Ciro Gomes: “Minha relação com o lulopetismo está encerrada”; ouça no ‘Estadão Notícias’
Por Jefferson Perleberg / O ESTADO DE SP
13 de outubro de 2021 | 00h10
Entre os nomes apontados como possíveis candidatos da chamada “terceira via”, um dos mais polêmicos, até pelas discussões acaloradas nas redes sociais, é o de Ciro Gomes, do PDT. O pedetista é visto pela esquerda vinculada ao PT como uma espécie de “traidor” por não ter apoiado Fernando Haddad no segundo turno das eleições de 2018.
Além disso, Ciro Gomes, que já foi ministro de Lula, é um grande crítico da possível candidatura do ex-presidente em 2022. Esse racha na esquerda ficou evidente nas últimas manifestações que pediam o impeachment de Jair Bolsonaro. Ao subir no caminhão de som para discursar, na Avenida Paulista, em São Paulo, Ciro Gomes foi vaiado por parte dos presentes.
Já de olho em 2022, Ciro Gomes contratou o ex-marqueteiro de Lula, João Santana, para comandar sua campanha presidencial. O pedetista tem sido também o primeiro a costurar alianças e tentar formar uma chapa para 2022.
No começo de outubro, o pedetista jantou com José Luiz Datena para conversar sobre a possibilidade do apresentador ser o seu vice nas próximas eleições.
O núcleo empresarial brasileiro, que vai se descolando de Jair Bolsonaro, tem olhado atentamente o desempenho dos nomes da “terceira via”, para apoiar um candidato que possa fazer frente à disputa entre o atual presidente e Lula.
No episódio do Estadão Notícias desta quarta-feira, recebemos o próprio Ciro Gomes para falar, entre outros assuntos, sobre eleições, a sua relação com o PT e a possibilidade de impeachment de Jair Bolsonaro.
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Apresentação: Emanuel Bomfim
Produção/Edição: Gustavo Lopes, Jefferson Perleberg, Ana Paula Niederauer e Victor Farias.
Sonorização/Montagem: Moacir Biasi

Por que Lula e Bolsonaro querem Moro como terceira via em 2022
Lula e Bolsonaro têm algo em comum. Ambos dizem a interlocutores que Sergio Moro é o nome que gostariam de ver como “a terceira via” nas eleições de 2022.
Bolsonaro costuma afirmar que deseja a candidatura do ex-juiz à presidência para Moro “ver o tamanho que realmente tem”. O presidente diz que seu ex-ministro iria angariar menos votos do que ele acredita ter.
Já os interlocutores de Lula afirmam que o petista deixa claro que gostaria de encarar um debate político com seu algoz na Lava-Jato. Analistas de pesquisas que trabalham para o PT também traçaram um cenário positivo para Lula no caso de Moro se confirmar como terceira via. Apontam o ex-juiz como único candidato que não ganha votos com a desidratação de Bolsonaro. A avaliação feita é que Moro, por ser mais conhecido, deslancharia com uma cifra boa de intenções de voto, mas teria teto baixo.
O ex-juiz ainda não decidiu se vai se lançar ao Palácio do Planalto. Em conversas com o Podemos, Moro baterá o martelo sobre seu futuro político em novembro.
DEM e PSL aprovam fusão e criam o maior partido da Câmara
06 de outubro de 2021 | 12h36
BRASÍLIA - Os diretórios nacionais do DEM e do PSL decidiram nesta quarta-feira, 6, aprovar a fusão entre as duas legendas. O novo partido, que vai se chamar União Brasil, terá a maior bancada da Câmara, com 82 deputados, além de quatro governadores, oito senadores e as maiores fatias dos fundos eleitoral e partidário. Será a primeira vez, em 20 anos, que a direita reúne tantos parlamentares em uma única agremiação. A última vez foi no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, quando o PFL (atual DEM) elegeu 105 representantes.
Pandemia e falta de artistas: por que protestos pelo impeachment têm baixa adesão?
Sérgio Roxo / O GLOBO
SÃO PAULO — Políticos de esquerda e especialistas ainda tentam encontrar razões para a adesão abaixo do esperado ao protesto do último dia 2. Embora 56% da população defenda o impeachment do presidente Jair Bolsonaro, segundo o Datafolha, as ruas não ficaram cheias. Pandemia, falta de mobilização “fora da bolha”, ausência de artistas e até uma espécie de “trauma” por causa das manifestações que levaram a afastamentos anteriores de presidentes são citados como motivos por políticos e acadêmicos ouvidos pelo GLOBO.
