A requalificação da construção - o estado de sp
07 de dezembro de 2019 | 03h00
Segundo o Tribunal de Contas da União, no Brasil há mais de 14 mil obras paralisadas, totalizando R$ 144 bilhões em recursos. Além de problemas crônicos, como vícios de contratação e de planejamento, essas paralisações se devem à crise econômica e fiscal. Mais de 75% dessas obras foram iniciadas após 2013 e a frequência de paralisações se intensificou a partir de 2014. Entre 2012 e 2018, os investimentos em construção caíram de 12,7% do PIB para 7,9%. Para sanar esse déficit em obras de desenvolvimento urbano, infraestrutura e outras, será necessário investir na próxima década 9,3% do PIB projetado para o período. A estimativa consta do estudo Obras paradas da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Não seria um esforço inédito nem díspar em relação aos padrões internacionais. Na década de 1970, o Brasil investiu 12,4% do PIB em obras e instalações e na década de 80, 14,8%. Em 2017, a média da OCDE foi de 10,1%, e em países em condições similares, como Chile ou México, foi, respectivamente, de 12,7% e de 12,2%.
Só na área de infraestrutura, segundo o estudo, o Brasil precisará elevar em 57,8% seus investimentos anuais em obras. Entre 2007 e 2018, a média foi de R$ 79,5 bilhões ao ano. Ela precisaria subir para R$ 125,4 bilhões. A estimativa leva em conta quatro setores. No mais deficitário, o de transporte, a média de investimentos desde 2007 foi de R$ 52 bilhões, e precisaria ser elevada para R$ 76,4 bilhões. Em energia elétrica, a média de R$ 16,1 bilhões precisaria chegar a R$ 21,8 bilhões. Já a média de petróleo e gás deveria subir de R$ 13,8 bilhões para quase R$ 20 bilhões. Finalmente, o setor de telecomunicações, que investiu em média R$ 6 bilhões por ano, precisaria investir R$ 8,2 bilhões.
Além da melhoria do cenário macroeconômico e da atuação do governo na formulação de bons projetos e avanços regulatórios, o primeiro passo para retomar o ciclo de obras da construção e elevar a competitividade do País é sanar as deficiências estruturais que têm levado à paralisação de tantas obras. Para tanto, o estudo faz um diagnóstico e, com base nele, prescreve algumas propostas saneadoras.
Em primeiro lugar, os governos federal e estaduais deveriam estabelecer forças-tarefa para analisar a situação das paralisações, buscando estabelecer a viabilidade de retomar as obras paradas e as prioridades nestas retomadas.
Um levantamento do Ministério da Economia identifica duas razões principais para as paralisações: vícios de contratação (responsáveis por 42% das paralisações) e falta de recursos financeiros (26%).
Em relação ao primeiro fator, o estudo recomenda adotar com maior amplitude procedimentos de pré-qualificação dos candidatos nas licitações, investir mais em estudos prévios e adotar seguros de obras mais robustos. Além disso, é necessário exigir das empresas licitadas projetos mais detalhados, com a respectiva Anotação de Responsabilidade Técnica dos profissionais que executam e realizam a revisão do orçamento, comparando informações de projeto, memoriais, orçamento e cronogramas físico e financeiro.
Em relação aos recursos financeiros é preciso, entre outras coisas: estabelecer projetos prioritários, não sujeitos ao contingenciamento de recursos públicos; aperfeiçoar o orçamento impositivo em desenvolvimento urbano e infraestrutura; melhorar procedimentos alternativos de solução de conflitos em contratos públicos; e definir procedimentos mais claros para pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro. O estudo traz ainda propostas em outras áreas críticas, como fiscalização e controle (responsável por 9% das paralisações), burocracia (2%) e licenciamento ambiental (1,5%).
A cadeia produtiva da construção civil chegou a empregar 12,2 milhões de pessoas em 2014. De lá para cá, foram encerrados 2 milhões de postos de trabalho. À medida que a economia dá sinais de recuperação e as reformas de Estado avançam, é essencial corrigir esses vícios de origem para que as oportunidades que despontam no horizonte não voltem a ser desperdiçadas.
