Eleição em São Paulo ainda merece mais debate
Quando não se prestam a socos e cadeiradas, debates entre postulantes a um determinado cargo público cumprem uma função importante no contexto eleitoral: estimulam o confronto de ideias e propostas.
Não que estas e aquelas estejam ausentes em outros momentos da campanha; palanques e peças de rádio ou TV, contudo, revestem-se de inevitáveis toques publicitários, enquanto entrevistas não constituem o foro mais adequado para comparar iniciativas de diferentes candidaturas.
Além disso, no esforço de passar uma mensagem sintética e duradoura, candidatos costumam direcionar sua artilharia para características ideológicas, alianças partidárias e condutas pessoais, como se estivessem colando um selo de virtudes em si mesmos e carimbando os adversários com a marca dos defeitos.
São, sem dúvida, aspectos relevantes para o eleitor decidir o voto, mas eles não bastam. Quando se disputam cargos majoritários, como o comando da Prefeitura de São Paulo, é fundamental conhecer os programas de governo e saber como os principais candidatos os criticam e os defendem.
Daí por que são deploráveis os ataques físicos desferidos por José Luiz Datena (PSDB) contra Pablo Marçal (PRTB) e por um assessor deste contra o marqueteiro de Ricardo Nunes (MDB): além da boçalidade que representam, eles conspurcam uma ocasião preciosa para a vida democrática.
Sem arruaças dessa natureza, o encontro promovido pela Folha e pelo UOL nesta segunda (30) teve o mérito de adotar o banco de tempo, um formato tradicional na França que favorece a interação entre os participantes.
Utilizado pela primeira vez no Brasil em 2018, durante debate da Folha, do UOL e do SBT, o modelo permite a cada candidato administrar seus minutos —20, no caso atual— como julgar melhor; sempre que alguém fala, seu tempo começa a ser descontado, como ocorre em partidas de xadrez.
Desde que o relógio permitisse, cada candidato podia fazer uso da palavra em qualquer resposta, mesmo que a pergunta não lhe tivesse sido dirigida. Assim, surgiram diversas oportunidades para um explorar o que considera um ponto vulnerável de outro.
Reconheça-se, entretanto, que mesmo esse esforço resulta insuficiente quando os postulantes preferem tergiversar, deixando de lado tanto os variados problemas da cidade quanto as soluções que prometem implementar.
Ao paulistano desolado com a qualidade das discussões resta o consolo de saber que há remotas chances de a eleição terminar no primeiro turno. De acordo com a pesquisa mais recente do Datafolha, o prefeito Nunes, o deputado Guilherme Boulos (PSOL) e o influencer Marçal brigam pelas duas vagas na segunda rodada.
Melhor assim. Quando sobrarem apenas dois postulantes no páreo, espera-se que o medo da rejeição os faça abandonar os subterfúgios rasteiros para que os temas da cidade possam, enfim, assumir o primeiro plano.
Candidatas invisíveis: mulheres relatam abandono por partidos, interessados apenas em cumprir cota de 30%
Por Camila Turtelli, Sarah Teófilo e Mariana Muniz / O GLOBO
Mesmo sem tempo para se dedicar à campanha eleitoral, a diarista Adriana Regina da Silva, de 47 anos, aceitou entrar na disputa após dirigentes do partido Republicanos a procurarem em busca de mulheres para concorrer. Mãe de três filhos, ela costuma sair de casa às 6h30 para trabalhar e volta apenas à noite, inclusive aos sábados. Essa rotina e a falta de recursos impediram que a candidata a vereadora em Jarinu (SP), cidade de 37,5 mil habitantes a 70 quilômetros da capital paulista, alavancasse a sua campanha. A uma semana das eleições, a postulante não recebeu um centavo da legenda até o momento nem fez publicações nas redes sociais para divulgar o seu número nas urnas.
— Me convidaram a sair porque precisava ter mais mulheres no partido e eu acabei aceitando — afirmou Adriana, que diz ter se aproximado de políticos por meio de uma irmã que trabalhava na prefeitura. Essa não é a primeira vez que Adriana figura como candidata. Seu nome já constou nas urnas em 2016, pelo PTB, e em 2020, pelo mesmo Republicanos. Nas duas ocasiões, o resultado foi o mesmo: nenhum recurso para campanha e apenas 15 votos: — Foram só os da minha família — disse ela.
