Empresa suspeita de desviar verba de merenda escolar no CE movimentou mais de R$ 19 milhões
Conforme documentos obtidos pelo Diário do Nordeste, a PF apurou que Antônio Oliveira Filho e Wallis Bernardo do Carmo realizaram o saque de R$ 400 mil, com cheques, na agência do Banco do Brasil de Iguatu, a mando do empresário Diego Marcondes Cartaxo Tavares, proprietário da DLA Comercial de Alimentos EIRELI.
Os dois homens presos negaram, em depoimento, qualquer ato ilícito. A defesa deles não foi localizada. (Leia abaixo o relato completo)
[Atualização: 06/01/2026, às 10h30] Após a publicação da reportagem, a defesa de Diego Marcondes Cartaxo Tavares e da empresa DLA Comercial de Alimentos, representada pelos advogados Artur Feitosa Arrais Martins e Iolanda Medeiros, entrou em contato com a reportagem e emitiu nota em que garantiu que os clientes não têm relação com o saque de R$ 400 mil.
"A DLA trata-se de empresa idônea, atuante em diversos estados brasileiros, com mais de 70 colaboradores e múltiplas unidades empresariais, cumpridora de suas obrigações legais, fiscais e contratuais, inexistindo sanção civil, administrativa ou criminal que macule sua atuação. Eventuais questionamentos sobre movimentações bancárias serão devidamente esclarecidos no curso da investigação, com a apresentação dos documentos e justificativas pertinentes", sustentou a defesa. (Leia a nota na íntegra abaixo)
Antônio e Wallis foram detidos em flagrante e indiciados pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro. A dupla era escoltada por um policial militar, identificado apenas como 'Bebeto', - que não foi preso - no momento da abordagem da PF.
No dia seguinte à prisão, a dupla foi solta pela Justiça Federal no Ceará, em audiência de custódia, mediante o pagamento de fiança de um total de R$ 60 mil (sendo R$ 50 mil pagos por Wallis e R$ 10 mil pelo comparsa). Eles vão responder ao crime em liberdade.
Segundo um despacho da PF, "denotam-se indícios de que Diego Marcondes Cartaxo Tavares tem se utilizado de pessoas jurídicas e pessoas físicas interpostas para a realização dos referidos saques em espécie, havendo indícios de que os investigados Wallis Bernardo do Carmo e Antônio Oliveira Filho estariam, de fato, realizando condutas para a lavagem de dinheiro do suposto grupo criminoso relacionado no município de Iguatu/CE".
Diego já era investigado por fraudes em licitações e desvios de recursos públicos federais do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), repassados ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
teriam sido sacados por 'laranjas' do grupo criminoso, segundo a Polícia Federal. Somente Antônio Filho teria realizado o saque de mais de R$ 3 milhões.
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Como funcionava o suposto esquema criminoso
A investigação da Polícia Federal aponta que o suposto grupo criminoso realizava a lavagem de dinheiro com uso de cheques e participação de 'laranjas'.
No despacho, a PF resumiu que "a empresa DLA Comercial de Alimentos EIRELI possuía intenso fluxo de saques em espécie, indicando-se ainda que os envolvidos realizavam alternância entre quem provisionava os valores e quem efetivamente sacava".
O objetivo do grupo seria "não somente a lavagem do dinheiro relacionado, mas também para que não houvesse a identificação e prisão dos envolvidos com altos valores em espécie".
Outra técnica utilizada pelo grupo, segundo a PF, era "a utilização de pessoas jurídicas como contas de passagem ou controladas pelos investigados para obtenção de contratos licitatórios".
comunicações sobre operações suspeitas, envolvendo a empresa DLA Comercial de Alimentos e quatro possíveis 'laranjas', entre 30 de novembro de 2018 e 20 de janeiro de 2025, foram informadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) à Polícia Federal.
Destas operações, destacaram-se 16 saques com valores entre R$ 99 mil e R$ 199 mil.