Esquerda desunida - ISTOÉ
O PSB e o PDT, que apoiaram os governos petistas, cansaram de ser coadjuvantes de Lula. Reunidos no Rio, dirigentes do PSB deixaram claro que desejam se descolar do PT. Acham que o ex-presidente saiu mais radical da cadeia e que o discurso dele não se coaduna com o papel de líder de toda a oposição. Por isso, querem consolidar o partido como alternativa ao petismo. Acham que o partido nega-se a fazer uma autocrítica por governos que levaram o País para o buraco, apesar de eles terem ajudado, participando dos governos petistas. “Os governos de esquerda não foram capazes de taxar os lucros e dividendos dos banqueiros”, disse Carlos Siqueira, presidente nacional do PSB, durante o encontro realizado na semana passada. O PSB quer encontrar seu próprio caminho.
Cansou
No encontro, outros dirigentes do PSB desancaram os petistas, como o vice-presidente nacional, Beto Albuquerque. “Não somos nem Lula livre, nem Lula preso. Nossa luta é pela democracia e contra a brutal desigualdade.” Lula já cansou até o moderado governador do Espírito Santo, Renato Casagrande. “Não dá para o PT querer sempre ter a hegemonia.”
Farsa
Mas isso é ameno perto do que o ex-ministro de Lula, Ciro Gomes, do PDT, disse do ex-presidente: “Lula não aprendeu rigorosamente nada nos 580 dias de prisão”. E continuou: “Ele insiste na farsa de candidatura e tenta enganar o povo”. E mais: “Lula não saiu da cadeia inocente e nem foi inocentado pelos tribunais”. Acabou de vez a aliança da esquerda.
Em 30 anos, Brasil mais que dobra o número de funcionários públicos
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou nesta sexta-feira (6) o resultado de um estudo que analisou dados dos últimos 30 anos, e a conclusão é que o número de funcionários públicos no Brasil mais que dobrou.
O cidadão, que paga impostos, quer serviços públicos de qualidade. Mas reclamações vão de Norte a Sul do país. No Rio, a falta de segurança tira o sono do carioca. Em Picos, no Piauí, faltam vagas na única emergência da cidade.
Entre o cidadão e o funcionário que presta o serviço estão os administradores: municípios, estados e governo federal que, juntos, têm 11,4 milhões de postos de trabalho.
Nas últimas três décadas, o funcionalismo público no país mais do que dobrou. O setor privado cresceu menos. Só em 2017 foram gastos quase R$ 751 bilhões com funcionalismo público.
Como estão distribuídos esses servidores e onde houve o maior aumento? A resposta chama a atenção. Apenas um em cada grupo de dez funcionários está na esfera federal. O crescimento está concentrado nos municípios, que têm seis entre dez servidores públicos do país.
Em 1986, as prefeituras tinham 1,7 milhão de servidores. Em 2017, 6,5 milhões, um aumento de 276%.
“Esse é um mandamento constitucional, por exemplo, universalizar acesso à saúde, acesso à educação, uma série de políticas de assistência social, criação de novas políticas como políticas ambientais”, disse Felix Lopes, pesquisador do Ipea.
O salário médio no setor público é de R$ 4.200. Houve crescimento real de 23% em três décadas. No setor privado, esse valor até caiu um pouco, de R$ 2.500 para R$ 2.400.
No Executivo estão as remunerações mais baixas; no Legislativo, elas já dão um salto; e, no topo, estão os salários do Judiciário.
O levantamento do Ipea pesquisou as remunerações até o teto constitucional, R$ 35 mil. Os extras e gratificações que formam os supersalários não entraram.
