BOLSONARO JOGOU AS REDES E COLHEU O SETE DE SETEMBRO, BICENTENÁRIO E TODA A MIDIA
Eliane Cantanhêde / O ESTADÃO
O presidente Jair Bolsonaro não só implodiu a Constituição e as leis, sequestrou o 7 de Setembro e o bicentenário da Independência do Brasil e pôs a estrutura, os recursos, os funcionários públicos e as Forças Armadas a serviço da reeleição como também capturou toda a mídia nacional e os jornalistas com a armadilha da “princesa” e o “imbrochável”.
Não há uma só referência do presidente ao Dia da Pátria e à Independência na quarta-feira, em que rádios, televisões, internet e nós, editores, comentaristas, colunistas, repórteres, fotógrafos e cinegrafistas demos ao candidato Bolsonaro uma exposição que nenhum de seus concorrentes terá em toda a campanha, na cobertura e na propaganda eleitoral.
As cartas foram embaralhadas neste 7 de Setembro, Bolsonaro deu sua última cartada e a oposição se assustou e entra com ações na Justiça que não darão em nada, só em mais propaganda para ele. Foto: André Borges/AFP
“Trending topics” do Twitter e citado até no The New York Times, o “imbrochável”, difícil de traduzir, foi o sucesso do Dia da Pátria. Tão abjeto quanto o presidente comparar sua mulher e a dos adversários e convocar solteiros a casar com “princesas”. Ou quanto o então presidente Lula se referir-se ao “ponto G” feminino numa entrevista com o americano George W. Bush em São Paulo. Isso tudo diminui homens, mulheres e o País.
Tal como na facada de 2018, o País, a mídia e os candidatos foram todos abduzidos pela campanha de Bolsonaro, principalmente em Brasília, sem os presidentes dos Poderes, e na icônica Copacabana, embalada pela Esquadrilha da Fumaça da FAB, por navios da Marinha brasileira e das armadas de países aliados e tiros de canhão do Exército. Não foi só o general Eduardo Pazuello, foram as Forças Armadas num comício. Mil anos de sigilo?
Depois da implosão da compostura, do desmanche de ambiente, saúde, educação, cultura, relações externas, lei eleitoral, do teto de gastos e da responsabilidade fiscal, do uso de militares, PGR, Câmara, PF, Receita e Coaf a favor dele, filhos e aliados... Não sobra pedra sobre pedra.
E nós? Nós vamos assistindo a tudo, esperando a próxima pesquisa, a próxima agonia, a próxima “gripezinha” que matou 680 mil brasileiros e a nova “cartinha” em defesa da democracia, temendo que o presidente, se reeleito, “extirpe” os adversários e nos enquadre a todos nas “quatro linhas da Constituição” – a dele – e o “povo” – o dele – armado, crente em mitos e fake news.
As cartas foram embaralhadas neste 7 de Setembro, Bolsonaro deu sua última cartada e a oposição se assustou e entra com ações na Justiça que não darão em nada, só em mais propaganda para ele. Não custa lembrar, porém, que o “Datapovo” bolsonarista só olha para as redes amigas e militantes de comício. O “povo” é muito, muito maior do que isso. Que venham as reais pesquisas!
A OFENSIVA NO LIMITE
William Waack / FOLHA DE SP
No jargão militar a palavra “culminar” significa atingir o ponto máximo, mas sem ter alcançado o objetivo. Nesse sentido, o que aconteceu no 7 de Setembro foi um sinal de que a atual ofensiva de Jair Bolsonaro culminou.
A demonstração de força gerou as pretendidas imagens de nutrido apoio. E a sensação, entre apoiadores de Bolsonaro, de que as pesquisas “mentem”. Como não acreditar que está com a reeleição garantida, se foi capaz de colocar tanta gente na rua?
Manifestações dessa magnitude ajudariam, teoricamente, a virar um jogo eleitoral até aqui desfavorável para Bolsonaro. O problema é a distância em que ele se encontra de um ponto de inflexão em relação a Lula.
Essa distância está bastante clara em dois números. O primeiro é a taxa de rejeição. Nunca antes neste País alguém se elegeu com uma taxa de rejeição como a de Bolsonaro (a de Lula é mais baixa). E que teima em permanecer alta. Seus apoiadores podem se perguntar como é possível, olhando em volta, acreditar numa taxa de rejeição tão alta. O problema para eles é que, olhando em volta, só enxergam outros apoiadores.
O presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro, durante o desfile cívico-militar do Bicentenário da Independência, em Brasília Foto: Wilton Júnior/Estadão - 7/9/2022
O segundo número é igualmente eloquente. É pequena a distância que separa a intenção de voto estimulada da intenção de voto espontânea, tanto para Lula como para Bolsonaro. Séries históricas confiáveis demonstram que ambos estão bem próximos de seus respectivos “tetos” de votos. O “teto” é atingido quando é pequena a distância entre o voto espontâneo e o estimulado.
Ou seja, chegaram até onde dava, e não existe muito espaço para Lula e Bolsonaro alterarem o que as pesquisas dizem que eles possuem hoje. Ocorre que é grande a vantagem do “teto” de Lula em relação ao “teto” de Bolsonaro. Essa vantagem tem variado (nos últimos tempos em favor de Bolsonaro), mas se manteve sólida nos últimos 12 meses.
Portanto, para ser o “evento decisivo” numa corrida eleitoral, a mobilização do 7 de Setembro em favor de Bolsonaro teria de conseguir alterar o quadro mais geral. É a persistente liderança de Lula nas camadas mais pobres, inclusive no Sul e Sudeste. Dependendo da base de dados que se utiliza, essa faixa supera a metade do eleitorado – e é justamente a faixa menos envolvida ou “arrebatada” nos embates político-eleitorais.
E a mais suscetível ao custo de vida e bondades do governo, algo que até aqui não funcionou (pelo menos não na proporção esperada) em favor de Bolsonaro. As ferramentas da ofensiva já foram todas colocadas em campo: ajuda emergencial, uso da máquina pública, maciça barragem de artilharia de propaganda e, culminando no 7 de Setembro, a grande mobilização de rua.
A esperança agora é o tempo até o segundo turno.
Alckmin inocenta Lula e ataca Bolsonaro por corrupção em filme de campanha
Gustavo Côrtes / FOLHA DE SP
09 de setembro de 2022 | 15h03
Vice na chapa de Lula, Geraldo Alckmin publicou em suas redes sociais vídeo em que inocenta Lula e coloca sobre Jair Bolsonaro a responsabilidade de esclarecer supostos atos de corrupção. “Agora, é a família Bolsonaro que precisa explicar ao povo a compra de 51 imóveis com dinheiro vivo”, afirma.
O ex-tucano diz ter sido “iludido” pelo julgamento do então juiz da Lava Jato Sergio Moro, que condenou o petista. “Hoje, está provado que Lula foi preso injustamente.” Ele alerta eleitores para sua mudança de posição após a campanha do presidente lançar filmes com declarações do ex-governador de São Paulo durante a corrida presidencial de 2018, quando concorreu contra Fernando Haddad e fez críticas à corrupção dos governos do PT. Uma delas foi dada durante a convenção nacional do PSDB daquele ano.
Leilão pelo voto dos pobres
10 de setembro de 2022 | 03h00
Em uma das edições do programa eleitoral veiculada nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro se comprometeu a viabilizar um pagamento adicional de R$ 200 aos beneficiários do Auxílio Brasil que arrumarem emprego. “Os mais de 20 milhões de brasileiros que recebem Auxílio Brasil de no mínimo R$ 600 agora receberão mais R$ 200 se começarem a trabalhar. Vai ser R$ 800 mais o salário do trabalho”, diz o locutor. A promessa é, evidentemente, inviável, mas nem por isso deve ser ignorada. Ela expõe uma tentativa de compra do voto da parcela mais vulnerável da população, revela uma visão absolutamente distorcida sobre a realidade vivenciada por essas pessoas e demonstra o quanto o governo subestima a inteligência da maioria da sociedade.
A proposta de Orçamento enviada pelo governo ao Congresso é pública. Nela, o Executivo admitiu oficialmente não haver recursos suficientes para manter o piso do Auxílio Brasil em R$ 600 no ano que vem e, por isso, fixou um valor médio de R$ 405,21. Não havendo verba disponível para R$ 600, tampouco haverá para R$ 800. Logo, é possível inferir que, quando Bolsonaro faz essa promessa, sua única intenção é superar o compromisso de seu principal adversário, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Líder nas pesquisas de intenção de voto, sobretudo entre os eleitores de menor renda, Lula anunciou a intenção de incrementar o benefício social com o pagamento de um bônus de R$ 150 por criança de até seis anos de idade, um dos pilares do antigo Bolsa Família.
