Rali mostra aliados de Bolsonaro à frente em pesquisas de 13 capitais; nomes de Lula lideram no Rio e no Recife
Por Luis Felipe Azevedo— Rio de Janeiro / O GLOBO
O agregador de pesquisas Rali, iniciativa do GLOBO em parceria com o Instituto Locomotiva, mostra que, a menos de uma semana para o 1º turno, no próximo domingo, candidatos aliados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) lideram a média das pesquisas de intenção de voto calculada pelo agregador em 13 capitais, enquanto nomes ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparecem à frente em duas cidades (Rio e Recife). Em outras 13, o líder não é coligado nem ao PT nem ao PL. Confira os dados do agregador.
O Rali apresenta o panorama das intenções de voto divulgadas por seis empresas e institutos de pesquisa com relevância nacional. São considerados levantamentos do Datafolha, Quaest, Atlas, Ipec, Ideia e Ipespe. Na maioria das capitais, os resultados refletem médias de pesquisas Quaest e Atlas.
A metodologia do agregador considera o tamanho da amostra, o quão recente é um resultado, o histórico de atuação dos institutos e sua cobertura nos diferentes estados nas últimas três eleições.
No caso do PT, seus candidatos aparecem numericamente atrás dos líderes, mas bem posicionados e competitivos para ir a um eventual segundo turno, em Fortaleza, Teresina, Goiânia e Porto Alegre. O mesmo ocorre em São Paulo, com Guilherme Boulos (PSOL), nome apoiado por Lula na corrida municipal. Já os candidatos do PL também se destacam em Belo Horizonte e Cuiabá, embora não apareçam à frente.
Como mostrou O GLOBO, em meio às dificuldades de aliados nas disputas das capitais, Lula decidiu ignorar os apelos de candidatos petistas pelo país e fará apenas mais uma agenda de campanha antes do primeiro turno da eleição municipal deste ano. No sábado, Lula participará de uma caminhada com o candidato do PSOL à Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos. Com o presidente abdicando do pleito em outros locais, postulantes do partido e nomes apoiados pelo PT enfrentam dificuldades nas capitais e veem aliados debandarem para o lado adversário.
Afastamento de Lula das eleições municipais não o poupará de eventual derrota da esquerda
Por Malu Gaspar / O GLOBO
Nesta reta final das eleições municipais, com disputas indefinidas e emboladas em capitais cruciais como São Paulo, Belo Horizonte e Fortaleza, não foram poucos os candidatos de partidos de esquerda que batalharam por um vídeo, fala de apoio ou pela presença de Lula num evento de campanha. O presidente da República, porém, frustrou quase todo mundo.
Nas últimas duas semanas, emendou uma viagem internacional atrás da outra e passou mais tempo entre Estados Unidos e México do que no Brasil. Também não deu nenhuma declaração sobre as eleições e foi obrigado a cancelar a live que faria com Guilherme Boulos (PSOL) na noite de ontem por causa da emergência com o avião que o trazia do México.
O resultado é que a única participação de Lula neste sprint final da campanha antes do primeiro turno será um ato com Boulos na Avenida Paulista, no sábado.
Enquanto isso, Jair Bolsonaro tem viajado pelo país num roteiro frenético que chega a contemplar três cidades num único dia, subindo em palanques, gravando vídeos e fazendo lives. Claro que a rotina de Lula tem muito menos espaço que a do antecessor para esse tipo de evento, uma vez que o primeiro tem de governar e o outro não tem outra missão no momento além de pedir voto.
Mas foi o próprio presidente da República quem alimentou a expectativa de que essa fosse uma eleição plebiscitária, ao colocá-la sob a perspectiva de uma batalha ideológica entre os “negacionistas” e o campo democrático comprometido com “melhorar a vida do povo”.
Em nome desse objetivo, Lula forçou o PT a abrir mão de sua conhecida predileção por candidaturas próprias em locais onde aliados de outros partidos tinham mais chances de ganhar as eleições, como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Salvador.
