Busque abaixo o que você precisa!

O novo despontar dos semideuses - O ESTADÃO

Nestes tempos de hoje, em que a poesia desapareceu e a peste nos cerca, recordo a lamúria do poeta Fernando Pessoa: “Arre, estou farto de semideuses...”. Sim, pois tanto os semideuses quanto o profético Fernando Pessoa ressurgem em meio à pandemia, como se houvessem combinado enfrentar-se num combate impossível que o novo coronavírus fez acontecer.

E tudo aconteceu aqui pertinho, exibido nos noticiários da TV. A cidade de Santos ampliou sua condição de maior porto do País e escancarou a face dos semideuses que, como tumor maligno, corrompem o Poder Judiciário ou fazem que seja visto como uma pá de lixo para recolher os detritos da sociedade. Refiro-me à cena reproduzida na TV em que o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira ofende com palavras um guarda municipal que o multou na rua por não usar máscara. A cena foi adiante em insensatez: o desembargador rasgou o papel da multa e, alardeando uma autoridade que o Poder Judiciário não lhe deu, telefonou ao secretário municipal para se queixar do guarda e chamá-lo de “analfabeto”.

A autoridade do desembargador restringe-se ao âmbito judicial. Ou alguém pensa que os juízes estão acima da lei? E mais ainda quando a lei busca proteger a saúde e a vida, incluída a do transgressor.

Entre nós, no Brasil, a exibição de “autoridade suprema” tem até um apelido – “carteirada” –, que expressa algo comum nos mais altos níveis da sociedade e da governança.

Na recente demissão do ministro Sergio Moro, o presidente Bolsonaro proclamou-se “chefe supremo” (e o disse pelas “redes” e pela TV, assim mesmo, com essas palavras), quando, de fato, tão só comanda o Poder Executivo. “Chefe supremo”, ou simplesmente “chefão”, é algo cheio de cupim do tempo dos reis absolutistas ou pose de “xerife” dos filmes de faroeste. Os “xerifes” eram mandões supremos por terem revólver de mil tiros, que disparava sem parar. Mas truque de cinema não substitui a realidade.

Nem sequer a votação expressiva de Bolsonaro lhe outorgou “poderes supremos” como presidente. A democracia é, por definição, o sistema de equilíbrio dos Poderes, exatamente para evitar “semideuses”. O voto não o transforma em ditador supremo...

E menos ainda faz dele um semideus. Todo dia, porém, surgem semideuses, revelando que o poder político se torna, progressivamente, um núcleo de cobiçosos aventureiros, servindo a interesses que não são os do País nem os do povo.

O horror da pandemia mostrou essa deformação. Para espanto da ciência, vimos o presidente da República se transformar em médico charlatão ou “garoto-propaganda” da cloroquina. As fotos de Bolsonaro empunhando uma caixinha do medicamento como se fosse milagrosa varinha de condão das fadas infantis apareceram em jornais, na TV ou nas tais “redes sociais”, como se ele fosse improvisado semideus..

Não importaram sequer as advertências da ciência médica sobre os perigosos efeitos colaterais de usar um medicamento destinado a combater a malária como algo mágico para a peste atual. O semideus já havia decidido e, pronto, não se discute!

Nossos semideuses passaram a proliferar, especializando-se em derrubar algumas das mais sólidas construções dos últimos anos. Talvez tendo o presidente como espelho, o procurador-geral da República, Augusto Aras, investiu abertamente contra a Lava Jato para destruir a iniciativa que, pela primeira vez na História, puniu altos ladrões e mostrou como intocáveis políticos e grandes empresários eram simples assaltantes. Até um ex-presidente da República foi preso. A Lava Jato desnudou o conluio obsceno entre governantes, políticos e ricos empresários, mas, agora, enfurece o procurador-geral da República.

Por que essa fúria, que se contrapõe às próprias funções específicas do procurador-geral?

Há, ainda, os semideuses ardilosos, como mostrou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ao propor (em reunião ministerial) aproveitar a covid-19 para “passar a boiada”. Ou seja, servir-se da atenção na pandemia para descuidar da preservação da natureza.

Assim, o ministro Salles opõe-se até mesmo aos três grandes bancos privados do País que advertem sobre a necessidade de preservar a Amazônia e o meio ambiente em si. Em vez disso, o ministro (num arremedo de semideus) deu o nome majestoso de “Amazônia” a um falso projeto de preservação, restrito a uma pequena área de 390 mil hectares, que abrange apenas 0,07 da cobertura florestal.