O Núcleo de Análise e Informação da Delegacia de Polícia Federal em Juazeiro do Norte analisou, sobre a empresa DLA Comercial de Alimentos, que "o valor total sacado se aproxima ou até mesmo supera 50% do faturamento estimado, o que é um indicativo crítico de alta liquidez em espécie".
Conforme a análise, "a discrepância entre faturamento estimado e saques reforça a hipótese de movimentações incompatíveis com práticas comerciais usuais, podendo indicar risco de lavagem de dinheiro ou ocultação de recursos".
Pode-se concluir que empresa DLA Comercial não aparenta possuir capacidade econômico-financeira para movimentar tal volume de recursos, por isso suspeita-se de movimentação de recursos de terceiros, através das contas bancárias da referida empresa, para fins de sonegação fiscal, além de possível desvio de verbas públicas, dados os saques com claros indícios de burla, sem justificativa aparente."
O que disseram os investigados
Em depoimento à PF, Antônio Oliveira Filho confirmou que fazia pagamentos e saques para Diego Marcondes, há cerca de 3 anos, mas não tem Carteira de Trabalho assinada.
Já Wallis Bernardo do Carmo alegou que o valor de R$ 400 mil sacados eram da empresa dele, a Comercial de Alimentos WB, referente a contratos públicos. O valor seria para pagar funcionários e outras despesas.
Ao pedir a soltura de Antônio Filho e Wallis do Carmo à Justiça Federal, a defesa reforçou que "o que se verificou na data de ontem foi um ato administrativo e financeiro perfeitamente lícito: o saque de valores de uma conta titularizada pela empresa Comercial de Alimentos WB Ltda., da qual Wallis é o único sócio, para fins de pagamento de fornecedores de carne e gêneros alimentícios no interior do estado".
"A presença de Antônio Oliveira Filho justificava-se por um simples auxílio de segurança e carona, uma vez que a região de Iguatu tem sido palco de diversos assaltos a estabelecimentos bancários, motivando a cautela dos investigados em se fazerem acompanhar por terceiros e até por segurança informal", completou a defesa.
Sobre os dados repassados pelo Coaf à PF, a defesa acrescentou que o relatório "não possui valor probatório de materialidade delitiva apto a sustentar, de forma isolada, uma prisão cautelar ou a ratificação de um flagrante. A inteligência financeira lida com probabilidades e atipicidades estatísticas, enquanto o direito penal exige certezas e provas concretas de conduta criminosa".
A defesa de Diego Marcondes Cartaxo Tavares e da empresa DLA Comercial de Alimentos, representada pelos advogados Artur Feitosa Arrais Martins e Iolanda Medeiros, enviou a seguinte nota:
"A defesa técnica esclarece que o Auto de Prisão em Flagrante lavrado em 30/12/2025 não teve como autuados o Sr. Diego Marcondes Cartaxo Tavares nem a empresa DLA Comercial de Alimentos EIRELI. Os autuados foram Wallis Bernardo do Carmo e Antônio Oliveira Filho, em ocorrência relacionada a saque da em presa Comercial A WB LTDA.
Conforme registrado no próprio procedimento, o comprovante do saque foi apresentado em nome de empresa diversa (Comercial A WB LTDA), cujo sócio administrador é o Sr. Wallis, evidenciando tratar-se de pessoas e empresas distintas e independentes, sem relação entre s i. Qualquer associação automática entre tais agentes e a DLA, portanto, é indevida e induz a pré-julgamento, o que deve ser evitado em respeito ao devido processo legal e à presunção de inocência.
A DLA trata-se de empresa idônea, atuante em diversos estados brasileiros, com mais de 70 colaboradores e múltiplas unidades empresariais, cumpridora de suas obrigações legais, fiscais e contratuais, inexistindo sanção civil, administrativa ou criminal que macule sua atuação. Eventuais questionamentos sobre movimentações bancárias serão devidamente esclarecidos no curso da investigação, com a apresentação dos documentos e justificativas pertinentes.
Por fim, informa-se que a defesa técnica já requereu o devido acesso aos autos e permanece inteiramente à disposição da Autoridade Policial, com o objetivo de colaborar e esclarecer os fatos, com a segurança de que, ao final, equívocos interpretativos serão esclarecidos e a inocência será confirmada."
Crescimento fabricado
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A injeção de R$ 114 bilhões na economia por meio de incentivos públicos corresponderá, pelo menos, à metade da taxa média de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) projetada para 2026 por um grupo de seis instituições financeiras, informa reportagem publicada pelo Estadão/Broadcast. São estímulos vindos principalmente de programas do governo federal, mas também de Estados e municípios. Em ano eleitoral, esses aportes devem fabricar uma sensação de aquecimento econômico, mesmo com os juros nas alturas. O custo da ilusão, porém, será cobrado do próximo governo.
Impulsionado por benesses como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, o PIB deve crescer 1,7% neste ano, segundo a média dos cálculos de Bradesco, Santander, Itaú Unibanco, BTG Pactual, XP Investimentos e Monte Bravo, sendo 0,9% decorrente de estímulos governamentais. Ou seja, o dinheiro público que bancará a distribuição de botijões de gás, descontos e gratuidades em contas de luz, reformas de casas, crédito imobiliário e ampliação do Minha Casa, Minha Vida, entre outros, deve forjar o resultado econômico ilusório pretendido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no ano em que tentará a reeleição.
Mas, como dinheiro não dá em árvore, a conta chegará – e talvez antes do que se imagina, dado o cada vez mais tumultuado cenário internacional, que tende a mexer com a economia no mundo todo. Crescimento econômico baseado em estímulos governamentais, com aumento de gastos públicos e redução de impostos, fórmula que o governo federal adota sem moderação, traz riscos amplamente conhecidos, sendo os principais o aumento da inflação, dos juros e o desequilíbrio fiscal.
Os estímulos são ferramentas úteis para lidar com crises econômicas, em tempos de recessão, para reduzir os prejuízos causados por fenômenos naturais, como enchentes ou secas severas, ou para enfrentar emergências sanitárias, como a pandemia de covid-19. O uso em excesso de subvenções ou o prolongamento desnecessário de medidas de incentivo é uma armadilha para o futuro. Uma bomba de efeito retardado que o próximo presidente da República terá muita dificuldade para desarmar a partir de 2027.
Há muitos meses, o Banco Central (BC) tem alertado para o perigo de a economia estar operando acima de sua capacidade de produção, um dos principais motivos que elevaram a taxa de juros a exorbitantes 15% ao ano. É um modelo econômico que dissemina a alta de preços por uma lógica básica: há mais dinheiro circulando para uma quantidade de bens e serviços que não aumentou. Para tentar controlar a inflação, o BC apela aos juros altos, o que encarece o crédito, afasta o investimento privado, aumenta o endividamento das famílias e desestabiliza a economia a médio e longo prazos.
Para financiar os estímulos, o governo federal eleva tributos e aumenta seu próprio endividamento, o que, com os juros já nas alturas, ameaça a sustentabilidade fiscal e acende o alerta da inadimplência. É uma aposta de risco, com roteiro para lá de conhecido. Esse quadro deu origem, por exemplo, à grave crise econômica de 2014 a 2016, no governo de Dilma Rousseff.
Neste ano, o risco torna-se ainda maior diante das estimativas de queda da produtividade do setor agrícola, que sustentou a economia brasileira no ano passado. A estimativa da Fundação Getulio Vargas é de que, depois do avanço de dois dígitos em 2025 (10,6%), o agro cresça somente 0,4% neste ano. A projeção é corroborada por bancos e entidades do setor, em razão de questões climáticas.
Ao freio do agro, juntam-se os estímulos mal direcionados que o governo Lula cria com subsídios permanentes – que não raro sustentam setores ineficientes. O quadro de instabilidade está posto, mantendo baixa a produtividade da economia brasileira e aumentando a dependência doméstica de fatores externos. Em meio à expansão de conflitos internacionais, acentuada pela recente ação dos Estados Unidos na Venezuela, com a captura do ditador Nicolás Maduro, afigura-se no horizonte próximo um cenário tenebroso.