Em junho e julho, atendeu aos pedidos de sua base e visitou oito capitais, além de várias cidades estratégicas, fazendo inaugurações, dando entrevistas a rádios locais e animando atos de governo para os quais convocou os candidatos que apoiava. Em agosto, ainda fez sessões de fotos para santinhos e gravou vídeos de apoio.
Quando a disputa começou a esquentar, porém, Lula deixou a campanha de lado e se concentrou no governo. Oficialmente, ninguém dirá que foi essa a razão do recuo, mas ele coincidiu com o momento em que a força da direita nas principais capitais foi ficando mais evidente.
Bolsonarismo na dianteira
Segundo um levantamento da Folha de S.Paulo, os candidatos de Bolsonaro estão na liderança das pesquisas em 23 das 103 cidades brasileiras com mais de 200 mil eleitores, enquanto os de Lula estão na frente em 16.
Bolsonaristas estão na frente em capitais que elegeram Lula em 2022, como Porto Alegre, Aracaju, Salvador ou Fortaleza. Em São Paulo, as pesquisas mostram que Boulos só conseguiu até agora atrair metade dos eleitores do presidente, que ganhou naquele mesmo ano na cidade com 53,5% dos votos. E isso mesmo fazendo uma campanha rica, para a qual o PT contribuiu com R$ 30 milhões.
A esta altura, já está mais ou menos evidente que a direita sairá forte das urnas — e que, apesar das brigas internas e da ameaça representada por Pablo Marçal, o bolsonarismo segue potente. Não se pode dizer o mesmo sobre o lulismo. Isso deveria funcionar como um sinal de alerta para o PT e para o presidente da República.
A História mostra que os resultados das eleições municipais nem sempre revelam o que acontecerá nas presidenciais dois anos depois. Em 2020, o PT perdeu quase cem prefeituras e não conquistou o comando de nenhuma capital pela primeira vez desde a redemocratização, mas ganhou a Presidência em 2022.
Ainda assim, é sintomático dos desafios de Lula que seus aliados com mais chance de vencer neste ano não sejam petistas e que muitos sejam mais de centro do que propriamente de esquerda.
Ainda que aos trancos e barrancos e a reboque da inelegibilidade de Bolsonaro, a direita tem experimentado o surgimento de novas lideranças, como Tarcísio de Freitas (Republicanos), Michelle Bolsonaro (PL) e até Pablo Marçal.
Em contraste, a esquerda patina, em parte acomodada pela expectativa de uma candidatura de Lula à reeleição em 2026. Num ambiente político tão polarizado como o de hoje, o afastamento do presidente da campanha eleitoral pode fazer a diferença em cidades importantes. E não será suficiente para poupá-lo do ônus de uma eventual derrota da esquerda.
Marçal prepara ofensiva digital, e campanha de Nunes acende alerta para reta final sem rádio e TV
Por Bianca Gomes e Pedro Augusto Figueiredo / O ESTADÃO DE SP
O influenciador Pablo Marçal (PRTB) está preparando uma ofensiva digital para alavancar sua candidatura na reta final da campanha à Prefeitura de São Paulo. O movimento será deflagrado a partir de sexta-feira, 4, quando a propaganda no rádio e televisão terá acabado e o impulsionamento de publicações nas redes sociais estará proibido.
A equipe de Ricardo Nunes (MDB) está em alerta com os três últimos dias da campanha sem a propaganda na TV e no rádio. Para aliados do emedebista ouvidos pelo Estadão, o prefeito conseguiu sustentar seu desempenho nas pesquisas graças à força do horário eleitoral gratuito, onde detém o maior tempo de exposição entre todos os candidatos.
A preocupação cresce diante do desempenho tímido de Nunes no ambiente digital e da forte presença de Marçal nas redes sociais. Aliados do prefeito avaliam que a campanha demorou a investir no ambiente online e não conseguiu se estruturar para enfrentar o domínio digital de Marçal, ficando em desvantagem nos últimos dias da campanha.
A campanha de Nunes esperava que o prefeito chegasse às vésperas da eleição com uma vantagem de 10 pontos sobre os adversários, o que permitiria alguma desidratação na reta final sem comprometer a sua liderança. No entanto, esse cenário não se concretizou. Na pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira, o prefeito aparece com 24% das intenções de voto, contra 23% do deputado federal Guilherme Boulos (PSOL) e 21% de Marçal. Como a margem de erro do levantamento é de dois pontos porcentuais para mais ou para menos, os três estão tecnicamente empatados.
