COMO A EXPLOSÃO EM BEIRUTE DERRUBOU O GOVERNO DO LÍBANO
BBC News Brasil
Depois de uma semana de tristeza e revolta pela enorme explosão no porto de Beirute, que matou ao menos 220 pessoas na terça-feira (04/08), a cúpula do governo do Líbano caiu.
O primeiro-ministro Hassan Diab anunciou sua renúncia na segunda-feira (10/08), em um discurso televisionado.
Nele, afirmou que o "crime" da explosão era resultado da corrupção endêmica e pediu a responsabilização dos culpados.
"Descobri que o sistema de corrupção é maior que o Estado, e que este último é oprimido por esse sistema e não consegue confrontá-lo ou se livrar dele."
Diab declarou também que está "dando um passo atrás" para estar ao lado do povo "lutando a batalha por mudanças".
"Declaro hoje a renúncia deste governo. Que Deus proteja o Líbano", afirmou.
Antes, ministros de Justiça, Informação e Meio Ambiente já haviam deixado seus cargos.
NITRATO DE AMÔNIO
O presidente e o premiê libaneses já haviam dito que a explosão foi resultado da detonação de 2,7 mil toneladas de nitrato de amônio que fora armazenado no porto seis anos antes, sem as devidas medidas de segurança.
Parte da população acusa a liderança do Líbano de ter responsabilidade no episódio, atribuindo o problema à negligência e à corrupção no país. Uma combinação de crise político-econômica constante, em meio à pandemia e ao episódio da explosão aumentou a insatisfação popular com o governo do país.
Durante o fim de semana, manifestantes invadiram prédios do governo no centro de Beirute e entraram em confronto com a polícia.
Segundo o prefeito de Beirute, Marwan Abboud, ainda há 110 pessoas desaparecidas após a explosão da terça-feira. Por toda a cidade, centenas de milhares de pessoas ficaram desabrigadas ou estão morando em lares bastante danificados pelo acidente.
Segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, existe uma grande escassez de itens básicos entre os desabrigados. "Eles precisam de abrigo, comida, produtos de limpeza. E precisam de ajuda para recolher o que sobrou de suas casas", afirmou à BBC a porta-voz da instituição, Rona Halabi.
DO DESCONTENTAMENTO À RENÚNCIA
O descontentamento da população vem crescendo há anos. No final de 2019, um plano oficial de cobrar impostos sobre o uso do WhatsApp derivou em protestos em massa contra a crise econômica e a corrupção.
A pandemia de coronavírus vinha contendo as manifestações populares, que voltaram a eclodir após a explosão no porto. Muitos consideraram insuficientes as promessas de investigação do governo.
Estimativas oficiais são de que a explosão tenha causado mais de US$ 3 bilhões em danos de infraestrutura, mas que as perdas econômicas do Líbano cheguem a US$ 15 bilhões.
O país já vivia uma profunda crise econômica antes do desastre, com um número crescente de famílias sendo empurradas à fome e à pobreza.
Agências da ONU advertem que haverá uma crise humanitária se não for possível levar, com rapidez, carregamentos de alimentos e medicamentos. Isso se agrava pelo fato de que o porto destruído na explosão era a principal via de abastecimento de Beirute.
Tudo isso ajuda a explicar a pressão sobre o governo libanês, forçando a renúncia.
Doadores internacionais prometeram quase US$ 300 milhões em ajuda ao Líbano, em uma conferência virtual realizada no domingo liderada pelo presidente francês, Emmanuel Macron.
Um comunicado conjunto dos doadores, porém, fez menção a preocupações com a corrupção, afirmando que a assistência financeira deve ser "entregue diretamente à população libanesa, com o máximo de eficiência e transparência".
Compete à União, e não ao estado, fixar regras gerais de saneamento, decide STF
A fixação de regras gerais de saneamento é competência da União, cabendo aos municípios definir se o serviço será prestado de forma direta ou por delegação. O entendimento é do Supremo Tribunal Federal ao declarar a inconstitucionalidade de trecho da Constituição do Paraná.

O julgamento, em Plenário Virtual, se encerrou na última terça-feira (4/8), com nove ministros acompanhando o voto da relatora, ministra Cármen Lúcia.
A ação foi ajuizada pelo Partido Humanista em 2010 para contestar o parágrafo 3º do artigo 210-A da Constituição do Paraná, que vedava a prestação do serviço de saneamento por empresas privadas. A legenda alegou que a proibição de concessão dos serviços à iniciativa privada viola os princípios da livre concorrência e livre iniciativa.
De acordo com a relatora, houve a usurpação da competência do município para decidir sobre a forma de prestação do serviço de saneamento básico.
Cármen apontou precedentes no qual a corte entendeu que "os Estados-membros — que não podem interferir na esfera das relações jurídico-contratuais estabelecidas entre o poder concedente (quando este for a União ou o município) e as empresas concessionárias" (ADI 2.337).
Da mesma forma, o tribunal já entendeu que os Estado não têm competência para mudar as condições, "que, previstas na licitação, acham-se formalmente estipuladas no contrato de concessão celebrado pela União e pelo Município, de um lado, com as concessionárias, de outro, notadamente se essa ingerência normativa, ao determinar a suspensão temporária do pagamento das tarifas devidas pela prestação dos serviços concedidos (serviços de energia elétrica, sob regime de concessão federal, e serviços de esgoto e abastecimento de água, sob regime de concessão".
Vencido, o ministro Marco Aurélio relembrou que no julgamento de outra ação (ADI 1.842), ele apontou que "saneamento básico é o único serviço público econômico arrolado nas competências materiais compartilhadas entre todos os entes federativos, a teor dos incisos do artigo 23 da Carta da República".
"A possibilidade de exploração econômica dos serviços, diretamente ou por delegação, mediante a cobrança de tarifas e taxas, representa elemento de natureza política", entende o vice-decano. Para ele, o exame dessas atividades "transcendem o mero interesse da população local".
O partido é representado pelo escritório Wald, Antunes, Vita, Longo e Blattner Advogados. Para Arnoldo Wald e Marcus Vinicius Vita, a decisão "restabelece a livre concorrência e a autonomia do município para decidir qual a melhor forma de prestação do serviço de saneamento".
"É absolutamente nula, pela decisão do Supremo, qualquer norma estadual que vede a possibilidade de outorga dos serviços de saneamento à iniciativa privada", complementou.
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ADI 4.454
Fernanda Valente é correspondente da revista Consultor Jurídico em Brasília.
Revista Consultor Jurídico, 10 de agosto de 2020, 8h24
Aras defendeu que perfis bolsonaristas bloqueados por decisão de Moraes fazem 'crítica legítima'
Em manifestação anterior à decisão da suspensão das contas nas redes sociais de bolsonaristas no âmbito do inquérito das fake news por Alexandre de Moraes, o Procurador-Geral da República, Augusto Aras, defendeu as publicações consideradas criminosas pelo ministro do STF.
Aras as classificou como "crítica legítima". Ele indicou a ministros da Corte que deve manter o posicionamento ao tratar dos recursos de Facebook e Twitter no STF sobre o bloqueio de perfis fora do Brasil.
Na manifestação de maio, Aras diz que "a livre circulação de ideias e o debate público são fundamentais para a a garantia de uma sociedade aberta". Ele argumenta que a liberdade de expressão, assim como as liberdades de imprensa e de cátedra, são freios a "eventuais ímpetos autoritários".
Ele ainda diz que o bloqueio dessas contas, como viria a ser determinado por Alexandre de Moraes, seria medida desproporcional.
O inquérito das fake news apura a disseminação de conteúdo falso e ameaças a ministros do STF nas redes sociais.Figuras como o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB), o blogueiro Allan dos Santos e os empresários Luciano Hang (da Havan) e Edgard Corona (das academias Smart Fit), alvos de investigação no âmbito do inquérito, tiveram suas contas suspensas.
Em junho, ao votar pela continuidade e pela legalidade do inquérito, Moraes leu mensagem em que incitavam o estupro das filhas de ministros e disse que essa "bandidagem" não é liberdade de expressão "em nenhum lugar do mundo".
