Busque abaixo o que você precisa!

Reinventar, articular, reconstruir

Marco Aurélio Nogueira, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2021 | 03h00

O melhor seria passar um pano em tudo e começar de novo.

Só que é impossível. Sociedades, Estados, sistemas políticos, instituições, acumulam pó e sujeira, mas não podem ser limpos com panos e detergentes comuns. Requerem recursos e ingredientes que não se encontram no mercado. E que, hoje, nesse Brasil que está deixando de ser tão brasileiro, fazem uma falta lancinante, que machuca e faz sofrer.

Falta-nos, antes de tudo, uma ideia de sociedade futura. Como queremos viver, para além da obviedade de que queremos todos ser felizes e bem tratados, ter um Estado eficiente e instituições que se façam respeitar e regulamentem a vida? Queremos justiça e igualdade (entre gêneros, etnias, orientações sexuais e classes), mas não há pistas de como isso poderá ser alcançado. Reivindicações e desejos saltam na vida cotidiana, mas os atores políticos não sabem como agarrá-los.

Com qual economia, para começo de conversa? Uma pujante, consciente de suas possibilidades, disposta a incluir o País no sistema de intercâmbios internacionais, capaz de gerar renda e empregos, de adotar a sustentabilidade como critério estratégico, de aceitar o Estado como regulador ativo? Ou uma perdulária, sem produtividade, voltada para si, sem tecnologia incorporada? Uma economia atenta aos imperativos categóricos do planeta, a começar da agenda climática e ambiental, ou caolha, dedicada à destruição da natureza, ao desmatamento predatório, à conquista da terra como bem a ser explorado sem cautela e sem interesse coletivo?

Não temos um projeto para revitalizar a Federação, equiparar minimamente Estados e municípios, dar a cada um deles as condições necessárias para progredir. O País está manco, caminha claudicando.

Não temos um plano para recuperar os sistemas vitais, a educação, a saúde, a assistência – a proteção social. Tudo nessas áreas é imperfeito, deixa a desejar, as carências estão expostas à luz do dia, sem que saibamos como abordá-las.

Falta-nos um projeto de Estado, um padrão de governança que tenha estabilidade e produza resultados, que valorize e blinde as instituições contra aventureiros autoritários, ideólogos reacionários, redes irresponsáveis, negacionistas contumazes, oportunistas, corjas de malfeitores que só pensam nas vantagens a obter, que são ignorantes da sociedade existente. Estamos sentindo na pele as consequências do desvario que nos acometeu em 2018 e possibilitou a eleição de uma cúpula de estroinas perversos.

É assustador constatar que estamos assim apesar de possuirmos recursos técnicos, intelectuais, culturais e políticos para reinventar o Brasil. Vivemos como se dependêssemos de um milagre celestial, de uma explosão popular ou das conclusões de uma CPI no Senado. Por que nossos políticos preferem se entregar ao jogo miúdo da pequena política, a lançar granadas de baixa potência e que não atingem o alvo, optando por privilegiar seus interesses partidários, regionais, ideológicos, em vez de oferecer algo consistente à sociedade?

Quero crer que isso se deva a alguns fatores.

Primeiro, nossos políticos não têm dimensão intelectual. Não falo de formação escolar ou de diplomas, que todos os exibem a mancheias. Falo de capacidade de compreender o mundo, a sociedade em que atuam, os cidadãos que os elegem. Nesse ponto, falta-lhes o fundamental. Ética pública democrática, domínio da linguagem, generosidade cívica, comunicação. Em muitos falta também honestidade.

Segundo, os partidos vivem em crises que se sucedem sem interrupção e os impedem de atuar como entes coletivos, que saibam disputar o poder sem virar as costas para a sociedade e com coesão suficiente para que sejam confiáveis para o eleitorado. Ora se estapeiam em brigas internas fratricidas, ora se arrastam para obter os apanágios e as prebendas do governo de plantão, ora se entregam aos mandachuvas de sempre, incapazes de confrontá-los ou ponderar sua imprescindibilidade. Gostam de polarizações simplificadoras, da posição confortável de repetir mantras surrados, como se servissem para todo o sempre.