Marçal quer criar ‘movimento’ de apoio
Nos últimos dias, Marçal tem focado na gravação de vídeos com seus candidatos à Câmara Municipal e em conteúdos exclusivos para suas redes sociais, que começarão a ser publicados a partir de sexta-feira, 4, um dia depois do fim do horário eleitoral gratuito.
“A campanha eleitoral que não gera paixão no eleitor, quando acaba o combustível de rádio, TV e impulsionamento, aí acabou o resto”, disse Marçal em uma entrevista coletiva na terça-feira, 1º, comemorando que a “pancadaria” contra ele vai cessar. “Escreve lá: Marçal está feliz que acabou o programa eleitoral gratuito. De quinta-feira para frente é comigo. Eles não têm mais o que fazer. Eles não dão conta de fazer o que eu faço”, acrescentou ele.
Um aliado afirma que Marçal adotará um tom mais propositivo e destacará a equipe que pretende levar para a administração municipal, caso seja eleito, buscando reduzir sua rejeição e se reposicionar como gestor após as polêmicas que marcaram sua campanha.
Uma preocupação é melhorar sua imagem perante ao eleitorado feminino. Depois de dizer que “mulher não vota em mulher, mulher é inteligente” em um embate com Tabata Amaral (PSB) no debate de segunda-feira, 30 , ele afirmou no dia seguinte que seu secretariado pode ter maioria feminina porque mulheres são “mais competentes e biologicamente mais inteligentes”.
Marçal convocou a coletiva de imprensa para anunciar duas integrantes de sua eventual equipe: a economista Selene Peres Nunes, ex-secretária no governo de Ronaldo Caiado (União) em Goiás, comandaria a Secretaria de Gestão e Responsabilidade Fiscal e a ex-jogadora de vôlei, Patrícia Borges (União), a Secretaria de Esportes — ela é candidata a vereadora em São José dos Campos (SP).
Outros três secretários já haviam sido anunciados na semana passada. Marcos Cintra, secretário da Receita Federal no governo Jair Bolsonaro (PL), foi escolhido para responder pela Secretaria da Fazenda e o médico Wilson Pollara para ser secretário de Saúde, posto que já ocupou na gestão João Doria, em um eventual governo Marçal.
Filipe Sabará, outro ex-secretário de Doria e coordenador da campanha de Marçal, também integraria um eventual secretariado do ex-coach, mas seu cargo não foi anunciado. “O [Ricardo] Salles seria um grande nome para ser secretário. Estou pensando em convidá-lo”, disse o candidato do PRTB, em aceno à base bolsonarista que queria o ex-ministro do Meio Ambiente como candidato a prefeito de São Paulo.
Salles organizou um jantar em sua casa na noite de terça-feira com empresários interessados em conhecer Marçal e declarou apoio ao candidato do PRTB.
Marçal não revela detalhes sobre o conteúdo das publicações, mas indica que usará suas redes para criar um movimento de apoio à sua candidatura nos últimos dias antes da votação. Na visão dele, a estratégia não teria como ser contida por Nunes e outros adversários porque eles não têm a mesma força na internet e nem poderiam gastar dinheiro para aumentar o alcance das próprias publicações.
O candidato do PRTB afirmou que, se o horário eleitoral e o impulsionamento acabassem no sábado, não haveria “pressão” para chegar ao segundo turno. No entanto, acredita que sexta e sábado são suficientes “para o ar abrir na cidade de São Paulo”.
Nunes mantém aposta em Tarcísio, voto útil e gestão
Faltando poucos dias para o primeiro turno, Nunes mantém a aposta no discurso do voto útil, argumentando que apenas ele é capaz de derrotar Guilherme Boulos em um eventual segundo turno.