Com Mariana Carneiro, Guilherme Seto e Nathalia Garcia / FOLHA DE SP
Bolsonaro é o principal, mas não o único responsável pelas 100 mil mortes
A primeira das quase vinte colunas que escrevi sobre a pandemia nesse espaço, publicada em 16 de março, tinha o título “Crimes de responsabilidade de Bolsonaro não podem ficar sem resposta”. Ficaram!
No dia anterior, o presidente, recém retornado dos EUA acompanhado por duas dezenas de auxiliares contaminados, tinha participado de uma manifestação em Brasília, por ele convocada, onde gerou aglomeração, apertou mãos, abraçou e tirou selfies com apoiadores. No dia seguinte, ocorreu em São Paulo a primeira das 100 mil mortes por Covid-19.
Nesses quase cinco turbulentos meses, ele foi o principal propagandista de fake news que desinformaram a sociedade e afetaram a eficácia da quarentena, levando a esse triste marco. Parte da população acreditou que o novo coronavírus era uma “fantasia” e que as medidas recomendadas eram inúteis.
O bolsonavirus foi reincidente, gerando várias ondas, como uma epidemia. Com a autoridade de um presidente, contrariou as recomendações sanitárias, negou a ciência, menosprezou a gravidade da doença, recomendou remédios inúteis, estimulou movimentos contra o isolamento.
O Ministério da Saúde continua sem ministro efetivo desde 14/5, período em que 87 mil brasileiros perderam a vida. O país ficou sem coordenação nacional na saúde para enfrentar a maior crise sanitária dos últimos cem anos.
A boiada passou, levando a pandemia para as áreas indígenas, invadidas por garimpeiros e madeireiros ilegais. A fiscalização ambiental foi desorganizada, levando a um aumento de 72% no desmatamento, de julho de 2018 a junho de 2020. As barbaridades cometidas não cabem nesse espaço, mas são conhecidas.
Apesar desses crimes, que muitos consideram um genocídio, Bolsonaro continua firme. Nada foi feito para removê-lo. O STF e o Congresso, ao invés de agirem para extrair o vírus que se instalou no governo federal, medida de saneamento indispensável para enfrentar a pandemia, involuntariamente o auxiliaram, impondo decisões corretas, mas que se tornaram úteis ao presidente.
Para evitar o negacionismo e a loucura que nos levaria não a cem mil mas a um milhão de mortos, o STF decidiu que estados e municípios tinham autonomia para decidir as regras da quarentena. Com isso, os governos subnacionais se tornaram responsáveis pelos acertos e erros da estratégia adotada, dando ao presidente o argumento de que ele estava de mãos atadas.
O Congresso elevou a renda emergencial de R$ 200 para R$ 600, evitando uma convulsão social e dando fôlego para o comércio e serviços. Defendida pela oposição de esquerda, a renda virou um instrumento do presidente para ampliar o apoio nos setores populares. Transformada na Renda Brasil virará um poderoso ativo eleitoral.
Até mesmo a ofensiva judicial contra seus aliados mais fanáticos o beneficiou. Acuado, decidiu se afastar (temporariamente?) dos mais radicais e buscar o apoio do centrão. A máquina federal é suficientemente forte para garantir sustentação no Congresso e no jogo do toma lá dá cá com os prefeitos.
A pandemia está longe do fim. A questionável reabertura da economia, promovida pelos estados e municípios enquanto o número de casos e de óbitos continua acelerado na maioria das unidades da federação, exige uma estratégia e coordenação governamental, a nível nacional, muito bem formulada e executada para enfrentar as crises sanitária, econômica e social. Ninguém acredita que a gestão Bolsonaro será capaz de formular e levar isso adiante.
Tal situação aumenta a responsabilidade dos governantes subnacionais. Especificamente no caso de São Paulo, acertos e erros vêm sendo cometidos. Cem mil mortes no país são chocantes, mas 25 mil óbitos no estado e 10 mil na capital (16 mil, se incluídos os óbitos suspeitos) são proporcionalmente muito maiores que a média nacional. Para comparar, a Argentina, com população próxima ao estado de São Paulo, registrou apenas 4,1 mil mortes desde o início da pandemia.
Isso mostra que se Bolsonaro é o grande responsável pelo desastre nacional, o governador Doria e o prefeito Bruno Covas têm também sua dose de responsabilidade, pois são os principais condutores da estratégia no estado que, é bom lembrar, tem a maior e melhor rede hospitalar e o segundo maior orçamento do país.
