A via alternativa da eleição - Carlos José Marques

Dias atrás um certo frenesi tomou conta das redes sociais após FHC ter declarado voto a Lula no caso de um segundo turno apocalíptico, polarizado entre o demiurgo de Garanhuns e o “mito” ensandecido do cerrado planaltino. Nada mais natural, no entanto. FHC, como bom sociólogo, exibe a qualidade de enxergar longe o jogo político e traça cenários com as peças que estão dispostas no tabuleiro. Fato: a pendenga de lulistas contra bolsonaristas parece arquitetada para as próximas eleições — salvo algum novo incidente de percurso, jurídico ou social, ainda não precificado.
Nesse quadrante de dois extremistas, o pêndulo tende a se mover naturalmente para o outro lado que não o do inquilino atual do poder. Como já ocorreu lá atrás, quando um País inteiro, sobejado pelos 16 anos de mando e desmandos do PT, guiou-se ao limite oposto, na busca estúpida, incessante, por mais um salvador da Pátria. E eles, sabidamente, não existem. Embora se apresentem como tal, antes tratam de arranjar e acomodar os próprios interesses, deixando a massa bovina e infecta de seguidores ao relento das promessas jamais cumpridas.
O Brasil, numa sina subdesenvolvida, de apego às tradições políticas mais retrógradas, vem sendo levado a esse “confronto” e conluio de extremos (embora pareça, não há nada de paradoxal nisso). Antes de tudo está aí uma forma meio bizarra de alternância de controle do Estado. Em 2018 a dose foi repetida. E deu no que deu.
O torresmo de cérebro do capitão, que aparenta exibir quase nenhum neurônio, convenceu e venceu, transmutado no personagem de um anti-Lula de ocasião e carteirinha. Construiu, a partir dali, seu próprio desastre administrativo, desmantelando o que havia de essencial em áreas como Educação, Saúde e Meio Ambiente, para citar apenas o tripé de setores estratégicos mais em voga. Fez ainda pior: legou ao País uma carnificina humana sem precedentes, na base das decisões bestiais que iam de uma promoção sem o menor cabimento, lógica ou base científica, de drogas sem eficácia à campanha implacável contra vacinas.
É redundante lembrar, mas é igualmente assombroso ter de acreditar em tantas aberrações cometidas. Lula, por sua vez, representa hoje — queiram ou não os desafetos, falsamente chocados com a sobrevida que carrega — um autêntico anti-Bolsonaro e vai ser difícil outro tomar-lhe o papel. Fato. Daí a polarização mais uma vez estabelecida.
O capitão Bolsonaro experimenta, no momento, uma resistência gigantesca em todo o País ao seu nome, em virtude das loucuras em cascata e da imoral série de atitudes genocidas. Mais da metade da população nacional (apontam pesquisas) não quer vê-lo reconduzido ao Planalto. Essa fatia de eleitores optará por um lado antagônico ao status quo atual e, se perceber que a única maneira de deter o avanço do mandatário será por intermédio de Lula, fechará com ele.
Cristalino como água e FHC vislumbrou a corrente. Na prática, não há como Bolsonaro sair inteiro e vitorioso da contenda. Não possui fôlego para levar no primeiro turno e com Lula, no segundo turno, dança. Perde fragorosamente. FHC chacoalhou a cena política, com sua visão antecipada e primorosa, para tentar reacender o fôlego de uma via alternativa, a do terceiro elemento na batalha. Precisa aparecer como uma figura com capilaridade política, articulação partidária, senso de responsabilidade e noção das carências nacionais.
É mister esperar os próximos capítulos, mas o tempo urge. Para o bem dos princípios, contra o negacionismo que tanto Lula como Bolsonaro professam, em favor da lisura na gestão pública, é vital e urgente o aparecimento da terceira via. Desafio que se impõe como uma missão de toda a sociedade.
Sempre foi pré-condição da democracia representativa a pluralidade de candidatos e, mais do que nunca, é necessário ao País sair de uma vez por todas da armadilha dos extremos. Surpreende no contexto em vigor que mesmo a elite dominante esteja resignada, de alguma forma conivente com os malfeitos, exibindo pouco engajamento na busca por competência, moralidade administrativa e seriedade de objetivos.
Até por uma simpatia ideológica equivocada, de natural predileção pelo controle absoluto do Estado, na base da espora, chicote e coice na população, a mesma elite que se diz consciente do papel de indutora do desenvolvimento se deixa enlamear no ranço purulento do radicalismo. Ela rasteja na saída equivocada. Para os brasileiros que têm muito a perder, uma opção de centro ainda é possível nesse jogo? Naturalmente. O centro ainda acumula a maior fatia dos eleitores nacionais, mas vai depender da forma como ele se apresentará para lograr êxito. Caso se mostre esfacelado, diluído, perderá força e ficará em segundo plano diante da polarização.