Procurados, dirigentes do Republicanos não quiseram comentar.
— Eu relutei bastante em aceitar ser candidata, mas eles precisavam preencher a cota de mulheres. Acabei aceitando, porque se quero igualdade e representatividade, então, por que não vou aceitar? — afirmou Elizete. Ela contou que, sem ajuda, tem pedido votos apenas entre amigos, no boca a boca.
O MDB, partido de Elizete, lançou 20 candidatos a vereador na cidade de 214.493 habitantes, sendo seis mulheres. Desse total, apenas 14 receberam recursos do fundo eleitoral — 10 homens (R$ 119 mil no total) e quatro mulheres (R$ 29.050). Elizete não recebeu nada. O presidente do MDB de Criciúma, Valdir Cobalchini, afirma que o problema é "matemático": — Não temos como atender a todos os candidatos. Atendemos a legislação ao enviar 35% para mulheres — disse ele, referindo-se às candidaturas femininas no estado todo.
A lei eleitoral prevê que, além do número mínimo de candidatas, 30% dos recursos públicos reservados para campanhas precisam abastecer candidaturas femininas. Mas a norma não estabelece divisão igualitária entre elas, cabendo a cada partido adotar seus próprios critérios de distribuição.
O resultado prático da aplicação dessa regra é a concentração de recursos em poucas campanhas e uma série de candidaturas femininas sem qualquer suporte. Até sexta-feira, 2 de cada 3 candidatas a vereadora no país não tinham visto a cor do dinheiro. Das que viram, 18% receberam até R$ 1 mil dos cofres dos partidos — e a maioria delas (58%) ganhou de R$ 1.001 até R$ 10 mil para bancar gastos eleitorais. Entre as eleitas de 2020, o custo médio de financiamento foi de R$ 36,2 mil. Neste ano, apenas 17 mulheres tiveram mais de R$ 1 milhão colocado à disposição pelas legendas.
Em alguns casos, como no PSD de Recife, a aposta do partido em um único nome levou quase metade das candidatas a vereadora no município a cogitar desistir das suas campanhas. Dos R$ 670 mil enviados até agora para 16 mulheres, R$ 500 mil foram para impulsionar apenas uma candidatura à Câmara Municipal — de Déa de Paula, filha do ministro da Pesca, André de Paula, do mesmo partido Uma das postulantes chegou a comunicar dirigentes da legenda que iria abrir mão da disputa eleitoral. "Não consigo fazer nada sem apoio", escreveu Andreza Salvador em uma mensagem enviada a um coordenador partidário de Recife. Ela também divulgou uma nota em grupos de WhatsApp na qual reclama do "descompromisso" da sigla com as mulheres que sonham em entrar na política (leia abaixo).
— A partir do momento que eu entrei (no partido), recebi muitas promessas. Eu pedi tanta ajuda que eu já desisti — afirmou Andreza. A crise só foi contornada após as reclamações se avolumarem. A sigla decidiu repassar R$ 10 mil para cada uma das sete candidatas que estavam questionando a falta de apoio. Procurado, o PSD recifense não quis comentar. O ministro da Pesca e sua filha também não se pronunciarem.
Mas o abandono dos partidos em relação a candidatas mulheres vai além da falta de dinheiro para imprimir panfletos ou mesmo colocar combustível no carro para rodar a cidade em busca de votos. Em Cabo de Santo Agostinho (PE), município de 203 mil habitantes na região metropolitana de Recife, a técnica de enfermagem Patrícia Lopes relata que além de não receber recursos que haviam sido prometidos quando aceitou ser candidata a vereadora pelo Partido da Mulher Brasileira (PMB), foi excluída de reuniões partidárias.
— Entrei no partido esperando receber algum recurso e até agora nada. Se você não tem um financeiro bom, eles também lhe deixam de lado, excluem de muitas coisas — disse Patrícia. — A gente percebe que o tratamento com os homens é muito diferente. Eles dão mais acolhimento, mais atenção. Se é mulher, é mais para a parte de cota mesmo — completou.