A campanha do prefeito dobrou a aposta no apoio de Tarcísio nesta reta final. O governador tem aparecido no horário eleitoral do prefeito justamente reforçando o discurso do voto útil. Em uma das peças veiculadas nesta quarta-feira, ele diz que “quem vota no Marçal está ajudando o Boulos”. Paralelamente, Nunes intensificou a distribuição de materiais em diferentes bairros da cidade, detalhando as obras e entregas de sua gestão em cada região.
Nos últimos dias, o prefeito ainda endureceu o discurso contra Marçal, explorando, na TV e no rádio, a condenação do candidato por envolvimento com organização que aplicava golpes em contas bancárias, além de declarações polêmicas dele sobre mulheres, incluindo uma fala no último debate sobre mulher não votar em mulher porque é “inteligente”.
Aliados de Nunes pressionavam para que ele também subisse o tom contra Boulos, que tem explorado em debates e em inserções no rádio o boletim de ocorrência que a esposa do prefeito registrou contra o marido o acusando de violência doméstica e outros episódios envolvendo a mulher do mandatário.
Nesta quarta-feira, Boulos divulgou uma nova peça de campanha no rádio, incentivando o eleitorado a buscar no Google “Ricardo Nunes esposa PCC”. Quando questionado pela imprensa, Nunes nega ter agredido a esposa, mas tem resistido a abordar temas familiares na campanha.
O fator Marçal
Merval Pereira / O GLOBO
A eleição para a Prefeitura de São Paulo está tão estranha que uma eventual ida do candidato Pablo Marçal ao segundo turno poderá abrir “as portas do inferno” no campo da direita. Se for contra o psolista Guilherme Boulos, deverá unir a direita e colocar em situação delicada tanto o ex-presidente Jair Bolsonaro quanto o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, principal apoiador do prefeito Ricardo Nunes.
Vencendo a eleição, Marçal passará a ser o candidato da direita à Presidência da República, queira Bolsonaro ou não. A estratégia do ex-presidente — jogar até o último momento com a esperança de que possa vir a ser absolvido pela Justiça para concorrer à Presidência, como fez Lula em 2018 — irá por água abaixo. A direita já terá seu candidato, que, para chegar à Prefeitura paulistana, terá convencido a maioria dos direitistas de que hoje é ele quem pode derrotar Lula e o PT, não mais Bolsonaro.
Ainda que não vença a eleição — não há sinal definitivo de uma onda “marçalista” nestes próximos dias, só indícios incipientes —, Marçal já é uma pedra no sapato dos Bolsonaros e deverá tentar permanecer como novo líder da direita, mesmo enfrentando diretamente o ex-presidente — o que poderia prejudicar a direita nacional. Sua influência no país todo ainda é pequena, mas há sinais de apoio noutros estados, inclusive no Rio, terra onde nasceu o bolsonarismo.
A escolha de Bolsonaro por Ricardo Nunes, com base na máquina política do prefeito, levou-o a ser visto como mais um político tradicional, que se entregou às negociações envolvendo interesses diversos. Muitos dos liberais e conservadores que apoiam (ou apoiavam?) Bolsonaro hoje acham que Marçal é mais eficaz no desmantelamento da máquina política tradicional. Não que necessariamente gostem de seu jeito de ser, mas admiram seu destemor para combater os “comunistas” que mais uma vez estão no poder, agora representados por Boulos, do PSOL, na corrida à Prefeitura de São Paulo. São semelhantes aos centristas que votaram em Lula para derrotar Bolsonaro em 2022.
Mesmo que achem que ele possa ser corrupto e use truques baixos para enganar seus seguidores, consideram que vale a pena apoiá-lo pela firmeza de suas posições, pela valentia que demonstra ao enfrentar Boulos.
Nunes, em contrapartida, é desprezado por esses eleitores como representante da velha política desonesta e ineficaz. Eles querem derrotar os petistas não por meio da máquina pública, mas com a virulência das atitudes de desmonte dessa máquina por dentro. E Marçal parece ter a coragem para isso, como Bolsonaro parecia em 2018.
Na visão dos bolsonaristas, toda a arquitetura de mudanças promovida por Bolsonaro vem sendo desmontada pelo governo petista, e o trabalho de “destruição criativa” terá de ser retomado num eventual próximo governo direitista. O protagonismo de Marçal nesta campanha eleitoral desmonta a estratégia que vem sendo calculada há tempos em dois campos direitistas.
