Site divulga enquete para exagerar aprovação a governo Bolsonaro
Gabi Coelho, especial para o Estado
04 de agosto de 2020 | 13h09
Um artigo do site “Notícia Brasil Online” usa uma enquete publicada no Twitter do portal UOL Notícias para afirmar que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) “tem aprovação de 65% da população no combate à pandemia”. A alegação é enganosa porque enquetes em redes sociais não têm valor científico e não podem ser usadas para representar a opinião de uma população. A última pesquisa Datafolha apontou que 32% consideram o governo federal “ótimo” ou “bom”.
O artigo analisado teve mais de 22,3 mil interações no Facebook e no Twitter, de acordo com a ferramenta CrowdTangle.
Os votos na enquete do UOL refletem apenas a opinião dos seguidores do portal na rede social e não há controle dos perfis que respondem. Pesquisas de opinião pública de institutos como Ibope ou Datafolha, por outro lado, seguem uma metodologia científica que permite selecionar um grupo de pessoas que representa o todo da população brasileira, ainda que em menor número. Os entrevistados cumprem cotas proporcionais de sexo, idade, escolaridade e outras características.
Na enquete do UOL, 65% dos respondentes afirmaram aprovar a postura de Bolsonaro no controle da pandemia de covid-19. Foram mais de 68 mil votos ao longo de cinco dias. A pergunta foi divulgada durante programa do apresentador Otaviano Costa, OTALAB, exibido em canal do UOL.
A pesquisa Datafolha de opinião pública mais recente aponta um cenário diferente. No levantamento realizado entre os dias 23 e 24 de junho, 32% disseram aprovar o governo e 44% afirmaram reprovar a gestão federal. O instituto ouviu por telefone 2.016 brasileiros de todas as regiões e Estados do País e, segundo a metodologia da pesquisa, “adotou as recomendações técnicas necessárias para que os resultados se aproximem ao máximo do universo que se pretende representar”. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos.
A pergunta feita pelo Datafolha é a seguinte: “O presidente Jair Bolsonaro completou um ano e cinco meses de governo. Na sua opinião o presidente Jair Bolsonaro está fazendo um governo ótimo, bom, regular, ruim ou péssimo?” A pesquisa também ouviu a opinião dos entrevistados sobre Fabrício Queiroz, esquemas de rachadinha e sobre o nível de confiança nas declarações de Bolsonaro.
Nas redes sociais, é frequente que enquetes sejam apresentadas como pesquisas representativas da opinião pública. O Estadão Verifica já checou outros exemplos.
Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.
Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas: apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.
Na reta final no comando do STF, Toffoli foge de pautas polêmicas
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Prestes a encerrar sua presidência no Supremo Tribunal Federal, no dia 13 de setembro, o ministro Dias Toffoli tenta esfriar os ânimos de uma gestão marcada pela pandemia do coronavírus, crise institucional e atritos com o Palácio do Planalto. Na reta final, a ordem é fugir de polêmicas. A intenção ficou expressa na pauta de julgamentos do plenário em agosto. Ele evitou escolher casos de grande repercussão, que poderiam provocar reação da opinião pública ou do governo Jair Bolsonaro.
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Há ao menos duas ações polêmicas que aguardam julgamento há meses na Corte. Uma delas discute a descriminalização do porte de drogas para consumo. O julgamento começou em 2015 e foi interrompido pelo pedido de vista do ministro Teori Zavascki, morto em um acidente aéreo em janeiro de 2017. Alexandre de Moraes herdou o processo e o liberou para julgamento em plenário. Toffoli pautou a discussão para novembro do ano passado, mas acabou desmarcando.
O processo tem potencial para acender o debate na sociedade e gerar mais conflito com o Palácio do Planalto, que defende uma política antidrogas rigorosa. Nos bastidores, ministros do Supremo apostam que o plenário descriminalizará o porte para uso pessoal.
Na área penal, o STF ainda precisa analisar a validade da delação premiada dos executivos da JBS. A própria Procuradoria-Geral da República pediu a rescisão do acordo, porque delatores teriam mentido e ocultado informações. A discussão também foi adiada, depois de entrar na pauta de junho.
Toffoli optou em agosto por assuntos mais frios e temas tributários — no dia 19, a Corte debaterá PIS, Cofins, ICMS e custas judiciais. O tribunal vai julgar na quarta-feira um processo sobre o pagamento do Bolsa Família durante a pandemia. Está na pauta do mesmo dia uma ação sobre isenção de taxas cartorárias para beneficiários do programa Minha Casa Minha Vida. Tudo planejado para que a Corte não entre em mais confrontos com o Planalto.