O populismo ainda está corrente, com enorme apelo e servindo de fundamental apetrecho para os aventureiros de plantão, habituais candidatos a caudilhos, ditadores de republiquetas. Não é aconselhável fazer pouco caso de sua relevância. Mas o Brasil merece mais. Pode mais. E deve buscar por muito mais. Fora da doentia dicotomia dos lunáticos. Depende de cada um de nós. ISTOÉ
Lira instala comissão especial para analisar PEC do voto impresso
Por Estadão Conteúdo / EXAME

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (Progressitas-AL), instalou no início da madrugada desta quinta-feira (13) a comissão especial para analisar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do voto impresso.
Se aprovada, a PEC de autoria da deputada Bia Kicis (PSL-DF) tornaria obrigatória a impressão de cédulas de papel após votos depositados na urna eletrônica. A parlamentar comemorou a decisão da Lira. "Não importa sua coloração política. Todos queremos que nossos votos cheguem aos nossos candidatos. Só um sistema auditável nos garante isso", postou Bia Kicis no Twitter.
A instalação da comissão foi anunciada por Lira, que estava ao lado de deputados da base aliada ao governo Jair Bolsonaro, logo após a aprovação do texto-base do licenciamento ambiental e minutos antes do encerramento de uma sessão arrastada.
A deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS) foi ao Twitter dizer que a decisão foi tomada "na calada da noite". "Pra quem achava que não dava para terminar o dia pior, o trator do autoritarismo mostrou que é possível, sim", publicou, na rede social.
Centrão está prestes a ter o presidente do Brasil... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/colunas/josias-de-souza/2021/05/21/bolsonaro-sera-um-presidente-da-cota-do-centrao.htm?cmpid=copiaecola
Não é que o presidente tem o centrão do seu lado. O centrão é que está prestes a ter o presidente. É sempre melhor a pessoa se arrepender do que experimentou do que não experimentou. Exceto, é claro, queda de avião e filiação ao PP. Mas Bolsonaro já passou por tantos partidos —oito em três décadas— que cogita repetir uma velha experiência. Ensaia um retorno aos quadros do PP. Rebatizada de Progressistas, a legenda é uma espécie de locomotiva do centrão.
De passagem pelo Piauí, Estado do presidente do PP, Bolsonaro flertou com o passado. "Agradeço ao Ciro Nogueira, meu velho colega de Parlamento. Fui do partido Progressistas dele por muito tempo. Ele não está apaixonado por mim não, pessoal, mas ele tá me namorando. Ele quer que eu retorne ao partido. Quem sabe? Se ele for bom de papo, quem sabe a gente volte para lá. Não estou me fazendo de difícil não, é um grande partido."
Por mal dos pecados, Bolsonaro troca afagos com Ciro Nogueira num instante em que a Polícia Federal pede ao Supremo Tribunal Federal autorização para interrogar o dirigente partidário num inquérito sobre corrupção. Ciro é acusado de receber propina de R$ 5 milhões da empresa JBS para levar o seu PP a apoiar a reeleição de Dilma Rousseff ao Planalto em 2014. O senador nega a acusação.
O namoro de Bolsonaro com o centrão obrigou o general Augusto Heleno, ministro palaciano do Gabinete de Segurança Institucional, a executar piruetas retóricas. Na campanha de 2018, Heleno cantava em encontro partidário que, "se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão". Agora, o general diz que já não tem a mesma opinião. "Não reconheço hoje a existência desse centrão", ele declara.
Quer dizer: em política, nada se cria, nada se transforma, tudo se corrompe. UOL
EXAME/IDEIA: 46% não sabem em quem votar para o primeiro turno em 2022
Caso a eleição presidencial fosse hoje, 46% dos brasileiros não saberiam em quem votar no primeiro turno, considerando a pesquisa espontânea, em que os nomes dos candidatos não são apresentados previamente aos eleitores. A soma de intenção de votos de todos os candidatos citados é de 47%. Brancos e nulos são 7%.
Os dados são da mais recente pesquisa EXAME/IDEIA, projeto que une Exame Invest PRO, braço de análise de investimentos da EXAME, e o IDEIA, instituto de pesquisa especializado em opinião pública. O levantamento ouviu 1.200 pessoas entre os dias 19 e 20 de maio. As entrevistas foram feitas por telefone, com ligações tanto para fixos residenciais quanto para celulares. Confira a pesquisa completa.
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As pesquisas espontâneas trazem informações valiosas aos postulantes à corrida eleitoral presidencial. Se por um lado esse tipo de levantamento mostra a parcela de eleitores órfãos, ele também indica os votos mais fiéis e que, dificilmente, devem mudar ao longo do tempo. Nessa rodada da pesquisa espontânea, o ex-presidente Lula tem 19% do eleitorado, enquanto o atual presidente Jair Bolsonaro soma 17% das intenções de vooto.
Na avaliação de Mauricio Moura, fundador do IDEIA, o panorama de 46% da população sem um candidato quebra a série histórica, porque geralmente a um ano da eleição cerca de dois terços do eleitorado não sabe em quem votar. Ainda segundo Moura, há claramente dois campos muito bem delimitados politicamente: Jair Bolsonaro (sem partido) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“A gente tem um cenário muito único em 2022, com um presidente em exercício, que naturalmente é protagonista, e uma figura política de peso, da musculatura do Luiz Inácio Lula da Silva”, diz.