A presidente do PMB, Suêd Haidar, disse que o TSE bloqueou os repasses de dinheiro público à sigla, que por dois anos consecutivos deixou de prestar contas: — Se tivesse liberado, eu teria dado apoio — afirmou ela.
O descompasso no investimento em campanhas de homens e mulheres reflete na baixa representatividade delas na política. Nas eleições deste ano, as candidaturas femininas respondem por 34% dos registros, a maior proporção dos últimos 24 anos, mas ainda longe dos 51,5% que elas representam na população do país.
Cruzamento de dados feito pelo GLOBO mostra que 1.076 candidatas que não receberam recursos e tiveram votação inexpressiva em 2020 — até 10 votos — estão concorrendo novamente nas eleições deste ano. Destas, 536 também não registraram movimentação financeira até o momento. A presidente do TSE, Cármen Lúcia, afirmou que o temor de sofrer retaliações dos partidos muitas vezes impede mulheres de denunciarem o abandono às suas candidaturas.
— A gente precisa ter canais específicos de denúncia para apuração. Porque muitas não reclamam e não chega ao Judiciário — afirmou Cármen ao GLOBO.
A falta de apoio a essas mulheres ocorre mesmo após o TSE adotar providências para impulsionar candidaturas femininas. Uma delas foi estabelecer o prazo de 8 de setembro para que fossem feitos repasses às campanhas de mulheres. A determinação teve como objetivo evitar que o dinheiro só chegasse na véspera da eleição, sem tempo hábil para ser utilizado.
A eleição municipal deste ano também será a primeira em que o TSE analisará os casos com base em regras pré-definidas para identificar indícios de candidaturas-laranjas, ou seja, o registro de uma mulher apenas para cumprir a cota. Uma súmula publicada pela Corte em abril estabelece três critérios para reconhecer uma candidatura fictícia: votação zerada ou pífia das candidatas; prestação de contas com movimentação financeira irrelevante; e ausência de atos efetivos de campanha.
O exemplo de Jacobina
Esses filtros foram adotados a partir do julgamento de um caso referente a eleição para a Câmara Municipal em Jacobina (BA). O tribunal entendeu que o PP incluiu quatro mulheres na chapa formada em 2020 apenas para cumprir a cota mínima de 30% de candidatas e determinou a cassação dos envolvidos, incluindo um vereador eleito. O partido alega não haver “evidências” da ilegalidade.
A punição também incluiu as quatro mulheres consideradas laranjas — uma professora, uma garçonete, uma auxiliar de serviços gerais e uma dona de casa —, que foram condenadas à inelegibilidade. Procuradas, elas não quiseram falar sobre o caso. Quatro anos depois, seguem exercendo as atividades que já possuíam e nenhuma delas voltou a se envolver com política.
Especialistas em direito eleitoral afirmam que o receio de acabarem punidas como as candidatas de Jacobina é o que leva, em alguns casos, mulheres a não denunciar situações na qual são abandonadas pelas siglas. Afinal, elas podem ficar oito anos sem poder se candidatar. Como um dos critérios da Justiça Eleitoral para identificar a candidatura fictícia é ausência de atos de campanha, algumas delas insistem em levar suas candidaturas adiante para tentar evitar uma punição futura.
— Infelizmente, muitas mulheres que aceitam ser candidatas não conhecem as regras do jogo e a dinâmica da política partidária. Muitas vezes, elas caem em armadilhas, quando, por exemplo, os dirigentes partidários fazem promessas sobre recursos para financiamento da campanha e não fazem os repasses — afirma a advogada Gabriela Rollemberg, que promove consultoria gratuita para candidatas, a Quero Você Eleita.
A equipe do projeto tem recebido dezenas de relatos de mulheres que não tiveram, ao longo destes dois meses de campanha, qualquer suporte de seus partidos. Entre eles o da funcionária de uma prefeitura num município de 20 mil habitantes no interior de Pernambuco que afirmou ter assinado um documento em branco para que seu nome fosse usado como candidata. Em contato com a reportagem, ela pediu para não ter a identidade revelada com receio de perder o emprego.
