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26 perguntas para 2026: em ano eleitoral, dúvidas e desafios vão da disputa nacional ao Judiciário

Por  Caio Sartori / O GLOBO

 

 

O ano que vem chega com a expectativa em torno da eleição presidencial, na qual Luiz Inácio Lula da Silva (PT) buscará um quarto mandato. Até outubro, no entanto, muitas perguntas precisam ser respondidas — tanto em relação ao petista quanto à oposição, que ainda tem pouca clareza sobre o melhor caminho a seguir. As questões para o ano que se aproxima, contudo, não se limitam à disputa pelo Planalto. Há dúvidas sobre as eleições estaduais, o Congresso e o Judiciário. A fim de jogar luz sobre essa miríade de incertezas, O GLOBO listou 26 perguntas sobre 2026.

 

Eleição presidencial

1 - TARCÍSIO DE FREITAS SERÁ CANDIDATO À PRESIDÊNCIA?

Nome preferido do Centrão e de setores econômicos que defendem uma oposição forte ao presidente Lula no ano que vem, o governador de São Paulo vive um constante vaivém. Às vezes dá sinais de que quer encarar o desafio, mas publicamente sinaliza que tentará a reeleição no estado. O desafio de construir uma candidatura presidencial chega ao fim do ano com novo obstáculo: o lançamento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao jogo como pré-candidato da direita.

 

2 - O SOBRENOME BOLSONARO VAI ESTAR NA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL?

A fim de manter o capital político dentro da própria família, Jair Bolsonaro, preso, determinou que Flávio é o nome escolhido para assumir seu espólio eleitoral. Muitos veem no gesto um jogo de cena, sem garantia alguma de que será consolidado, mas fato é que o desempenho do senador nas pesquisas faz o PL interpretar que o sobrenome pode impulsionar a eleição de deputados e senadores. Além dele, a ex-primeira-dama Michelle costuma ser apontada como opção, inclusive para a vice em uma chapa de Tarcísio.

 

3 - ALCKMIN SE MANTÉM COMO VICE NA CHAPA DE LULA?

Adversário de Lula no passado, Geraldo Alckmin virou um vice considerado leal pelo petista. O PSB, ao qual é filiado, defende com unhas e dentes a manutenção da chapa. Dois fatores poderiam prejudicar a continuidade: alguma missão eleitoral imposta a Alckmin em São Paulo ou a necessidade de liberar o posto de vice na chapa para um partido mais ao centro.

 

4 - QUAIS PARTIDOS VÃO COMPOR A ALIANÇA DE REELEIÇÃO DO PRESIDENTE?

A tendência é que Lula reedite a coligação de partidos de esquerda e centro-esquerda que formou em 2022. Legendas de centro e centro-direita, sobretudo MDB e PSD, têm divisões regionais muito fortes. Assim, uma eventual neutralidade dessas siglas na eleição presidencial, liberando os estados, já seria comemorada pelo Planalto.

 

5 - LULA VAI RECUPERAR POPULARIDADE NO ÚLTIMO ANO DO MANDATO?

Depois de um primeiro semestre de queda acentuada na aprovação, Lula se recuperou no início do segundo semestre, mas viu o cenário estabilizar nas últimas pesquisas. Hoje, há empate técnico entre aprovação e desaprovação, segundo a maioria das pesquisas. Anos eleitorais costumam impulsionar a avaliação de governos, já que presidentes têm mais oportunidades para expor os feitos da gestão.

 

6 - QUAIS SERÃO OS GRANDES TEMAS DA DISPUTA NACIONAL?

Nos últimos meses, a segurança pública passou a ser uma das armas da oposição para emparedar o governo Lula, mas há divergência entre analistas sobre a capacidade do tema de dominar uma eleição nacional. O esperado é que as diferentes pautas econômicas tomem conta do jogo, e é nisso que Lula pretende se concentrar. Ao mesmo tempo, o presidente indicou que pode criar no ano eleitoral o Ministério da Segurança Pública, uma forma de demonstrar preocupação com o tema.