Terceiro, a base do que mais nos falta: capacidade de articulação nacional e democrática. O provincianismo e o tribalismo político predominam. Hoje se admite que em 2022 se vai repor a polarização que nos atazana a vida desde 2018. Fala-se em “terceira via” como se fosse mágica, mas pouco se faz por ela. Não se reconhece que o polo Lula é superior em tudo ao polo Bolsonaro e que, portanto, não se deveria bater em Lula e nos petistas, mas, sim, forçá-los ao entendimento amplo. O PT poderá voltar ao governo, por que não? Tudo terá de ser processado para que o País renasça. Por todos, incluídos Lula e o PT. Sem isso será mais do mesmo.

Lula e o PT, afinal, não são os únicos jogadores e é muito fácil atribuir a eles a responsabilidade pela não existência do que poderia reconstruir o Brasil e unificar os brasileiros. É fácil, mas é um equívoco, que somente serve para ocultar a incompetência que grassa entre os demais jogadores.


PROFESSOR TITULAR DE TEORIA POLÍTICA DA UNESP

Após perder vice de São Paulo, DEM chama Doria de ‘despreparado’ e ‘inábil politicamente’

Lauriberto Pompeu/ BRASÍLIA / O ESTADO DE SP

14 de maio de 2021 | 13h52

ACM Neto. Foto: Denise Andrade/Estadão

O presidente nacional do DEM, ACM Neto, criticou nesta sexta-feira (14) a saída do vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, do partido para se filiar ao PSDB. Em nota, ACM Neto faz duras críticas ao governador paulista João Doria (PSDB). “A postura desagregadora do governador de São Paulo amplia o seu isolamento político e reforça a percepção do seu despreparo para liderar um projeto nacional”, escreveu o presidente do DEM.

Aliados em todas as eleições presidenciais, desde 1994, o PSDB e o DEM travaram nas últimas semanas uma “guerra fria” em busca de protagonismo para a disputa de 2022. O embate passa pelo palanque em São Paulo e opõe os antigos parceiros. O presidente do DEM, ACM Neto, já havia avisado Doria que, se ele insistisse em filiar Garcia ao PSDB, as negociações entre os dois partidos para 2022 estariam encerradas.

Garcia era do DEM, mas se filiou nesta sexta-feira, 14, ao PSDB. O movimento de Doria, que quer fazer de seu vice o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, em 2022, contraria ACM Neto.

Como mostrou o Estadão, o projeto presidencial de Doria também enfrenta resistências de dirigentes tucanos. Além disso, de uns tempos para cá, o DEM tem indicado que não vai endossar a possível candidatura do governador à sucessão do presidente Jair Bolsonaro.

O DEM conta com dois nomes que podem entrar na briga pelo Palácio do Planalto: o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (MG).

Leia a íntegra da nota do Democratas:

“A mudança do vice-governador Rodrigo Garcia para o PSDB é fruto de uma inexplicável imposição estabelecida pelo governador de São Paulo, João Doria, cuja inabilidade política tem lhe rendido altíssima rejeição e afastado os seus aliados.

A postura desagregadora do governador de São Paulo amplia o seu isolamento político, e reforça a percepção do seu despreparo para liderar um projeto nacional. O momento pede grandeza e compromisso dos homens públicos com o país. Não é hora de dividir, mas de agregar. O Democratas defende a união de forças, e que se deixem os interesses pessoais de lado.

Certos de que o PSDB possui lideranças e quadros nacionais que são capazes de colocar os objetivos comuns e os sonhos para o futuro do Brasil à frente de projetos pessoais, o Democratas espera preservar a longa história de parcerias construída com o partido.”

Datafolha escancara a debilidade da 'terceira via'... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/colunas/josias-de-souza/2021/05/13/datafolha-escancara-a-debilidade-da-terceira-via.

