Qual a capacidade de Bolsonaro e Lula de decidirem as eleições se não forem candidatos?
Por William Waack / O ESTADÃO DE SP
Mesmo antes do indiciamento de Jair Bolsonaro pela PF e as cirurgias recentes do presidente Lula já era evidente que a rota para as próximas eleições presidenciais seria um cenário aberto. É para ele que se caminha. Bolsonaro mantém viva a esperança de que algo como um canetaço o tornaria elegível. Todos os operadores políticos, inclusive bolsonaristas, sabem que as chances são das mais remotas, para dizer o mínimo. Uma boa parte do que é a direita usa Bolsonaro como grife, até como franchising, perfeitamente consciente de que ele não será candidato.
Lula mantém-se na típica dubiedade de “estar pronto” para ser mais uma vez candidato, mas sem pronuncia-lo claramente. Todos os operadores políticos, inclusive dentro do PT, sabem que a saúde do presidente, a avançada idade e, especialmente, seu evidente cansaço são obstáculos portentosos a uma candidatura, para dizer o mínimo. Não se deve subestimar o peso político de cada desses personagens, mas não se pode superestimar a capacidade deles de decidir eleições estando do lado de fora do alambrado. Ironicamente, os dois enfrentam neste momento um dilema idêntico: se não sou eu o candidato, quem será então o meu candidato?
Há casos na América do Sul de líderes populistas que criaram “dinastias” políticas capazes de permanecer muito tempo no poder (Perón é o melhor exemplo). Não parece ser o caso de Lula e o PT. E nem de Bolsonaro.
O nome “natural” para o petismo escalar no lugar de Lula já foi ensaiado uma vez e há evidências de que Fernando Haddad se prestaria de novo a esse papel – a grande incógnita é qual seria lá na frente a percepção do eleitorado quanto à política econômica do governo. Por enquanto não há grandes perspectivas.
A direita dispõe de vários nomes de governadores em ascensão política, mas esse é um problema. Um movimento importante que passa por chefões dos quatro grandes partidos de centro no Congresso enxerga Bolsonaro ao mesmo tempo como trunfo e estorvo na luta eleitoral. Afirmam que é muito difícil trabalhar com ele e, ao mesmo tempo, muito difícil ganhar uma eleição contra o PT (e a máquina pública) sem ele. É enorme o risco de se cair numa situação de liderança difusa, permeada de egos políticos em combate.
Há algumas alterações no comportamento do eleitorado indicando que fórmulas velhas da esquerda não funcionam mais automaticamente. Ao mesmo tempo, o fenômeno de figuras disruptivas “de direita” alcança uma projeção que lembra a de Bolsonaro em 2018, mas se consomem em si mesmas e não atingem a abrangência para carregar consigo o centro do eleitorado.
É esse centro que está em aberto.
A alquimia de Lula
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Em recente entrevista à CNN internacional, na qual foi convidado a falar sobre 2026, o presidente Lula da Silva se disse pronto para tentar a reeleição e “enfrentar uma pessoa de extrema direita negacionista”, caso não haja outro nome da esquerda apto à tarefa.
Com a habitual característica de reunir, numa mesma declaração, disparates aparentemente contraditórios, o demiurgo afirmou que espera não ser necessário levar adiante sua candidatura e pregou a possibilidade de promover uma “grande renovação política no País e no mundo”, malgrado não ter hesitado em deixar evidente que só ele, hoje, é capaz de evitar o que considera o mal inconcebível – o triunfo da extrema direita.
O petista ainda incorporou um novo ingrediente à sua fala pendular entre a falsa modéstia e a real imodéstia: um candidato mais jovem não vai “resolver os problemas”, disse ele, que terá 81 anos em 2026 e encerrará um eventual quarto mandato com nada modestos 85 anos. Se problemas existem, eles estão escancarados na entrevista de Lula. Não se lhe questiona a liberdade de decidir o que deseja fazer daqui a dois anos para enfrentar o que quer que seja. Mas, com sua declaração, ele afronta a inteligência alheia.
Em primeiro lugar, na cosmologia da política, afirmar que não pensa em se reeleger é o maior sinal de que já opera em modo reeleição. Segundo, até os mais inexperientes auxiliares que dão expediente no Palácio do Planalto sabem que Lula não pensa em outra coisa senão no próprio poder – dele e do PT, necessariamente nesta ordem – e que nunca fez um real esforço para promover a “grande renovação política” que anuncia.