 

7 - ELEITOR VAI REFORÇAR A POLARIZAÇÃO OU EXPOR CANSAÇO COM O CENÁRIO?

Em um cenário de Lula versus alguém da família Bolsonaro, os dois vão concentrar quase todos os votos, como foi em 2022, ou um terceiro nome conseguirá ter bom desempenho? A última pesquisa Genial/Quaest de 2025 deu sinais de que, a despeito da rejeição alta dos dois lados, ambos ainda concentram a maioria esmagadora das intenções de voto.

 

8 - DESINFORMAÇÃO COM IA VAI EXPLODIR E MARCAR CAMPANHA?

Com a proliferação acentuada da inteligência artificial nos últimos anos, a eleição do ano que vem cria expectativa sobre quão usada para fins indevidos a IA vai ser. Diante de uma legislação ainda em construção, há temor acerca do potencial que as ferramentas têm para produzir desinformação, sobretudo por meio de vídeos ou áudios hiperrealistas.

 

Estados

9- QUAIS PREFEITOS VÃO SE DESINCOMPATIBILIZAR PARA DISPUTAR ELEIÇÃO DE GOVERNADOR?

Diversos prefeitos que desfrutam de boa avaliação em suas respectivas cidades são cotados para disputar governos estaduais em 2026. Entre eles, estão Eduardo Paes (Rio), João Campos (Recife) e João Henrique Caldas, o JHC (Maceió). Até o de São Paulo, Ricardo Nunes, é uma possibilidade, caso Tarcísio tente o Planalto. O começo do ano deve marcar as primeiras admissões públicas da intenção de se candidatar. Eles têm até 4 de abril para se desincompatibilizar das prefeituras.

 

10 - PAES, NO RIO, VAI CONSEGUIR ATRAIR PARTIDOS DO CENTRÃO QUE HOJE ESTÃO VINCULADOS AO GOVERNO CLÁUDIO CASTRO?

Depois de se reeleger com folga na cidade em uma aliança mais composta pela centro-esquerda, Paes tem feito gestos à direita e tenta atrair alguns dos partidos com maior capilaridade no estado, sobretudo a federação composta por PP e União Brasil. Ao mesmo tempo, caminha para ter de novo siglas progressistas como PT, PSB e PDT. Na vice, pretende abrir espaço para alguém de fora da capital.

 

11 - QUEM SERÃO OS CANDIDATOS EM SÃO PAULO, COM OU SEM TARCÍSIO DISPUTANDO A REELEIÇÃO?

Caso Tarcísio decida disputar a Presidência, haverá uma corrida interna na direita pela candidatura no maior estado do país. O prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), é um dos cotados, e é sabido que o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, sonha com o cargo. Na oposição, ainda há pouca clareza, mas o PT estuda lançar o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a fim de ter um palanque forte para Lula em São Paulo, mesmo sabendo que a tendência na eleição de governador é de vitória da direita.

 

12 - QUAIS CANDIDATOS VÃO DISPUTAR A ELEIÇÃO DE MINAS, ATÉ AGORA BASTANTE INDEFINIDA?

Outro estado com cenário indefinido é Minas Gerais, o segundo mais populoso do país. O vice-governador da gestão Romeu Zema (Novo), Matheus Simões (PSD), pretende se lançar. Outro da direita é o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos). Na oposição, há várias possibilidades ventiladas. São nomes como o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT) e o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco, que, no entanto, é do mesmo PSD que filiou Simões — a despeito de ser aliado de Lula.

 

13 - O PT MANTERÁ O DOMÍNIO NA BAHIA, MESMO COM ACM NETO LIDERANDO AS PESQUISAS?

Apesar de o governador Jerônimo Rodrigues (PT), apto à reeleição, ter índices satisfatórios de aprovação, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União) lidera as primeiras sondagens eleitorais. Na Bahia, contudo, o histórico mostra que os candidatos do PT até podem começar atrás, mas costumam pegar o embalo da nacionalização da campanha e virar o jogo.

 

14 - CARLOS BOLSONARO VAI CONSEGUIR SE ELEGER SENADOR EM SANTA CATARINA OU AS RIXAS NA DIREITA VÃO PREJUDICÁ-LO?

Os últimos meses têm mostrado a dificuldade que o vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL) enfrenta para trocar de domicílio eleitoral e se candidatar ao Senado por Santa Catarina, com diversas rixas na direita. A ver se o eleitorado do estado bolsonarista vai abraçá-lo ou rechaçar a tentativa do “estrangeiro

 

Congresso

15 - QUAL SERÁ O IMPACTO DAS EMENDAS PARLAMENTARES NO ÍNDICE DE REELEIÇÃO DE DEPUTADOS?

Com fatias robustas do orçamento nas mãos de deputados e senadores, que desfrutam de enorme capacidade de mostrar ao eleitorado entregas palpáveis, será interessante observar o impacto disso no índice de reeleição para a Câmara. Em 2022, o percentual de renovação (39%) caiu bruscamente em comparação com 2018 (47%), ano que havia registrado um forte apelo por “mudança”.

 

16 - O BOLSONARISMO VAI CONSEGUIR TOMAR CONTA DO SENADO?

Aliados de Bolsonaro deixam cristalina a prioridade conferida à eleição do Senado. É lá, afinal, que se pode impor com propriedade uma agenda contrária ao Judiciário. Uma das grandes dúvidas sobre as eleições é se o campo político terá força para conquistar maioria na Casa, emparedar o STF e dificultar a vida do futuro governo.

 

17 - QUAIS GOVERNADORES VÃO SE DESINCOMPATIBILIZAR ATÉ ABRIL PARA TENTAR VAGAS NO SENADO?

Além de prefeitos que podem se desincompatibilizar para tentar governos estaduais, governadores em segundo mandato tendem a buscar uma cadeira no Senado. Alguns exemplos possíveis estão no Rio, com Cláudio Castro (PL); Rio Grande do Sul, com Eduardo Leite (PSD); Paraíba, com João Azevêdo (PSB); e Espírito Santo, com Renato Casagrande (PSB).

 

18 - A RELAÇÃO ENTRE O GOVERNO E O CONGRESSO CONTINUARÁ ACIRRADA?

Seja pela votação de pautas defendidas pela oposição ou por insatisfações da cúpula do Congresso com movimentos do governo, o ano que se encerra registrou atritos constantes entre os Poderes. Fica a dúvida de como será a relação no ano eleitoral, quando parlamentares costumam tomar posição sobre o jogo presidencial.

 

19 - O SENADO VAI APROVAR A INDICAÇÃO DE JORGE MESSIAS PARA O SUPREMO?

Ficou para 2026 o desfecho da indicação do ministro da AGU, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF). Insatisfeito com a escolha por Messias, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), ainda não deu uma nova data para a sabatina. A última vez em que a Casa barrou escolhas do presidente da República para a Corte foi em 1894.

 

20 - DEPOIS DE UM ANO PENDULAR, QUAIS AGENDAS HUGO MOTTA VAI PRIORIZAR NA CÂMARA?

O 2025 do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), foi marcado por idas e vindas na relação com o governo e a oposição. Foi “lulista” em alguns momentos, mas em outros deu espaço para pautas caras à direita. É diferente do que Arthur Lira (PP-AL), por exemplo, fez no governo Bolsonaro, quando se colocou como aliado nítido do então presidente e o apoiou na tentativa frustrada de reeleição

 

Judiciário

21 - FACHIN VAI CONSEGUIR CRIAR UM “CÓDIGO DE CONDUTA” PARA MINISTROS?

Defendida por pesquisadores, a ideia de criar um código de conduta para ministros de tribunais superiores passou a ser ventilada pelo presidente do STF, Edson Fachin, em dezembro. A intenção, contudo, esbarra em alas da Corte. Entre as regras, haveria diretrizes claras para participações em eventos privados, por exemplo. A principal referência é o Tribunal Constitucional Alemão.

 

22 - QUAIS PROCESSOS CRIMINAIS TENDEM A DOMINAR A PAUTA DO STF APÓS AÇÃO DO GOLPE?

