No Ceará, mulheres chegam ao comando de 38 prefeituras; 13 têm prefeita e vice-prefeita
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Em quatro anos, o número de prefeituras comandadas por mulheres no Ceará teve um aumento de 26,6%. Foram 38 prefeitas eleitas em 2024, enquanto em 2020 haviam sido eleitas 30 prefeitas. A média cearense foi maior do que a nacional, que teve um aumento de apenas 10,3% do número de mulheres eleitas para as prefeituras — passando de 656 para 724. O número deve aumentar, porque em 12 cidades há candidatas disputando o 2º turno.
Apesar de importante, o avanço da representatividade feminina ainda é tímido no estado. Dos 184 municípios cearenses, apenas 20,6% vão ter mulheres como prefeitas a partir de 2025. Nas duas únicas cidades do Ceará com 2º turno, Fortaleza e Caucaia, nenhuma mulher está na disputa.
Na capital cearense, inclusive, desde o 1º turno, não houve a presença de mulheres como candidatas à Prefeitura — as nove candidaturas apresentadas eram de homens. O cenário do Ceará não é tão distinto do observado em todo o País.
Nenhuma capital brasileira elegeu uma prefeita no 1º turno. Das restantes, apenas 6 contam com candidatura feminina para a Prefeitura — o destaque é Campo Grande, onde a disputa é 100% feminina, com Adriane Lopes (PP) e Rose Modesto (União) como candidatas.
Gestão municipal 100% feminina
Junto do aumento do número de prefeitas eleitas, outro crescimento chama atenção: as dobradinhas femininas chegando ao comando das prefeituras no Estado. No total, 13 prefeitas cearenses terão, a partir de 2025, uma mulher como vice.
Esse número mais do que dobrou em relação a 2020, quando apenas 6 prefeitas eleitas tiveram como companheira de chapa mulheres. Das 13 chapas femininas eleitas para prefeituras, inclusive, três foram reeleitas.
Em Guaiúba, a prefeita Izabella Fernandes (PSB) e a vice Cléubia (PSB) foram reeleitas, enquanto em Ibaretama, Eliria Queiroz (PSD) e Carlinha (PSB) foram reconduzidas aos cargos de prefeita e vice, respectivamente.
Em Tauá, a chapa formada por Patrícia Aguiar (PSD) e Dra. Fátima (PSD) também foi reeleita no último domingo (6). Patrícia Aguiar conquistou outra marca histórica, sendo eleita pela 5ª vez como prefeita da cidade.
Coordenadora do Laboratório de Estudos de Política, Eleições e Mídia da Universidade Federal do Ceará (Lepem/UFC), Monalisa Soares explica a relevância da eleição de mulheres como prefeita e vice em cidades cearenses.
"Uma dobradinha feminina é importante porque, em última instância, aconteça o que acontecer, seja por uma vacância provisória, uma vacância definitiva, a gestão ocorrerá pelas mãos das mulheres. Então, nós teremos mulheres no contexto da gestão municipal", argumenta.
Um cenário que se contrapõe à estratégia usada por muitos partidos políticos quando se trata de candidaturas femininas, completa a professora de Direito Eleitoral da UFC, Raquel Machado.
Portanto, as mulheres eram colocadas como vice como forma de favorecer a candidatura masculina, escolhida para encabeçar a chapa que concorria ao Executivo municipal.
Apesar de positivo, o fenômeno ainda precisa ser observado com cautela, acrescenta a diretora do Instituto Alziras, Tauá Pires. O Instituto Alziras é uma organização sem fins lucrativos que atua para ampliar e fortalecer a participação de mulheres na política brasileira.
Pires observa que as dobradinhas femininas são "um fenômeno novo, ainda pequeno" e que ainda não há números suficientes para indicar que essa pode ser uma tendência nacional ou mesmo estadual.
"Não dá para a gente analisar de maneira isolada", explica ela, lembrando que muitas das mulheres que chegam a representar candidaturas à prefeitura já iniciaram na vida pública antes, como secretárias do município, por exemplo.
