoura Bezerra, presidente da 1ª Turma Cível da Corte.
A postagem foi feita no fim de outubro de 2025, no contexto da megaoperação policial realizada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. O PT ajuizou ação contra o deputado, alegando danos morais e sustentando que o conteúdo extrapola os limites da liberdade de expressão ao associar a legenda a atividades criminosas.
Ao analisar o pedido, o desembargador entendeu que a manifestação de Nikolas pode ser interpretada como uma crítica política, “possivelmente irônica e satírica”, inserida no debate democrático. Segundo o magistrado, o conteúdo não incita violência e não ultrapassa a esfera do mero aborrecimento.
— A supressão de conteúdo neste cenário, sem uma demonstração cabal de ilicitude que transcenda a esfera da crítica política e adentre a difamação ou calúnia com animus laedendi devidamente comprovado, pode, em cognição sumária, configurar uma 'vulgarização das medidas de indisponibilização, transformando o Poder Judiciário em instrumento de censura a opiniões políticas — afirmou Bezerra na decisão.
O magistrado também afastou a aplicação de sanção à plataforma X por suposto descumprimento do prazo para retirada da publicação, classificando eventual penalidade como “oneração desnecessária” nesta fase do processo. Com isso, a ordem de remoção do post fica suspensa até o julgamento final da ação.
A decisão foi proferida em 19 de dezembro e recebida pela 5ª Vara Cível do DF, onde tramita o processo, na última segunda-feira (12). Nikolas Ferreira é um dos quatro deputados federais processados pelo PT pelo uso da expressão “PT – Partido dos Traficantes”. Também são alvos das ações os parlamentares Bia Kicis (PL-DF), Gustavo Gayer (PL-GO) e Carlos Jordy (PL-RJ). Todos os processos ainda aguardam julgamento.
Após a decisão, Nikolas comentou o caso nas redes sociais. “Parabéns ao desembargador pela decisão técnica e com a imparcialidade que se espera do Judiciário. Por mais juristas justos e que honrem seus cargos”, escreveu o deputado.
Justiça suspende remoção de post de Nikolas que associa PT a tráfico
O GLOBO
O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) suspendeu a decisão que determinava a remoção de uma publicação do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) na rede social X, em que o parlamentar se refere ao Partido dos Trabalhadores (PT) como “Partido dos Traficantes”. A decisão é do desembargador Fabrício Fontoura Bezerra, presidente da 1ª Turma Cível da Corte.
A postagem foi feita no fim de outubro de 2025, no contexto da megaoperação policial realizada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. O PT ajuizou ação contra o deputado, alegando danos morais e sustentando que o conteúdo extrapola os limites da liberdade de expressão ao associar a legenda a atividades criminosas.
Ao analisar o pedido, o desembargador entendeu que a manifestação de Nikolas pode ser interpretada como uma crítica política, “possivelmente irônica e satírica”, inserida no debate democrático. Segundo o magistrado, o conteúdo não incita violência e não ultrapassa a esfera do mero aborrecimento.
— A supressão de conteúdo neste cenário, sem uma demonstração cabal de ilicitude que transcenda a esfera da crítica política e adentre a difamação ou calúnia com animus laedendi devidamente comprovado, pode, em cognição sumária, configurar uma 'vulgarização das medidas de indisponibilização, transformando o Poder Judiciário em instrumento de censura a opiniões políticas — afirmou Bezerra na decisão.
O magistrado também afastou a aplicação de sanção à plataforma X por suposto descumprimento do prazo para retirada da publicação, classificando eventual penalidade como “oneração desnecessária” nesta fase do processo. Com isso, a ordem de remoção do post fica suspensa até o julgamento final da ação.
A decisão foi proferida em 19 de dezembro e recebida pela 5ª Vara Cível do DF, onde tramita o processo, na última segunda-feira (12). Nikolas Ferreira é um dos quatro deputados federais processados pelo PT pelo uso da expressão “PT – Partido dos Traficantes”. Também são alvos das ações os parlamentares Bia Kicis (PL-DF), Gustavo Gayer (PL-GO) e Carlos Jordy (PL-RJ). Todos os processos ainda aguardam julgamento.
Após a decisão, Nikolas comentou o caso nas redes sociais. “Parabéns ao desembargador pela decisão técnica e com a imparcialidade que se espera do Judiciário. Por mais juristas justos e que honrem seus cargos”, escreveu o deputado.
Moraes determina transferência de Bolsonaro para 'Papudinha'
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para uma sala no batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal (PM-DF) conhecido como "Papudinha".
Bolsonaro será levado para o 19º Batalhão da PM-DF, onde já estão o ex-ministro Anderson Torres e o ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Silvinei Vasques. O local ganhou o apelido de "Papudinha" por ficar ao lado do Complexo Penitenciário da Papuda.