O índice de pessoas que ainda não escolheram um candidato é maior na região Sudeste, com 51%, e nas classes A e B, com 52%. A região Centro-Oeste é a que está menos indecisa, com 34% dos eleitores que ainda não sabem em quem votar, e entre aqueles que são praticantes de religiões não cristãs, com 36%.
Lula vence segundo turno
O ex-presidente Lula tem 45% das intenções de voto contra 37% do presidente Bolsonaro em um eventual segundo turno na disputa pela presidência do Brasil, caso as eleições fossem hoje. O petista ampliou a vantagem desde a última sondagem, realizada há um mês, e consolidou o favoritismo ao Palácio do Planalto.
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“O grande destaque é que a gente percebe a irritação da classe média com o governo Bolsonaro. Ele perdeu popularidade nas classes A e B, com reflexo nas intenções de voto. Com isso, fica sempre a lição quando se trata de intenção de voto: quem está em reeleição segue como protagonista, mas a variável principal para uma queda ou uma retomada de preferência é a popularidade do presidente”, analisa Mauricio Moura.
Por região, Lula vence Bolsonaro no Sudeste (47% X 38%), e no Nordeste (50% X 35%). A situação se inverte, com o atual presidente em primeiro lugar, no Norte (64% X 25%), no Sul (45% X 26%), e no Centro-Oeste (42% X 34%). Vale destacar que o Sudeste concentra a maior parte do eleitorado brasileiro, por isso Lula tem uma vantagem no total de votos.
Francamente, Fernando Henrique - Carlos Graieb

Concordo plenamente com Roberto Freire, o presidente nacional do Cidadania, quando ele diz que o encontro entre Fernando Henrique Cardoso e Lula foi um grave erro político.
Não para Lula, é claro, que nesta semana se declarou candidato às eleições de 2022 (como se precisasse). O capital político do petista aumenta cada vez que ele recebe o aperto de mão – ou soquinho, ou cotovelada, ou seja lá o que as pessoas fazem para se cumprimentar no meio da pandemia – de alguma figura representativa.
No caso específico da foto com Fernando Henrique, ela ajuda o petista a ocupar uma faixa no centro do espectro político. Sendo a política, em certa medida, uma briga por espaço, isso atrapalha o surgimento de uma terceira candidatura, moderada, para a disputa do ano que vem. Como FHC tende a ser um dos fiadores de uma candidatura desse tipo, caso ela (oxalá!) venha de fato a surgir, já fica posta desde já uma incômoda ambiguidade. Como se o tucano dissesse: “Eu vou apoiar esta figura aqui, mas o Lula também serve”.
É muito cedo, cedíssimo, para esse tipo de acomodação. Vou repetir palavras que escrevi anteriormente, em outro espaço: o centro moderado (não o Centrão oportunista) precisa ser radical. Ele só vai ter relevância se virar posição de combate no debate público e nas redes sociais. É preciso enfrentar sistematicamente os adversários à direita e à esquerda, inclusive empurrando-os mais e mais para os extremos, se necessário.
Se for visto como inerte, o centro já era. Se for visto como um poodle abanando o rabinho no meio da guerra, o centro já era. Se parecer que está disposto a uma acomodação quando o jogo nem começou – bem, nem vou repetir.
Até me atrapalhei com a digitação algumas vezes antes de conseguir escrever esta frase direito, mas quem está certo, neste momento, é Ciro Gomes. Ele vem batendo em Lula sem piedade, sem hesitação. Nem é preciso dizer que também bate em Bolsonaro. E porque haveria de ser diferente?
A esta altura dos acontecimentos, em maio de 2020, só há motivos racionais para querer ver Bolsonaro longe do poder. Ele é tosco, incompetente, destrutivo, autoritário, perigoso.
Da mesma forma, só a falta de imaginação explica que alguém deseje ver o PT de volta ao Planalto. O mensalão e o petrolão corromperam o partido até a medula dos ossos. A Lava Jato meteu os pés pelas mãos no afã de prender Lula, mas não fez nada de errado na hora de coletar as provas que flagraram o partido em ampla e irrestrita gatunagem . Essas provas podem ter perdido validade no mundo jurídico, mas continuam sólidas no mundo dos julgamentos políticos.
Além das culpas do passado, o PT também está repleto de ressentimento (injustificado). E o ressentimento é um dos piores motores da ação política. Não acredito por um instante quando Lula faz aquela cara de quem está acima de buscar revanches. Gleisi Hoffmann nem procura disfarçar.
Francamente, Fernando Henrique. Disseram que você era um sábio. Nesse caso, em vez de fazer fotos ao lado de Lula, você deveria estar por aí em busca de um bom candidato, como aquele filósofo da Antiguidade que andava pelas ruas com uma lanterna nas mãos, dizendo estar à procura de um homem honesto. ISTOÉ