Campanha eleitoral não terá como evitar tratar de crise fiscal
Por Editorial / O GLOBO
Ao longo de três anos de seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva só demonstrou preocupação com a questão fiscal no plano da retórica. E, mesmo assim, incontáveis vezes defendeu aumento de gastos, como se as despesas, mesmo em setores prioritários como educação, saúde ou segurança, não exigissem lastro na realidade orçamentária. O novo arcabouço fiscal implementado pelo ministro Fernando Haddad se revelou uma quimera, tantas foram as exceções abertas às regras. A preocupação é ainda maior neste ano eleitoral. Lula mais uma vez concorrerá ao Palácio do Planalto e, diante dos previsíveis gastos eleitoreiros, tudo indica que o quadro fiscal tende a piorar.
A escalada da dívida pública se tornou o indicador mais confiável e relevante, uma vez que as metas do arcabouço têm sido burladas com frequência. A trajetória do endividamento desenha um cenário dramático. Um olhar sobre a evolução da dívida bruta do governo geral (DBGG) em relação ao PIB não deixa dúvidas sobre o agravamento da situação. Nos governos de Dilma Rousseff, ela cresceu de 51,8% para 67,6%; na gestão Michel Temer, subiu a 75,3%; durante a administração Jair Bolsonaro, recuou para 71,7%. Nos três primeiros anos do atual governo, já escalou para 79% e é provável que até o fim do ano atinja números ainda mais exorbitantes, acima de 80%. A crise fiscal se tornou, portanto, tema inevitável da próxima campanha eleitoral, já que se trata de questão crucial para o próximo ocupante do Planalto.
Há risco de que a deterioração galopante das contas públicas se agrave com a saída de Haddad em fevereiro, para se dedicar à campanha de Lula. Nestes três anos, ele não conteve o ímpeto gastador da gestão petista. O arcabouço fiscal foi sabotado pelo Executivo e pelo Legislativo. O próprio Lula se esmerou em desmontá-lo com seu desprezo pela contenção de gastos, criando uma profusão de programas eleitoreiros, varrendo despesas para debaixo das metas e tornando os déficits recorrentes, quando deveriam ser exceção. Mas Haddad ao menos representava um contraponto a líderes petistas que não desejam controle algum de despesas. Com sua saída, diminuirá a resistência à pressão por mais despesas no ano eleitoral.
O governo sempre resistiu a medidas estruturais necessárias para conter a escalada da dívida, como a desvinculação dos benefícios previdenciários do salário mínimo, a reforma administrativa com revisão das carreiras do setor público ou uma nova reforma da Previdência. A mágica para cobrir os rombos tem sido, até aqui, avançar sobre o bolso do contribuinte por meio do aumento de impostos. Como as despesas só fazem crescer, a sanha arrecadatória ultrapassou todos os limites do razoável, resultando em atritos com o Congresso e crises políticas. Doravante, não haverá mais espaço para aumento de impostos. Ninguém suporta mais.
Por isso o governo deveria tratar de conter a gastança enquanto é tempo. Quanto mais cedo promover um ajuste fiscal estrutural, menor será seu custo. Do contrário, Lula criará uma armadilha para si mesmo caso seja reeleito. Os números são claros ao demonstrar que 2027 será um ano difícil, com endividamento nas alturas e pouco espaço para investimentos. A história de Dilma Rousseff e o desastre de sua Nova Matriz Econômica já deveriam ter ensinado aos petistas o custo de desprezar o equilíbrio das contas públicas.