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Pablo Ortellado, professor de gestão de Políticas Públicas na USP, coordenou pesquisas com participantes da manifestação do dia 2 na Avenida Paulista convocada pela esquerda e do ato de 12 de setembro organizado no mesmo local pelos movimentos de direita MBL e Vem Pra Rua. Ele acredita que os ressentimentos do processo de impeachment de Dilma Rousseff e a dinâmica eleitoral de 2022 estão impedindo que os protestos ganhem amplitude.
— Nessas duas manifestações, os organizadores tentaram dar um caráter amplo, mas as nossas pesquisas mostraram que as pessoas que estavam ali não engolem uma frente ampla. A polarização que se instalou no país nos últimos anos está funcionando como um bloqueio e está impactando na mobilização.
Ortellado também ressalta que mobilização de rua é “uma coisa enigmática”.
— Mobilização de rua e opinião pública são coisas diferentes. É possível ter uma posição que é majoritária na sociedade, mas que não gera mobilização — diz o professor da USP ao explicar a diferença entre o apoio majoritário ao impeachment e a presença tímida na manifestação.
Presidente do PDT, Carlos Lupi acredita que uma parte da população, principalmente os “simpatizantes do campo popular”, ainda tem receio de ir às ruas por causa da pandemia do novo coronavírus. O dirigente, que esteve nos atos do Rio e de São Paulo no dia 2, também vê um trauma da população com os impeachments de Fernando Collor em 1992 e de Dilma em 2016 porque os problemas brasileiros não foram solucionados após esses processos.
Caráter mais amplo
O presidente do partido de Ciro Gomes acredita, porém, que a situação pode mudar conforme a situação econômica se agrava.
— Temos descontrole da inflação, com preços de produtos essenciais em alta, crise hídrica. Isso tende a se agravar e pode causar uma explosão.
Lupi lembra ainda que no passado artistas foram fundamentais para as grandes mobilizações.
— O que atrai o povão é artista. A campanha das Diretas tinha Fafá de Belém, tinha Gil, Caetano, Chico.
A participação de artistas é um das inovações que está sendo discutida para a próxima manifestação, marcada para 15 de novembro. A ideia é que esse ato tenha um caráter mais amplo desde a organização e não fique vinculado à esquerda.
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Sábado na Paulista, houve dezenas de discursos de várias lideranças, muitas delas desconhecidas. Esse formato é alvo de críticas, por ser considerado pouco agregador. A participação do PCO, partido radical de extrema-esquerda, também foi questionada. Militantes da legenda não seguiram o pacto definido de evitar defesa de candidaturas e de não atacar os demais participantes.
— Só estaremos presentes em uma construção que agregue apenas os que têm compromisso com a frente ampla — afirma Fernando Guimarães, coordenador do Direitos Já, movimento de defesa à democracia que une políticos da centro-esquerda à centro-direita.
As manifestações do último sábado tiveram uma adesão menor do que os atos de apoio a Bolsonaro no dia 7 de setembro, apesar de as pesquisas apontarem uma queda de popularidade do presidente ao longo do ano. Para a cientista política Esther Solano, professora da Unifesp, que faz pesquisas com apoiadores de Bolsonaro desde 2017, não há uma contradição entre esses dois fenômenos:
— São dois movimentos que acontecem em paralelo. Ao mesmo tempo em que Bolsonaro joga o seu jogo com a base mais fiel e a mobiliza, ele vai perdendo a sua base mais moderada, que, como mostram as pesquisas, fica incomodada com o discurso mais agressivo. Não é incoerente o fato de estar perdendo seguidores e ter ocorrido uma grande manifestação em setembro.
Várias ambições na falta de uma estratégia
06 de outubro de 2021 | 03h00
Estamos numa democracia representativa, e o cidadão é o único portador da soberania do Estado. Melhor dizendo: ainda estamos numa democracia e o Estado de Direito funciona, mas a insegurança jurídica é a única certeza. As instituições operam de maneira disfuncional. Os privilégios e as desigualdades crescem ou se consolidam. E a autoridade do cidadão sobre seus representantes sofre a ameaça de uma reforma eleitoral que esvazia, ainda mais, o papel do eleitor. Como se não bastasse, um golpe de Estado está em andamento desde 2019, ante a omissão dos Poderes da República.