Resolvida a trama golpista, a Corte tem outros casos de grande repercussão sobre os quais se debruçar no ano que vem. Entre eles, o dos mandantes da morte de Marielle Franco, o da tentativa de obstrução de Justiça por parte de Eduardo Bolsonaro — via atuação nos EUA — e diversos processos envolvendo emendas parlamentares.

 

23 - STM VAI IMPOR UMA INÉDITA PERDA DE PATENTE AOS OFICIAIS CONDENADOS?

Após a inédita condenação no STF de oficiais das Forças Armadas por tentativa de golpe, caberá a outra Corte, o Superior Tribunal Militar (STM), fazer outra análise carregada de ineditismo: a da perda de patente e posto desses militares. Especialistas costumam apontar esse tipo de condenação, o de indignidade para a função, como o maior baque possível para um oficial.

 

24 - JULGAMENTOS DE CASOS SOBRE EMENDAS VÃO ELEVAR AINDA MAIS A TENSÃO COM O CONGRESSO?

Além das tensões entre governo e Congresso, o Legislativo também tem vivenciado embates frequentes com o STF. Um dos focos de apreensão são os processos envolvendo emendas parlamentares que correm na Corte. Os casos, sob relatoria do ministro Flávio Dino, têm potencial para esgarçar ainda mais a relação, dado que apenas a ponta do iceberg apareceu até agora.

 

25 - DEPOIS DA TRAMA GOLPISTA, STF VAI CONSEGUIR SER MENOS PROTAGONISTA OU CONTINUARÁ SOB OS HOLOFOTES?

Com acúmulo de protagonismo nos últimos anos, o ideal seria que o STF conseguisse sair um pouco dos holofotes, dizem analistas. Ao mesmo tempo, eles reconhecem que é difícil que isso aconteça: a judicialização virou um marco da política brasileira.

 

26 - COMO SERÁ A CONDUÇÃO DE NUNES MARQUES À FRENTE DO TSE NO ANO ELEITORAL?

O ministro indicado por Bolsonaro vai estar à frente da Corte eleitoral no ano da eleição. Há dúvidas sobre como será sua atuação, em contraponto a posturas enfáticas de defesa das urnas e do processo eleitoral como um todo adotadas pelos últimos presidentes.

PIB interrompe neste 2025 série de surpresas positivas

A economia brasileira deve crescer pouco acima dos 2% neste 2025, segundo a mediana das estimativas de mercado pesquisadas semanalmente pelo Banco Central. Para o Ministério da Fazenda, o avanço do Produto Interno Bruto será de 2,2%; para o próprio BC, de 2,3%.

Desse modo, as cifras ficam próximas entre si e também das expectativas de analistas coletadas no início do ano, de 2,01%. Interrompe-se, portanto, a série de surpresas positivas com PIB observada de 2022 a 2024, depois de superado o pior da pandemia.

Erros nas previsões para a atividade não são incomuns. Costumam ocorrer imprevistos relevantes, econômicos, políticos ou de outra natureza, como eventos climáticos. Os modelos de projeção são imperfeitos. Ainda que não fossem precários, as relações entre variáveis no passado não dão conta de inovações e mudanças estruturais.

Mais importante é se valer das estimativas para entender influências nelas desconsideradas.
Como tem observado Bráulio Borges, colunista desta Folha, o aumento do gasto público vinha sendo subestimado, não apenas o do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como os de estados e municípios. A alta da despesa animou de início uma economia deprimida desde 2015, com grande ociosidade de trabalho e capital.

Os efeitos colaterais do expansionismo orçamentário ficaram visíveis em 2024, com sinais de superaquecimento e inflação. O descrédito da política fiscal, crescente ao longo do ano passado e evidenciado também na taxa de câmbio, contribuiu para a alta dos preços e dos juros.

Há indícios de que mudanças no mundo do trabalho evitaram inflação ainda maior, mesmo com taxas de desemprego baixas. A reforma da CLT de 2017 flexibilizou contratos e diminuiu custos de contratação; houve mudanças tecnológicas, a influenciar a oferta de mão de obra.