“Eu acho que a gente precisa fazer avaliação e melhorar a qualidade do gasto público para avaliar a necessidade de reduzir ou não a quantidade de pessoal. A gente precisa gastar melhor, a gente precisa melhorar a eficiência e a qualidade desse gasto público”, afirmou a pesquisadora da FGV Ibre Vilma da Conceição Pinto. O GLOBO
Faltou líder que dissesse: ‘Gente, pode pegar mal!’... JOSIAS DE SOUZA
Para chegar a esse valor, os congressistas passaram na lâmina fatias de orçamentos de vários ministérios. Coisa de R$ 1,7 bilhão. Uma parte foi retirada da Saúde (R$ 500 milhões). Outro naco foi subtraído de projetos de infraestrutura em áreas como habitação popular e saneamento básico (R$ 380 milhões). Suprimiu-se dinheiro até da educação (R$ 280 milhões).
Repetindo: retirou-se verba de áreas como saúde, habitação, saneamento e educação para engordar o bolo de dinheiro público a ser torrado na campanha municipal do ano que vem. Experimente colocar essa transferência de verba social para a caixa eleitoral nas suas circunstâncias. Pense na reunião em que os líderes partidários optaram pelo escárnio. Não ocorreu a ninguém dizer 'quem sabe na educação e na saúde a gente não mexe!'. Nenhuma voz se levantou para ponderar: 'Gente, cortar no saneamento pode pegar mal."
Treze partidos avalizaram a elevação da tunga. Anote aí: PP, MDB, PTB, PT, PSL, PL, PSD, PSB, Republicanos, PSDB, PDT, DEM e Solidariedade. Apenas quatro legendas se posicionaram contra: Podemos, Novo, Cidadania e PSOL. Se tudo correr como planejado, você paga a conta mais salgada e eles decidem que candidatos receberão a verba. Eles quem? Ora, os de sempre: Lulas e Valdemares, Jerffersons e outros azares.
Celebrava-se no início do ano, a posse do Congresso mais renovado das últimas três décadas. Chega-se no final do ano à conclusão de que o Parlamento novo era pão dormido.
Justiça reconhece vínculo trabalhista entre Loggi e motofretistas

A Justiça do Trabalho de São Paulo reconheceu em primeira instância a existência de vínculo empregatício entre a Loggi – aplicativo de delivery – e os entregadores cadastrados na plataforma. Além do reconhecimento de vínculo, a sentença da 8ª vara do trabalho, divulgada nesta sexta-feira, 6, afirma que a empresa precisa também regularizar normas de saúde e segurança bem como o controle de jornada dos motofretistas cadastrados na plataforma. Cabe recurso.
Segundo o Ministério Público do Trabalho, que moveu a ação civil pública, a decisão abrange todo o país e beneficia cerca de 15 mil entregadores cadastrados no aplicativo. Além do registro, a empresa terá que pagar indenização de 30 milhões de reais devido as irregularidades. O dinheiro da multa deverá ser destinada a instituições beneficentes.
Na sentença, a juíza do Trabalho Lávia Lacerda Menendez afirma que a Loggi promove concorrência desleal visto que a ausência de relação de emprego exime a empresa de pagar impostos e encargos trabalhistas, o que a coloca em vantagem econômica em relação a outras empresas do segmento. “A lei preserva a livre concorrência, mas não a concorrência desleal, como se sabe. Também não se avilta o direito à propriedade, na medida em que toda propriedade privada deve atender à sua função social”, afirma a juíza em sentença.
A decisão determina que a Loggi efetue o registro em sistema eletrônico de todos os condutores profissionais cadastrados em seu sistema que tiveram atividade nos últimos dois meses. O prazo é de até três meses. Procurada sobre a decisão, a empresa não respondeu até a publicação da reportagem.
Com jeito vai - DORA KRAMER - VEJA
Vou logo avisando que vai parecer exagero, mas peço licença para argumentar em favor da forte impressão de que há semelhanças entre o ambiente que levou à aprovação da Lei da Ficha Limpa, há nove anos, e a atmosfera que se forma agora em torno das propostas de autorização de prisão dos condenados em segundo grau de Justiça, seja em lei ordinária, como se quer no Senado, seja na Constituição, conforme sugestão originária da Câmara.
A voz, ou melhor, a grita corrente, denuncia como manobra protelatória o acordo ainda não escrito entre os presidentes da Câmara e do Senado em prol da concentração de esforços na proposta de emenda constitucional cujo teor, em miúdos, dá à segunda instância o caráter de trânsito em julgado, podendo o réu recorrer de aspectos formais do processo, mas já sem direito pleno à liberdade dado o esgotamento do exame das razões de autoria e materialidade do crime.
O deputado Rodrigo Maia e o senador Davi Alcolumbre estariam, por essa versão, mancomunados com a ala dita garantista do Supremo Tribunal Federal para fazer a proposta morrer de inanição. Isso porque a ideia defendida por senadores de alterar a legislação ordinária mediante mudanças no Código de Processo Penal seria mais fácil e rapidamente aprovada. Uma emenda constitucional precisa ser votada em dois turnos nas duas Casas e ainda contar com quórum qualificado de 308 deputados e 49 senadores para ser aprovada.
Ocorre que o mais fácil e rápido não necessariamente é o mais seguro. Um projeto de lei aprovado a toque de caixa poderia de novo esbarrar na cláusula pétrea sobre a presunção de inocência e ser derrubado no STF. Não poderia acontecer o mesmo com a emenda constitucional? Poderia, mas, a depender do encaminhamento da coisa, fica mais difícil.
A começar pela consistência de um procedimento resultante de entendimento entre Câmara e Senado. Por mais que admitamos a hipótese de os presidentes das Casas não morrerem de amores pelo assunto, como de resto deixaram bem claro quando o presidente do Supremo jogou a bola para o Congresso, há o peso do conjunto de deputados e senadores, cujos humores são tocados pela opinião pública em casos rumorosos como esse.
E, aqui, chegamos ao ponto inicial da nossa conversa sobre as semelhanças entre o ambiente que levou à aprovação da Lei da Ficha Limpa e a atmosfera em torno da prisão depois do julgamento em segunda instância. Vejam o senhor e a senhora que Maia e Alcolumbre não puderam deixar o assunto de lado. Foram obrigados a tocar o barco. Da mesma forma como os grandes partidos (PT, MDB e PSDB) da época, em 2009 eles se viram forçados a abandonar a proposital indiferença à Ficha Limpa.
A proposta de iniciativa popular com mais de 1,6 milhão de assinaturas (o triplo do exigido para a criação de partidos) simplesmente dormia em comissão na Câmara sob a vista grossa de suas excelências de governo e oposição. A maioria não queria saber do assunto, e tudo sugeria que não iria adiante até que entrou em cena a opinião do público, incensada por uma ampla campanha de entidades civis, já sob o clima do escândalo do mensalão, cuja denúncia da Procuradoria-Geral da República havia sido aceita em 2007 pelo Supremo (o julgamento seria concluído cinco anos depois).
Diante da pressão e com eleições marcadas para o ano seguinte, os parlamentares não tiveram escolha a não ser aderir e aprovar a inelegibilidade de candidatos condenados em segunda instância. Em maio de 2010 a lei foi aprovada na Câmara e no Senado. Tramitação rápida, mas muito mais simples do que a discutida agora por se tratar de questão eleitoral. No entanto, os principais pontos de semelhança — pressão popular, crescente apoio no Congresso e proximidade de eleições — sustentam a impressão de que a autorização de prisão depois da segunda instância é um rio que corre para o mar, não tem volta.
Isso, bem entendido, se houver mobilização da sociedade, debate aprofundado em audiências públicas no Parlamento, boa costura política e consistente fundamento jurídico, a fim de que não se agrida a cláusula pétrea da presunção de inocência e todo o esforço desande sob o crivo do STF, que obviamente será chamado a dar a última palavra quando, e se, a proposta passar no Congresso.
A pressa, nesse caso, pode funcionar como nefasta amiga da imperfeição. Também não seria aceitável a morosidade excessiva, típica das intenções protelatórias, porque o clamor está posto e não deixa margem a dúvida. Cabe às instituições encontrar o melhor jeito de adequar a demanda aos rigores da legalidade.
Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA
Publicado em VEJA de 11 de dezembro de 2019, edição nº 2664