Além dos desafios sanitários, econômicos e sociais que ameaçam nossa sobrevivência como nação livre, enfrentar a ameaça golpista é a condição necessária para enfrentar as demais. Encarar tal ameaça exige definir um objetivo, isto é, enfrentar, contornar ou adaptar-se a ela. Exige, também, mobilizar recursos para atingir esse objetivo inescapável: recursos de poder, econômicos, institucionais, políticos, de capacidade de gestão pública, de liderança, etc. Ou seja, confrontar-se com uma ameaça letal implica responder a esses elementos básicos de uma estratégia.
Falta um movimento decidido das instituições e de suas lideranças para cumprir tais requisitos. Em primeiro lugar, não há convergência, nem muito menos consenso, sobre a ameaça letal à Nação provocada pelo golpe em andamento.
Para alguns, o que deve ser combatido, acima de tudo, é a ameaça de perder as eleições, como é o caso de Lula, do PT, e de parte dos partidos de esquerda – e também de Ciro Gomes e João Doria, embora não necessariamente de seus respectivos partidos. A prioridade máxima do objetivo eleitoral obriga esses candidatos a adotarem uma estratégia ambivalente em face da ameaça de golpe. Para todos eles, é vital garantir Bolsonaro nas urnas e, para isso, é preciso mantê-lo no poder.
Para Bolsonaro, perder a reeleição, sofrer impeachment, ter sua eleição anulada, perder a guerra da pandemia, descumprir sua promessa de deixar um legado de pai dos pobres e desproteger sua família de denúncias criminais são obstáculos secundários. E decorrem da ameaça imaginária de usurpação definitiva de um alucinatório poder absoluto, que lhe teria sido conferido pela divindade que o fez “mito”.
Tal multiplicidade de alvos o força a empregar uma metralhadora giratória, provocando baixas em sua própria retaguarda. O caráter fragmentado de seus objetivos o impede de manter o foco na eliminação dos usurpadores de seu direito ao poder absoluto, o que demandaria alguma forma de golpe de Estado.
Como podemos observar, a cantilena da inevitabilidade de uma polarização radicalizada entre Lula e Bolsonaro nada é senão uma narrativa tendenciosa de ambos para desmoralizar a inclinação majoritária da opinião pública para a moderação, desacreditando os candidatos, os partidos e as políticas sociais e econômicas que precisam ser debatidos na campanha, para serem adotados num próximo governo.
Alternativas, como Arthur Lira e seus seguidores, não faltam. Para estes, as principais ameaças são o impeachment do atual presidente e sua sucessão por Mourão, o que eliminaria a possibilidade de este setor do Centrão controlar, simultaneamente, o Executivo e o Congresso. Para outros setores do Centrão, que parecem aproximar-se do vice-presidente, a ameaça vital seria o oposto, isto é, a cassação da chapa Bolsonaro/Mourão pelo Tribunal Superior Eleitoral, que os tiraria do jogo.
Por falta de uma estratégia de poder que o unifique, o Centrão confirma o que venho observando neste mesmo espaço: que este grupo de pressão opera como uma minoria de veto, capaz de unir-se para derrotar governo ou oposição, mas incapaz de convergir sobre agendas positivas. Essa fragmentação é útil para uma minoria de veto. Mas inviabiliza o governo de franquia – hoje exercido pela dupla Ciro/Lira – e também eventuais ambições presidenciais. O descolamento do PSD de Kassab e a possível criação de um grande partido de direita, resultante da fusão entre o DEM e o PSL, reforçam os obstáculos para a adoção de uma estratégia comum para o Centrão.
Um grupo de quatro possíveis candidatos – que chamarei de políticos novos, porque se empenham numa via independente, não são velhas raposas, não se deixam acorrentar ao passado, não são aventureiros nem extremistas – tem um alvo comum, que é enfrentar a ameaça representada hoje pela tentativa de golpe ainda em andamento. No comício do dia 12 de setembro, todos – Simone Tebet, Alessandro Vieira, Eduardo Leite e Luiz Henrique Mandetta – convergiram sobre a inevitabilidade do impedimento do atual presidente, que é o primeiro passo para adotar uma estratégia comum, pois é indispensável para garantir uma eleição livre em 2022.
Sobre esses “políticos novos” recai hoje a responsabilidade de negociar a mobilização dos recursos econômicos, institucionais, políticos, de capacidade de gestão pública e de liderança, necessários para garantir a presença e a competitividade de candidatos da terceira via.
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PROFESSOR TITULAR DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP


