O diabo não desiste - O ESTADO DE SP
24 de outubro de 2021 | 03h00
Desde que o PT precipitou a maior crise econômica, política e moral da Nova República, a população esperou em vão por um mísero mea culpa. Após o impeachment de Dilma Rousseff, a única bandeira a unificar seus correligionários foi a denúncia ao “golpe”, logo substituída pelo slogan “Lula Livre”. O PT se opôs a reformas modernizantes como a da Previdência, opõe-se a outras, como a administrativa, e não oferece alternativas construtivas aos desmandos que acusa. Em campanha eleitoral, o partido se mostra incapaz de propor uma agenda positiva para o futuro, muito menos de reconhecer os erros do passado. Ao contrário, afirma que vai repeti-los, por exemplo, implodindo o teto de gastos que estancou a hemorragia fiscal deflagrada no governo Dilma Rousseff.
Ainda pior, o PT não só pretende repetir seus erros de gestão, como julga ter poder de apagar os crimes dos quais foi cúmplice. Em entrevista coletiva, a sua presidente, Gleisi Hoffmann, afirmou que nunca houve “corrupção sistêmica”, superfaturamento ou desvio de dinheiro na Petrobras.
Boa parte desses delitos foi confessada pelos próprios delinquentes, que devolveram bilhões desviados à Petrobras. Com base em uma auditoria da PriceWaterhouseCoopers, a própria Petrobras admitiu no balanço de 2014 que US$ 2,5 bilhões foram pagos a mais a “um conjunto de empresas que, entre 2004 e abril de 2012, se organizaram em cartel para obter contratos com a Petrobras, impondo gastos adicionais nestes contratos e utilizando estes valores adicionais para financiar pagamentos indevidos a partidos políticos, políticos eleitos ou outros agentes políticos, empregados de empreiteiras e fornecedores, ex-empregados da Petrobras e outros envolvidos no esquema de pagamentos indevidos”.
Segundo Gleisi Hoffmann, a PriceWaterhouse foi obrigada pela Lava Jato a atestar as perdas. Não há evidências disso. Por outro lado, é notório que à época o PT pressionou a diretoria da Petrobras comandada por Maria das Graças Foster, executiva de confiança de Dilma Rousseff, a não publicar os dados auditados, levando a um impasse e finalmente à renúncia de Foster e outros diretores. Depois, a Petrobras participou dos processos judiciais como assistente de acusação do Ministério Público, recuperando mais de R$ 6 bilhões superfaturados pelos cartéis.
O Tribunal de Contas da União (TCU), atuando independentemente da Lava Jato, expôs uma série de ilicitudes nos contratos da Petrobras. Na construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, por exemplo, o TCU identificou que o orçamento inicial de US$ 13,4 bilhões foi majorado para US$ 26,3 bilhões. Ao mesmo tempo que o custo final foi dobrado, a refinaria produz apenas metade dos 230 mil barris de petróleo inicialmente previstos. O TCU estimou que as perdas da Petrobras apenas em Abreu e Lima acumularam US$ 19 bilhões.
Similarmente, o TCU verificou que a torre Pirituba, em Salvador, inicialmente orçada em R$ 320 milhões, foi construída pela OAS e a Odebrecht por R$ 1,3 bilhão, e que a construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro – jamais concluída – gerou perdas de US$ 12,5 bilhões.
É conhecida a candura com que a ex-presidente Dilma Rousseff expôs os métodos petistas: “Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”. Ironicamente, o PT, ciente de que ninguém fez mais do que Dilma para arruinar o suposto legado de Lula, a incluiu no rol dos erros a serem esquecidos. O ex-poste de Lula é hoje uma ausência garantida nos discursos e comícios do demiurgo de Garanhuns.
Lula, por sinal, afetou melindres em suas redes sociais: “Eu sou de um tempo onde a disputa era apenas eleitoral. Você não estava numa guerra. Seu adversário não era um inimigo”. Que o diga a ex-petista Marina Silva, sordidamente vilanizada pelos marqueteiros do PT nas campanhas de 2014, ou todos os brasileiros vilipendiados como “fascistas” simplesmente por recusarem o culto a Lula da Silva.
O despudor com que o PT tenta reescrever a história do País para edulcorar sua trágica passagem pelo poder rivaliza com o sistemático embuste bolsonarista, o que permite prever que a campanha de 2022, mantido o favoritismo de Lula e Bolsonaro, fará corar o próprio Pinóquio.
Auxílio Brasil de Bolsonaro também é ‘Auxílio Centrão’; leia análise
23 de outubro de 2021 | 05h00
Conforme avança o processo de corrosão (lento, porém contínuo) de seu governo, Jair Bolsonaro observa o surgimento de obstáculos adicionais na corrida com barreiras que o separa da verdade das urnas.
O mais recente deles é convencer o Centrão de que ainda possui “capacidade eleitoral”, termo usado por um dos líderes do bloco parlamentar para explicar a desconfiança quanto ao futuro do presidente. Trocando em miúdos, a pergunta é: Bolsonaro ainda tem chances de ser reeleito em 2022?
A reposta, em política, muitas vezes interessa menos do que a pergunta. Fragilizado, o presidente torna-se ainda mais refém do Centrão, seja porque Arthur Lira (Progressistas-AL) possui o poder de abrir um processo de impeachment, seja porque a partir de agora, sem o Auxílio Brasil turbinado, Bolsonaro corre o risco de ver o Centrão na campanha de seus adversários.
Qual a “solução” encontrada pelo Centrão e pelo Planalto para incrementar a “capacidade eleitoral” de Bolsonaro? Distribuir dinheiro, ideia nada criativa e de fortes efeitos colaterais nas contas públicas, mas que, no imaginário político, está para os moribundos eleitorais como a poção mágica do druida Panoramix para Asterix. Porém, diferentemente do mundo das HQs, nada garante que Bolsonaro conseguirá esmagar seus inimigos. Com o preço da gasolina beirando R$ 7,50 em várias regiões do País e com 600 mil mortes por covid-19 no seu lombo, o presidente precisará de muito mais do que distribuir dinheiro. Certo, por enquanto, é que o Centrão fará bom uso do auxílio (pois já o fez nos governos petistas) em suas “bases” para, no futuro, quem sabe, barganhar apoio a outro presidente.
Recuperação do bem-estar será a utopia ambicionada pelo eleitor em 2022... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/colunas/josias-de-souza/2021/10/23/recuperacao-do-bem-estar-sera-a-utopia-ambicionada-pelo-eleitor-em-2022.
A ruína do governo Bolsonaro é um caldeirão em que se misturam mais de 600 mil cadáveres, 14,8 milhões de desempregados, 19 milhões de famintos e uma inflação de dois dígitos. Esses dados deslocam a campanha presidencial de 2022 para a arena econômica.
Até aí, nada de novo sob o Sol, pois a economia sempre foi relevante em qualquer eleição. Desperdiçarão tempo e energia os candidatos que imaginarem que cavarão uma vaga no segundo turno maldizendo o capitão. Ninguém vai eleger um presidente apenas porque ele fala mal de Bolsonaro.
Um pedaço expressivo do eleitorado está à procura de algo que, hoje, parece irrealizável. A grande utopia da sociedade brasileira é a recuperação de uma noção qualquer de bem-estar. Essa sensação não será obtida com a mera substituição do radicalismo do candidato à reeleição pela raiva dos seus opositores. A principal tarefa da oposição é desintoxicar o ambiente e oferecer uma mercadoria que a polarização entre bolsonarismo e petismo tornou escassa na política brasileira: a esperança. A rejeição a Bolsonaro bateu em 59% no último Datafolha porque o presidente consolida-se como um estorvo à sobrevivência das pessoas.
Na área econômica, o capitão dedica-se a destruir um sistema que construído a duras penas, assegurava a estabilidade da moeda. Com o auxílio luxuoso de Paulo Guedes, um ministro da Economia que se autoconverteu em tesoureiro do comitê de campanha, Bolsonaro pisoteia as balizas fiscais do país.
Empurra dívidas judiciais irrecorríveis para dentro de uma contabilidade paralela. Acomoda um Bolsa Reeleição de mais de R$ 80 bilhões num pavimento erguido sobre o teto de gastos. Remunera a fidelidade do centrão com um orçamento paralelo e opaco. Converte um programa social perene numa engrenagem de compra de votos improvisada em cima do joelho.
O assistencialismo populista leva o dólar às alturas, alimentando uma inflação que mastigará o suposto benefício de R$ 400 oferecido a 17 milhões de famílias que frequentam a fila do osso. Correndo atrás do prejuízo, o Banco Central eleva os juros que inibem os investimentos que poderiam diminuir a fila do desemprego.
Na prática, Bolsonaro tornou-se sócio da inflação que atormenta os pobres que ele finge socorrer. Um socorro genuíno dependeria de providências que um presidente da cota do centrão não tem condições de adotar. Por exemplo: o corte do orçamento paralelo que irriga o fisiologismo parlamentar. Ou a eliminação de incentivos tributários que fazem a alegria de empresários com bons amigos no Congresso. Ou ainda a privatização de estatais que servem de cabides para apaniguados políticos ou fardas com fins lucrativos.
A inflação acumulada em 12 meses bateu em 10,25% em setembro. A última vez que a carestia alcançou semelhante patamar foi no governo ruinoso de Dilma Rousseff. O dragão começou a lançar chamas ameaçadoras em 2015. Ultrapassou a marca simbólica dos dois dígitos em 2016.
Hoje, Lula percorre a conjuntura como favorito vendendo a perspectiva de retomar indicadores que o tornaram popular. Como se não tivesse nada a ver com a ruína da gerentona que se empenhou em eleger um par de vezes. Confunde amnésia com consciência limpa.
Bolsonaro tampouco enxerga um culpado na imagem do espelho. Submetido a uma confluência atordoante de crises —fiscal, energética, econômica e ambiental— atribui a derrocada à política de isolamento social que os governadores foram compelidos a adotar para combater o coronavírus.
As conclusões da CPI da Covid retiraram do presidente seu papel predileto: o de culpar os outros pelas crises que fabricou ou ajudou a agravar. O relatório a ser aprovado na próxima terça-feira pela Comissão Parlamentar de Inquérito demonstra, com fartura de provas, que o Brasil seria outro se Bolsonaro tivesse adotado um comportamento de anti-Bolsonaro, coordenando o enfrentamento da pandemia, renegando a cloroquina e comprando por opção as vacinas que comprou tardiamente por pressão.
Desmoralizado, Paulo Guedes mimetiza o chefe, terceirizando o seu fracasso a um hipotético "meteoro" dos precatórios, à leniência do Congresso com as reformas e à pandemia. Lorotas. Em 2019, quando ainda não havia o coronavírus, entregou um pibinho de 1,4%. Promessas como a de arrecadar R$ 1 trilhão em privatizações esbarraram no desinteresse do seu chefe. O excesso de gogó levou às sucessivas debandadas de integrantes da equipe econômica.
Estimava-se que a inflação cairia lentamente, fechando 2021 em algo como 8,5%. A irresponsabilidade fiscal e o dólar irascível ameaçam a previsão. A carestia é maior na gôndola do supermercado, na conta de luz e no botijão de gás. Em condições normais, o desemprego tende a decair neste segundo semestre. Coisa sazonal. Nada que se pareça com um movimento consistente.
O crescimento econômico de 2021 é meramente estatístico. Para o ano eleitoral de 2022 espera-se mais um pibinho nas cercanias de 1%, talvez menos. Os mais pessimistas contemplam a hipótese de recessão.
É contra esse pano de fundo envenenado que os candidatos pedirão votos. A moderação tornou-se um ativo eleitoral. O ódio já elegeu três presidentes no Brasil: Jânio Quadros, Fernando Collor e o próprio Bolsonaro. Eles são muito diferentes um do outro. Mas têm algo em comum: no exercício do poder, revelaram-se impostores. Jânio renunciou. Collor foi escorraçado do Planalto.
Bolsonaro sobrevive graças à blindagem oferecida por duas autoridades que desonram os cargos que ocupam: o procurador-geral da República Augusto Aras e o presidente da Câmara Arthur Lira. Um rumina a expectativa de virar ministro do Supremo. Outro lucra arrancando verbas secretas do desgoverno.
Os escudos oferecidos por Aras e Lira infectaram Bolsonaro com o pior tipo de ilusão que pode acometer um presidente: a ilusão de que preside.
Sem mea-culpa, PT pode derrotar Bolsonaro, mas não o bolsonarismo
O PT está se organizando para enfrentar as acusações de corrupção que recaem sobre o partido mirando as eleições de 2022. Seus políticos estão sendo treinados para rebater as acusações, e o partido recentemente publicou um manual para treinar os militantes.
