Endividamento reflete incúria fiscal do governo
Por Editorial / O GLOBO
O preço do desarranjo fiscal cevado pelo governo federal — responsável pela manutenção dos juros brasileiros em patamares elevadíssimos sob qualquer parâmetro — tem sido cobrado dos a cada dia mais endividados domicílios brasileiros. O comprometimento de renda das famílias com o pagamento de dívidas subiu para 29,7% em fevereiro, de acordo com dados divulgados pelo Banco Central (BC) nesta segunda-feira. É um recorde na série histórica iniciada em 2005. O endividamento total, em 49,9% da renda, também é inédito e mais que o dobro do registrado em 2006.
O comprometimento é calculado a partir do valor médio estimado para o pagamento de juros e parcelas das dívidas e da renda total das famílias, descontando impostos e contribuições. No endividamento, o BC leva em conta o saldo das dívidas e a renda acumulada em 12 meses, também sem considerar tributos. Análises de consultorias e bancos anteriores à divulgação do BC já apontavam a mesma direção. Sobra cada vez menos dinheiro no fim do mês nos domicílios brasileiros. “Vemos um aumento muito expressivo do quanto o pagamento do crédito está comendo a renda”, disse ao jornal Valor Econômico Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de macroeconomia e análise setorial da Tendências.
A deterioração tem sido avassaladora. Mesmo com o aumento do preço de alimentos no domicílio tendo crescido em ritmo inferior à inflação em 2025 (1,43% ante 4,26%), as finanças domésticas têm sofrido aperto. Com a taxa de juros nas alturas, cria-se um círculo vicioso. Primeiro, a inadimplência começa a aumentar. Em fevereiro, a média nas operações de crédito bancário atingiu 4,4%, máxima da série histórica. De lá para cá, houve queda, mas ínfima.
Com a inadimplência em alta, surge o segundo efeito: os bancos ficam mais exigentes para conceder empréstimos. Nem o aumento do emprego com carteira assinada, nem a elevação da renda média, nem nenhuma outra estatística favorável serve de consolo à política de crédito mais restritiva. Em apuros, muitas famílias acabam apelando para linhas emergenciais, que praticam taxas de juros ainda mais altas, estimulando a inadimplência — e o círculo se fecha.
A poucos meses da eleição, o governo fala num novo programa para renegociar dívidas. Não passa de medida eleitoreira. Se estivesse disposto a resolver o problema de modo duradouro, enfrentaria o desequilíbrio fiscal. Em nome do crescimento econômico acelerado, mas de curta duração, a torneira do gasto e do crédito fácil sempre jorrou, ajudando a aquecer a demanda e pressionando a inflação para cima. Não adianta olhar para o BC em busca de bode expiatório. Com um governo gastão, a autoridade monetária não tem alternativa senão aumentar o custo do dinheiro para controlar a inflação. Sem resgatar a credibilidade fiscal, todo o resto será paliativo.
O endividamento das famílias está em patamar recorde — Foto: Michal Jarmoluk/Pixabay
Minha Casa, Minha Vida se converteu em mera vitrine eleitoral do governo
Por Editorial / O GLOBO

As moradias precárias e favelas estão à vista de todos os habitantes das grandes cidades brasileiras. Mas as soluções não deveriam ser contaminadas por objetivos políticos, como infelizmente vem acontecendo no governo Luiz Inácio Lula da Silva. O programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) se converteu em mera vitrine eleitoral. Reciclado de outras gestões petistas, foi incrementado não só com mais recursos, mas também com maior abrangência. O governo elevou o valor do imóvel e o limite de renda exigido para acessar o crédito mais barato em todas as faixas. Financiando casas de até R$ 600 mil para famílias com rendimento de até R$ 13 mil, o programa passa a atender a parcela da classe média que Lula tenta conquistar em meio a sucessivas quedas de popularidade. Para este ano, o orçamento atingirá patamar recorde: R$ 200 bilhões. A meta é alcançar 3 milhões de unidades contratadas entre 2023 e 2026.
Entre 2023 e 2025, os contratos de financiamento do MCMV registraram alta de 45%. Deslancharam especialmente no Norte e Nordeste (84% e 63%, respectivamente). Quando o programa foi reformulado em 2023, o governo estabeleceu condições mais favoráveis aos beneficiários dessas regiões. É verdade que são as mais pobres do país, mas são também conhecidos redutos eleitorais de Lula. Não por acaso, as entregas de unidades deverão ter protagonismo na campanha à reeleição. Como mostrou reportagem do GLOBO, nos próximos dias Lula participará de eventos ao lado de candidatos regionais para entrega de chaves.
A despeito de contemplar carências concretas da população brasileira, o MCMV sempre foi um programa com problemas. A qualidade das construções é questionável, a localização dos empreendimentos costuma privilegiar obras novas em áreas distantes dos centros urbanos, com infraestrutura deficiente de serviços e transportes, em vez de revitalizar áreas centrais com reformas de imóveis antigos. Criam-se outros problemas para os cidadãos, obrigados a enfrentar maratonas para chegar ao trabalho. Projetos em regiões centrais até existem, mas são ainda escassos e incipientes.
A falta de foco é outra distorção. Ao estender o programa à classe média, o governo se afasta do objetivo de atender a população mais carente, que necessita de moradia e não tem como se encaixar nas regras do mercado. A prioridade obviamente deveria ser o contingente de renda mais baixa. Ao ignorar isso, o governo reproduz o erro de políticas habitacionais malsucedidas do passado. Apesar do crescimento alardeado pelo governo, o MCMV não tem conseguido conter a expansão de favelas. Entre 1985 e 2024, a área ocupada por comunidades em condições habitacionais precárias praticamente triplicou no Brasil, segundo levantamento do MapBiomas. Certamente não é por escolha que um cidadão permanece morando em encostas sujeitas a deslizamentos, em áreas sem saneamento básico e frequentemente sob domínio de facções criminosas. É porque o maior programa habitacional do governo continua sem oferecer opção.
Não é papel da AGU regular informação
Uma certa Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia (PNDD), estrutura interna da Advocacia-Geral da União, enviou notificação para a rede social X pedindo a exclusão ou a rotulagem de dez postagens que faziam referência ao projeto de lei destinado a punir a misoginia —aprovado pelo Senado em março e tramitando na Câmara dos Deputados.
A AGU alega que as postagens atribuíram ao texto aprovado trechos de outro projeto, o que "ataca a integridade do processo legislativo e confunde a opinião pública sobre uma política pública relevante".
De fato, algumas postagens confundiram as duas propostas; outras fizeram referência àquela não aprovada no Senado para criticar o ímpeto legislativo que busca criminalizar a misoginia.
Trata-se de controvérsia política e jurídica legítima, com as distorções, os enganos e os exageros que fazem parte do debate público nas democracias liberais.
A função da AGU é representar a União judicial e extrajudicialmente, além de prestar consultoria jurídica ao Poder Executivo.
Regular opiniões sobre os Poderes e seus agentes definitivamente não faz parte desse escopo. Mas isso mudou com a criação da PNDD no primeiro dia do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O "enfrentamento à desinformação sobre políticas públicas" é uma de suas atribuições, o que expande de modo temerário o raio de ação da AGU.
As notificações extrajudiciais se fortaleceram com a reinterpretação do artigo 19 do Marco Civil da Internet (2014), em 2025, pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Antes, plataformas só seriam responsabilizadas por conteúdos de terceiros se não cumprissem ordens judiciais —exceto em casos que não precisam de ordens, como nudez não consentida.
Mas a própria decisão da corte deixa claro que a punição só se dará no caso de desobediência a notificações extrajudiciais relativas a conteúdos criminosos ou ilícitos, o que não parece ser o caso do debate, ainda que equivocado, sobre um projeto de lei.
A expansão da polarização político-ideológica, de populismos e das redes sociais na última década tem gerado uma discussão global sobre regulações que visem conter possíveis efeitos nefastos desse ecossistema digital.
No Brasil, qualquer mudança nesse sentido tem de se dar no Congresso Nacional, com amplo debate e sob bases técnicas, o que não se viu no Projeto das Fake News, felizmente engavetado em 2024.
A AGU não deveria se imiscuir no monitoramento de conteúdo online, ainda mais com as atribuições tão vagas da PNDD.
Master mostrou fragilidades a corrigir no BC e na CVM
O escândalo do Banco Master revelou, de forma dramática, a obsolescência do arcabouço regulatório do sistema financeiro brasileiro.
Sob a guarda conjunta da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central, o conglomerado de Daniel Vorcaro montou um sofisticado esquema de pirâmide que se sustentou por anos, explorando brechas normativas, falhas de fiscalização e fragilidades institucionais.
As captações agressivas de recursos por meio de plataformas digitais, lastreadas no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), foram apenas a ponta de lança de uma vasta teia de fraudes.
O caso envolveu uma rede de 216 fundos de investimento e 143 empresas interligadas, com patrimônio inicial mapeado em R$ 102,4 bilhões. Ativos de baixa liquidez circulavam entre fundos, com avaliações irrealistas.
A CVM, responsável pela fiscalização dos fundos, falhou de forma evidente, pois movimentações atípicas eram detectadas desde 2022. A facilidade com que dezenas dessas entidades trocavam ativos superfaturados deveria ter acendido alertas.
O BC tampouco saiu ileso. Investigação interna identificou indícios graves de corrupção —dirigentes de fiscalização e supervisão bancária cooptados pelo controlador do Master. O uso temerário do FGC como estratégia de captação —prometendo retornos acima do mercado com garantia de terceiros— transferiu riscos à sociedade.
Ficaram expostos ainda pontos cegos na regulação de bancos pequenos, fintechs e estruturas não bancárias como fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs).
Em parte, o episódio só foi possível porque tanto BC quanto CVM operaram enfraquecidos: o primeiro perdeu quadros experientes em fiscalização, enquanto a segunda enfrentou déficit crônico de pessoal e diretoria incompleta, além de indicações controversas para a cúpula.
Debates recentes no Congresso Nacional e relatórios de CPIs, como a do Crime Organizado, destacam a necessidade de maior complementaridade entre as autarquias.
No âmbito bancário, avanços pontuais são bem-vindos, mas insuficientes. O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou, por exemplo, mudanças no FGC que exigem ativos de maior qualidade para captações garantidas.
No entanto, o crescimento explosivo de fintechs e estruturas de crédito paralelas ainda ameaça a estabilidade financeira. Cabem exigências mais rigorosas de capital, governança e liquidez.
O BC também alocou 40 novos servidores (25% dos concursados de janeiro) na área de fiscalização, com foco em supervisão bancária e conduta, e revisa seu plano de integridade, incluindo rodízio de chefias.
Endurecer a regulação, fortalecer quadros técnicos e garantir comunicação fluida e clara divisão de responsabilidades entre BC e CVM são condições para restaurar a confiança no sistema.
Petro fica longe da 'paz total'
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Passados dez anos do acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a população do país ainda aguarda a erradicação das guerrilhas convertidas ao narcotráfico e a diminuição dos índices de violência.
Desde o início de seu mandato, Gustavo Petro —ex-guerrilheiro eleito primeiro presidente de esquerda do país em 2022— enfrenta dificuldades na segurança pública. Seu plano de "paz total", uma promessa de campanha baseada em mudança de foco no combate ao tráfico para o desenvolvimento agrário e acordos com grupos armados, fracassou.
A pouco mais de um mês do pleito presidencial, Petro precisou suspender as negociações com a guerrilha Estado-Maior de Blocos e Frente (EMBF) na quarta (22). Iniciadas há três anos, as conversas não resistiram à persistência dos ataques contra civis, rivais e soldados das forças de segurança, do desmatamento ilegal e do narcotráfico por esse grupo dissidente das Farc.
A esse malogro somam-se a negativa do Clã do Golfo, hoje a maior organização armada da Colômbia, à oferta de negociações pelo governo e a decisão de Petro de pôr fim a um cessar-fogo com o Exército de Libertação Nacional (ELN) —a mais antiga guerrilha latino-americana que liderou um ataque que matou cerca de 100 pessoas em 2025.