"O Ceará está com números maiores, mas não é uma tendência nacional ter chapas femininas. Então, isso precisa ser analisado muito de acordo com as especificidades de cada município", pontua.
Paridade de gênero irá demorar 140 anos
O crescimento da representatividade feminina nas prefeituras é importante, mas não suficiente. A constatação foi um consenso entre as pesquisadoras entrevistadas pelo Diário do Nordeste.
A presença ainda diminuta de mulheres no comando do Executivo municipal — tanto no Ceará como no Brasil — reduz a participação de uma fatia da população que já é maioria entre o eleitorado e faz com que persista uma dominação ainda masculina dentro da política institucional.
Com passos ainda tão lentos, o caminho para a igualdade de gênero ainda está distante. "Nesse ritmo, a gente demoraria, mais ou menos, 144 anos para atingir a paridade no comando das prefeituras", especifica Tauá Pires.
A projeção é nacional e o Ceará está acima da média do País — onde apenas 15% das prefeituras serão comandadas por mulheres a partir de 2025. Ela reforça, no entanto, que o avanço cearense também é pouco.
O Ceará ficou na quarta colocação do Nordeste em representatividade feminina na política após as eleições de 2024 — atrás do Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas.
"Essa representatividade no Executivo ainda é diminuta", concorda Monalisa Soares. "Apesar do crescimento, as mulheres continuam tendo mais dificuldade de serem constituídas como candidaturas competitivas pelos partidos".
A falta de investimento dos partidos políticos na construção de lideranças femininas que possam tornar-se candidaturas competitivas é apontada como um dos principais obstáculos enfrentados pelas mulheres no cenário eleitoral.
"Nós avançamos pouquíssimo em ter uma organização partidária que valoriza a mulher, que tenha nos seus órgãos de direção mulheres e que, não só no momento de eleição, mas durante todo o exercício da vida partidária, as mulheres sejam valorizadas. Seja através do financiamento de atividades para a mulher na política, com educação e com o apoio, seja com a colocação de mulheres em cargos de direção", argumenta Machado.
Soares completa que o crescimento do número de prefeitas eleitas demonstra a força eleitoral de mulheres, desde que contem com esse apoio partidário.
Tauá Pires aponta ainda outro elemento que dificulta não só a eleição de mulheres como a permanência delas dentro dos espaços políticos: a violência política de gênero.
"Ainda existe muita dificuldade para fazer um trabalho de proteção, prevenção e combate a essa violência que atinge de maneira muito diferente as mulheres e que, às vezes, acaba interrompendo algumas trajetórias políticas", critica.
Raquel Machado pontua que, apesar da constatação da violência política de gênero ser um aspecto negativo, é também importante "porque permite o diagnóstico, o conhecimento da realidade e a punição". "Então, nós teremos como avançar bastante com a aplicação rigorosa da legislação", completa.
Entre obstáculos e avanços, ainda que 'tímidos', a relevância do aumento da presença das mulheres em cargos de poder é relevante para a construção de uma política mais igualitária.
"É muito importante sim o avanço das mulheres para que essa experiência, esse repertório seja apresentado. Não é que as mulheres sendo eleitas significa que tudo vai mudar, que tudo vai ser bom, mas que a presença das mulheres possa ocorrer para que o repertório e a experiência dessas agentes chegue ao cenário público. (...) Quando a gente fala da importância de ampliar a representatividade das mulheres, a gente está querendo dizer também sobre essas condições de igualdade, de apresentar repertórios e experiências também pelas mulheres na cena pública, a fim de que o eleitor possa avaliar", ressalta Monalisa Soares.
Boulos desembolsa R$ 6,2 milhões para ter militância nas ruas
Carlos Petrocilo / FOLHA DE SP
Militante desde a adolescência, como gosta de dizer, o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL) tem mobilizado dezenas de pessoas para acompanhá-lo em sua campanha pelas ruas da capital paulista. São homens e mulheres com bandeiras, bonés, adesivos e panfletos que pedem voto e anunciam as propostas do candidato à Prefeitura de São Paulo.
Parte dessa militância é paga e custou mais de R$ 6 milhões, de acordo com a prestação de contas da campanha no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A despesa com "atividades de militância e mobilização de rua" é a quarta entre as registradas pelo candidato, que soma R$ 51 milhões em custos totais na campanha. Ricardo Nunes (MDB) tem gastos totais de R$ 44 milhões registrados.
Notabilizada historicamente por ter uma militância orgânica, a esquerda vê a necessidade de bancar cabos eleitorais pagos e demonstrar presença nas ruas no pleito que une o PSOL e o PT em São Paulo. Questionado sobre essa pagamento, Boulos disse acreditar na campanha que faz "de motivação, de verdade, de olho no olho".
Segundo um dos organizadores da campanha, a presença de apoiadores é importante para angariar votos de uma parcela da população que não acompanha a propaganda política nas redes sociais e na televisão, seja pelos debates ou no horário eleitoral.
O corpo a corpo desempenhado pelos militantes contratados, de acordo com especialistas em campanhas, faz sentido sobretudo para o candidato do PSOL por concorrer com o atual prefeito.
"O fato de ele não ser governo faz com que precise atrair a atenção da população de alguma maneira, e não com realizações e obras como o Nunes apresenta", afirma o sociólogo Paulo Niccoli Ramirez, professor da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia de São Paulo) e da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).
Ramirez acredita que há uma "decadência desse modelo [corpo a corpo] nas ruas". "A internet monopolizou a campanha com memes, discursos espalhafatosos e linguagem mais lúdica atraindo a atenção do leitor", analisa.
No caso de Boulos, as despesas com impulsionamento de conteúdos pelas redes sociais já passaram de R$ 7 milhões, mais do que o que foi gasto com militância paga.
A reportagem apurou que, em boa parte, o pagamento oferecido para os cabos eleitorais fica em torno de R$ 1.350,00 por mês. Esse valor é pago para quem exerce a função de divulgador. Coordenadores de equipes ganham mais que o dobro disso.
O contrato de prestação de serviço para o divulgador exige "panfletagem, distribuição de folhetos, divulgação de candidatura por todos os meios permitidos por leis, inclusive eletrônicos".
Os cabos eleitorais geralmente são oriundos de movimentos sociais ou indicados por filiados ao partido e pessoas próximas à campanha, como é o caso de Solange Nascimento Galdino.
"É a minha primeira vez trabalhando na política. Vim por necessidade também e é uma maneira de conhecer o candidato, ver como ele é do nosso lado", disse ela, durante uma carreata de Boulos pelos bairros da Brasilândia e Freguesia do Ó, na zona norte, na sexta (11).
Logo na primeira agenda do candidato do PSOL neste segundo turno, um grupo de cabos eleitorais tentavam cercá-lo na estrada M'Boi Mirim, no extremo da zona sul, para reivindicar trabalho e, consequentemente, o pagamento de R$ 1.150,00.
Uma das contratadas para militância desde o começo da campanha, apresentou à reportagem um documento com uma cláusula que previa, "na hipótese de segundo turno, a vigência contratual estava prorrogada até 26 de outubro, mediante pagamento de R$ 1.150,00 pelos serviços prestados entre 7 e 26 de outubro".
Uma parte dos contratados no primeiro turno, porém, não foi chamada para o segundo turno.
O adversário de Boulos, Ricardo Nunes (MDB) não registrou no TSE nenhum gasto discriminado como "atividades de militância e mobilização de rua". Nas contas declaradas da campanha do atual prefeito, a maior despesa até aqui é com "serviços prestados por terceiros", que representa R$ 17 milhões.
Questionada pela Folha, a campanha de Nunes não respondeu se paga para militantes irem às ruas.