Já o avanço do mercado de capitais e da concorrência bancária facilitaram o crédito, o que parece ter contido o efeito das taxas de juros elevadíssimas, fazendo com que atividade econômica arrefecesse mais lentamente.

O fator exógeno mais importante do ano foi a desvalorização mundial do dólar, resultante das trapalhadas de Donald Trump, que contribuiu para conter a inflação doméstica. O sucesso da agropecuária, a moderação dos preços mundiais dos alimentos e do petróleo, além de exportações chinesas de bens industriais baratos, foram outros atenuantes da carestia.

O gasto público total, embora nas alturas, cresceu menos. Como resultado, o pouso da economia é suave. No curto prazo, há convergência lenta do IPCA para a meta, sem choque no PIB.

O quadro mais amplo, porém, é de endividamento público crescente e níveis baixos de investimento, despesa governamental alta e ineficiente combinada a juros proibitivos para famílias e empresas. Por óbvio, não é receita de crescimento duradouro.

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Otimismo com novo ano cresce, e 69% dos brasileiros projetam melhora na situação pessoal, diz Datafolha

Paulo Ricardo Martins / FOLHA DE SP

 

 

O brasileiro está otimista para 2026. Segundo pesquisa de opinião do Datafolha, 69% dos entrevistados acreditam que o próximo ano trará melhora em sua situação pessoal na comparação com 2025.

O resultado representa um salto de nove pontos percentuais em relação à última pesquisa. No fim do ano passado, 60% esperavam melhora na situação pessoal em 2025 –patamar mais baixo registrado durante o terceiro mandato do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A pergunta feita pelo Datafolha aos entrevistados foi "Na sua opinião, 2026 será um ano melhor, igual ou pior a 2025 para você?".

Para 2026, 16% disseram que sua situação pessoal será igual à de 2025, e 11% acreditam que ficará pior. Um grupo de 3% dos entrevistados não soube responder à pergunta.

Nas projeções para 2021, os otimistas eram 68%, ante 19% que acreditavam que não haveria mudanças. Os que projetavam piora eram 10%, e 2% não sabiam responder.

A pesquisa também registrou alta no otimismo dos entrevistados em relação à situação do país em geral. Para 60% das pessoas ouvidas pelo Datafolha, 2026 será um ano melhor para os brasileiros na comparação com 2025 –no ano passado, esse percentual era de 47%. A pergunta feita pelo Datafolha foi "Na sua opinião, 2026 será um ano melhor, igual ou pior a 2025 para os brasileiros em geral?".

O resultado iguala o patamar de otimismo observado na virada de 2022 para 2023, logo após as eleições presidenciais que elegeram Lula para um terceiro mandato.

Ainda de acordo com a pesquisa do Datafolha, as mulheres estão mais otimistas para 2026 do que os homens. Um grupo de 74% das entrevistadas acredita que sua situação pessoal irá melhorar em 2026 –patamar que cai para 65% entre o público masculino.

O otimismo também é maior entre aqueles que possuem somente ensino fundamental –74% acreditam que a situação pessoal melhorará em 2026. Entre os que têm ensino superior, esse percentual cai para 62%.

Quanto menor a renda, maior é a expectativa para 2026: 61% dos que ganham mais de dez salários mínimos acreditam que o próximo ano será de melhora na situação pessoal. O número sobe para 72% entre os entrevistados com menos de dois salários mínimos de remuneração mensal.

Além disso, 78% dos entrevistados que votaram em Lula no segundo turno das eleições de 2022 esperam melhora na situação pessoal no próximo ano. Entre os que votaram no ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), esse patamar cai para 61%.

Entre os que aprovam o governo Lula, 79% acreditam que sua situação pessoal vai melhorar em 2026, na comparação com 2025; 3% dizem que situação irá piorar. O otimismo cai para 59% entre aqueles que desaprovam a gestão petista, e 19% acham que a situação pessoal irá piorar em 2026.

Os brasileiros que moram no Nordeste estão mais otimistas para 2026 –75% deles acreditam que sua situação pessoal irá melhorar no próximo ano. O nível mais baixo é registrado no Sul (65%).