Enquanto a média nacional é de 46 óbitos por 100 mil habitantes, o estado de São Paulo tem 60 e a capital alcança 87, considerando apenas os óbitos confirmados. Se incluídos os suspeitos, o município de São Paulo chega a 135 óbitos por 100 mil, três vezes maior que a média nacional.
Erros foram cometidos desde o início da pandemia. O governador não adotou o lockdown, preferindo uma quarentena relaxada, que manteve um isolamento muito parcial, que garantiu os leitos de UTI, mas não a queda dos casos. A Argentina, mesmo com índices muitíssimos mais baixos que os de São Paulo, manteve um isolamento muito mais radical. No Chile, as pessoas apenas podem sair na rua seis horas por semana, com agenda prévia pela internet.
Não foram realizados testes em massa, o que permitiria isolar os contaminados assintomáticos em hotéis de quarentena para evitar a contaminação de familiares e colegas de trabalho. Famílias inteiras foram infectadas.
A redução do transporte coletivo, especialmente a frota de ônibus, manteve a superlotação dos veículos, que se tornaram vetores de transmissão. Pesquisa realizada pela Unifesp, mostrou que os distritos onde há maior utilização da frota de ônibus apresentaram os mais altos números absolutos de óbitos por Covid-19.
Nada foi feito para melhorar as condições dos que habitam em moradias precárias, de modo que pudessem seguir a recomendação de “ficar em casa”. Os distritos centrais, com maior concentração de cortiços, apresentaram os mais altos índices relativos de óbitos. Nada foi feito para remanejar esses moradores e desadensar suas moradias.
Nenhuma ação significativa foi implementada para os moradores em situação de rua, cujo número claramente se elevou devido aos despejo de inquilinos de cortiços, que ficaram sem renda para o aluguel. A prefeitura não suspendeu ações de reintegração de posse em terrenos municipais.
Não se implementou um programa de inclusão digital para garantir acesso livre à internet para a população de baixa renda, em particular os estudantes da rede pública que ficaram prejudicados.
A decisão de flexibilização do isolamento não foi acompanhada de uma forte campanha de prevenção. É só circular pela cidade para verificar a grande quantidade de pessoas sem máscaras, aglomeradas sem necessidade e compartilhando objetos sem nenhum cuidado. Quase todo o comércio e serviços voltaram às atividades e se debate a retorno das escolas malgrado os altos números de casos e mortes.
A situação de São Paulo não difere da maioria dos demais estados. Nesse contexto, as perspectivas de redução significativa no número de casos e mortes são remotas. Tudo indica que caminharemos para os 200 mil óbitos antes do final do ano.
Se Bolsonaro é o principal responsável, não podemos isentar governadores e prefeitos, muitos dos quais envolvidos em escândalos de corrupção na compra de equipamentos da saúde, como o Witzel no Rio de Janeiro, da responsabilidade pelos 100 mil mortos.
O agro é uma riqueza de todos e não tem partido
10 de agosto de 2020 | 03h00
A revolução da agricultura e da pecuária brasileiras foi resultado de uma feliz conjunção de políticas públicas e de iniciativa privada. O Estado brasileiro ofereceu a privilegiada qualidade das universidades rurais, o investimento público em pesquisa tecnológica, o sistema de crédito rural e um ambiente institucional que garantia a propriedade privada e a liberdade. O setor privado ofereceu uma nova geração de empreendedores dispostos ao risco e à inovação.
O início da nova agricultura foi obra do governo Geisel, que enfrentou os mitos em que se baseava então o pensamento dos políticos ditos progressistas. Depois dele, em grau maior ou menor, todos os sucessivos governos deram continuidade ao apoio estatal, tornando claro que o agro brasileiro não tem origem nem cor política, é patrimônio de todos os brasileiros.
O comércio exterior tornou-se elemento essencial do agro brasileiro. Nossa grande presença no comércio internacional é recente e tomou corpo já neste século. No início a expansão foi muito forte, passou de US$ 20 bilhões no ano 2000 para US$ 95 bilhões em 2011. A partir daí nossas exportações se estabilizaram por mais dez anos nesse patamar. No futuro os avanços serão mais difíceis, requerendo um esforço conjugado de produtores e governo.