Incêndio florestal força a retirada de 2.700 pessoas no Sul da França
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Três aviões dos bombeiros enfrentam coluna de fumaça provocada por incêndio florestal no Sul da França — Foto: Xavier Leoty / AFP Photo
Cerca de 2.700 pessoas tiveram que ser retiradas da região de Martigues, no Sul da França e a menos de 20 km de Marselha, devido a um grande incêndio florestal que nesta manhã de quarta-feira (5) havia dizimado mais de 1.000 hectares.
Ao menos 1.500 pessoas que deixaram o local são turistas, segundo o Corpo de Bombeiros. Não há feridos. Muitos deles foram retirados em barcos das equipes de resgate e também de particulares.
Aviões e 1.800 bombeiros combatem as chamas na manhã desta quarta. Ainda assim, o fogo avançou 8 km. Venta muito na região.
O incêndio atingiu pelo menos duas casas e uma delas foi completamente destruída, segundo os bombeiros.
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Homem tenta resfriar sua casa no Sul da França — Foto: Xavier Leoty / AFP Photo
Turistas
Turistas tiveram que se reunir nas praias da Cote d'Azur, a oeste de Marselha, e depois foram retirados por mar para o porto de pesca de Carro. De lá, eles foram transferidos de ônibus para a cidade de Martigues, onde passaram a noite, informaram os bombeiros.
O incêndio começou na tarde de terça (4), e às 22h já havia devastado 800 hectares de vegetação. PORTAL G1
'DECEPCIONADO' COM AS FORÇAS ARMADAS, CIRO GOMES TENTA SE CONSTRUIR COMO TERCEIRA VIA CONTRA LULA E BOLSONARO
A mais de dois anos para a campanha de 2022, Ciro Gomes está de mangas arregaçadas na se preparando para sua terceira tentativa de se eleger presidente, em que aposta como nunca no esforço em cumprir o papel de uma terceira via.
Acaba de lançar Projeto nacional: o dever da esperança (Leya), livro em que apresenta suas propostas para o Brasil. Confinado devido à Covid, tem percorrido lives e afins para divulgá-lo, uma maneira de manter o clima de campanha. Todas as entrevistas ou transmissões em tempo real são sempre acompanhadas da militância pedetista.
Organizados com hashtags e postagens repetidas para fazer um assunto viralizar, os militantes, batizados de "turma boa", são capazes de colocá-lo nos trending topics do Twitter, como ocorreu na quinta-feira, e badalar sua imagem efusivamente.
Efusão, aliás, no significado que a geologia lhe dá, é um termo bem apropriado para definir alguns dos momentos da entrevista. Tal qual o derramamento da lava quando escoa da terra, Ciro disparou sem dó, em gomês castiço, contra seus adversários.

Contra nenhum deles, entretanto, falou com a mesma raiva quanto fez contra dois: Jair Bolsonaro e Lula, os dois principais nomes da esquerda e da extrema direita brasileiras. É no meio, como centro esquerda, que Ciro tenta encontrar seu veio.
Contra Lula, disse ser pequena a chance de reconciliação. Os dois estão rompidos desde 2018, quando o PT lançou a candidatura de Lula, tendo como vice Fernando Haddad, que depois assumiria como cabeça de chapa, quando o registro de Lula foi negado pelo TSE.
Ciro esperava ser apoiado pelo petismo e afirma ter recusado um convite de Lula para ser ele o vice provisório que assumiria como candidato oficial após o veredicto do TSE se o petista, preso, podia ou não concorrer.
"Não sou mais amigo de Lula. Perdi o respeito por ele. Lula queria que o povo o tirasse da cadeia e o levasse como imperador. Lula se corrompeu. Tudo o que ele quer hoje é fazer um partido com 50 deputados para meter a mão em milhões do fundo eleitoral"
Perguntado por que tentou visitar Lula em abril de 2018 na cadeia, na expectativa de tentar um acordo eleitoral para a campanha daquele ano, Ciro disse que tentou visitar o ex-presidente na cadeia por questões humanitárias.
Fez ressalvas a um segmento do PT, composto por nomes como Jaques Wagner, Eduardo Suplicy e outros, com quem gostaria de ter interlocução. Mas afirma que eles são alijados do diretório nacional por não compactuarem com tudo que Lula diz.