Colaborou Gustavo Zeitel, de São Paulo
Qual o peso das vitórias da oposição entre os maiores colégios eleitorais do Ceará em 2024
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Os resultados das Eleições 2024 marcaram algumas vitórias consideradas históricas pela oposição ao Governo do Ceará. Terceiro e quinto maiores colégios eleitorais do Estado, respectivamente, Juazeiro do Norte e Sobral evidenciam o novo redesenho do grupo político que está do lado oposto ao campo liderado pelo ministro Camilo Santana (PT) e pelo governador Elmano de Freitas (PT).
Além dos dois casos no interior do Estado, o grupo de oposição pode faturar o comando da Prefeitura da Capital. Isso, porque André Fernandes (PL) chega ao segundo turno à frente de Evandro Leitão (PT) no número de votos, desbancando candidatos como o atual prefeito José Sarto (PDT) e Capitão Wagner (União).
Na comemoração após o resultado da primeira parte do pleito, na noite do último domingo (6), o próprio candidato bolsonarista citou que conta com o apoio de Glêdson Bezerra (Podemos), reeleito em Juazeiro, e Oscar Rodrigues (União), vencedor em Sobral, na segunda etapa da disputa pelo Paço Municipal, o que reforça sua posição de destaque na oposição.
Para a coordenadora do Laboratório de Estudos em Política, Eleições e Mídia (Lepem/UFC), Monalisa Soares, será preciso mais tempo para entender o panorama geral desses desempenhos, principalmente pensando de que forma isso pode se consolidar como um “projeto único de oposição” que pretende se fortalecer para o pleito de 2026.
FIM DE UMA ERA
Na maior cidade da região Norte, Oscar Rodrigues (União) quebrou a hegemonia do grupo político dos Ferreira Gomes – há 28 anos na gestão da cidade, ao superar a concorrência da ex-governadora Izolda Cela (PSB), da ala governista. "Foi um trabalho árduo, muito difícil, realmente. Estávamos trabalhando contra a máquina [pública], uma máquina pesada, a gente sabe disso”, ressaltou após a eleição.
Monalisa Soares avalia que a derrota de Izolda em Sobral é emblemática pelo fato dela ser uma candidata que condensava todo esse movimento do grupo mais situacionista, com apoio de Camilo e Cid.
“É um caso em que você vê claramente um cansaço, digamos assim, de um acumulado de muitos anos de dominância do mesmo grupo político. É importante lembrar que as últimas eleições já vinham sendo mais competitivas, a de 2020 foi mais competitiva. Então, a gente chega agora em 24 também com a recomposição dessa competitividade e a vitória da oposição”, explica a pesquisadora.
Por sua vez, Monalisa Torres, professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), vê o resultado no município como simbólico ao indicar um processo de reordenamento das forças políticas e o enfraquecimento dos Ferreira Gomes, sobretudo de Cid.
REELEIÇÃO INÉDITA E VITÓRIA NO CENTRO-SUL
No município da região do Cariri, Glêdson Bezerra (Podemos) fez história ao se tornar o primeiro prefeito reeleito. Na fala logo após conseguir o novo mandato, o político fez questão de reforçar a posição de opositor. Ele citou que sua campanha foi "simples" e sem muitos líderes políticos, ao contrário de Fernando Santana (PT), adversário que foi apoiado pelo grupo governista.
O caso é representativo do ponto de vista da força das oposições, considera a coordenadora do Lepem da UFC. “É uma derrota significativa porque é a primeira reeleição, contra um candidato que o ministro do Camilo Santana se empenhou pessoalmente, diuturnamente na disputa”, complementa.
Outro caso que anima a ala opositora vem de Iguatu, nono maior colégio eleitoral do Ceará. Roberto Filho (PSDB) será o novo prefeito do município da região Centro-Sul após superar, entre outros candidatos, o governista Ilo Neto (PT). A derrota ganha um peso maior por conta do racha político que levou à escolha do petista.