Os efeitos da pandemia nas economias do mundo nos levam a prever um futuro próximo de desglobalização e de protecionismo, o que significa dificuldades adicionais para o crescimento das nossas vendas externas. Para ampliar ou mesmo apenas manter nossos diversos mercados o agro brasileiro está agora também dependente das atitudes e do discurso do governo brasileiro. Dois pontos em especial têm sido causa de preocupação. Um diz respeito à imagem que se formou na opinião pública internacional de que o Brasil tem políticas hostis à proteção do meio ambiente, particularmente da Floresta Amazônica.
Parte dessa percepção tem raízes em interesses comerciais e na ação de ativistas políticos, notadamente na Europa e nos Estados Unidos. Mas parte importante deve-se a fatos que são reais. É fato que ações ilegais vêm provocando queimadas e desmatamento na Amazônia numa escala importante há bastante tempo, conforme dados de nossas próprias entidades oficiais. Os esforços de sucessivos governos para deter essas ações não têm sido suficientes. É uma realidade que, graças à tecnologia dos satélites, é visível a todo o mundo e não podemos ocultar.
Setores do atual governo adotaram uma retórica defensiva e, às vezes, negacionista, que dá munição às críticas que sofremos. Mas ignorar que a preocupação ambiental é hoje um sentimento autêntico de milhões de pessoas em todo o mundo e atribuí-la tão somente a posições ideológicas é estar desconectado da realidade.
O agro brasileiro não é culpado por essas transgressões ambientais. Se, ao lado de madeireiros clandestinos, de garimpeiros ilegais e de aventureiros de toda sorte, há uma ínfima minoria de produtores rurais associados à predação da Amazônia, eles não merecem nossa complacência. Para todos eles o Estado tem o dever de estender sua mão pesada e entregá-los à Justiça. Essa é a única resposta efetiva. Sem ela a economia do agro vai pagar um preço alto.
Não podemos fugir também do efeito nas exportações do agro de alguns movimentos de nossa atual política externa. O agro, por seus próprios meios, conquistou mercados em todo o mundo e não pode perdê-los para a política. Nosso maior mercado é a China, que absorve um terço de tudo o que exportamos. Ao promover um alinhamento aberto com o atual governo americano, autoridades brasileiras têm adotado uma posição de mal disfarçada hostilidade em relação ao nosso maior parceiro, que compra do Brasil cinco vezes mais do que os Estados Unidos. É fácil imaginar que esse comportamento pode trazer consequências.
O grupo de países islâmicos importa anualmente mais de US$ 16 bilhões do Brasil e é naturalmente sensível aos nossos gestos de intromissão no intratável conflito entre Israel e os palestinos, no qual nunca nos metemos, por estar fora da nossa agenda geopolítica. O Irã, até recentemente o quinto destino de nossas exportações agrícolas, foi hostilizado a ponto de o governo brasileiro impedir o abastecimento de seus navios que estavam aqui para embarcar cereais que haviam sido comprados e pagos. Hoje nossas exportações caíram de US$ 2,2 bilhões para pouco mais de US$ 300 milhões.
A política externa brasileira sempre esteve alinhada aos nossos interesses econômicos. Ao mudar essa tradição, a atual política põe em risco posições duramente conquistadas pelo setor privado, em troca de nada. Nenhum país sensato procede dessa maneira.
Cada produtor rural tem suas próprias opiniões políticas e não delega a ninguém essa representação. Mas o agro, como estrutura produtiva, não pode ter partido ou opinião política, porque é obra conjunta do Estado e das pessoas. Seus interesses são vitais e permanentes. E os governos, como sabemos, são efêmeros.
*PRESIDENTE DO INSTITUTO CNA
Jornalismo, iluminar a história -*Carlos Alberto Di Franco, O Estado de S.Paulo
O veterano jornalista Carl Bernstein – famoso no mundo inteiro depois da série de reportagens, escrita com Bob Woodward, que revelou o famoso escândalo Watergate e derrubou o presidente Richard Nixon – não forma com o time dos corporativistas de carteirinha. Sua crítica, aberta, sincera e direta, aos eventuais desvios das reportagens representa excelente contribuição ao jornalismo. Suas palavras parecem ter sido escritas para os dias de hoje.