Feitas as críticas ao petismo, a lava quente mira o bolsonarismo, força que, segundo ele, se retroalimenta com o petismo para manter-se viva.
Acredita que Bolsonaro tentará um golpe contra a democracia, é um "charlatão" e "mente ao invocar a figura Jairzinho paz e amor".
OMS defende desenvolvimento ‘seguro’ de uma vacina contra a covid-19
04 de agosto de 2020 | 12h02
A Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu nesta terça-feira, 4, respeito aos protocolos e regulamentações em vigor para o desenvolvimento de uma vacina contra o novo coronavírus, após a Rússia prometer milhões de doses a partir do início de 2021.
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“Toda vacina e todo medicamento para este fim deve ser submetido a todos os testes antes de ser aprovado para distribuição”, respondeu o porta-voz da OMS Christian Lindmeier quando perguntado sobre os anúncios russos em uma coletiva de imprensa. “Existem diretrizes muito claras, regulamentações para fazer os processos avançarem de maneira segura e eficaz”, acrescentou.
“Por vezes, os pesquisadores, individualmente, afirmam ter encontrado algo que obviamente é uma boa notícia. Mas entre encontrar e poder ter uma vacina que funcione e passar por todas as etapas, há uma grande diferença”, afirmou, lembrando que a OMS ainda não tem “nada oficial” até o momento.
A Rússia anunciou na segunda-feira, 3, que três empresas biomédicas estariam em condições de produzir industrialmente, a partir de setembro, uma vacina desenvolvida pelo laboratório de pesquisa em epidemiologia e microbiologia Nikolái Gamaleia.
“De acordo com as primeiras estimativas, poderemos proporcionar centenas de milhares de doses de vacina por mês e, em seguida, vários milhões no início do próximo ano”, disse o ministro de Comércio da Rússia, Denis Manturov, à agência de notícias estatal TASS.
De acordo com a OMS, há 164 vacinas em desenvolvimento no momento. Destas, 25 estão em fase clínica - em testes em seres humanos - e 139 em pré-clínica.
Na segunda-feira, 3, o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que talvez nunca exista uma imunização contra o coronavírus. Ele reforçou a necessidade dos países usarem o conjunto de ferramentas que já tem eficácia comprovada contra a doença, como rastreamento de contatos e uso de máscaras. / AFP
Bolsonaro usa Lei de Segurança Nacional para intimidar críticos
[RESUMO] Autor, acusado pela Presidência de crime de falsa imputação por postar charge que retrata Bolsonaro pintando uma suástica, afirma que a Lei de Segurança Nacional, editada na ditadura militar, está sendo usada pelo governo para perseguir críticos. Em sua opinião, a liberdade de informação sofre golpes em todo o mundo com a disseminação de desinformação e discurso de ódio.
Bons tempos aqueles das fake news que não faziam mal a ninguém e ainda não eram chamadas por esse nome. Serviam para divertir, dar o que falar e aumentar a venda de jornais. Foi o caso da Perna Cabeluda, que assombrou Recife e Olinda nos anos 1970, e do bebê-diabo, nascido em São Bernardo do Campo, em São Paulo, em 1982.
A Perna Cabeluda aparecia do nada e distribuía chutes. Em situações extremas, matava. Dezenas de pessoas diziam ter sido vítimas do seu mau humor. O bebê-diabo teve até foto publicada na capa do jornal Notícias Populares, que nunca vendeu tanto até descobri-lo. Quando as vendas voltaram ao normal, o jornal publicou que o bebê havia sido sequestrado por um bando de fanáticos nordestinos.
Essas notícias inventadas distinguiam-se das cascatas. Cascata era algo possível de acontecer. E, se não acontecia espontaneamente, você fazia com que acontecesse. Quando trabalhava na revista Manchete, ajudei diversos fotógrafos a produzirem cenas para ilustrar reportagens.
Em Santarém, no Pará, providenciei bolas de pingue-pongue para substituir ovos de tartarugas caso elas não tivessem desovado em um banco de areia no rio Tapajós. Não foi preciso usá-las, mas foi preciso pescar as tartarugas com uma rede, cavar buracos para cada uma e amarrar suas nadadeiras para imobilizá-las.
Não sabíamos que só desovavam à noite, quando a temperatura era mais amena. Demos sorte porque durante o dia elas se reuniam em torno do banco de areia e, às vezes, o escalavam para passear. Cavamos e encontramos os ovos depositados por uma delas. À noite, seria impossível fotografá-las com a qualidade exigida pela revista.