Sem vida partidária pregressa, Dilma Rousseff nunca passou de uma criação sua, sacada em 2010 sob conveniência para que Lula retornasse ao Palácio do Planalto quatro anos depois. Não conseguiu, porque Dilma não quis deixar a cadeira ao fim do primeiro mandato. Em 2018, preso pela Lava Jato, Lula recorreu a outro herdeiro, o hoje ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Atualmente, ninguém no PT é capaz de apostar uma viagem a Cuba para cravar um sucessor natural do presidente. Para Lula, renovação só é digna do nome quando surge umbilicalmente ligada ao líder supremo.
Fato é que Lula não somente já pensa na reeleição, como trabalha diariamente mirando a próxima disputa presidencial. Não são poucos os analistas que avaliam que ele só sairá do páreo se seu governo estiver nas cordas. Como escreveu a repórter Vera Rosa, neste jornal, o “modo disputa 2026″ incluirá campanha publicitária, viagens de ministros para entregar obras e ações de enfrentamento à oposição nas redes sociais.
E é na oposição que está o terceiro problema exposto na entrevista. Lula “admite” o esforço de reeleger-se, ora vejam, para salvar o Brasil e os brasileiros da “extrema direita negacionista”. É como se o extremismo, que no Brasil atende pelo reacionarismo do bolsonarismo dito “raiz”, representasse a única força eleitoralmente viável da oposição.
Não mais representa, como se viu no equilíbrio político e partidário deixado pelas últimas eleições municipais. Embora sejam disputas de natureza distinta, ficou evidente uma inclinação do eleitorado por partidos e lideranças de centro-direita em detrimento de radicais, que correm o risco de ser substituídos ou ver reduzida sua musculatura eleitoral.
O espólio de Jair Bolsonaro, sublinhe-se, já é disputado a tapa, e é por isso que o ex-presidente tem tentado dar prova de vida quase diariamente. Mas Lula deixa evidente que é o bolsonarismo o alimento que lhe garantirá sobrevida eleitoral em 2026, razão pela qual recorre ao suposto mal eterno, representado pelo extremismo de direita, para justificar sua reeleição.
Eis a contradição explícita: Lula diz que não pensa em se reeleger e que só o fará se não houver outro nome capaz de enfrentar a extrema direita e, como pouco se move para encontrar tal nome, fica definido desde já que será ele o provável candidato de si mesmo. Uma alquimia retórica que revela Lula em estado bruto.
Por que o PT teve mais de R$ 500 milhões em emendas que o PSD de Kassab e fez menos prefeitos?
Por André Shalders / O ESTADÃO DE SP
BRASÍLIA – Do começo de 2021 até agora, congressistas do PT na Câmara e no Senado destinaram R$ 572 milhões a mais em emendas parlamentares individuais do que os integrantes do Partido Social Democrático (PSD). Mesmo assim, a sigla criada por Gilberto Kassab em 2011 elegeu quase quatro vezes mais prefeitos nas eleições deste ano que o PT. O partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva começará 2025 com 252 prefeitos, enquanto o PSD comandará 891 municípios – foi o partido que mais elegeu prefeitos este ano.
Emendas parlamentares são modificações feitas pelos congressistas no Orçamento para enviar dinheiro federal para suas bases eleitorais. De 2021 até agora, o volume de emendas parlamentares empenhadas (isto é, reservadas para pagamento) aumentou quase 90% em relação ao período anterior (2017-2020). Chegou a R$ 131,7 bilhões.
A enxurrada de dinheiro foi determinante para o resultado eleitoral deste ano. Assim, como explicar o mau desempenho do PT, mesmo com o grande volume de recursos à disposição dos petistas?
Levantamento do Estadão sugere que o resultado pode estar relacionado à escolha dos petistas sobre onde enviar os recursos: o PSD de Kassab priorizou cidades pequenas, enquanto o PT mandou mais dinheiro para cidades grandes e médias. Além disso, a bancada do PT também enviou mais dinheiro de emendas para outras finalidades – como universidades ou ONGs – enquanto o PSD focou o dinheiro nas prefeituras.
Nos últimos quatro anos, o União Brasil foi o partido com mais emendas individuais pagas, com pouco mais de R$ 7 bilhões. Em seguida vem o PL, com R$ 6,4 bilhões, e depois o PT (R$ 6,2 bilhões). O PSD fica em quarto, com R$ 5,6 bilhões. No entanto, a fatia repassada diretamente para as prefeituras foi maior no caso do PSD do que do PT.
Os congressistas do partido de Kassab enviaram 86% de todas as emendas individuais diretamente para prefeituras (R$ 4,9 bilhões), enquanto os petistas destinaram R$ 4,6 bilhões (74%). Esses repasses para prefeituras podem ser feitos por meio de convênios – para uma obra, por exemplo – ou através das chamadas emendas Pix, verba que cai direto no caixa da prefeitura.
Além de enviar uma fatia menor diretamente para as prefeituras, os congressistas do PT também priorizaram cidades grandes e médias – ao contrário do PSD, que focou em cidades menores. Do total de emendas individuais enviadas por congressistas do PT, 15% (R$ 698,2 milhões) foram para cidades com mais de 200 mil habitantes, consideradas grandes. São as cidades nas quais a disputa pela prefeitura pode ir para o segundo turno.
Já as bancadas do PSD na Câmara e no Senado mandaram só 6% de suas verbas (ou R$ 288 milhões) para o mesmo grupo de cidades com mais de 200 mil habitantes. MDB e PP, que também se saíram bem neste domingo, também alocaram menos verbas para as cidades grandes (11 e 10% do total, em ambos os casos).
Outra forma de olhar o mesmo fenômeno: no PT, 43% da verba de emendas do partido (R$ 1,98 bilhão) foram destinados para as menores cidades do País, com até 20 mil habitantes. No PSD, esse percentual ficou em 56%, mais da metade (ou R$ 2,7 bilhões). No MDB, foi de 47% e no PP, de 51%.
PT tinha poucos prefeitos para reeleger, lembram especialistas
O analista político Thomas Traumann lembra que o PT partiu de uma base menor de prefeitos que o PSD e outros partidos do Centrão – ou seja, os congressistas do partido de Lula já não tinham uma grande base de prefeitos para ajudar a reeleger em primeiro lugar. “Não basta enviar dinheiro de emendas se você não tem o prefeito”, diz ele.
“Mesmo um instrumento que deu certo nas mãos de outros partidos não foi efetivo (para o PT). Isso reforça a conclusão de que o resultado ruim do PT nesta eleição não foi por falta de dinheiro, mas por equívoco na escolha de prioridades”, acrescentou.
A cientista política Lara Mesquita lembra que a taxa de reeleição de prefeitos este ano foi de 82%, a maior dos últimos 20 anos. “Se eu tive uma taxa tão alta de reeleição, e o PT tinha poucas cidades, ele não poderia reeleger muitos prefeitos. A taxa de reeleição do PT, pelo que eu vi, ficou próxima dos demais. Eram poucas cadeiras em disputa, quando a gente pensa nessas altas taxas de reeleição”, diz ela, que é professora da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EAESP-FGV).
Lara Mesquita lembra ainda que o PT nunca teve um grande número de prefeituras em cidades pequenas – o que poderia explicar a escolha dos congressistas em mandar recursos para cidades maiores. “Se eu fosse um deputado ou senador, o que eu faria? Mandaria o dinheiro para uma cidade onde o prefeito vai me dar palanque. E não para uma cidade onde não vou poder levar crédito por aquela emenda”, diz ela. “O forte do PT nunca foi isso que a imprensa chama de ‘grotão’ (cidades pequenas). Nunca chegou perto do MDB, em número de prefeituras, e sempre teve bom desempenho em cidades médias. Talvez estejam focando nisso”, diz ela.
Dirigentes do PT admitiram falha no uso de emendas
Na segunda-feira, o PT realizou uma reunião na sede do partido, em Brasília, para discutir o resultado colhido pelo partido nas eleições de 2022. Dirigentes da legenda cobraram uma mudança na estratégia da legenda e criticaram o ministro petista da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, por ter dito que o resultado das eleições deixou a sigla “no Z4″, referindo-se à zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro de futebol.
Além disso, integrantes da cúpula do PT admitiram que o partido não soube usar as emendas. “O governo não ajudou. Tem muita várzea no governo e isso é perigoso, pensando em 2026. Os partidos do Centrão tiveram emendas e souberam canalizar tudo para os candidatos deles. Nós, não”, disse o secretário de Comunicação do PT, o deputado federal Jilmar Tatto (SP).
No começo da noite de ontem, a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, usou seu perfil no X para criticar abertamente a fala de Alexandre Padilha. “Pagamos o preço, como partido, de estar num governo de ampla coalizão. E estamos numa ofensiva da extrema direita. Ofender o partido, fazendo graça, e diminuir nosso esforço nacional não contribui para alterar essa correlação de forças”, disse ela.
“Padilha devia focar nas articulações políticas do governo, de sua responsabilidade, que ajudaram a chegar a esses resultados. Mais respeito com o partido que lutou por Lula Livre e Lula Presidente, quando poucos acreditavam”, escreveu ela.
Orçamento secreto e emendas de comissão são um terço do total
Do total de R$ 131 bilhões em emendas empenhadas entre 2021 e este ano, quase um terço (32,4%) não pode ser rastreado quanto ao padrinho das indicações. Além de ser impossível saber quem são os padrinhos dessas indicações, as verbas também são distribuídas de forma desigual entre os deputados e senadores – alguns indicam muito, outros não indicam nada. Isto pode ter favorecido os partidos do Centrão na distribuição dos recursos.
Estes recursos impossíveis de serem rastreados são compostos pelas emendas de relator (R$ 25,3 bilhões), base do orçamento secreto, esquema revelado pelo Estadão e considerado inconstitucional pelo STF; e pelas emendas de comissão (R$ 17,3 bilhões), assinadas apenas pelo presidente da comissão permanente da Câmara ou do Senado que fez a indicação.
Outros 25,3 bilhões são emendas de bancadas estaduais, que, em tese, são indicadas em consenso pelas bancadas de cada Estado. Como mostrou o Estadão, porém, o “rateio” das emendas de bancadas estaduais se tornou uma prática comum nos últimos anos.
Portanto, dos R$ 131,7 bilhões empenhados nesse período, só R$ 62,4 bilhões, ou 47%, são de emendas individuais, atribuíveis a um deputado ou senador específico, e, portanto, a um partido. Desses R$ 62,4 bilhões em emendas individuais empenhadas no período, R$ 58,4 milhões foram pagas até o momento.
Em Ipaporanga, prefeito, vice e vereadores eleitos são todos do PT
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Do Executivo ao Legislativo, a cidade de Ipaporanga terá, a partir de 1º de janeiro do próximo ano, todos os seus representantes políticos do mesmo partido. Quando a apuração chegou ao fim no município, a cerca de 350 km de Fortaleza, o Partido dos Trabalhadores (PT) apareceu como único vitorioso nas urnas.
A sigla conseguiu reeleger o prefeito da cidade, Amaro Pereira, e o vice-prefeito, Cleoto Bezerra. Além da chapa majoritária, todos os nove vereadores eleitos neste ano também são petistas.
Amaro e Cleoto conquistaram 7,7 mil votos, o equivalente a 91,9% dos votos válidos — esse percentual, inclusive, foi o maior registrado no Ceará para a eleição de um prefeito. A dupla derrotou Cleiton Bebeu e João Bruno, ambos de União Brasil, que obtiveram 678 votos, 8,04% do total.
Em conversa com o PontoPoder, Amaro Pereira disse esperar que a boa votação garanta mais oportunidades para Ipaporanga.
O petista atribui o bom resultado à “confiança” que foi ganhando da população ao longo do primeiro mandato. “Enfrentamos as dificuldades junto do povo, a nossa marca é sempre o diálogo para entender o que as pessoas esperam do serviço público”, afirmou.
O político disse que, com a campanha deste ano, conseguiu conversar com toda a população e ouvir demandas prioritárias. “Como a gente vive no Interior, com o solo quente, a água sempre é uma das prioridades. Então, esse problema da água é algo que sempre tem, mas é um desafio que vamos encontrar a solução”, completou.
Veja a lista dos vereadores eleitos em Ipaporanga:
- Elivelson Rodrigues (PT) — 992 votos
- Valdery Cavalcante (PT) — 973 votos
- Elicia de Paula (PT) — 810 votos
- Michelle Barroso (PT) — 631
- Tintim Bonfim (PT) — 630 votos
- Manoel Cândido (PT) — 593 votos
- Manoel Alves (PT) — 543 votos
- João Paulo (PT) — 507 votos
Além dos eleitos, o suplente no município, Manoel Santana, que recebeu 405 votos, também é do Partido dos Trabalhadores.