Até o ministro da Economia, Paulo Guedes (que, bancando semideus, quer restaurar a odiosa CPMF, sob outro nome) considerou “insuficiente” a ideia de Salles.

O Supremo Tribunal teve de intervir para que o ministro da Justiça não restaure a opressão da ditadura e vigie funcionários públicos por defenderem a democracia...

A queixa do poeta Fernando Pessoa virou profecia e os semideuses despontam outra vez.

FLÁVIO TAVARES = JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA / O ESTADÃO

O poder da cidadania - O ESTADO DE SP

A cidadania é o princípio e o fim da democracia. A palavra vem do civis latino, equivalente do grego polites, o membro da polis, de onde deriva nossa “política”. De um modo geral, a cidadania é o conjunto de prerrogativas e responsabilidades dos membros de uma comunidade política.

O cidadão grego era alternadamente um soldado, servidor, legislador, juiz e administrador, dedicado em tempo integral ao interesse público. Mas a cidadania era o privilégio de uma minoria definida por gênero, raça e classe. Roma, em seus inícios, era similar, mas à medida que a cidade se alargava em um império, a cidadania foi gradualmente estendida. Indivíduos de diferentes etnias, culturas e religiões podiam se dedicar aos seus interesses privados em igualdade de condições sob leis comuns, mas em contrapartida eram alheios à deliberação e execução destas leis. Construída sobre estes protótipos, a cidadania nos Estados nacionais modernos herdou deles esta tensão entre proteção legal e participação política – entre o cidadão como recipiente passivo de garantias individuais e como membro ativo da gestão pública.

No pós-guerra, consolidou-se a concepção da cidadania composta por três categorias de direitos sucessivamente acumulados nos últimos três séculos: direitos civis (como propriedade ou liberdade de expressão), direitos políticos (de eleger e ser eleito) e direitos sociais (como educação, saúde ou previdência).

Os críticos deste modelo apontam sua excessiva ênfase nos direitos e a necessidade de suplementá-los com o exercício das responsabilidades e virtudes cívicas. Por outro lado, há os que acusam a insuficiência do mero reconhecimento formal da igualdade entre todos os cidadãos e demandam medidas especiais para incluir grupos vulneráveis. Correntes feministas, por exemplo, criticam estruturas de perpetuação da subordinação das mulheres e os multiculturalistas pedem mecanismos de legitimação das identidades culturais, religiosas ou étnicas minoritárias. Na era da globalização, há ainda quem demande uma cidadania “cosmopolita” que transcenda as fronteiras nacionais.

No século 21, enquanto crescem as apreensões dos ambientalistas em relação a um modelo econômico baseado na expansão contínua da produção e do consumo, o colapso das suas bases financeiras, em 2008, assim como o impacto das novas tecnologias sobre a cadeia de trabalho, engrossaram o coro dos descontentes com este sistema e com os mecanismos de representação política, desencadeando soluções populistas e autoritárias.

O choque da pandemia expôs e agravou as disfunções da democracia contemporânea, e, passado o pânico inicial, vai inflamar estes debates. Com os negócios parcial ou totalmente paralisados e as pessoas confinadas em suas casas aterrorizadas por um inimigo comum invisível, seria cínico duvidar da sinceridade de expressões generalizadas como “estamos todos juntos”. Mas o fato é que as disparidades no interior dos países e entre eles aumentarão, intensificando os conflitos políticos e sociais.

A antiga tensão no seio da cidadania parece mais retesada do que nunca. Para a tradição liberal individualista, a cidadania é primariamente um status legal de garantias das liberdades individuais que permitem aos indivíduos empreenderem e se associarem em busca de sua prosperidade privada. Por sua vez, a concepção cívica republicana vê a cidadania como um processo ativo de participação na esfera pública.

A pedra angular para a reconstrução do contrato social em nosso tempo é o reconhecimento de que estas duas concepções não são antagônicas, mas dialeticamente complementares. As liberdades passivas são a base da democracia, mas a participação ativa é a sua perfeição – se as primeiras estão na raiz da árvore da democracia, é a segunda que gera os seus frutos. Dito de outro modo: o modelo liberal é a saúde da democracia, mas o modelo republicano é a sua virtude. Uma nova concepção de cidadania que sirva de coração a uma democracia a um tempo sadia e virtuosa, próspera e justa é o maior desafio da política no pós-pandemia.