O Datafolha traduziu em números a superpolarização em que está metida a política brasileira. Ressuscitado pelo Supremo, Lula prevaleceria com folgas sobre o rival Bolsonaro se o brasileiro tivesse que ir às urnas hoje. No primeiro turno, o placar seria de 41% a 23%. No segundo, 55% a 32%. Além de acentuar o peso dos extremos, a pesquisa escancara a debilidade da chamada "terceira via". Fala-se muito no centro. Falta informar como se chega ao centro.

 

Abaixo de Lula e Bolsonaro há um bololô de presidenciáveis ou pretensos candidatos. Alguns desses personagens, embora já jurados de morte pela conjuntura, percorrem os bastidores como se estivessem cheios de vida.

 

Estão colados nos fundões do palco Sergio Moro (7%), Ciro Gomes (6%), Luciano Huck (4%) e João Doria (3%) que, mesmo brandindo a CoronaVac, só não é o lanterninha porque abaixo dele estão Henrique Mandetta e João Amoêdo, empatados em 2%.

 

Está entendido que o negacionismo da pandemia cobra a conta de Bolsonaro. Por contraste, Lula retorna ao palco como se nada tivesse sido descoberto sobre ele. Quem busca uma alternativa qualquer à dupla está em apuros. O eleitor vai à urna mais ou menos como quem entra numa loja de roupas. Não se pode escolher senão entre as peças que estão expostas no cabide.

 

Se o Datafolha serviu para alguma coisa foi para realçar o seguinte: Unido, o centro talvez se credencie para desafiar a polarização. Separados, os candidatos alternativos chegarão a 2022 entoando Noel Rosa: "Com que roupa eu vou..." Nessa hipótese, o eleitor será convidado para um samba no qual terá de optar entre Bolsonaro., um candidato sem futuro, e Lula, um oponente com um enorme passado pela frente JOSIAS DE SOUZA / UOL.

O que ainda explica o grande apoio a Bolsonaro nas pesquisas?

Um dos mais antigos e respeitados professores de Ética e Filosofia Política da USP e ministro da Educação de Dilma por alguns meses, Renato Janine Ribeiro é um homem de esquerda clássico com afinidades antigas com o PT e o lulopetismo.
Pois até ele se assusta, em seu último artigo no Diário do Centro do Mundo, a seu jeito muito respeitoso, com o que chama de mistério do apoio resistente de mais de 30% a Jair Bolsonaro nas pesquisas. Apesar de todos os motivos para se desconfiar que ele deveria estar na lona.