Benefício da ‘saidinha’ não deve se destinar a presos de alta periculosidade
Por Editorial / O GLOBO
A Visita Periódica ao Lar (VPL), ou liberação de presos em datas comemorativas, mais conhecida como “saidinha”, continua a oferecer riscos. Foi sancionada em 2024 uma nova lei endurecendo os critérios para o benefício, cujo objetivo é contribuir para a ressocialização dos presos. Entre outras medidas, impôs-se a exigência de exame criminológico, proibiu-se a saída de presos violentos e criou-se a possibilidade de uso de tornozeleira eletrônica. Apesar disso, ainda persistem dúvidas sobre a aplicação das normas, e continua alta a evasão.
No Rio, 1.868 presos foram autorizados a sair no Natal para visitar a família. Desses, 258 não voltaram, revelou reportagem do GLOBO. A proporção de 13,8% é alta. Se apenas um preso de alta periculosidade fosse agraciado, já representaria grave risco. Pois, dos 258 que não voltaram, 150 (58%) eram vinculados ao Comando Vermelho (CV). Dos 346 presos ligados ao CV beneficiados, 43% não voltaram. Tais indicadores mostram que há algo errado.
Apesar da nova lei, o Supremo Tribunal Federal (STF) ainda não decidiu se os presos que cumpriam pena antes dela continuam a ter direito ao benefício. Um Recurso Extraordinário a ser julgado pelo Supremo questiona o entendimento do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ-SC) segundo o qual a lei deve se restringir a condenados por crimes cometidos depois de sua entrada em vigor. O Ministério Público catarinense defende que a regra deve valer para todos. Com isso, criou-se um limbo judicial que beneficia bandidos.
Entre os presos que saíram e não voltaram no Rio estava Tiago Vinicius Vieira, o “Dourado”, condenado por chefiar assaltos e operar no tráfico de drogas e armas. Também não voltaram André Luiz de Almeida, o “Nestor do Tuiuti”; Marcello Aurélio Martinez, o “Bolado”, da Fallet; e Sérgio Luiz Rodrigues Ferreira, conhecido por “Salgueiro” ou “Problema”. São, respectivamente, chefes do tráfico nos morros do Tuiuti, na Zona Norte do Rio; do Fallet, em Santa Teresa; e na favela da Lagoa, em Magé, Baixada Fluminense. Presos assim costumam ter comportamento exemplar na cadeia. Mas isso não significa que sejam menos perigosos.
Questionada, a Secretaria de Administração Penitenciária diz seguir protocolos internos de que constam “relatórios técnicos de inteligência nos casos de presos classificados administrativamente como de alta ou altíssima periculosidade, devidamente compartilhados nos fluxos institucionais previstos”. De acordo com o secretário de Polícia Civil do Rio, Felipe Curi, a concessão do benefício é decisão exclusiva da Justiça. “Não podemos fazer nada, já que é um critério objetivo, legal, que permite essas aberrações, mesmo se tratando de presos faccionados, com histórico de não retornar”, afirma.
Ainda que a lei federal e a estadual tenham sido atualizadas com regras mais rígidas, prevalece na aplicação uma leniência inadequada a um país onde operam organizações criminosas de alcance internacional. É preciso acabar com as aberrações, para que o objetivo de ressocializar os detentos não ponha em risco a segurança da população.
Ao atacar o jornalismo para defender Moraes, a esquerda erra muito feio
Wilson Gomes
Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de “Transformações da Política na Era Digital”, “A Democracia no Mundo Digital” e “A Tirania da Virtude” / FOLHA DE SP
Sim, eu sei que esta semana deixamos de ser especialistas em jornalismo investigativo, conspirações da mídia e condutas inapropriadas de membros da Suprema Corte porque nos tornamos experts em direito internacional, democracia e geopolítica.
Mas gostaria de retomar aspectos de um debate ainda incompleto —e decisivo para o futuro da democracia brasileira— que gira em torno das denúncias publicadas por grandes jornais sobre condutas impróprias ou insuficientemente explicadas envolvendo ministros do STF e, sobretudo, do modo como a esquerda reagiu a elas: assumindo a defesa de Alexandre de Moraes por meio de ataques ao jornalismo e à reputação de uma jornalista em particular, Malu Gaspar.