Se, por um lado, se trata apenas de uma estratégia (legítima) para disputar a opinião pública em período pré-eleitoral, nos seus efeitos a iniciativa dará sobrevida a um antipetismo radicalizado. O PT está olhando demais para os resultados eleitorais de curto prazo e muito pouco para como sua postura de não assumir os erros políticos alimenta a intolerância e radicaliza a direita.
O partido tem todo o direito de denunciar a perseguição judicial de que foi vítima, muito bem documentada na série de reportagens conhecida como Vaza Jato. Não foi à toa que as condenações do ex-presidente Lula foram anuladas. Mas também não há sombra de dúvida de que, durante as administrações petistas, houve conluio entre a Petrobras e um pool de empreiteiras que desviou bilhões de reais para políticos.
Não foi provado que Lula organizou ou mesmo que tinha ciência do desvio, mas seguramente o ex-presidente tem responsabilidade política por um ato de corrupção dessa magnitude ter acontecido durante seu governo.
A estratégia argumentativa que o PT está adotando é embaralhar os fatos, usando a perseguição judicial para jogar fumaça sobre a montanha de evidências de corrupção na Petrobras. Essa estratégia pode reduzir as resistências a Lula junto a alguns eleitores hesitantes, mas também enfurecerá e radicalizará bolsonaristas e outros antipetistas que já sentem que a anulação das condenações de Lula representa uma vitória da impunidade.
Por um lado, a estratégia ajuda o PT nas eleições de 2022; por outro, consolida a polarização política que envenena o país.
A polarização tem efeitos eleitorais relevantes, mas não é um fenômeno eleitoral. É uma dinâmica que toma a sociedade civil e faz com que dois segmentos do público se radicalizem, se fanatizem e se tornem intolerantes um com o outro. Nem sempre a polarização é simétrica, com os dois lados adotando posturas políticas antidemocráticas —mas ela sempre é relacional. Cada movimento de um campo repercute no outro. É por isso que as ações do PT têm enorme impacto na estruturação da extrema direita.
A postura que o PT decidiu adotar para as eleições de 2022 não é o único caminho —e certamente não é o melhor. O partido poderia reconhecer que houve corrupção grave durante seu governo e se comprometer a não deixar que isso volte a acontecer. Um mea-culpa honesto como esse não ganharia um único voto governista, mas distensionaria o ambiente e esmoreceria o antagonismo antipetista.
É preciso lembrar que a oposição tem uma dupla tarefa, uma eleitoral, outra com a sociedade civil. Não basta derrotar eleitoralmente Bolsonaro; é preciso também desmontar as condições políticas que fizeram a extrema direita emergir como força política relevante.

Por Pablo Ortellado / O GLOBO
Pacheco e Moro definem filiações e ampliam leque de opções da terceira via II
Moro indeciso
Em outra frente, o ex-juiz da Lava-Jato e ex-ministro da Justiça Sergio Moro decidiu que vai mesmo concorrer às eleições de 2022 e irá ingressar no Podemos. O evento de filiação está previsto para ocorrer no dia 10 de novembro. O ato deve acontecer no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, também na capital federal.
Embora tenha seu nome constantemente cotado para a corrida presidencial, Moro ainda não definiu se concorrerá à Presidência ou ao Senado, o que ocorrerá em breve, de acordo com aliados. A expectativa dentro do partido é que, ao fim, ele opte pelo voo mais alto.
O GLOBO apurou que o ex-ministro tem dito que pretende ocupar um lugar de destaque no palanque de 2022 para rebater ataques, sobretudo disparados por Lula. Alguns presidenciáveis, como o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM) trabalham para convencer Moro a brigar por uma vaga no Senado e prometeram ao ex-magistrado defender o legado dele durante os embates da campanha presidencial.
À frente dos processo da Operação Lava-jato no Paraná, Moro foi o juiz responsável pela condenação de Lula. A sentença, contudo, foi anulada por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou o ex-magistrado parcial em suas decisões.
Moro bateu o martelo sobre sua filiação quando esteve no Brasil, no mês passado, para uma rodada de conversas sobre seu futuro político. Ele mora nos Estados Unidos há cerca de seis meses. No ato de filiação, o ex-juiz já estará desligado da empresa Alvarez & Marsal, onde trabalha hoje. Até o fim de outubro, no entanto, ele continuará a serviço da companhia. Em novembro de 2016, Moro chegou a dizer que “jamais entraria para a política”.
(Colaborou Rayanderson Guerra) MÓDULO DE PODCASTS PARA MATÉRIAS