Desde novembro, Bolsonaro vinha cumprindo pena na Superintendência da Polícia Federal (PF) em Brasília. O ex-presidente foi condenado a 27 anos e três meses de prisão, pelo STF, por uma tentativa de golpe de Estado.
Moraes também determinou que o ex-presidente deve passar por uma exame médico, feito por peritos da PF, que devem avaliar seu estado clínico e a "necessidade de transferência para o hospital penitenciário". O GLOBO
Detido hoje, o cunhado de Vorcaro é a figura mais próxima do ex-banqueiro
Por Lauro Jardim / O GLOBO
A prisão realizada há pouco pela PF, quando tentava embarcar para Dubai, do empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, significa que as investigações sobre o Banco Master chegaram na pessoa mais próxima do ex-banqueiro entre todas as que o rodeiam.
Atuava sempre nas sombras, em negócios nos quais Vorcaro preferia não aparecer. Foi, por exemplo, foi o principal doador das campanhas eleitorais de Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro em 2022, ao governo de São Paulo e à Presidência, respectivamente. Desembolsou R$ 2 milhões para Tarcísio e R$ 3 milhões para Bolsonaro.
Zettel é tido pelo entorno de Vorcaro, como o homem de confiança número 1 do ex-banqueiro. Seria, portanto, detentor de segredos e informações relevantes para que a PF destrinche as fraudes cometidas nos últimos anos pelo Master.
Investigadores da PF rebatem Toffoli sobre 'inércia' em operação do Caso Master
Por Johanns Eller e Rafael Moraes Moura— Rio e Brasília / O GLOBO
Investigadores da Polícia Federal (PF) ouvidos sob reserva pela equipe da coluna rebateram as críticas do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffolisobre a suposta “inércia” da corporação em deflagrar a segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura as fraudes na tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB. As diligências desta quarta-feira (14), segundo o magistrado, já estavam autorizadas por ele desde o último dia 7. “Pelo contrário, passamos meses esperando essa operação”, diz uma fonte que acompanha de perto as investigações.
Na decisão em que autorizou a prisão preventiva de Fabiano Zettel, cunhado do CEO do Master, Daniel Vorcaro, e concedeu o mandado de busca e apreensão contra os empresários Nelson Tanure e João Carlos Mansur, Toffoli falou ainda em “falta de empenho” da PF no curso do inquérito.
O ministro alegou que autorizou a operação na última quarta-feira (7) e determinou ainda o cumprimento das diligências no prazo de 24 horas a partir do dia 12 em função “da gravidade dos fatos e necessidade de aprofundamento da investigação, com fartos indícios de práticas criminosas de todos os envolvidos”.
“Causa espécie a esse relator não só o descumprimento do prazo por mim estabelecido para cumprimento das medidas cautelares ordenadas, posto que resta claro que outros envolvidos podem estar descaraterizando as provas essenciais ao deslinde da causa, como a falta de empenho no cumprimento da ordem judicial para a qual a Polícia Federal teve vários dias para planejamento e preparação, o que poderá resultar em prejuízo e ineficácia das providências ordenadas”, escreveu Toffoli.
Segundo os mesmos investigadores da PF, a segunda fase da operação não tinha ocorrido até ontem porque a corporação ainda não tinha em mãos os endereços para deflagrá-la. O último deles só foi obtido na noite da última terça-feira, quando a instituição peticionou no STF em caráter de urgência solicitando a prisão preventiva de Zettel e as buscas contra Tanure.
O pedido teve o aval da Procuradoria-Geral da República (PGR) e foi acatado por Toffoli, mas sob protestos.
O ministro fez questão de destacar o horário em que os investigadores da Polícia Federal acionaram o Supremo: 19h13m da última terça-feira (13). A PGR, por sua vez, se manifestou favoravelmente às solicitações pouco mais de uma hora e meia depois, às 20h49.
A PF, por sua vez, justificou na petição ao Supremo que o embarque de Zettel para Dubai no Aeroporto Internacional de Guarulhos, onde foi preso nesta manhã, representava uma “oportunidade única” para a “obtenção de elementos que corroborem, ainda mais, sua participação” nos fatos investigados, além de eventuais provas de outros crimes que os investigadores suspeitam que ele tenha cometido.
No caso de Tanure, abordado no embarque de um voo doméstico no Aeroporto Internacional do Galeão com destino para Curitiba (PR), a Polícia Federal argumentou ser necessário uma busca e apreensão no local em que o empresário fosse encontrado, e não em sua casa.
Isso porque, considerando a previsão de decolagem do voo, às 7h30, ele poderia deixar sua residência no Rio antes do horário permitido por lei para cumprimentos de mandados judiciais, 5h da manhã.