O primeiro ponto que chama a atenção é o empilhamento de fatos. Não se trata de um episódio isolado, de uma frase mal interpretada ou de um indício frágil. São contratos, contatos telefônicos, relações profissionais sensíveis e omissões explicativas que, mesmo considerados separadamente, já exigiriam esclarecimentos públicos. Tomados em conjunto, formam um quadro que, no mínimo, merece escrutínio rigoroso. Afinal, até o negacionismo mais arbitrário tem nos fatos um limite incontornável, e, quando eles são muitos e se acumulam, é difícil fingir que não existem.
O segundo ponto é a pobreza estratégica da defesa. Toda a reação se concentrou numa única tática: afirmar que Malu Gaspar mentiu, que é "lavajatista" e que opera com uma agenda política oculta, supostamente a serviço do golpismo. Trata-se de uma investida moralmente duvidosa e intelectualmente frágil. Não há demonstração de falsidade, não há contestação factual consistente, apenas rótulos e suspeitas projetadas. Fora do círculo militante, isso não se sustenta.
Malu Gaspar entra nesse episódio com um patrimônio reputacional elevado, construído ao longo do tempo, sem histórico de partidarização ou militância disfarçada. Se alguém se dispuser a fazer a pergunta elementar —quem teria mais a ganhar mentindo: a jornalista, os juízes ou os banqueiros envolvidos?—, a aposta racional reafirmaria a credibilidade da jornalista. Atacar essa credibilidade sem prova não a enfraquece, apenas expõe quem a ataca.
Há ainda um efeito perverso aparentemente não levado em conta. Ao mobilizar uma defesa agressivamente partidária de Moraes, a esquerda faz um desserviço ao próprio ministro. Um juiz constitucional depende não apenas da legalidade de seus atos, mas também da aparência de imparcialidade. A adoção repentina e feroz de Moraes pela esquerda só reforça a impressão —ainda que mal-intencionada— de que ele seria um juiz parcial e antidireita. Ser defendido dessa forma é péssimo para a sua reputação institucional.
O problema se agrava quando se adota o assassinato de reputação de jornalistas como tática política legítima. No caso de Malu Gaspar, isso se expressou por um repertório bem conhecido: acusá-la de mentir sem demonstrar em quê; rotular sua apuração como "lavajatista" para dispensar o exame dos fatos; atribuir-lhe uma agenda política oculta, supostamente a serviço do golpismo; tratar o uso de fontes protegidas como prova de má-fé; e reinterpretar reportagens independentes como parte de uma conspiração coordenada da mídia. Não se rebate a informação —tenta-se interditar quem a produziu.
Esse método não é apenas feio, é autodestrutivo. Primeiro, porque iguala moralmente esquerda e extrema direita: o bolsonarismo faz exatamente o mesmo. Segundo, porque jornalistas, como qualquer outro campo profissional, tendem a reagir solidariamente a ataques injustos. O resultado previsível não será o silenciamento, mas mais investigação.
Além disso, foi exatamente esse tipo de jornalismo investigativo —com fontes protegidas, apuração persistente e enfrentamento de poderosos— que expôs o orçamento secreto, a "rachadinha" do clã Bolsonaro, o gabinete do ódio, a interferência política na Polícia Federal, a Abin paralela e, antes disso, práticas graves no governo Temer. O mesmo método revelou fraudes empresariais monumentais e desmontou a Lava Jato a partir da Vaza Jato. Em todos esses casos, a imprensa também foi acusada de conspirar, de ter agenda, de querer "desestabilizar o país". Hoje, poucos duvidam de sua importância democrática.
No fim, a estratégia adotada consegue um feito notável: transformar um escândalo envolvendo banqueiro e relações impróprias de poder num problema da esquerda. É difícil imaginar algo mais estúpido e contraproducente —para a esquerda , para a credibilidade do STF e para a democracia.