Desde o início de agosto, O GLOBO também acompanha grupos de WhatsApp formados por candidatas para trocar experiências e discutir estratégias de atuação conjunta na hora de cobrarem seus partidos. A maior parte dos relatos é de dificuldades para obter recursos e candidaturas "só para preencher cota".
"Eu não pedi pra ser candidata de nada. Primeiro os meus compromissos que são muitos aliás. Só aceitei ser candidata para preencher a cota das mulheres. Só vou participar quando for possível", escreveu no grupo uma dessas mulheres, que pediu anonimato por medo de retaliações políticas.
O Observatório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para as eleições monitora a situação de candidatas mulheres para identificar situações em que elas são usadas para fraudar a cota de gênero. Até agora, porém, não registrou qualquer denúncia do tipo. — O que a gente identifica é que as mulheres têm dificuldade de fazer qualquer denúncia, sobretudo as que são candidatas ao cargo de vereador, pois temem retaliações — diz Sidney Neves, presidente da Comissão de Direito Eleitoral da OAB e responsável pelo observatório.
'Punição desproporcional'
A punição de mulheres em casos envolvendo candidaturas laranjas, no entanto, virou tema de discussão no TSE em um julgamento concluído no dia 15 de agosto. Na ocasião, a Corte entendeu que o Republicanos fraudou a cota feminina em Granjeiro, município cearense a 415 quilômetros de Fortaleza, e determinou a cassação de toda a chapa eleita em 2020. O partido negar ter cometido a irregularidade. Entre os quatro vereadores que perderam o mandato estava Renagila Viana, a única mulher na Câmara Municipal.
— Parece-me um contrassenso político-normativo que a sanção de violação à cota de gênero nas eleições municipais redunde exatamente na redução de mulheres no parlamento municipal e, consequentemente, no afastamento ainda maior das mulheres na política — disse o ministro Floriano de Azevedo Marques durante o julgamento. Ele foi acompanhado por outros três magistrados, mas terminou vencido.
O advogado Raul Bittencourt, que defendeu Renagila no TSE, entende que o mandato da vereadora deveria ter sido mantido, inclusive porque ela foi a segunda mais votada na eleição da cidade.
— O que a gente observa é que essa é uma punição desproporcional, sobretudo quando uma mulher que foi eleita com tantos votos é atingida. A representatividade, que é o objetivo das cotas, acaba também sendo atingida — afirmou Bittencourt.
Apesar da cassação, o tribunal entendeu que Renagila não participou do esquema de candidaturas legendas e não aplicou a pena de inelegibilidade a ela.
O caso de Granjeiro não foi isolado. O mesmo motivo levou a vereadora Simone Lima a perder o mandato conquistado em 2020 na Câmara Municipal de São Miguel dos Campos (AL), a 56 quilômetros de Maceió. Ela teve que deixar a cadeira na cidade de pouco mais de 60 mil habitantes depois que a sua chapa foi cassada por fraude à cota de gênero. Após trocar sua antiga sigla, o PP, e se filiar ao PV, neste ano ela decidiu se candidatar novamente, mas diz ter ficado mais vigilante em relação às candidaturas de mulheres.
— Da outra vez não fiquei tão atenta, me preocupei apenas com a minha campanha e perdi o meu mandato. Neste ano, estou vigilante — afirmou ela.
Cidade de Motta, favorito de Lira para sucedê-lo, tem duelo eleitoral entre pai e ‘Moro do sertão’
Por Eduardo Gayer / O ESTADÃO DE SP
ENVIADO ESPECIAL A PATOS (PB) – No coração do sertão nordestino, a população de Patos (PB) acompanha, nessas eleições municipais, um duelo que parece contar a história política recente do País. O prefeito Nabor Wanderley Filho (Republicanos), candidato ao quarto mandato, busca não apenas manter o controle do município nas mãos da família, poderosa desde os anos 1950, mas consolidar sua reabilitação política após um período de ocaso. Do outro lado da polarização local está Ramonilson Alves (PSDB), ex-juiz que foi algoz do prefeito nos tempos de toga.