Bate Lula no primeiro e no segundo turnos, em arredondados 34 a 30% e 43% a 40%, respectivamente, e larga distância de todos os outros. Ciro Gomes, o mais próximo dos dois, tem risíveis 6% na simulação de primeiro turno e vai menos pior na simulação de segundo turno: 35% a 43% contra Bolsonaro e 28% a 38% contra Lula.
O professor mais especula que assevera diante do que para ele só confunde: por que tanto apoio ainda diante do balanço desastroso de mortes da pandemia, da vacinação capenga e da economia inepta?
— Como é que um governo que governa tão mal está firme assim? E como é que ele pode até mesmo ser reeleito?
É todo dúvida sobre as causas e só arrisca uma: a falta de uma oposição vigorosa, que perdeu tempo por apostar só em Lula, fracassou com Haddad na eleição passada e não pôde se fortalecer nas ruas, durante a pandemia. Sobra um pouco de culpa para a imprensa e "seu histórico de hostilidade contra o PT".
Talvez ele fosse mais bem sucedido no seu esforço de entender a força de Bolsonaro se ele se permitisse fazer a mesma pergunta a respeito de Lula: o que explica que o ex-presidente ainda tenha também um terço do eleitorado depois de ter ido à lona por outro tipo de desastre?
Se ele juntasse essas duas nêmesis dos nossos últimos desastres em 20 anos de descaminhos, certamente elucubraria melhor sobre a estranha disposição da sociedade para com os dois.
A pergunta correta talvez fosse: por que Bolsonaro e Lula ainda têm o apoio de quase um terço do eleitorado cada um, apesar de seus desastres respectivos na vida nacional, a ponto de devastarem ambos a paisagem política de alternativas?
A resposta mais óbvia é que um explica o outro. O apoio ao primeiro traduz a rejeição ao segundo, e vice-versa. 
O terço da população talvez queira um para evitar o outro. Vice-versa. Aquele negócio: o eleitor vota no capeta para evitar o demônio e pode votar no demônio para evitar o capeta.
Muito parecidos na forma de atuação populista, nos apoios e ódios que mobilizam no confronto com as instituições, eles exercem forte afinidade ou antipatia. São como imãs catalisadores de tudo o que a sociedade ama ou odeia. 
Mais odeia, já que mobilizar o ódio tem funcionado muito melhor em política que as boas intenções.
Bons exemplos são os adversários que, por razões parecidas, atraem: o Congresso, o Judiciário e a Imprensa. São três instâncias odiadas que eles escolheram como inimigos e cujas tentativas de combate ou controle sacodem as arquibancadas.
É bem possível que, na cabeça do cidadão médio, se o Congresso, o Judiciário e a Imprensa estão contra eles, alguma virtude eles devem ter. Ao contrário, se o apóiam, algum conluio deve estar a caminho.
No caso do Judiciário e do Congresso, eles vêm arranjos e maracutaias, nesta ordem. No da imprensa, manipulação e distância da pauta que lhe interessa e em que acredita.
(Veja-se a ampla cobertura do Jornal Nacional sobre a operação policial no Jacarezinho que deixou 28 mortos. Para o cidadão médio que está menos para rede social do que para o sofá da sala depois de uma dura jornada de trabalho, as imagens de traficantes empunhando fuzis em fuga não batem no seu conceito de chacina de inocentes, que o jornalístico, como todos os outros, emulam.)
Na sua tentativa de interpretação de um lado só, o professor repete o que vem sendo muito comum de restringir o apoio de Bolsonaro à extrema direita, que, segundo diz, "conseguiu uma reverberação que nem no regime militar teve".
A seu jeito elegante, não a chama de reacionária e nem fascista, como é praxe na oposição mais radical a Bolsonaro. Mas aí, como bem lembra Ciro Gomes nesse trecho da entrevista em que arredonda sua estratégia contra o petismo, é preciso lembrar que a população que votou nos dois é quase a mesma. 
Lula, Dilma e Bolsonaro tiveram votos da maioria da população, com marca arrasadora de 70% dos votos ou mais dos principais estados, Rio, São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul.
— Ora —pergunta o pedetista—, querem dizer que a grande maioria do povo de São Paulo que consagrou Lula no passado e Bolsonaro no presente é toda fascista?
 

Como levaram para as urnas o espectro da sociedade de direita à esquerda, mais certo é dizer que ambos tinham e continuam tendo amplo apoio na maior parte do eleitorado, de difícil configuração e explicação, sem cometer erros graves.
Atribuir a Bolsonaro mais apoio no capital, como é comum nesse tipo de argumento e o professor Janine sugere, é negar o quanto de apoio Lula arrastou no meio. E se campanha hostil de imprensa fosse determinante para derrubar um candidato, Lula não teria sido eleito em 2002 e 2006 e nem Bolsonaro em 2018.
Melhor encapsular tudo, como tento, na aversão da maioria ao inimigo comum de ambos, as instituições deterioradas e militantes das quais seus respectivos mitos — Lula e Bolsonaro — lhes saem mais vítimas que cúmplices. 
Uma sociedade altamente conservadora que votou, vota ou votará nos dois pela capacidade de garantirem sobrevivência e bem estar. 
E, claro, competência para dobrar os inimigos que ela adora odiar: Congresso, Judiciário e Imprensa.