É sob essa lógica, semelhante à de um leilão a viva voz, que tem se pautado a atuação social do governo nos últimos anos. Ela foi inaugurada nas discussões do Auxílio Emergencial, no início da pandemia de covid-19. À época, o ministro da Economia, Paulo Guedes, propôs um pagamento de R$ 200, mas a Câmara dos Deputados considerou o valor insuficiente e o elevou a R$ 500. Foi somente depois disso que o governo contrapôs o valor de R$ 600 – não por uma genuína preocupação com os mais carentes, mas para impedir o Legislativo de ficar com os méritos do programa.
Superar um adversário político deveria passar longe dos objetivos de qualquer política pública consistente e orientada pelo combate à pobreza. Mas para um presidente beligerante e que se sustenta na base do conflito, essa talvez seja a única razão a justificar a generosa oferta bolsonarista. A contraposição fica ainda mais clara em outro trecho do programa eleitoral de Bolsonaro veiculado nesta semana. Nele, o locutor afirma que o bônus é um incentivo ao trabalho e faz críticas à política do petista, o Bolsa Família, que, segundo o programa, suspendia os pagamentos quando os beneficiários encontravam emprego. Ora, num programa social com foco, em um país com enormes desigualdades sociais e um orçamento apertado, a prioridade sempre deve ser atender os que mais precisam; manter a assistência a um beneficiário que tem condições de obter renda de outra forma é contraproducente e ineficaz.
Pagar um bônus para o beneficiário que encontrar trabalho, ademais, atesta uma leitura profundamente enviesada e determinista da realidade socioeconômica brasileira, segundo a qual o desemprego – e a pobreza, em última instância – é fruto de escolhas individuais, e não consequência de uma educação de péssima qualidade, da falta de políticas públicas para promover a qualificação profissional e da omissão do Estado em ofertar vagas em creches e em escolas de ensino integral. Quando um programa social tem entre as mulheres a maioria de chefes de família, esperar que elas tenham condições de assumir postos de trabalho formais sem proporcionar uma rede de apoio para suas crianças beira a ingenuidade. Ao contrário do que pensa Bolsonaro, a porta de saída para uma situação de miséria, muitas vezes, não está na empregabilidade dos adultos, mas na educação de seus filhos e no acesso às oportunidades que foram negadas às suas mães. As mulheres de baixa renda sabem disso e, pelo que dizem as pesquisas, não parecem dispostas a vender seu voto por migalhas.
Com Datafolha, agregador Estadão Dados mostra 44% para Lula e 33% para Bolsonaro
Por Daniel Bramatti / O ESTADÃO
O agregador de pesquisas eleitorais do Estadão Dados já está atualizado com os números divulgados em 09/09 pela empresa Datafolha. Segundo a Média Estadão Dados, calculada pelo agregador, Luiz Inácio Lula da Silva tem 44% das intenções de voto e Jair Bolsonaro, 33%.
Considerando-se apenas os votos válidos, ou seja, sem contar brancos, nulos e indecisos, Lula tem 49% e Bolsonaro, 37%.
O agregador é uma ferramenta interativa cujos gráficos mostram o cenário mais provável da corrida presidencial nos últimos seis meses, segundo nossa metodologia. Nele, além de consultar a Média Estadão Dados, é possível ver de forma separada as estimativas das pesquisas presenciais e telefônicas.
A Média Estadão Dados, que tem atualização diária, não é a simples soma dos resultados e divisão pelo número de pesquisas. O cálculo considera as linhas de tendência de cada candidato (se estão estáveis, subindo ou caindo) e atribui pesos diferentes às pesquisas segundo sua “idade” (a data de realização) e metodologia (consideramos que, na média os resultados são mais precisos quando os eleitores são entrevistados de forma presencial, em vez de por telefone).
Os gráficos do agregador mostram 85 pesquisas sobre a corrida presidencial divulgadas nos últimos seis meses, mas nem todas são consideradas nos cálculos. Atualmente, entram na Média Estadão Dados os números das empresas que divulgaram pelo menos um levantamento nos últimos 16 dias. Essa janela de inclusão vai diminuir com o tempo. O objetivo é evitar que resultados desatualizados afetem os números do agregador. Também há salvaguardas para evitar que os chamados outliers ou “diferentões” puxem a média para cima ou para baixo. O agregador automaticamente reduz o peso de pesquisas que mostrem resultados muito distantes da média geral ou da média de Datafolha e Ipec, empresas que consideramos o “padrão ouro” por sua tradição e metodologia.