A cascata mais famosa que ajudei a conceber foi a que mostrou dom Hélder Câmara, então arcebispo de Olinda e Recife, abraçando duas criancinhas. A censura da ditadura militar de 1964 proibia a publicação de qualquer notícia sobre dom Hélder, o Bispo Vermelho, tido como inimigo do regime. Foi assim durante quase dez anos.
A revista não resistiu à beleza e ao simbolismo da foto e a publicou em duas páginas. Uma das crianças era meu irmão caçula. A outra, uma amiguinha dele. Tudo foi combinado com o bispo. Infelizmente, a ditadura não caiu por causa disso, mas valeu-se da Lei de Segurança Nacional para abrir um inquérito e apurar o desrespeito à ordem da censura.
Guardo, emoldurada, minha ficha do Serviço Nacional de Informações, o grande órgão de espionagem da ditadura. Tão poderoso que dos seus quadros saíram dois presidentes da República: os generais Garrastazu Médici e João Baptista Figueiredo.
Ao reler a ficha dei-me conta do número de vezes que já fui alvo da Lei de Segurança Nacional ao longo de 53 anos de jornalismo. A primeira foi em 1968, ao participar como aluno da Universidade Católica de Pernambuco do Congresso da União Nacional dos Estudantes, entidade amaldiçoada pelo regime militar.
Em plena ditadura, imaginem se poderia dar certo um congresso clandestino realizado a céu aberto em um sítio da cidade de Ibiúna, no interior de São Paulo, onde não havia alojamento nem comida suficiente. Éramos pouco mais de 800 estudantes de todo o país. Acabamos presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional.
A segunda vez foi quando eu e mais 25 colegas, em março de 1969, fomos expulsos da universidade por atividades qualificadas de subversivas. Por um ano ficamos proibidos de estudar. Novamente por infringir a Lei de Segurança Nacional fui preso mais duas vezes.
Os processos que respondi com base na Lei de Segurança Nacional deram em nada. Como espero que dê em nada o processo que o atual ministro da Justiça pediu que fosse aberto contra mim pela republicação na conta do meu blog no Twitter de uma charge de Aroeira, em que o presidente, Jair Bolsonaro, aparece com um balde de tinta depois pintar a suástica nazista.
Eu e Aroeira estamos em companhia ilustre. Recentemente, o Ministério da Defesa invocou a lei para processar o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Gilmar advertiu que, a continuar assim, o Exército acabará como sócio do governo no genocídio em curso no rastro da pandemia do coronavírus.
Porque é de genocídio, afinal, que se trata. Bolsonaro é o único presidente que decidiu ignorar o vírus como se ele não existisse, não matasse e não contaminasse ninguém. Virou garoto-propaganda de uma droga que não funciona. Vetou o uso obrigatório de máscaras.
A Lei de Segurança Nacional, em sua terceira versão, é uma herança legada pela ditadura militar. Já foi pior do que é. Previa até pena de morte. Sua versão atual é de 1983 e lista os crimes contra a ordem política e social, as instituições e a pessoa do presidente. Suas penas são mais duras que as do Código Penal. E tem um peso simbólico: é o Estado condenando os que atentam contra a pátria.
Há um mês, servidores do Ministério da Saúde foram constrangidos a assinar um termo de sigilo sob a ameaça de serem enquadrados na Lei de Segurança Nacional. E alertados de que, na situação de emergência vivida pelo país com a pandemia, “a divulgação de imagens e informações poderia comprometer a soberania e a integridade da democracia”.
Quantos crimes já não foram cometidos contra a democracia a pretexto de defendê-la! Em 1937, um documento sobre uma suposta conspiração judaica-comunista para tomar o poder no Brasil serviu de pretexto para que o então presidente Getúlio Vargas instaurasse uma ditadura que durou oito anos.
O plano era falso. Fora concebido pelo coronel Olímpio Mourão Filho. Entrou para a História como o Plano Cohen. Em 1964, o coronel, à época general, comandou as tropas que desceram de Juiz de Fora sobre o Rio de Janeiro, deflagrando o golpe que daria origem à ditadura militar mais recente.
Nos oito anos em que Lula presidiu o Brasil, foram instaurados 29 inquéritos com base na Lei de Segurança Nacional. Em um ano e meio de Bolsonaro, 30. Mais do que para condenar, a lei, hoje, é usada para intimidar e inibir críticas ao governo.