Ao fim do mandato, Petro deixa um cenário similar ao que recebeu de Ivan Duque, há quatro anos. Dados do Ministério de Defesa mostram aumento de 3,7% nos homicídios dolosos em 2025, em relação a 2022, e a triplicação do total de sequestros.
Ainda assim, o colombiano conseguiu conter as ameaças de Donald Trump, de aplicar à Colômbia um tratamento similar ao que dispensou à Venezuela em janeiro. Em fevereiro, ambos selaram um acordo de cooperação para o combate ao narcotráfico.
Na sexta (24), um atentado contra uma base militar em Cáli deixou dois feridos e deu início a uma série de ataques nos departamentos de Valle del Cauca e Cauca, no sudoeste do país, mesma região que sofreu com a onda de violência em 2025. No sábado (25), uma bomba matou 14 pessoas e feriu ao menos 38 em Cauca.
Nas eleições legislativas de março, o partido de Petro conseguiu maioria no Senado; na Câmara, mais fragmentada, o cenário favorece a centro-direita.
Com a desaprovação de Petro em 57%, segundo pesquisa Atlas Intel do começo deste mês, e o fracasso da almejada "paz total", é incerto se a esquerda repetirá o resultado nas eleições presidenciais, no final de maio.
Terrabras e outras más ideias do PT para minerais críticos
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Parece piada, mas a bancada do PT na Câmara dos Deputados pretende criar uma nova estatal, de nome Terrabras —hoje já existem 44 empresas sob controle direto do Tesouro, fora mais de 70 subsidiárias.
Esse é apenas o dispositivo mais caricato de um projeto que prevê intervenção estatal ampla em exploração, produção e exportação de minerais críticos, entre eles, terras raras. Além da criação da estatal, o texto petista institui o sistema de partilha da produção entre setor público e empresas concessionárias, prevê conteúdo nacional para insumos e restringe a exportação.
Consta que o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não apoiará a tal Terrabras. Por ora, o intento é só aprovar um marco regulatório para o setor, em discussão adiada para maio no Congresso. Mas os pendores estatistas e intervencionistas parecem inevitáveis.
O assunto passou a ser objeto de discussão mais geral depois que a China voltou a utilizar seu domínio na produção de terras raras e ímãs desses minérios como arma da guerra econômica com os Estados Unidos. Governos pelo mundo de fato intervêm no setor.
Deveria ser desnecessário apontar que a proposta de nova estatal —em tese, uma remodelação da antiga Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM)— é um disparate. O desastre na gestão atual dos Correios e os desmandos históricos na Petrobras e na Eletrobras são eloquentes a esse respeito. Mas os equívocos vão além.
Criar valor agregado, como dizem querer os petistas, não implica necessariamente cadeias de produção complexas. Estas podem ser ineficientes, de resto, vide os casos de estaleiros ou do computador nacional.
O país tem algum conhecimento e pessoal científico no setor de terras raras. Falta, no entanto, mais investimento em pesquisa e pessoal qualificado para criar bases para uma indústria. São empecilhos também custos de energia e de logística, impostos e regulação falha, aliás, obstáculos para a economia inteira.
Há questões decisivas a serem avaliadas. O Brasil poderia capturar ganhos de um quase monopólio mundial? Não, pois há o peso da China e, logo, de outros concorrentes, mais avançados.
Haveria ganho de escala bastante para tornar esse setor capaz de concorrer globalmente? Temos exemplos de empresas que, depois de décadas de subsídios e proteção tarifária, ainda precisam de ajuda do governo.
O conhecimento utilizado na produção de bens de terras raras pode transbordar para a indústria local? Talvez, mas a indústria nacional está em declínio.
Desenvolver competências tecnológicas e aproveitar as possibilidades de oferta de energia limpa podem fundamentar um incentivo ao setor. Ser produtor relevante em minerais críticos pode criar vantagens políticas.
Possibilidades, há. Faltam estudos, planos e projetos de viabilidade. Sobram desinformação e estatismo tacanho.