'O pior monstro' está se espalhando. E não é o coronavírus

Apoorva Mandavilli, NYT / ESTADÃO

 

Começa com mal-estar e febre baixa, seguidos de falta de ar e uma tosse dolorosa. A infecção prospera nas multidões, espalhando-se para as pessoas próximas. A contenção de um surto requer rastreamento de contato, além de isolamento e tratamento dos doentes por semanas ou meses.

Esta doença insidiosa atingiu todas as partes do globo. É a tuberculose, a pior doença infecciosa do mundo, acabando com 1,5 milhão de vidas a cada ano.

Até este ano, a tuberculose e seus aliados mortais, HIV e malária, estavam acuadas. O número de vítimas de cada doença na década anterior chegou a seu ponto mais baixo em 2018, o último ano para o qual existem dados disponíveis.

ctv-dlg-tuberculosis
Quanto mais tempo a pessoa passa sem ser diagnosticada e mais demora o início do tratamento, maior a probabilidade de uma doença infecciosa se espalhar Foto: REUTERS/Luke MacGregor

Mas agora, à medida que a pandemia de coronavírus se espalha pelo mundo, consumindo os recursos de saúde globais, esses adversários eternamente negligenciados estão voltando.

“A covid-19 pode atrapalhar todos os nossos esforços e nos levar de volta para onde estávamos há vinte anos”, disse Pedro L. Alonso, diretor do programa global de malária da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Não é só que o coronavírus tenha desviado a atenção científica da tuberculose, HIV e malária. Os lockdowns, principalmente em regiões da África, Ásia e América Latina, levantaram barreiras intransponíveis aos pacientes que precisam viajar para obter diagnósticos ou medicamentos, de acordo com entrevistas com mais de duas dúzias de autoridades de saúde pública, médicos e pacientes em todo o mundo.

O medo do coronavírus e o fechamento das clínicas afastaram muitos pacientes que lutam contra o HIV, a tuberculose e a malária, enquanto as restrições às viagens aéreas e marítimas limitaram severamente a entrega de medicamentos nas regiões mais atingidas.

Cerca de 80% dos programas de tuberculose, HIV e malária em todo o mundo relataram interrupções nos serviços, e 1 em cada 4 pessoas que vivem com HIV relatou problemas com o acesso a medicamentos, de acordo com a Unaids. Interrupções ou atrasos no tratamento podem ocasionar resistência aos medicamentos, um problema que já é temido em muitos países.

Na Índia, lar de cerca de 27% dos casos de tuberculose no mundo, os diagnósticos caíram quase 75% desde o início da pandemia. Na Rússia, as clínicas de HIV foram reconfiguradas para fazer testes de coronavírus.

A temporada de malária começou na África Ocidental, que tem 90% das mortes por malária no mundo, mas as estratégias normais de prevenção – distribuição de mosquiteiros tratados com inseticida e pulverização de pesticidas – foram reduzidas devido aos lockdowns.

Segundo uma estimativa, um lockdown de três meses em diferentes partes do mundo e um retorno gradual ao normal em dez meses podem resultar em 6,3 milhões de casos adicionais de tuberculose e 1,4 milhão de mortes por causa da doença.

Uma interrupção de seis meses da terapia antirretroviral pode provocar mais de 500 mil mortes adicionais por doenças relacionadas ao HIV, de acordo com a OMS. Outro modelo da OMS previu que, no pior cenário, as mortes por malária podem dobrar para 770 mil por ano.

Vários especialistas em saúde pública, alguns quase chorando, alertaram que, se as tendências atuais continuarem, o coronavírus provavelmente representará um atraso de anos, talvez décadas, no árduo progresso contra a tuberculose, o HIV e a malária.

O Global Fund, uma parceria público-privada para combater essas doenças, estima que a mitigação desse dano exigirá pelo menos US $ 28,5 bilhões, quantia improvável de se materializar.

Se a história servir de exemplo, o impacto do coronavírus sobre os pobres continuará sendo sentido muito tempo após o término da pandemia. A crise socioeconômica no Leste Europeu no início dos anos 90, por exemplo, provocou as taxas mais altas do mundo de um tipo de tuberculose resistente a vários medicamentos, um recorde pouco lisonjeiro que a região mantém até hoje.