Outro alvo é João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos, administradora de diversos fundos suspeitos de integrar o esquema de fraudes do Master de Daniel Vorcaro. Como publicou o colunista Lauro Jardim, Mansur está no exterior.
Procurada pela equipe da coluna, a assessoria da PF informou que o diretor-geral, Andrei Rodrigues, "já se manifestou nos autos do processo".
Momentos de tensão
Esta não é a primeira vez que a Polícia Federal e o gabinete de Toffoli se desentendem sobre o caso Master.
No mês passado, o depoimento de Vorcaro no STF foi marcado pelo desconforto e momentos de tensão na equipe de delegados da PF liderada por Janaina Palazzo e os procuradores da República que participavam da audiência.
Toffoli mandou entregar aos investigadores 82 perguntas para que fossem feitas a Vorcaro, mas a delegada disse que não poderia fazer perguntas que não tinham sido preparadas por ela. Janaina só aceitou submeter a Vorcaro as questões de Toffoli depois que ficou registrado na ata do depoimento que tinham sido apresentadas pelo gabinete do relator.
As perguntas Toffoli para Vorcaro eram divididas em seis blocos, que tratavam de temas como a venda do Master ao BRB e a reunião do banqueiro com integrantes do Banco Central em 17 de novembro, mesmo dia em que acabou sendo preso por decisão da Justiça Federal de Brasília.
Toffoli negou busca contra Vorcaro e recuou após PF apontar evidência de 'novos ilícitos'
André Borges / FOLHA DE SP
O ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), acatou um pedido da PF (Polícia Federal) para realizar novas diligências na residência do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, nesta quarta-feira (14). Em sua decisão, Toffoli relata ter negado parcialmente um pedido anterior, mas que reconsiderou após novos argumentos trazidos pela PF e pela Procuradoria-Geral da República.
No despacho que autoriza as buscas contra Vorcaro, o ministro diz que mudou de ideia a partir da nova argumentação, "diante da evidência de prática de novos ilícitos, supostamente cometidos pelo investigado", conforme afirmado pela PF. A corporação também disse ser necessária a "colheita de elementos probatórios complementares".
"Diante das ponderações da Autoridade Policial e da Procuradoria-Geral da República, reconsidero, em parte, a decisão combatida, para deferir novas diligências na residência do investigado D.B.V. [Daniel Bueno Vorcaro]", afirmou Toffoli em sua decisão.
A PF sustenta o novo pedido com base na "atualização dos endereços" e no argumento de que as buscas anteriormente autorizadas teriam sido concedidas com finalidade mais restrita, enquanto a nova etapa exige a ampliação do escopo.
Em sua decisão, o ministro não deixa claro qual seria o motivo de sua rejeição inicial, mas afirma que passou a estar "ciente da informação sobre o correto endereço das pessoas em cujos domicílios serão realizadas as buscas já deferidas".
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi favorável à nova ação da PF. Ele argumentou que "a diligência de busca e apreensão realizada no âmbito da Operação Compliance Zero no endereço sob análise não abrangeu o contexto mais amplo que a apuração em espécie busca examinar, tornando-se, assim, necessário, útil e pertinente que o investigado seja alvo de busca e apreensão em referido endereço, para colheita de documentos, anotações, registros, mídias, aparelhos eletrônicos e demais dispositivos de armazenamento de dados".
Em outro despacho, Toffoli criticou a Polícia Federal e exigiu explicações em 24h do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, por não cumprir os prazos determinados por ele na segunda fase da operação Compliance Zero, que investiga fraudes do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Toffoli também determinou que todo o material apreendido seja guardado no STF e não na PF, como de praxe.
Como a Folha revelou, duas empresas ligadas a parentes do ministro Dias Toffoli tiveram como sócio um fundo de investimentos conectado à teia usada pelo Banco Master em fraudes investigadas por autoridades, de acordo com documentos e dados oficiais analisados pela reportagem.
O Arleen Fundo de Investimentos teve, ao menos até maio de 2025, ações da Tayayá Administração e Participações, responsável por um resort em Ribeirão Claro (PR) que pertencia em parte à família de Toffoli, e também participação direta na DGEP Empreendimentos, incorporadora imobiliária da mesma cidade que tinha como um de seus sócios um primo do ministro.
A conexão com o caso Master se dá por uma cadeia de fundos. O Arleen foi um dos cotistas do RWM Plus, que por sua vez também recebeu investimentosde fundos ligados ao Maia 95, um dos seis apontados pelo Banco Central como integrantes da suposta teia de fraudes do banco de Daniel Vorcaro. O fundo Arleen em si não é alvo de investigação.