Já todos os candidatos para a Câmara Municipal que não foram eleitos são do União Brasil. O mais bem votado foi Danilo de Araújo (União), com 436 votos. Os outros candidatos derrotado, somados, tiveram pouco mais de 100 votos.
- Antônio Calixto (União) — 33 votos
- Denis Mendes (União) — 31 votos
- Ana Márcia Cavalcante (União) — 29 votos
- Gracinha Severiano (União) — 12 votos
São João do Jaguaribe
O caso de Ipaporanga guarda semelhança com o de outro municípios cearense: São João do Jaguaribe. Conforme contou o PontoPoder, os eleitores da cidade elegeram o prefeito Raimundo Cesar (PSD), o vice Dalenio Augusto (PSD) e mais nove vereadores, todos do PSD.
No caso de São João do Jaguaribe, o que chamou atenção é que o político era o único candidato majoritário na cidade, e a disputa pelas nove vagas no Legislativo envolvia apenas 10 postulantes.
À época, em entrevista à reportagem, ele rechaçou qualquer influência na oposição da cidade para ser o único candidato à Prefeitura.
O mandatário também comentou sobre outro fato curioso na eleição da cidade: o pleito teve dez candidatos a vereador para as nove vagas no legislativo. Todos os concorrentes são do PSD, correligionários do prefeito.
“Tínhamos, neste mandato, três vereadores de oposição. Dois deles, por aclamação, vieram para o nosso grupo. Não foi por opressão, foi por achar que o trabalho está sendo bem feito. Então ficou só um vereador na oposição, onde eu não posso interferir, mas eles devem ter achar que nosso trabalho está bom, porque também não quiseram lançar candidato”, concluiu.
De Camilo Santana a Ciro Gomes: quem ganha e quem perde com a vitória do PT em Fortaleza
Escrito por , / DIARIONORDESTE
A eleição de Evandro Leitão (PT) para a Prefeitura de Fortaleza marca, definitivamente, um redesenho das forças políticas do Ceará tanto a nível estadual quanto municipal.
Em um movimento que começou em 2022, com o racha do PDT e o fim da aliança da sigla com o PT, Camilo Santana (PT) passou a liderar um grupo político no Estado ao mesmo tempo em que seus aliados de primeira ordem, como o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e o ex-prefeito Roberto Cláudio (PDT), abriram uma nova frente de oposição.
Nomes mais alinhados à direita, como o ex-deputado Capitão Wagner (União), agora dividem espaço em outra linha oposicionista com o “bolsonarismo raiz”, representado pelo deputado federal e candidato derrotado à Prefeitura de Fortaleza, André Fernandes (PL).
O PontoPoder conversou com analistas políticos para mostrar quais nomes ganharam força e quais perderam influência com o resultado nas urnas na Capital. Uma das unanimidades apontadas por eles é a vitória simbólica de Camilo Santana. O petista foi o principal fiador da campanha de Evandro Leitão e agora colhe os louros de sua articulação local.
Bônus da vitória
A imagem do ministro, que deixou o governo em 2022 com aprovação recorde, foi explorada de forma massiva por Evandro. Esse resultado soma-se ao “currículo” de Camilo, segundo os pesquisadores, assim como a vitória do governador Elmano de Freitas (PT) no primeiro turno em 2022.
“Quem mais ganhou na disputa de Fortaleza foi, sem dúvida, o Camilo e o Elmano. Eles foram os fiadores da candidatura do Evandro Leitão, principalmente o Camilo, que teve a sua imagem bastante utilizada e teve um peso muito grande na reta final da disputa. Certamente isso vai ser mobilizado por ele para a próxima disputa, em 2026, como forma de reforçar o grupo e até mesmo, quem sabe, para a disputa nacional, já que ele é um nome cogitado para a Presidência da República”, avalia o cientista político Cleyton Monte, que também é professor universitário e pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem) da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Monalisa Torres destaca a importância das eleições municipais para consolidar um grupo político, já que a influência sobre os municípios é fundamental para as estratégias das eleições gerais.