A divergência na legenda desencadeou um conflito interno, ocasionando a desfiliação de Sá Vilarouca do PT, filiado havia quase 40 anos, e sua consequente entrada na eleição pelo PSB. Do outro lado, Ilo venceu a queda de braço no grupo governista ao receber o apoio de lideranças estaduais da sigla, como Camilo, Elmano e o líder do Governo Lula na Câmara dos Deputados, José Guimarães.
EMBATE DE FORÇAS POLÍTICAS
Embora os resultados sejam considerados históricos pela oposição, o desempenho é menor na comparação com a quantidade de prefeituras conquistadas entre os maiores colégios eleitorais em 2020. Na última eleição municipal, o grupo celebrou, pelo menos, cinco desfechos das urnas.
Há quatro anos, as vitórias de Professor Marcelão (à época no Pros), em São Gonçalo do Amarante; Vitor Valim (também pelo Pros), em Caucaia; Roberto Pessoa (então PSDB), em Maracanaú; e o próprio Glêdson, que conquistou o seu primeiro quadriênio em Juazeiro, foram comemoradas por opositores. Destes, apenas o caririense não se uniu à base governista após o pleito, apesar de ter se aproximado de lideranças do PT nas eleições de 2022, como o adversário em 2024, Fernando Santana.
À época, a oposição celebrou, ainda, o desempenho de Capitão Wagner na eleição pela Prefeitura de Fortaleza. Em 2020, o político chegou ao segundo turno e protagonizou uma disputa acirrada contra Sarto, que buscava seu primeiro mandato.
Para Monalisa Torres, Juazeiro, embora seja do interior, é um município que tem uma economia forte, o que ajuda a explicar, em alguma medida, a resiliência do Glêdson em manter-se na oposição. Já para outros municípios menores, mais dependentes economicamente ou com problemas mais complicados de resolver, a exemplo de Caucaia, avalia a especialista, há mais incentivos para que os prefeitos se alinhem à máquina estadual.
“Há esses estímulos a mais que levam ao que a gente chama de ‘adesismo’, que é um alinhamento de lá e de cá. Um alinhamento, porque o governador também precisa dos apoios, dos votos para os deputados, mas também no contrário, os prefeitos também precisam das emendas, precisam desses acordos, dessas pontes mais bem montadas, mais bem construídas”, ressalta a professora de Teoria Política da Uece.
Na análise de 2020, Monalisa Soares salienta que quase todo o grupo de oposição que saiu vitorioso acabou sendo inativado ao longo do tempo, a exemplo de Valim e Marcelão – que, inclusive, disputou a eleição deste ano pelo PT. Mesmo assim, a especialista destaca que os resultados alcançados pela oposição em 2024 servem como um sinal de alerta para o bloco governista.
“Em 2020, na época, o governador Camilo Santana buscou dirimir essas oposições, na medida em que, pelo seu poder de governo, pela sua capacidade de poder contribuir em alguma medida executivamente, ele foi distensionando determinadas oposições. E aí é muito importante a gente ver os próximos passos, em que medida o governador Elmano de Freitas terá condições de distensionar algumas dessas oposições. Se ele não conseguir, de fato, vai se tornando mais complexo o projeto de continuidade desse grupo para 2026”, pondera.
Bolsonaristas superam petistas na ‘bancada da juventude’ e reforçam dificuldade do PT em se renovar
Por Guilherme Caetano / O ESTADÃO DE SP
BRASÍLIA - Tradicionalmente associado à juventude, o Partido dos Trabalhadores vem enfrentando dificuldades para renovar suas lideranças, na medida em que vê o seu principal líder, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se aproximar dos 80 anos de idade.
Nas dez maiores capitais, 5,7% dos 35 vereadores eleitos pelo PT no último domingo têm menos de 30 anos. No Partido Liberal (PL) de Jair Bolsonaro, sigla arquirrival, a proporção é de 10,6% entre os 47 vereadores eleitos no mesmo número de cidades. Foram consideradas São Paulo, Rio, Fortaleza, Salvador, Belo Horizonte, Porto Alegre, Manaus, Curitiba, Recife e Goiânia.
Levantamento feito pelo Estadão identificou dois petistas dessa “bancada da juventude”: Pedro Rousseff (24 anos, de Belo Horizonte), sobrinho da ex-presidente Dilma Rousseff, e Maíra Cunha, conhecida como “Maíra do MST” (29 anos, no Rio).
Os bolsonaristas do PL têm cinco nomes nesse ranking, a começar pelo vereador mais votado do Brasil nas eleições municipais, Lucas Pavanato (26 anos, em São Paulo). Entram nessa lista também Thiago Medina (21 anos, Recife), Bella Carmelo (23 anos, Fortaleza), Zoe Martínez (25 anos, em São Paulo), e Gilson Machado Filho (26 anos, também em Recife).
Pedro Rousseff foi o sexto vereador mais votado de sua cidade colando sua imagem à de sua tia. Assim como os demais candidatos da Geração Z, ele conta com bom engajamento nas redes sociais. Ele é seguido por 126 mil seguidores no Instagram, onde entra de cabeça na disputa ideológica, confrontando nomes como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e Bruno Engler (PL), candidato bolsonarista à Prefeitura de Belo Horizonte.
Maíra Cunha, por sua vez, sem um sobrenome de tal peso, foi uma aposta do PT para fortalecer a bancada carioca. Ela teve um investimento de R$ 307 mil do diretório nacional e contou com o apoio público de uma diversidade de personalidades e artistas, como Chico Buarque, Bela Gil, Paulo Betti, Lucélia Santos, José de Abreu e Manuela Llerena, o que alavancou sua candidatura.
O PL, por sua vez, tem um “vintão” em cada dez eleitos nessas capitais, o dobro da taxa petista. Junto dos votos, eles carregam poderosas bases digitais de fãs. Lucas Pavanato, por exemplo, é seguido por 1,3 milhão de pessoas no Instagram. Zoe Martínez é ainda mais famosa: 1,4 milhão. Os dois ganharam proeminência na militância bolsonarista com ataques à esquerda e um papel atuante na guerra cultural que tem na família Bolsonaro a infantaria.A bancada bolsonarista também supera a petista em outros números: se os jovens trouxeram 31,3 mil votos ao PT nessas dez cidades, no PL essa quantidade chegou a 276,4 mil votos. E enquanto os “vintões” petistas somam 139,4 mil seguidores no Instagram, os adversários batem 2,8 milhões.
A falta de renovação leva o PT a situações desafiadoras. Em Salvador, capital de um Estado profundamente ligado ao PT e que foi considerado primordial para a vitória de Lula em 2022, o PT elegeu só uma vereadora, Marta Rodrigues, de 65 anos. Em Manaus, a bancada municipal petista contará com o solitário Zé Ricardo, de 60 anos. Em Curitiba, o mais votado do PT foi Angelo Vanhoni, de 69 anos. O partido também com um puxador de votos sexagenário em Goiânia: Professor Edward, de 61 anos.
São poucas as capitais como São Paulo, em que o bom desempenho de Luna Zarattini (30 anos, 101 mil votos) foi importante para eleger a bancada. Mas se a juventude da vereadora de segundo mandato oxigena o PT paulistano, a média de idade da bancada continua superior à bolsonarista: 49,8, contra 44,6 do PL.
O assunto gera preocupação dentro do PT e incomoda dirigentes, que defendem que novos quadros têm surgido e aberto espaço nos parlamentos do País. “‘O PT não se renova. Não elege novas lideranças’: A gente cansou de ouvir isso de analistas políticos. Mas será verdade?”, diz Camila Moreno, da executiva nacional do partido, num vídeo publicado nesta quinta-feira, 10, antes de mencionar lideranças eleitas no domingo passado, como Luna, Pedro, Tainá De Paula (41 anos, no Rio) e Luiza Dulci (34 anos, em Belo Horizonte). Camila Jara, que disputou a prefeitura de Campo Grande aos 29 anos e terminou em quarto lugar, também é mencionada.