O Arleen e todos os demais fundos da teia têm como administradora a Reag, que administrava também fundos ligados a Vorcaro e é investigada na operação Carbono Oculto, por suspeita de lavar dinheiro para o PCC (Primeiro Comando da Capital).
A defesa de Vorcaro negou qualquer irregularidade ou envolvimento do Master com fraudes, fundos ilícitos ou operações destinadas a beneficiar terceiros. Disse que a reportagem estabelece "conexões inexistentes e distorce fatos ao sugerir vínculo entre o banco, seus executivos e investimentos mencionados".
A Folha procurou a assessoria do STF e perguntou se Dias Toffoli tinha conhecimento dessas conexões e se ele considera que as informações criam algum empecilho para a condução do caso, mas o ministro não respondeu até a publicação desta reportagem. Parentes do ministro também não se manifestaram. A Reag não comentou o caso.
Operação Overclean chega à nona fase, mira em parlamentares e bloqueia R$ 271 milhões em apuração sobre desvios em emendas
Por Sarah Teófilo — Brasília / O GLOBO
A Operação Overclean, conduzida pela Polícia Federal para apurar desvios de emendas parlamentares e fraudes em licitações, chegou à nona fase ampliando o alcance das investigações sobre políticos, empresários e operadores vinculados a parlamentares. Ao todo, ao menos R$ 271,7 milhões já foram bloqueados em três fases da investigação, conforme informado pela PF. O processo tramita sob sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo a PF, a organização criminosa investigada teria movimentado cerca de R$ 1,4 bilhão por meio de contratos fraudulentos e obras superfaturadas em diferentes estados.
Em abril de 2025, a PF deflagrou uma fase de grande impacto da operação, com mandados de busca e apreensão em Salvador, São Paulo, Belo Horizonte e Aracaju. Um dos principais alvos foi o empresário José Marcos de Moura, conhecido como “Rei do Lixo”, que integrou a executiva nacional do União Brasil. Na época da operação, ele negou irregularidades.
De acordo com a investigação, ele atuaria como articulador político do esquema, utilizando sua influência para destravar contratos e liberar pagamentos. Na mesma etapa, o secretário de Educação de Belo Horizonte, Bruno Barral, foi afastado do cargo por decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), sob suspeita de obstrução de Justiça. Barral havia sido indicado ao posto em abril de 2024, no contexto de uma aliança entre PSD e União Brasil.
Em maio do ano passado, durante a terceira fase da Overclean, a PF apreendeu R$ 120,8 mil em espécie, além de relógio de luxo, joias e aparelhos eletrônicos, na residência de Barral. As apurações apontam uma relação próxima entre o secretário e Marcos Moura, que já havia sido preso preventivamente na primeira fase da operação, em 2024, tendo sido solto posteriormente.
Em junho, a PF realizou uma operação focada na liberação de emendas parlamentares. Dois prefeitos da Bahia foram afastados do cargo, e um assessor do deputado federal Félix Mendonça Júnior (PDT-BA) foi apontado como operador financeiro do esquema. Ele foi alvo de mandado de busca e apreensão nesta terça-feira.
No decorrer da investigação, o nome do deputado federal Elmar Nascimento (União Brasil-BA) foi citado, o que fez com que a investigação tivesse que ser remetida ao STF. A PF encontrou no cofre de Marcos Moura uma escritura de compra e venda de um imóvel de uma empresa para Elmar. Ele não foi alvo de nenhuma fase da operação e nega envolvimento em irregularidades.
A investigação, entretanto, já atingiu diretamente familiares do deputado federal, que é uma das principais lideranças do União Brasil. Seu irmão, Elmo Nascimento, prefeito de Campo Formoso (BA), foi alvo de buscas em julho do ano passado.
O primo do parlamentar, Francisco Manoel do Nascimento Neto, conhecido como Francisquinho Nascimento (União Brasil), vereador eleito no município, também foi alvo. Em uma etapa anterior da investigação, ele chegou a arremessar uma sacola com R$ 220 mil pela janela momentos antes de ser preso.
Em outubro do ano passado, o deputado federal Dal Barreto (União Brasil-BA) foi abordado no aeroporto de Salvador e teve o celular apreendido durante uma das fases da operação. No mesmo mês, a PF mirou no secretário nacional do Podemos, Luiz França.
A Operação Overclean teve início a partir da apuração de desvios de recursos de emendas parlamentares destinadas ao Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) e da atuação de empresários junto a agentes públicos para destravar contratos. A PF sustenta que o esquema envolvia pagamento de propina, lavagem de dinheiro e uso sistemático de influência política, com ramificações em partidos do Centrão e no entorno familiar de parlamentares.
Operação Overclean — Foto: Reprodução/PF