A conta da ideologia petista
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva colhe os frutos de uma política externa mais orientada por afinidades ideológicas do que por princípios democráticos e valores universais, como a defesa dos direitos humanos. A queda de Nicolás Maduro, deposto por uma ação militar dos EUA, colocou o chefe de Estado e de governo brasileiro diante de um dilema que ele próprio ajudou a construir: como condenar uma flagrante violação do Direito Internacional sem despertar a ira de Washington e, ao mesmo tempo, sem ter de prestar contas pelo apoio político a uma das mais brutais ditaduras do continente?
A reação inicial de Lula à captura de Maduro foi reveladora. Em postagem nas redes sociais, o petista criticou o método empregado pelo presidente Donald Trump, evitando cuidadosamente mencionar o nome do antigo “companheiro”. A cautela é compreensível. Em ano eleitoral no Brasil e nos EUA, Trump não hesitará em transformar eventuais divergências externas em instrumentos de pressão, inclusive por meio de novas rodadas de sanções econômicas ou políticas. O problema é que o cálculo estratégico de Lula não tem o condão de apagar um passado marcado por complacência, quando não por endosso, ao regime chavista.
A despeito de o Brasil não ter sido determinante, sob as perspectivas militar e econômica, para sustentação de Maduro – papel desempenhado pela China e pela Rússia –, os governos lulopetistas foram esteios do regime na esfera política ao oferecer respaldo simbólico à ditadura que arruinou a Venezuela. Como líder da potência regional, Lula sempre relativizou a repressão violenta aos dissidentes, a destruição institucional do país, a debacle econômica e o êxodo de milhões de venezuelanos, compondo um constrangedor coro regional de solidariedade a um regime que há muito já não escondia seu vezo autoritário.
Após a fraude na eleição de 2024, atestada por instituições insuspeitas, como o Centro Carter, o Brasil limitou-se a um distanciamento protocolar. O petista chegou a ser humilhado pelo ditador que apoiou por anos. Maduro, convém lembrar, não só atacou a lisura do sistema eleitoral brasileiro, como ainda recomendou que Lula tomasse um “chá de camomila” depois de o presidente brasileiro ter dito que ficou “assustado” ao ouvir Maduro dizer que, caso ele perdesse a eleição, haveria um “banho de sangue” na Venezuela. Ainda assim, a ambiguidade prevaleceu. Em janeiro de 2025, quando Maduro assumiu um mandato ilegítimo, Lula não compareceu ao simulacro de posse, mas enviou uma representante diplomática, gesto que acabou por legitimar, na prática, um governo nascido da fraude e da força.
Recorde-se ainda que, nos primeiros meses de seu terceiro mandato, Lula estendeu o tapete vermelho para Maduro em Brasília. Em declarações públicas, o petista relativizou o conceito de democracia, chegando a afirmar que a Venezuela, ora vejam, teria “mais eleições do que o Brasil”. Em outra vergonhosa passagem, Lula disse haver “excesso de democracia” no país vizinho. São declarações que não resistem ao contraste com a realidade factual e revelam a visão instrumental que Lula e o PT têm da democracia – tolerável apenas quando serve aos propósitos de aliados ideológicos.
Lula agora tenta se equilibrar entre a crítica ao atropelo das normas internacionais, o que de fato ocorreu, e a necessidade de preservar a aproximação com Trump, que culminou na suspensão do tarifaço imposto ao Brasil e no fim de sanções aplicadas a autoridades brasileiras. A dificuldade, para o presidente brasileiro, é disfarçar altivez depois de anos de alinhamento político com a ditadura chavista.
Lula terá de fazer muito mais do que publicar notas genéricas sobre soberania e autodeterminação dos povos. Precisará reconhecer, explicitamente, os erros de uma política externa que deliberadamente fechou os olhos para a barbárie ao lado em nome da afinidade ideológica com o chavismo. A democracia não é um conceito “relativo” nem jamais foi “excessiva” na Venezuela – muito ao contrário. Enquanto não o fizer, Lula seguirá refém de suas contradições, pagando o preço político e moral da cumplicidade histórica com uma das maiores tragédias humanitárias da América Latina.