Outro petista que teve a imagem muito usada na campanha em Fortaleza foi o presidente Lula. O chefe do Executivo nacional desembarcou no Ceará duas vezes em prol de Evandro. Na convenção, o político esteve no ato que lançou a chapa do PT Fortaleza. Já no segundo turno, o presidente voltou ao Estado para um ato na Praça do Ferreira. A vitória de Evandro nas eleições deste ano representou a única do PT em uma capital.
A professora aponta ainda o papel do senador Cid Gomes (PSB). Responsável por comandar o grupo político que mantinha uma aliança histórica entre PT e PDT, o parlamentar viu seus aliados se dividirem em 2022. De um lado, Camilo Santana, que manteve-se aliado de Cid, ganhou força naquele pleito; de outro, Ciro Gomes, seu irmão, perdeu força, influência e acumulou derrotas. Os irmãos, inclusive, romperam politicamente há dois anos.
O pleito deste ano colocou à prova a influência de Cid Gomes onde ele sempre se mostrou mais forte: na articulação dos prefeitos. E o senador do PSB novamente mostrou sua capacidade de articulação, segundo os analistas políticos. O partido de Cid conseguiu eleger 65 prefeituras, tornando-se a maior sigla do Ceará.
“Cid consegue manter sua força. A despeito dos reveses, ele ainda é relevante, tem um grupo político para chamar de seu e ainda consegue aglutinar. Esse esforço de eleger o maior número de prefeitos do PSB é uma demonstração de que ele ainda quer manter algum nível de influência estadual. Na próxima eleição, em 2026, é possível que ele concorra novamente a algum cargo, talvez tentar a reeleição para o Senado ou, pleitear outro cargo”, acrescenta Monalisa Torres.
Ônus da derrota
Do outro lado da balança estão nomes que foram derrotados nas urnas ou apostaram em candidaturas que não conquistaram o Paço Municipal.
“E quem mais perdeu, na minha avaliação, foi o prefeito José Sarto e o Capitão Wagner. O Sarto por estar na Prefeitura (e ser derrotado), é um fato inédito, então isso, para a carreira política dele, é muito forte e marcante porque, além de perder, ele perdeu da forma que perdeu, com uma votação insignificante para quem está no exercício do cargo. Ele foi o grande perdedor dessa disputa, e o PDT em torno dele. E também o Capitão Wagner, como uma liderança da centro-direita, acredito que a capacidade dele de aglutinar para uma próxima disputa estará seriamente comprometida”, avalia Cleyton Monte.
Derrotados no primeiro turno, José Sarto e Capitão Wagner obtiveram 11,75% e 11,40% dos votos válidos. O pedetista foi o primeiro prefeito da Capital que disputou a reeleição e não conseguiu conquistá-la. Já o candidato do União Brasil amargou sua pior derrota em disputas majoritárias.
Para os cientistas políticos, o caso do PDT é o mais delicado. A sigla, que elegeu mais de 60 mandatários em 2020, contabilizou apenas cinco no pleito deste ano — perdendo inclusive a Capital. O partido ainda se viu novamente dividido, com uma ala da sigla apoiando a candidatura de Evandro, outro grupo apoiando André Fernandes, além de uma terceira ala que se disse neutra.
Monalisa Torres avalia ainda a situação de Ciro Gomes, que tem acumulado derrotas na sua carreira. Em 2022, ele ficou em quarto lugar na disputa pela Presidência da República, perdendo até no Ceará, onde ficou em terceiro lugar. No pleito deste ano, foi um dos principais defensores da candidatura à reeleição de Sarto. Já no segundo turno, ele não chegou a anunciar apoio explícito a André Fernandes, mas endossou a oposição a Evandro Leitão.
“O Ciro se encaminha para o ostracismo. Não que a derrota do André seja creditada a ele. A derrota do André é do André, a forma como ele construiu a campanha, se desvencilhando dos seus padrinhos, explica isso. Embora ele tenha recebido muitos aliados nesta reta final, a derrota é creditada a ele ou ao sucesso do Evandro muito mais do que uma derrota do Ciro, do Sarto ou do Roberto Cláudio”, aponta Monalisa Torres.
“É a mesma coisa em relação ao Wagner, a derrota dele foi no primeiro turno, não agora com o André. O que ele experimentou foi uma derrota como liderança política, ficou demonstrado ali que talvez ele precise se reciclar e repensar seus posicionamentos”, finalizou.