O paralelo entre o cenário patoense e o embate do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com o senador Sérgio Moro (União-PR) é inevitável – e pode até profetizar a disputa presidencial de 2026, para a qual o ex-juiz da Lava Jato é ventilado. Nas últimas semanas, contudo, Patos ganhou importância nacional por outro motivo: é a terra natal do deputado federal Hugo Motta (Republicanos-PB), filho do prefeito Nabor e favorito do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), para sucedê-lo no cargo.
Aos 35 anos, idade mínima para entrar na linha sucessória da Presidência da República, Motta é uma figura em ascensão na política brasileira. Chegou a Brasília como deputado federal em 2011 e usou na posse o broche do avô Edivaldo Motta, que foi constituinte ao lado de Lula. Antes no MDB, o expoente do Centrão cresceu na capital com as bênçãos do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, e ao lado de Lira acompanhou o antigo aliado do apogeu ao cadafalso.
O poder de Motta tornou-se um ativo para a gestão do pai, que asfaltou dez novas ruas com verbas enviadas pelo filho. Só neste mandato de Nabor (2021-2024), o deputado destinou a Patos R$ 10,9 milhões em emendas parlamentares individuais, incluindo restos a pagar. O número não leva em conta o que foi destinado ao município via emendas de relator (antigo Orçamento Secreto) e emendas de comissão, que não são rastreáveis. O Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu a execução dessas emendas até a definição de critérios de transparência.
“Hugo tem nos ajudado com recursos para saúde, educação, pavimentação, aquisição de máquinas para a zona rural. Em praticamente todas as áreas da prefeitura temos o trabalho do deputado. Ele tem sido fundamental”, afirmou o prefeito Nabor ao Estadão.
Apoiado pelo governador da Paraíba, João Azevêdo (PSB), e pelo senador Efraim Filho (União-PB), Nabor conversou com a reportagem na residência de sua irmã Helena, secretária de Desenvolvimento Social do município. Era feriado local em homenagem à padroeira da cidade, Nossa Senhora da Guia. Com situação política confortável, ele não fez atos de campanha naquele dia e na véspera. A reta final da campanha terá uma caminhada com o governador e Hugo Motta.
Até lá, o candidato à reeleição será pressionado sobre os problemas da cidade. De acordo com o Instituto Água e Saneamento, 86,64% dos patoenses não têm acesso a saneamento básico, o que impõe às ruas um odor desagradável. Em 2021, dado mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) era de 0,801, em uma escala de 0a1.
Cortado pela rodovia Transamazônica, o município de Patos tem 108 mil habitantes, mas quem anda pelas ruas tem a sensação de que não há eleição por lá. Em um misto de frustração com a política e um clima de “já ganhou” para Nabor, há poucos atos de panfletagem. O prefeito tem apoio de 15 dos 17 vereadores.
“Nabor hoje é o político que está mandando, não tem uma força [para concorrer com ele]. E aqui no sertão da Paraíba, a maior liderança é o Hugo Motta”, avaliou o sapateiro Valmir Rodrigues, 48 anos, um patoense que acompanha a política local de perto. Ele diz estar indeciso sobre em quem votar. “Estou na corda bamba”, revela ao lado dos sapatos que serão enviados para comercialização justamente em Brasília.
Para o principal candidato da oposição, as contratações temporárias feitas pela prefeitura são um desafio adicional que favorece o prefeito. “Seja eu, Gandhi ou Papa Francisco, 12 mil pessoas te veem como adversário do prato”, afirmou Ramonilson ao Estadão, que aponta para o prefeito um óleo de peroba durante os debates. “Isso aqui é a mini Venezuela. Sequer consigo falar em todos os veículos de comunicação”.
Juiz aposentado após comprovar visão monocular, Ramonilson se apresenta como cristão e tenta afastar as comparações com Moro. “Confesso que tenho admiração pelo que ele representou em termos de caráter republicano, de moralidade. Mas um é do Nordeste, outro do Sul, não há nenhum paralelo em que pese ambos terem sido juízes”, afirma. “A inspiração não é ele [Moro]. É Jesus Cristo”.