O ponto de partida dessa cadeia de eventos é a falha no diagnóstico: quanto mais tempo a pessoa passa sem ser diagnosticada e mais demora o início do tratamento, maior a probabilidade de uma doença infecciosa se espalhar e matar.

“Quanto mais você deixa as pessoas sem diagnóstico e sem tratamento, mais problemas terá no ano que vem e nos anos seguintes”, disse Lucica Ditiu, chefe da Stop TB Partnership, um consórcio internacional de 1.700 grupos que combatem a doença.

A infraestrutura construída para diagnosticar o HIV e a tuberculose tem sido um benefício para muitos países que lutam contra o coronavírus. GeneXpert, a ferramenta usada para detectar o material genético da bactéria da tuberculose e do vírus HIV, também pode amplificar o RNA do coronavírus para fazer o diagnóstico.

Mas agora a maioria das clínicas está usando as máquinas apenas para identificar o coronavírus. Priorizar o coronavírus em detrimento da tuberculose é “muito estúpido do ponto de vista da saúde pública”, disse Ditiu. “Você precisa ser inteligente e fazer as duas coisas ao mesmo tempo”.

A pandemia resultou em quedas acentuadas nos diagnósticos de tuberculose em uma série de países: um declínio de 70% na Indonésia, 50% em Moçambique e África do Sul e 20% na China, segundo a OMS.

No fim de maio, no México, à medida que as infecções por coronavírus aumentavam, os diagnósticos de tuberculose registrados pelo governo caíram para 263 casos, contra 1.097 na mesma semana do ano passado.

A pandemia também está diminuindo o fornecimento de testes de diagnóstico para essas doenças fatais, pois as empresas preferem produzir os testes para detectar o coronavírus, que são mais caros. A Cepheid, fabricante de testes de diagnóstico de tuberculose na Califórnia, passou a se dedicar à produção de testes para o coronavírus. As empresas que fazem testes de diagnóstico da malária estão fazendo o mesmo, de acordo com Catharina Boehme, diretora executiva da Foundation for Innovative New Diagnostics.

Os testes de coronavírus são muito mais lucrativos: cerca de US $ 10, em comparação aos 18 centavos de um teste rápido de malária.

Essas empresas “têm uma enorme demanda por covid no momento”, disse Madhukar Pai, diretor do McGill International TB Center em Montreal. “Não consigo imaginar que as doenças da pobreza venham a receber qualquer atenção nesse espaço”.

A pandemia afetou a disponibilidade de medicamentos para HIV, tuberculose e malária em todo o mundo, interrompendo as cadeias de suprimentos, desviando a capacidade de fabricação e impondo barreiras físicas aos pacientes que precisam viajar até clínicas distantes para buscar os medicamentos.

E essa escassez está forçando alguns pacientes a racionar seus medicamentos, colocando sua saúde em risco. Na Indonésia, a política oficial é fornecer aos pacientes com HIV remédios suficientes para um mês, mas tem sido difícil encontrar a terapia antirretroviral nos arredores de Jacarta.

As pessoas com HIV e tuberculose que pulam dias de remédios provavelmente ficarão doentes no curto prazo. A longo prazo, há uma consequência ainda mais preocupante: um aumento nas formas dessas doenças resistentes a medicamentos. A tuberculose resistente a medicamentos já é uma ameaça tão grande que os pacientes são monitorados de perto durante o tratamento – uma prática que foi quase inteiramente suspensa durante a pandemia.

De acordo com a OMS, pelo menos 121 países relataram uma queda nas visitas de pacientes com tuberculose a clínicas desde o início da pandemia, ameaçando ganhos conquistados com muito esforço.

“É realmente difícil de digerir”, disse Ditiu. “Foi necessário muito trabalho para chegar onde estamos. Não estávamos no pico da montanha, mas estávamos bem longe da base. Aí veio essa avalanche e nos empurrou de volta à estaca zero”.

Em muitos lugares, os lockdowns foram impostos tão rapidamente que os estoques de drogas logo se esgotaram.

Mesmo que os governos estejam preparados, contando com alguma ajuda de grandes agências, para comprar medicamentos com meses de antecedência, a oferta global poderá acabar em breve.

“A ruptura das cadeias de suprimentos é realmente algo que me preocupa – pelo HIV, pela tuberculose e pela malária”, disse Carlos del Rio, presidente do conselho científico do Plano de Emergência do Presidente para o Combate à Aids.

A euforia em torno da cloroquina como potencial tratamento para o coronavírus gerou um acúmulo da droga em alguns países como Mianmar, esgotando os estoques globais do medicamento.