“O importante”, diz Bernstein, “é saber escutar. As respostas são sempre mais importantes que as perguntas que você faz. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos.” O comentário é uma estocada nas atitudes de engajamento, arrogância e prejulgamento que corroem e desfiguram a reportagem e minam a credibilidade das marcas.
“Os jornalistas, hoje”, sublinha, “trabalham com um monte de preconceitos. Fazem quatro ou cinco perguntas para provocar alguma polemicazinha de nada, mas evitam iluminar a cena, fazer compreender.” Com a autoridade de quem sabe das coisas, Bernstein dá uma aula de maturidade profissional.
O bom repórter ilumina a cena, o jornalista manipulador constrói a história. A distorção, no entanto, nem sempre é clara. Escapa frequentemente à perspicácia do leitor médio. Tem aparência de informação, mas não é. Daí a gravidade do dolo. Na verdade, a batalha da isenção, forte demanda da sociedade atual, enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência atrevida. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns procedimentos próprios de certa delinquência editorial transformam um princípio ético irretocável numa grande farsa.
A apuração de faz de conta representa uma das maiores agressões à imprensa de qualidade. Matérias previamente decididas em guetos sectários buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é honesta, não se apoia na busca da verdade. É um artifício que transmite um simulacro de isenção, uma ficção de imparcialidade. O assalto à verdade factual culmina com uma estratégia exemplar: a repercussão seletiva. O pluralismo de fachada convoca pretensos especialistas para declarar o que o repórter quer ouvir. Mata-se a reportagem. Cria-se a versão.
A imprensa tem caído nessa armadilha antijornalística. Trata-se de uma prática que, certamente, acaba arranhando sua credibilidade. Ainda não conseguimos superar a síndrome dos rótulos. Alguns colegas não perceberam que o mundo mudou. Insistem, teimosamente, em reduzir a vida à pobreza de quatro qualificativos: direita, esquerda, conservador, progressista. Tais epítetos, estrategicamente pendurados, têm dupla finalidade: exaltar ou afundar, criar simpatias exemplares ou antipatias gratuitas. A reportagem é, ou deveria ser, sempre substantiva. O adjetivo é o enfeite da desinformação, o farrapo que tenta cobrir a nudez da falta de apuração. É, frequentemente, uma mentira.
É importante que os repórteres e responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a isenção (que não é neutralidade) é o melhor investimento. O leitor quer informação clara, corajosa, bem apurada. E hoje em dia pode buscá-la em muitos espaços do imenso mundo digital. Ficará conosco se soubermos apresentar um produto de qualidade.
Outro problema: o negativismo e a falta de um jornalismo propositivo. Alguns setores da mídia, em nome da independência, castigam diariamente o fígado dos consumidores. Dominados pelo vírus do negativismo, perdem conexão com a vida real. O jornalismo não existe para elogiar, argumentam os defensores de uma imprensa que se transforma em exercício permanente de contrapoder. Tem uma missão de denúncia, de contraponto. Até aí, estou de acordo. A impunidade, embora resistente, está se enfrentando com o aparecimento de uma profunda mudança cultural: o ocaso do conformismo e o despertar da cidadania. Por isso a imprensa investigativa, apoiada em denúncias bem apuradas, produz o autêntico jornalismo da boa notícia. Denunciar o mal é um dever ético.
A deformação, portanto, não está apenas no noticiário negativo, mas na miopia, na obsessão pelo underground da vida. O que critico não é o jornalismo de denúncia, mas o culto ao denuncismo e a ausência de um jornalismo propositivo. Estou convencido de que boa parte da crise que castiga a mídia pode ser explicada pelo isolamento de algumas redações, por sua orgulhosa incapacidade de ouvir suas audiências.
O jornalista de talento sabe descobrir a grande matéria que se esconde no aparente lusco-fusco do dia a dia. No fundo, a normalidade é um grande desafio e, sem dúvida, o melhor termômetro da qualidade.
Tem razão Carl Bernstein: não devemos sucumbir à tentação do protagonismo. Nosso ofício, humilde e grandioso, é o de iluminar a história.
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