No PL, por sua vez, a força digital de Nikolas Ferreira (28 anos e 12 milhões de seguidores no Instagram), deputado federal mais votado do Brasil em 2022, serviu de alavanca para candidatos bolsonaristas escolhidos a dedo. Seu apoio levou o ex-assessor Pablo Almeida (PL), de 29 anos, a se eleger o vereador mais votado da capital mineira, com quase 40 mil votos.
PT tem maior média de idade da Câmara Federal
A dificuldade de renovação se amplia quando considerada a idade média da bancada de deputados federais eleitos pelo PT em 2022: superior a 55,7 anos, a maior de toda a Câmara. O PL, por sua vez, tem idade média de 49,5 anos, atrás de partidos como PDT (54,5), PSDB (53,3), PSB (51,1) e PSD (50,9).
Em 1983, quando chegou pela primeira vez à Câmara, o novato PT era conhecido pelas jovens lideranças ligadas a movimentos sociais, como Luiz Dulci (27 anos), José Genoino (36), Eduardo Suplicy (41) e Lula (37), então candidato derrotado ao governo de São Paulo no ano anterior.
A idade média dos seis parlamentares da primeira bancada eleita era de 39,7 anos. Então com 52 anos, o mais velho era Plínio de Arruda Sampaio. “Vintões” e “trintões” representavam metade daquela bancada.
Hoje o cenário mudou radicalmente. A parcela com menos de 40 anos encolheu para 13% da bancada em 2023. Os quinquagenários são basicamente um terço, 32%; os sexagenários, 30,8%; e os septagenários, 7%. Sem renovação nas Câmaras Municipais para dar experiência a novos vereadores, o partido de Lula deve enfrentar dificuldades para disputar a Casa com os bolsonaristas. Afinal, o partido de Bolsonaro lança, a cada eleição, candidatos com recordes de seguidores nas redes sociais e de votos nas urnas.
Tabata conversa com Boulos e diz que só dará o voto e não fará campanha
Guilherme Seto / FOLHA DE SP
"É o voto e nada mais". Foi com essa frase que a deputada federal Tabata Amaral (PSB) resumiu a aliados o retorno que deu a Guilherme Boulos (PSOL) nesta terça-feira (8) a respeito de sua participação no segundo turno da eleição municipal.
O deputado telefonou para a pessebista para agradecer a declaração de voto feita por ela e para sondá-la a respeito da possibilidade de que participasse ativamente de sua campanha. Tabata respondeu que não fará mais do que o anúncio de domingo (6) e que dedicará atenção a outros projetos próprios e de seu partido no momento.
Como mostrou o Painel, a parlamentar não quer participar de eventos do psolista nem gravar vídeos para ele, ainda que outros membros do PSB possam fazê-lo, como o ministro Márcio França e o vice-presidente Geraldo Alckmin. Em entrevista coletiva no domingo, a deputada indicou o motivo.
"Eu vou votar em Guilherme Boulos. Porque eu não consigo e não conseguiria jamais colocar o meu voto em um projeto liderado por Ricardo Nunes. Mas saibam, eu e Guilherme Boulos representamos projetos absolutamente diferentes para São Paulo e para o Brasil", afirmou.
Assim como fez durante a eleição, a deputada planeja se consolidar como alternativa progressista ao projeto político representado pelo psolista, inclusive com pleitos futuros em mente.
Tabata já disse, em 2023, que vê falta de seriedade e de maturidade em Boulos, e nos últimos debates criticou o parlamentar por mudanças de opinião em temas como Venezuela, aborto e armamento da Guarda Civil Metropolitana —o que o psolista nega.
Foi diante desse diagnóstico de incompatibilidade de visões que Tabata concluiu que não pode participar ativamente da campanha de Boulos, afirmam seus aliados.