“Dependemos muito de alguns desenvolvedores ou fabricantes importantes para todos os medicamentos em todo o mundo, e isso precisa ser diversificado”, disse Meg Doherty, que dirige os programas de HIV na OMS. “Se você tivesse estoques ou fabricantes de medicamentos mais desenvolvidos em diversos locais, os medicamentos estariam mais perto dos pontos de necessidade”.

As organizações humanitárias e os governos estão tentando mitigar alguns dos danos, estendendo suprimentos e armazenando medicamentos. Em junho, a OMS mudou sua recomendação para o tratamento da tuberculose resistente a medicamentos. Em vez de 20 meses de injeções, os pacientes agora podem tomar pílulas por um período de 9 a 11 meses. A mudança significa que os pacientes não precisam ir até as clínicas, cada vez mais fechadas pelos lockdowns.

Em alguns países, como a África do Sul, a maioria dos pacientes já pega medicamentos em centros comunitários, e não em hospitais, disse Salim S. Abdool Karim, especialista em saúde global na África do Sul e presidente de um comitê consultivo do governo sobre a covid-19. “Tem sido uma grande vantagem, até certo ponto”. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

Cartório não pode recusar fornecimento de certidões gratuitas à União, diz STF

Negar à União o fornecimento gratuito de certidões de seu interesse viola sua competência para legislar sobre registros públicos. Foi o que decidiu o Supremo Tribunal Federal ao julgar procedente ação contra atos de titulares de cartórios que recusaram fornecer certidões gratuitas. O julgamento em Plenário Virtual encerrou nesta terça-feira (4/8).

União deve ter garantida a isenção ao pagamento de certidões em cartórios de registro de imóveis
123RF

Para a maioria dos ministros, o ato do poder público que nega à União o fornecimento gratuito viola o artigo 236, § 2º, da Constituição Federal.

O voto condutor foi do ministro Alexandre de Moraes, que considerou que, ao instituir isenção para a União, o Decreto-Lei 1.537/1977 apenas disciplinou um tema da própria função pública exercida pelos notários e registradores.

"O fato de exercer de forma privada a atividade notarial/registral não descaracteriza a função pública do serviço delegado pelo Estado", explicou. Seu voto foi acompanhado pelos ministros Gilmar Mendes, Luís Roberto Barroso, Dias Toffoli e Celso de Mello. 

Numa linha mais restrita, o ministro Luiz Edson Fachin apontou que a previsão da isenção para a União não contraria as outras normas vigentes. "Ao emitir comando passível de aplicabilidade federativamente uniforme, consoante a normas gerais, o Decreto-Lei 1.537/1977 foi recepcionado pela Constituição da República de 1988." Seguiram o voto os ministros Rosa Weber, Cármen Lúcia e Luiz Fux.

Fora da Constituição
Ficou vencido o relator, ministro Marco Aurélio, que acolheu o argumento da não recepção do Decreto-Lei pela Constituição Federal. O vice-decano considerou que, embora os titulares de cartórios extrajudiciais estejam sujeitos ao regime jurídico de direito público, "a taxa é tributo cuja exigência se faz orientada pelo princípio da retributividade".  

Desta forma, concluiu que a Constituição não abrange em momento algum a dispensa da União do pagamento pela prestação de serviços públicos feitos por entidades privadas, "seja mediante a delegação decorrente de concessão, permissão, autorização ou concurso público, como acontece, na última hipótese, com os titulares dos cartórios extrajudiciais". 

Ele foi acompanhado pelo ministro Ricardo Lewandowski.

Recepção ou não
O caso chegou ao STF em 2009, ajuizado pelo então presidente Lula contra atos de titulares de cartórios e também contra os magistrados que determinaram o pagamento prévio pelos serviços notariais. 

A principal alegação da peça, elaborada pela AGU, é a de que os cartórios desconsideraram o Decreto-Lei 1.537/77, que isenta a União do pagamento de custas e emolumentos aos ofícios e cartórios de registro de imóveis e aos ofícios e cartórios de registros de títulos e documentos. Para os cartórios, a norma não foi recepcionada pela Constituição Federal de 1988.

Clique aqui para ler o voto do relator
Clique aqui para ler o voto do ministro Moraes
Clique aqui para ler o voto do ministro Fachin
ADPF 194

Topo da página

 é correspondente da revista Consultor Jurídico em Brasília.