De um lado, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, sempre defendeu que Tarcísio de Freitas se candidate à reeleição ao governo de São Paulo, para disputar a eleição presidencial só em 2030. Seus inimigos dizem que ele quer ser vice, para assumir o governo quando Tarcísio se lançar candidato. Outro lado defende que a direita concorra com um dos governadores: Tarcísio, de São Paulo; Caiado, de Goiás; Zema, de Minas; ou Ratinho Júnior, do Paraná — nessa ordem de preferência. Quem tiver mais condições ganha o apoio dos demais.
O fator Marçal entra nessa equação como um divisor. Todos, hoje, concordam em que apenas Tarcísio tem condições de derrotar Lula. Se o presidente atual não tiver condições de concorrer, porém, a disputa seria mais fácil, pois acreditam que, sem Lula, o PT não tem chance de vencer a direita unida. Isso se a direita se unir em torno de algum candidato.
Se Bolsonaro não se tornar elegível até lá, Marçal pretende se apresentar. Pode ser, porém, que um desses governadores não aceite se submeter a ele, como Tarcísio. Ele disse que, num segundo turno entre Marçal e Boulos, o melhor seria votar nulo.
Eleições municipais paulistanas indicam desgaste das bolhas
Por William Waack / O ESTADÃO DE SP
O primeiro turno da eleição municipal paulistana traz um problema para Lula e Bolsonaro, os donos das duas grandes bolhas. Eles parecem menos influentes do que se supunha.
O cenário mais provável de um segundo turno continua sendo o da polarização “normal” da política brasileira (é considerada pequena a probabilidade de que o candidato da esquerda não chegue lá). Ainda assim permanecerá a sensação de desgaste das duas figuras.
O de Lula é mais evidente até mesmo na sua disposição física de encarar campanhas eleitorais domésticas, diante de um mundo lá fora a ser salvo por ele. A questão central para o petista, porém, é o notável enfado que causam suas ideias antigas e seu apego a um passado que existiu sobretudo na sua própria cabeça.
O desgaste de Bolsonaro é produzido não só pela perspectiva de longas batalhas jurídicas morro acima sem chances de se tornar elegível (talvez escape da cadeia). Ele deixou de ser uma “novidade” na vitrine das surpresas políticas e sua notória dificuldade de se concentrar em eixos claros de atuação política diminuíram consideravelmente sua capacidade de ungir candidatos.
É bastante óbvio que políticos disputando eleições ainda têm de se referir de uma forma ou outra aos donos das grandes bolhas. Mas é muito mais pelo “constrangimento” que tanto Lula quanto Bolsonaro ainda têm capacidade de criar.
Reza a doutrina que “toda política é local”, o que parece ter menos validade quando é imenso o número de eleitores (como São Paulo) e são muito complexos os fatores econômicos e sociais, que refletem e influenciam condições “nacionais”. Nesse sentido, as eleições municipais paulistanas são preocupantes para Lula e Bolsonaro.
Elas sugerem algum grau de dissolução da calcificação das bolhas descritas por analistas e acadêmicos, e calçadas em convincente material empírico. O mais explícito foi o racha na bolha da “direita”, onde ficou claro que Bolsonaro não foi capaz de consagrar um sucessor inconteste. Mas também na esquerda, com o candidato em São Paulo se esforçando para atingir um eleitorado além do tradicional reduto petista, Lula tem se mostrado incapaz.
Há alguns padrões “novos” incorporados na luta política que nem Lula ou Bolsonaro estão sendo capazes de “conduzir”. Em parte são valores como empreendedorismo ou religião que as estratégias políticas de esquerda têm dificuldades de entender e atingir.
Em parte são uma busca por sentido e direção, no campo de centro direita, que não se enxerga no bolsonarismo ou mesmo o repele abertamente. É muito difícil prever como esses padrões impactarão as eleições de 2026, mas o que acontece em São Paulo indica que serão diferentes do que se pensava ainda no ano passado.