Políticos de todas as tendências fingem que a Lei de Segurança Nacional não existe. Contudo, dada à natureza do presidente que temos, seria esperar demais que seu governo não a acionasse ao sentir-se em apuros.
Esperar o quê de um presidente que já defendeu a ditadura, a tortura e lamentou as poucas mortes de presos políticos? Não foram poucas, foram quase 500. Um presidente que, em abril último, confessou em reunião gravada que seu sonho é armar o maior número possível de brasileiros. Armá-los para quê?
Segundo ele, para impedir que uma nova ditadura se instale no país. Certamente uma ditadura de esquerda, porque Bolsonaro não se oporia a uma ditadura de direita. E se o presidente, hoje, fosse Lula ou Dilma? E se um deles defendesse armar o povo? Como os militares reagiriam?
Do presidente José Sarney, dizia o então senador Fernando Henrique Cardoso que ele era a crise. Se viajasse, a crise viajava. Se despachasse no Palácio do Planalto, a crise despachava. Se repousasse no seu sítio em Brasília, a crise repousava.
A crise, agora, atende pelo nome de Jair Messias Bolsonaro. Enquanto os presidentes que o antecederam faziam as crises murcharem, Bolsonaro faz o contrário: ele as produz e agrava.
Os otimistas dizem que a democracia tem seu sistema de pesos e de contrapesos funcionando a contento. Não é o que se vê em países onde governantes autoritários se elegeram. A democracia está em risco. E um dos seus pilares, a liberdade de imprensa, repleto de rachaduras.
O jornalismo não é diferente de qualquer outra profissão. Cobra talento, disciplina, paixão, suor e sorte. Mas não é igual a qualquer outra profissão. E por causa de um detalhe crescentemente desvalorizado desde a erupção das redes sociais: a verdade.
A missão do jornalista é buscar a verdade e oferecê-la ao público de maneira compreensível e honesta. É só para isso que serve. Se o jornalismo serve para outras coisas, não serve ao público. E se não serve ao público, é um simulacro de jornalismo. O jornalismo existe para satisfazer os aflitos e afligir os satisfeitos.
Mais do que informações, deve transmitir entendimento, porque é do entendimento que deriva o poder. Em uma democracia, o poder é dos cidadãos. E para que funcione na sua plenitude, a democracia depende de cidadãos bem-informados.
Não é por burrice que Bolsonaro confunde liberdade de expressão com liberdade para divulgar notícias falsas. É porque dispõe na internet de uma azeitada máquina de distribuição de mentiras e de ataques à reputação dos seus desafetos.
Notícia falsa não é notícia errada, é apenas falsa. É posta a circular para enganar as pessoas e alcançar determinados propósitos. Notícia errada é apenas errada. Se publicada por jornalista, é corrigida. Se não for, ele perde credibilidade. Sem credibilidade, perde o emprego. Autores de notícias falsas nada perdem e ganham dinheiro.
A internet deu voz aos idiotas, observou o filósofo e escritor italiano Umberto Eco. Uma parte deles, antigamente, só se fazia ouvir em pequenos grupos. Respeite-se, contudo, o direito dos idiotas à livre expressão do pensamento, mas combatam-se as quadrilhas criminosas que usam as redes sociais para disseminar o discurso do ódio e deliberadamente desinformar, enfraquecendo a democracia. Pandemia não é uma gripezinha. Cloroquina não cura o vírus.
Todas as pessoas têm direito à própria opinião, mas não direito aos próprios fatos, ensinou um senador norte-americano. Fatos são fatos, não escolhas aleatórias. O vírus só poderá ser vencido quando existir uma vacina. É fato! A terra é plana não é fato, é uma escolha aleatória que contraria o fato de que ela é redonda ou quase isso.
É fato que Bolsonaro foi eleito pela maioria dos brasileiros. Como é fato que foi eleito por apenas 39% dos eleitores aptos a votar. Poderiam ter votado 147 milhões, e ele teve menos de 58 milhões dos votos. Não foi eleito pela maioria nacional. Não recebeu o poder para fazer o que quiser.
Presidente da República só pode o que a Constituição permite e o Congresso aceite. Não foi eleito para esmagar a minoria. Mas se dependesse só de Bolsonaro ele a esmagaria. E com a ajuda do Exército que no passado o afastou dos seus quadros por ter planejado detonar bombas em quartéis.