O tucano nega a tese de que perseguiu Wanderley Filho enquanto magistrado. “Não fui só eu que eventualmente operei condenações contra ele, que tem reiteradas condenações por improbidade administrativa”, diz. O prefeito rebate: “Esse ex-juiz tentou surfar na onda do falso moralismo que aconteceu no passado. Mas faltou combinar com Deus e com o povo, que é quem elege”.
Para Ramonilson, a política feita pelos “WanderMotta” – uma alcunha instituída pelos opositores – lembra o tempo dos coronéis. “São políticos profissionais, vivem de eleição e praticam tudo o que for necessário, inclusive fora de padrões éticos, para se perpetuarem”, afirmou. As críticas se estendem a Hugo Motta. “Em que pese ser jovem, ele encarna tudo o que a velha política representa. O vale-tudo para chegar e permanecer no poder, sem nenhum respeito, nenhum padrão ético ou cristão.” Nabor entende que as sucessivas eleições da família se devem a entregas para a cidade.
Patos, um município que escapa à polarização nacional
Se nas grandes capitais, como São Paulo, a polarização entre Lula e o ex-presidente Jair Bolsonaro influenciam o comportamento do eleitor, em Patos o debate é focado nos problemas da cidade. Demora para marcar consultas é queixa recorrente nas ruas, e um recente escândalo envolvendo suposta fraude de R$ 21 milhões na contabilização do IPTU por um servidor, agora afastado pela prefeitura, virou munição para a oposição. A “fuga” da nacionalização política visa à sobrevivência dos candidatos: em 2022, o petista obteve 66% dos votos válidos contra 34% de Bolsonaro.
Wanderley Filho se gaba do acesso em Brasília com o filho deputado federal, enquanto Ramonilson foca nas alianças partidárias firmadas nesta disputa. “Temos o apoio do senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB), que é amigo de Lula e vice-presidente do Senado. Todas as portas estarão abertas para Patos”, assegurou o ex-juiz, que tem o PL de Bolsonaro e o Novo na sua coligação.
O PT tem candidato próprio em Patos, o Professor Edileudo, mas a candidatura não é competitiva. A quarta candidata é Aline Leite, do União Popular.
Família de Hugo Motta é poderosa em Patos desde os anos 1950
A história dos Motta Wanderley se confunde com a própria história de Patos, a “joia da coroa” da família. Em 1950, Nabor Wanderley, pai do atual prefeito e avô paterno de Hugo Motta, comandou a cidade por cinco anos. Nabor Wanderley Filho só chegou ao poder em 2004, após dois mandatos do rival político Dinaldo Wanderley, seu primo de quarto grau que morreu de covid-19 há três anos.
Em 2016, depois de dois mandatos, “Naborzinho” emplacou a sucessora: a então sogra Francisca Motta, avó materna de Hugo Motta, e hoje deputada estadual pelo sexto mandato. Mas os ventos contrários chegaram na reta final do mandato de Francisca.
Em setembro daquele ano, a Polícia Federal deflagrou uma operação para apurar irregularidades em contratos de locação de veículos pela gestão municipal. A prefeita foi afastada e sua filha, Ilanna Motta, mãe de Hugo e então chefe de gabinete, foi presa. A crise custou a eleição de Naborzinho, que tentava ali seu terceiro mandato. Saiu vitorioso o médico Dinaldinho Wanderley, filho de Dinaldo.
Em 2018, um novo revés para política local: Dinaldinho foi afastado por suspeitas de corrupção. O vice renunciou. O presidente da Câmara Municipal, que assumiu em seguida, também. A Justiça Eleitoral determinou uma eleição indireta no município e foram quatro prefeitos em dois anos.
A instabilidade política da época, na avaliação de apoiadores da gestão municipal e da oposição, pavimentou o retorno de Nabor Filho ao poder em 2020. Aliados dizem que ele voltou para fazer justiça com a própria história. O quarto mandato disputado neste ano busca consolidar essa ressurreição política.