PS - Depois de enviada a coluna, na noite dessa quarta-feira (12/5), o DataFolha divulgou sua nova pesquisa com resultados bem diversos: Lula  bate Bolsonaro em 41 a 23 no primeiro turno e 55 a 32, no segundo. Em sendo certos os números, não invalidam de qualquer forma o argumento de que ambos ainda têm apoios surpreendentes, apesar de suas histórias
Mais textos meus em:

Datafolha: Lula lidera corrida eleitoral de 2022 e marca 55% contra 32% de Bolsonaro no 2º turno

SÃO PAULO

Pouco mais de dois meses após ter seus direitos políticos restabelecidos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera a corrida para a Presidência com margem confortável no primeiro turno e venceria o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na segunda etapa, revela pesquisa Datafolha.

O petista alcança 41% das intenções de voto no primeiro turno, contra 23% de Bolsonaro.

Em um segundo pelotão, embolados, aparecem o ex-ministro da Justiça Sergio Moro (sem partido), com 7%, o ex-ministro da Integração Ciro Gomes (PDT), com 6%, o apresentador Luciano Huck (sem partido), com 4%, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que obtém 3%, e, empatados com 2%, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM) e o empresário João Amoêdo (Novo).

Somados, os adversários de Lula chegam a 47%, apenas seis pontos percentuais a mais do que o petista. Outros 9% disseram que pretendem votar em branco, nulo, ou em nenhum candidato, e 4% se disseram indecisos.

O levantamento foi realizado com 2.071 pessoas, de forma presencial, em 146 municípios, nos dias 11 e 12 de maio. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

Num eventual segundo turno contra Bolsonaro, Lula levaria ampla vantagem, com uma margem de 55% a 32%. Ele receberia a maioria dos votos dados a Doria, Ciro e Huck, enquanto o presidente herdaria a maior fatia dos que optam por Moro, seu ex-ministro da Justiça e atual desafeto.

O petista também venceria na segunda etapa contra Moro (53% a 33%) e Doria (57% a 21%).

Já Bolsonaro empataria tecnicamente com Doria, marcando 39%, contra 40% para o tucano. E perderia para Ciro, obtendo 36%, contra 48% para o pedetista.

É a primeira pesquisa de intenção de voto do Datafolha feita desde que o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, anulou as condenações judiciais do petista, com a justificativa de que a Justiça Federal em Curitiba não era o foro competente para as ações.

A decisão de Fachin depois foi referendada pelo plenário do STF, que deu a Lula outra vitória relacionada à Lava Jato: o reconhecimento de que o ex-juiz Sergio Moro foi parcial ao condenar o petista no caso do tríplex de Guarujá (SP).

As decisões do Supremo não significam a absolvição de Lula, uma vez que as quatro ações penais do ex-presidente na Lava Jato foram transferidas para Brasília.

Na prática, o petista readquiriu o direito de disputar a Presidência no ano que vem, e não perdeu tempo em retomar contatos políticos.

Após ter sido imunizado com as duas doses contra a Covid-19, ele viajou a Brasília na semana passada, onde teve encontros com representantes de diversos partidos.

Além de contatos com a esquerda, também conversou com líderes do centrão e até do MDB, partido que capitaneou o impeachment conta a ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.

Assim que a pandemia permitir, ele pretende também realizar viagens por estados brasileiros, numa espécie de pré-campanha. Segundo aliados, Lula pretende se apresentar como um político moderado, de centro, e cogita repetir a fórmula de suas duas vitoriosas campanhas presidenciais, em 2002 e 2006, com um empresário como vice.

Nesta pesquisa, Lula mantém seu padrão tradicional de apoio, com índices superiores de intenção de voto em segmentos de menor renda e escolaridade.

Ele marca 51% entre os que declaram ter ensino fundamental, e 47% na faixa de renda familiar de até dois salários mínimos mensais.