Para economistas, o otimismo sentido pela população é reflexo do bom desempenho de alguns dos principais indicadores da economia brasileira em 2025. No entanto, a expectativa é de que 2026 seja um ano um pouco menos favorável à economia brasileira.

"[2025] Foi um ano em que os preços dos alimentos se comportaram bem. Com menores taxas de desemprego e com a inflação de alimentos tão baixa, é natural que as pessoas estejam se sentindo bem. E a situação, de fato, está boa", diz Samuel Pessôa, pesquisador do FGV IBRE (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas) e colunista da Folha.

Quando o controle vira entrave

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Estados modernos gostam de apresentar a governança como uma escolha binária: ou são ágeis ou são rigorosos. A experiência mostra o contrário. Onde o controle é tratado como entrave, a eficiência costuma ser apenas retórica.

 

O diagnóstico recente do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o Ministério da Cultura, ao qual o Estadão teve acesso, não descreve apenas um acúmulo de falhas administrativas. Ele expõe um padrão de governança que vai além de um ministério específico e diz respeito à maneira como o Estado brasileiro tem lidado com responsabilidades básicas. Trata-se de um passivo reconhecidamente crônico, que hoje alcança quase 30 mil projetos culturais, envolvendo cerca de R$ 22 bilhões em recursos públicos, sem prestações de contas analisadas. Para efeito de escala, é um valor equivalente a cerca de um mês e meio do Bolsa Família.

 

Sob a gestão da ministra Margareth Menezes, esse problema histórico passou a ser enfrentado num contexto de mudanças normativas que flexibilizaram os controles. A incapacidade operacional herdada de examinar milhares de projetos foi tratada não como um desafio de gestão a ser superado, mas como justificativa para reduzir exigências. Instruções normativas recentes dispensaram a análise financeira detalhada da ampla maioria dos projetos: mais de 95% dos processos aprovados, segundo o TCU, correspondem a iniciativas que, somadas, representam mais de R$ 21 bilhões e estão sujeitas apenas a controles financeiros simplificados, sem verificação minuciosa das despesas.

 

Alguns símbolos condensam esse desarranjo. O controle de prazos de prescrição por meio de planilhas manuais, alimentadas sem critérios automatizados, não é apenas uma curiosidade burocrática. Ele revela um Estado que administra bilhões de reais sem saber com precisão quando seus créditos prescrevem. O resultado concreto: até 1,3 mil projetos, envolvendo valores estimados em até R$ 1,2 bilhão, já podem ter tido suas contas automaticamente aprovadas por decurso de prazo, sem possibilidade de ressarcimento ao erário.

 

A defesa oficial invoca a “desburocratização” e o chamado “controle por resultados”. Ambos são conceitos legítimos quando bem aplicados. Simplificar procedimentos pode ser desejável; avaliar políticas públicas por seus efeitos é saudável. Mas nenhuma dessas ideias substitui a verificação financeira elementar. A execução física de um projeto cultural não equivale à prestação de contas. Resultado artístico não exime o dever de demonstrar como os recursos públicos foram gastos. Não por acaso, o índice de reprovação de contas por irregularidades, que já oscilava em patamares relevantes, caiu a zero em 2024.

Esse ponto não é uma idiossincrasia de órgãos de controle excessivamente zelosos. O próprio presidente do TCU, ministro Vital do Rêgo, reconheceu a necessidade de conciliar agilidade administrativa com um nível adequado e efetivo de fiscalização. Trata-se de uma advertência institucional clara: o problema não está em buscar eficiência, mas em confundir eficiência com indulgência.

 

Ao transformar exceções em regra, a política cultural corre o risco de estabelecer um precedente perigoso. Se determinadas áreas passam a operar sob padrões mais frouxos, cria-se uma hierarquia informal de legalidade, na qual boas intenções justificam más práticas. Democracias maduras não funcionam assim. O Estado de Direito não admite zonas de conforto administrativo nem causas que autorizem a suspensão tácita de controles.