Eleição em São Paulo tem reta final sem Lula e Bolsonaro e expectativa de polarização no 2º turno
Por Bianca Gomes e Zeca Ferreira / O ESTADAO DE SP
A polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não tem dado o tom da reta final da eleição para a Prefeitura de São Paulo. Ao contrário, os dois padrinhos políticos estiveram ausentes da capital paulista nos últimos dias. Lula, que viajou ao México neste domingo, 29, cancelou uma agenda que faria ao lado de Guilherme Boulos (PSOL) neste fim de semana, frustrando a campanha do psolista. O ex-presidente, que esteve em São Paulo pela última vez no dia 7 de setembro, tem rodado outros Estados do País para pedir voto a aliados.
Tanto a campanha de Nunes quanto a de Boulos já veem um segundo turno entre os dois como o cenário mais provável. As pesquisas de tracking realizadas pelas equipes nos últimos dias reforçam essa expectativa, com Pablo Marçal (PRTB) numericamente atrás dos dois. Nesse cenário, as campanhas apostam que a polarização poderá ganhar força na segunda fase da disputa municipal.
Apesar de o entorno de Boulos considerar que uma presença mais intensa de Lula em São Paulo seja fundamental para conquistar votos na periferia, onde Nunes tem ganhado terreno, membros da campanha psolista avaliam também que esse movimento pode ser adiado para o segundo turno, uma vez que há confiança de que o nome do PSOL deverá seguir na disputa. Além disso, interlocutores de Boulos afirmam que, considerando o perfil da cidade, dificilmente haverá dois candidatos da direita no segundo turno da disputa.
Integrantes do governo Lula afirmam que a ausência do presidente nas carreatas de Boulos que ocorreram neste sábado, 28, nas zonas sul e leste de São Paulo, está relacionada, em parte, à avaliação de que sua presença não é essencial neste momento da campanha. Inicialmente, estava previsto que Lula participaria de dois eventos com Boulos. Mas o Palácio do Planalto reconsiderou sua participação, tendo como principal justificativa a viagem dele para o México neste domingo, para acompanhar a posse de Claudia Sheinbaum, primeira mulher eleita presidente do país latino-americano.
A decisão de cancelar a presença de Lula nos eventos de Boulos também levou em conta a preservação da saúde do presidente, de 78 anos, que retornou há poucos dias de uma viagem a Nova York. Além disso, Lula ainda deve se reunir com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para discutir a regularização das casas de apostas esportivas online, conhecidas como bets.
A campanha de Boulos afirma que espera a presença do presidente em um evento na véspera do primeiro turno, no dia 5 de outubro. Já para o segundo turno, é esperado que Lula participe de forma mais ativa do pleito – ainda que assessores de Boulos ponderem que a participação do mandatário dependerá da agenda presidencial. Boulos aposta justamente nessa participação de Lula para ampliar sua intenção de voto entre o eleitorado de baixa renda. Segundo a última pesquisa Datafolha, divulgada na quinta-feira, 26, Nunes aparece à frente nesse segmento, com 32%, ante 21% do candidato do PSOL.
Aliados de Bolsonaro, por sua vez, garantem que ele não planeja pisar na capital paulista antes do primeiro turno. Mas se Nunes avançar para o segundo, o ex-presidente “vai entrar pesado” na campanha, disse um aliado próximo a ele.
Nas últimas semanas, Bolsonaro tem percorrido o País participando de eventos de campanha de seus correligionários. Recentemente, ele esteve em cidades como Jaru (RO), Ji-Paraná (RO), Goiânia (GO), Aparecida de Goiânia (GO), Anápolis (GO), Alexânia (GO), São Luís (MA), Imbituba (SC), Balneário Camboriú (SC) e Imperatriz (MA).
O entorno de Nunes já planeja agendas ao lado do ex-presidente e assegura que está “fora de cogitação” descartar Bolsonaro numa eventual próxima etapa da eleição. Embora posar ao lado do ex-presidente seja visto como um risco, devido à alta rejeição dele na capital, pessoas próximas a Ricardo Nunes dizem que os compromissos conjuntos estão “apalavrados” e que o prefeito não quebrará o acordo. Um aliado do prefeito afirmou que todos entendem que é importante essa presença do político do PL.