Por outro lado, seu índice cai para 30% nos que têm curso superior, e 18% no estrato mais rico, o de renda maior do que dez salários mínimos. Mais uma vez, o Nordeste demonstra ser o maior reduto eleitoral para o petista, onde ele atinge 56%.

Bolsonaro, por sua vez, vive um momento de abalo em sua imagem, em razão da criticada gestão da pandemia, que é objeto de uma CPI no Senado.

Ele tem 36% das intenções de voto entre os que declaram estar vivendo normalmente, mesmo com a pandemia, em empate técnico com Lula (33%). Bolsonaro tem promovido aglomerações, e muitas vezes dispensa o uso de máscaras.

Na outra ponta, aqueles que dizem estar totalmente isolados apoiam Lula de forma maciça (58%), contra apenas 8% dados a Bolsonaro.

O presidente tem mais apoio do que a média entre os homens (29%), os eleitores que têm ensino médio (26%) e os de renda de 5 a 10 salários mínimos (30%).

O presidente perde para o petista em todas as regiões, mas tem melhor desempenho no Sul e no Centro-Oeste/Norte, nas quais é forte o agronegócio, uma de suas grandes bases de apoio. Tem 28% em ambas.

Em outro segmento que costuma dar apoio ao presidente, o dos evangélicos, Bolsonaro tem 34%. Mas Lula também vai bem neste grupo, com 35% das intenções de voto, uma situação de empate técnico.

Bolsonaro também sofre os efeitos do aumento do desemprego e do repique da inflação, sobretudo a de alimentos.

No mês passado, o pagamento do auxílio emergencial pelo governo federal foi retomado, mas com um valor mais baixo, o que limitou a recuperação da popularidade do presidente. Dentre os que receberam o benefício, 22% declaram intenção de voto em Bolsonaro, o que não destoa da média geral aferida pelo instituto.

Entre os que se declaram desempregados à procura de trabalho, Bolsonaro tem apenas 16% das intenções de voto. O único estrato profissional em que ele lidera é o dos empresários, com 49% contra 26% de Lula.

Com o avanço da CPI da Covid, os apoiadores do presidente retomaram a participação em manifestações de rua, muitas vezes ignorando os protocolos de proteção contra a pandemia. Isso ocorreu em diversas cidades no Dia do Trabalho, enquanto o próprio presidente prestigiou um ato de motociclistas em Brasília no domingo (8).

As últimas semanas também viram uma intensa movimentação de Ciro, que busca dar uma guinada ao centro, após a volta de Lula ao cenário eleitoral.

Seu partido contratou o publicitário João Santana, que trabalhou com o PT, para mostrá-lo como uma alternativa à polarização representada por Lula e Bolsonaro. Em vídeos divulgados em redes sociais, Santana também tem buscado suavizar a imagem do ex-ministro, conhecido pelo pavio curto.

Ele se sai melhor entre os que têm ensino superior (11%) e no estrato mais rico (13%).

A pesquisa revela ainda que Doria segue tendo dificuldades para capitalizar politicamente o fato de ter trazido ao Brasil a Coronavac, parceria do Instituto Butantan com um laboratório chinês.

Até o momento, cerca de 80% das vacinas aplicadas no Brasil são fruto desta parceria, mas o tucano não tem conseguido transformar esse fato em intenções de voto.

Com relação aos demais candidatos, há dúvidas se vão mesmo concorrer. Huck teria de deixar um lucrativo contrato com a TV Globo, enquanto Moro desgastou-se após a série de derrotas sofrida pela Lava Jato.

Para se reeleger, Bolsonaro também terá de enfrentar um alto índice de rejeição, que ultrapassa metade do eleitorado e poderá ser um complicador, especialmente em um segundo turno. Dentre os entrevistados, 54% dizem que jamais votariam nele.

A rejeição de Lula é a segunda maior, com 36%, seguida pelas de Doria (30%), Huck (29%), Moro (26%) e Ciro (24%).

FOLHA DE SP

Compartilhar Conteúdo

444