O direito das pessoas à livre informação está sob a ameaça da “nova censura”. Por “velha censura”, entendam-se dois tipos diretos de interferência no processo de produção e de divulgação de informações: o econômico (omissão de notícias em troca de anúncios ou dinheiro em espécie) e o autoritário (omissão de notícias por ordem decorrente de organismos de um regime de força ou ditatorial).
A "nova censura" é mais sofisticada do que a velha. E, para produzir seus efeitos perversos, independe da existência de um regime autoritário. Seus mecanismos:
- A formação de grandes conglomerados de mídia;
- A concessão de canais de rádio e de televisão a grupos políticos;
- A indústria das assessorias de imprensa;
- O emprego nos governos e em empresas estatais de um número gigantesco de jornalistas;
- O fortalecimento das agências oficiais de notícias.
A "nova censura" se alimenta de condições que lhe são favoráveis:
- A situação falimentar ou pré-falimentar da maioria das empresas de comunicação;
- A dependência cada vez maior dessas empresas de verbas oficiais de propaganda;
- A dependência da mídia de “pautas oficiais” que emanam de instituições, entidades e demais núcleos de poder.
Em setembro de 1994, o ministro Rubens Ricupero, da Fazenda, resumiu em uma frase o espírito que orienta a "nova censura": “O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. Lula presidente disse: “A gente não gosta de ver notícia publicada. Gosta de ver publicidade”. E Paulo Maluf, ex-governador de São Paulo, ao comentar o estupro seguido de assassinato de uma mulher: “Estupra, mas não mata”.
A liberdade de informação está sendo violentada em todo canto. A internet criou a cultura da informação gratuita e pôs em xeque o modelo de financiamento do jornalismo. Informação de boa qualidade custa caro e poucos concordam em pagar. Só as elites pagam e estão bem informadas.
Uma população mal-informada é meio caminho andado para a escolha de governantes medíocres. Twitter, Facebook, Google e YouTube não se incomodam com isso, desde que continuem ganhando rios de dinheiro. Os efeitos bárbaros da pandemia já se fazem sentir sobre o jornalismo profissional.
O estupro da liberdade de informação se estende ao direito de todo ser humano dizer o que pensa e de divergir. A cada dia, o manto da intolerância torna-se mais espesso, estimulando o avanço da cultura do cancelamento. Se eu discordo do que você fala, não quero mais ouvi-lo. Apago-o, simplesmente. Vou atrás de quem diga o que reforce minhas convicções.
Em todo o mundo, os políticos se declaram contra as fake news porque elas lhes tiram votos. São eles, contudo, os principais responsáveis por sua propagação.
O Senado aprovou, e a Câmara examina um projeto de lei que limite as fake news sem ferir o direito à livre manifestação de pensamento, mas tão cedo haverá lei a respeito. Se a Câmara modificar o projeto, ele será outra vez votado no Senado. Só depois irá à sanção do presidente da República, que o vetará no todo ou em parte, com a desculpa de que atenta contra a Constituição.
Ora, a Constituição não assegura a ninguém o direito de mentir impunemente e de enlamear a honra alheia, tanto mais sem se identificar. Que bem pode fazer uma notícia falsa? É crime! Crime contra a humanidade.
No princípio, era o verbo. E o verbo anunciou que a internet fortaleceria a democracia ao dar voz aos que não tinham voz. Acontece que o número real dos verdadeiros donos da voz é cada vez menor. E somente os donos da voz são relevantes.
Na tarde de 24 de julho, em Budapeste, capital da Hungria, milhares de pessoas marcharam a favor da liberdade de imprensa. Jamais se ouviu o primeiro-ministro, Viktor Orbán, mandar jornalista calar a boca, mas a mídia húngara vem sendo sufocada desde que ele chegou ao poder.
A estratégia do governo húngaro para reprimir jornalistas não busca o confronto direto com eles. Meios de comunicação independentes são privados de receitas, devido à pressão do governo sobre seus anunciantes. E uma vez debilitados, acabam comprados por empresários amigos do primeiro-ministro, que, em seguida, mudam sua linha editorial.
A admiração de Bolsonaro pelo primeiro-ministro húngaro, que foi um dos poucos chefes de Estado a comparecer à sua posse, só é menor que sua admiração por Trump, o presidente americano que mais tentou amordaçar a imprensa. Por enquanto, sorte nossa que Bolsonaro não passe de uma caricatura grotesca dos dois.
RICARDO NOBLAT / FOLHA DE SP