 

Governar é impor limites, inclusive a si mesmo. Exige aceitar controles, assumir custos políticos e investir em capacidade institucional. Quando a resposta à ineficiência é a redução da fiscalização, o Estado abdica de parte de sua autoridade moral e jurídica. Não se trata apenas de dinheiro público potencialmente perdido, mas de credibilidade corroída.

 

A confiança pública não nasce da velocidade dos gastos, mas da certeza de que eles serão fiscalizados. Um Estado que trata o controle como obstáculo pode até – numa hipótese benevolente – agir mais rápido, mas cobra esse ganho com a perda de credibilidade.

A aposta leviana no salário mínimo

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O apelo populista que o salário mínimo desperta desde sua criação, há 85 anos, explica a gana com que o lulopetismo se agarra à política de aumento real como estratégia para obter retorno fácil em votos, mesmo à custa da explosão insustentável de gastos. É uma aposta que consegue a proeza de unificar a opinião de economistas de diferentes vertentes em torno de uma certeza: a fórmula terá de mudar no próximo governo, seja quem for o vencedor das eleições de 2026.

 

Mas Luiz Inácio Lula da Silva não parece disposto a admitir a inviabilidade de sua política de valorização real do mínimo. Ao contrário, é o primeiro a inflamar as hostes petistas a defender o indefensável, uma vez que estudos técnicos do próprio governo já indicaram a necessidade urgente de desvincular o mínimo de benefícios sociais e aposentadorias. Só que o interesse pessoal de Lula, voltado exclusivamente à campanha da reeleição, bloqueia qualquer discussão séria e profunda do problema.

 

Restam as gambiarras, recurso corriqueiro de seu governo, habituado a tapar com remendos mal-ajambrados os buracos que ele próprio se encarrega de abrir. Assim foi em 2024, quando foi obrigado a adequar a regra de reajuste real, que somava o índice de inflação ao resultado do PIB de dois anos anteriores, diante da impossibilidade de arcar com os custos. Limitou-se, então, o ganho real ao máximo de 2,5%, mesma regra do arcabouço fiscal. Era o mínimo – sem trocadilho – para conter o descontrole total que se estenderia a aposentadorias, seguro-desemprego e auxílios assistenciais. O arcabouço funcionou como uma trava, mas o salário mínimo continuou indexado ao PIB, um erro primário.

 

Na série Ajuste fiscal: a encruzilhada do próximo governo, o Estadão publicou entrevistas com 11 economistas (José Roberto Mendonça de Barros, Rogério Ceron, Alexandre Schwartsman, Rafaela Vitória, Ana Paula Vescovi, Bruno Funchal, Marcos Mendes, Manoel Pires, Bráulio Borges, Fernanda Guardado e Felipe Salto), e nelas a necessidade de mudar a atual política do salário mínimo foi ponto pacífico.

 

Antes, em abril, o economista Arminio Fraga foi execrado pelo PT ao propor o congelamento do valor real do mínimo por seis anos para conter o descontrole de gastos públicos. Presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique Cardoso, Arminio Fraga foi o primeiro da lista de economistas que participaram da criação do Plano Real a declarar, em entrevista ao Estadão, voto em Lula no segundo turno das eleições de 2022. Em março de 2024, em outra entrevista ao jornal, disse que, embora decepcionado, não estava arrependido. “O Brasil era um pária (sob a gestão de Jair Bolsonaro), acho que o risco de golpe foi real, felizmente não aconteceu.”

 

O apoio fundamental de Fraga na eleição não foi suficiente para refrear a reação irascível liderada por Gleisi Hoffmann e José Dirceu. A proposta, contudo, não é ideia isolada e até mesmo economistas que não defendem o congelamento, como Manoel Pires, da FGV, criticam a fórmula do governo.

 

Na questão do mínimo, a abordagem da gestão lulopetista segue o mesmo padrão de improviso usado nos programas sociais, sem base de cálculo transparente capaz de indicar os efeitos ao longo do tempo. O que interessa é o impacto midiático, além da sensação de curtíssimo prazo, na maioria das vezes enganosa e sem sustentação.