No primeiro turno, a relação entre Nunes e Bolsonaro foi marcada por idas e vindas, em um jogo de “morde e assopra”, com poucas aparições juntos. No ato bolsonarista de 7 de Setembro, o prefeito subiu no carro de som onde estava Bolsonaro e posou para fotos com aliados do ex-presidente, incluindo o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Já Bolsonaro participou da convenção do MDB que oficializou a candidatura de Nunes à reeleição, onde fez um discurso morno, afirmando que o emedebista já havia provado suas qualidades no mandato e era o “nome adequado e justo para São Paulo”.
Nunes chegou a anunciar que Bolsonaro gravaria inserções para o seu horário eleitoral e participaria de uma agenda com ele na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), que foi comandada pelo seu vice, o coronel Ricardo Mello Araújo (PL). Mas nada disso se concretizou. Aliados de Nunes alegam incompatibilidade de agendas, mas há bolsonaristas que afirmam que o comando da campanha não fez questão do encontro. A expectativa é que, num eventual segundo turno, a agenda do Ceagesp seja um dos compromissos conjuntos do ex-presidente e do prefeito.
A eleição para o comando da capital paulista é considerada estratégica para o bolsonarismo. Vencer na cidade, que abriga o maior colégio eleitoral do País, seria uma demonstração de força desse campo ideológico com vistas a 2026 – razão pela qual Bolsonaro fará questão de colocar a sua digital na campanha no segundo turno.
É bom que eleições municipais tenham lógica própria
Eleições municipais observam uma lógica própria, e São Paulo está aí para prová-lo. Padrinhos políticos com força no plano estadual ou federal têm exercido influência limitada na maior cidade do país.
De acordo com a mais recente pesquisa do Datafolha, a disputa pela prefeitura paulistana se estabilizou com uma trinca na dianteira das intenções de voto: Ricardo Nunes (MDB), com 27%, Guilherme Boulos (PSOL), 25%, e Pablo Marçal (PRTB), 21%.
Distantes deles aparecem Tabata Amaral (PSB), com 9%, José Luiz Datena (PSDB), 6%, e Marina Helena (Novo), 2%. Assim como no grupo de cima, nesse segundo pelotão houve movimentações apenas irrisórias nas últimas semanas, sem trocas de posições ou saltos nos percentuais.
Essa monotonia, porém, não diz tudo a respeito do pleito; algumas correntes ganharam bastante corpo em águas mais profundas —e é digno de nota que, ainda assim, não tenham abalado a calmaria da superfície.
Tome-se o caso de Nunes. Em maio, 26% dos entrevistados sabiam que o atual prefeito conta com o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL); essa parcela avançou a 44%, 15 dias atrás, e agora chegou a 49%. Suas intenções de voto, contudo, não mostraram o mesmo crescimento.
E não mostraram porque paulistanos que escolheram Bolsonaro em 2022 se dividem, em blocos quase iguais, entre Nunes e Marçal —situação que não mudou após o ex-presidente reforçar sua preferência pelo prefeito.
Que Bolsonaro não ocupe nenhum cargo público no momento parece irrelevante para a transferência apenas parcial de simpatizantes. A mesma coisa ocorre entre as pessoas que votaram em Tarcísio de Freitas (Republicanos), que faz campanha mais aberta por Nunes e senta-se na cadeira de governador estadual.
Tampouco se trata de fenômeno restrito à direita, campo que oferece aos paulistanos dois candidatos competitivos na dianteira do pleito. Boulos, principal representante da esquerda na disputa, atrai apenas 49% das pessoas que votaram em Lula (PT) em 2022, enquanto Nunes fica com 19%, e Tabata, com 13%.
Os limites dos padrinhos políticos, portanto, não se dão somente em decorrência da rejeição que possam suscitar, ou então em razão de eventual desconhecimento por parte do eleitorado.
Eleições municipais observam uma lógica própria, e é bom que seja assim. Os problemas das cidades precisam ser debatidos pelo que são, e não pela posição estratégica que possam assumir no xadrez da polarização nacional.