 

Mudar a regra de reajuste para superar a inflação levou a dois aumentos do mínimo em 2023, que somaram 8,9% sobre 2022, quando a inflação acumulada foi de 5,79%. Cada R$ 1 de aumento correspondeu a R$ 388 milhões nas contas públicas devido à vinculação de outras despesas ao mínimo. Dá para imaginar o que virá na campanha de 2026.

 

A maioria dos economistas ouvidos pelo Estadão na série defendeu a indexação do reajuste do salário mínimo a alguma medida ligada à produtividade do trabalho – que, aliás, tem-se mantido cronicamente baixa e estagnada nas últimas décadas, cenário que piorou nos anos recentes. Talvez seja pedir demais a um governo incapaz de buscar soluções estruturais para problemas que estão empurrando o País para o abismo. Como disse Bráulio Borges, o Brasil chegou a uma situação que exige uma terapia de choque.

Ministro do Supremo não é intocável

Julia Duailibi / O GLOBO

 

 

No final de 2024, um comitê do Senado americano divulgou o resultado de uma investigação de 20 meses sobre a “crise ética” da Suprema Corte dos Estados Unidos. O documento, chamado “Uma Investigação sobre o Desafio Ético da Suprema Corte”, apontava “lapsos éticos” e “repetidas falhas” de seus juízes. A investigação partia de um pressuposto básico: juízes vestem capas, mas não são super-heróis.

 

— Agora, mais que nunca, sabemos a extensão da crise ética em que a Suprema Corte está atolada, crise criada por ela mesma. Seja por não divulgar presentes luxuosos ou por não se declarar impedida em casos com aparentes conflitos de interesse, fica claro que os juízes estão perdendo a confiança do povo americano nas mãos de um bando de bilionários bajuladores. — disse o senador democrata Dick Durbin ao término da investigação.

 

Clarence Thomas, indicado em 1991 por Bush pai, escondeu caronas em jatinhos e passeios em iates oferecidos por um magnata. Antonin Scalia, indicado por Reagan em 1986 (ele morreu em 2016), aceitou “durante mais de uma década presentes luxuosos de bilionários e de pessoas com negócios perante o tribunal, incluindo 258 viagens pessoais”. Sotomayor, indicada por Obama em 2009, falhou ao não dar transparência a uma viagem paga uma universidade. O desconforto com os “lapsos éticos” foi mensurado pelo Pew Research Center, em agosto, quando metade dos americanos disse ter opinião favorável da Suprema Corte — em 2020, 70% a via com bons olhos.

 

O Supremo brasileiro passa por crise parecida. A viagem de jatinho de Toffoli e o contrato da mulher de Moraes com o Master são as polêmicas mais recentes. Mas já faz algum tempo que o STF ignora a prestação de contas, seja em viagens, eventos ou na atuação de parentes-advogados. Também avança nas questões do Direito, como o excesso de decisões monocráticas ou a mudança das regras do jogo de acordo com conveniências políticas.

 

É natural que os defensores do golpismo se sintam incomodados com o Supremo. Mas esse modus operandi também passou a causar desconforto em quem defende a democracia e quer golpista preso. Em quem entende que democracia de verdade não é vale-tudo, mas um sistema funcional de freios e contrapesos, que não protege castas.

 

Nos Estados Unidos, a resposta à crise foi a criação de um Código de Conduta em 2023. Aqui no Brasil, o presidente do STF, Edson Fachin, teve a coragem de defender um manual de boas práticas. Alguns dos mais influentes ministros são contra, como se fosse demérito estar no mesmo patamar do resto da sociedade, sujeita a regras de conduta escritas. Fachin tem como exemplo o Tribunal Constitucional da Alemanha, que, cinco anos antes dos americanos, editou seu manual de boas práticas. Entre os princípios, o óbvio: os juízes só podem aceitar presentes ou viagens que não comprometam a reputação do tribunal nem lancem dúvidas sobre a independência e imparcialidade dos seus integrantes.

 

No Brasil, estamos sempre em busca de um herói. Fora dos quadrinhos, pessoas são de carne e osso. O vilão de ontem vira herói hoje, para logo virar vilão novamente. Preservar as instituições é o maior ato de heroísmo.

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