Revista Consultor Jurídico, 6 de agosto de 2020, 9h51

Auxílio emergencial para o transporte municipal pode ser votado nesta semana; CNM acompanhará

11072017 Onibus SMCS PRA Medida Provisória (MP) 938/2020, que amplia a recomposição do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), aprovada na Câmara, e agora aguarda sanção como Projeto de Lei de Conversão (PLV) 26/2020, também trazia um tema muito importante e que foi retirado para ser discutido. É o Auxílio Emergencial para o Transporte, que pode ser votado nesta semana. A Confederação Nacional de Municípios (CNM) está acompanhando os desafios enfrentados pelos Municípios e já apresentou pleitos para auxílio, na prestação do serviço de transporte, ao governo federal.

A CNM destaca que as empresas de ônibus urbanos e metropolitanos relatam perdas de receitas entre 70% e 90% por causa da queda da demanda de passageiros, segundo informações da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU). Há ainda relatos de greves de motoristas e cobradores por causa da falta de pagamento de salários e benefícios.

Nesse cenário, gestores locais ressaltaram que as empresas responsáveis pelos serviços pedem um subsídio para financiar a operação, uma vez que a baixa arrecadação com as tarifas não seria suficiente para mantê-los.

Programa Emergencial
Projeto de Lei 3909/2020, apresentado pelo deputado Elias Vaz (PSB/GO), institui o Programa Emergencial Transporte Coletivo, e prevê a transferências de recurso aos Municípios para a aquisição, de créditos de viagens nos diversos sistemas de transportes públicos coletivos, aos beneficiários dos programas sociais federais e/ou municipais existentes ou que venham a ser criados durante pandemia.

Na semana passada, ele foi apensado ao PL 3364/2020 (juntamente com o PL 3774/2020 e o PL 3919/2020), e institui o Regime Especial de Emergência para o Transporte Coletivo Urbano e Metropolitano de Passageiros (Remetup), baseado na redução de tributos incidentes sobre esses serviços e sobre os insumos dos transportes públicos durante a pandemia de Covid-19.

Leia mais...

Clube autoritário - FOLHA DE SP

O DITADOR DA VENEZUELA

A certa altura da carta que enviou ao Foro de São Paulo em julho, por ocasião dos 30 anos do grupo, hoje integrado por 123 partidos de esquerda da América Latina e do Caribe, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dizia: “Mais do que nunca, é o momento de defendermos e recuperarmos a democracia em nossos países”.

O chamado, com algo de desfaçatez, arrastava consigo uma histórica contradição do Foro: discursar a favor dos regimes democráticos enquanto abriga forças autoritárias. O mais recente atestado desse paradoxo materializou-se no debate promovido pela organização em 28 de julho.

O encontro virtual, mediado pela secretária-executiva do grupo, a petista Mônica Valente, teve como seus principais astros os ditadores Nicolás Maduro, da Venezuela, e Daniel Ortega, da Nicarágua, além do líder oficial da ditadura de Cuba, Miguel Díaz-Canel.

Qualquer dúvida que pudesse existir quanto à índole ditatorial de Maduro desapareceu em 2017, com a supressão dos poderes do Legislativo, da repressão aos opositores e do cerceamento da imprensa.

Ex-guerrilheiro, Ortega voltou ao cargo máximo de seu país em 2007, 17 anos depois de ser derrotado nas urnas por Violeta Chamorro. Consolidou-se no posto com mudanças constitucionais, cassações e um pleito marcado por irregularidades em 2016. A exemplo de Maduro, reprime a oposição com brutalidade e persegue a mídia.

Por fim, o Foro está incontornavelmente ligado à ditadura cubana, que dispensa apresentações. Sua origem, recorde-se, em 1990, remonta a uma conversa entre o então ditador Fidel Castro e Lula, que, havia pouco, perdera a disputa presidencial para Fernando Collor.

A despeito de sua relevância duvidosa, o grupo segue sendo visto pelas vertentes direitistas identificadas com o bolsonarismo e o seu principal guru, Olavo de Carvalho, como um perigoso aliado de uma suposta ameaça comunista —e uma justificativa em potencial para pregações autoritárias também do outro polo ideológico.

Entretanto o Foro é coisa mais banal. Trata-se tão somente de um consórcio dedicado à perpetuação de ideias obsoletas e que, sem pejo, mantém suas portas abertas para ditaduras e ditadores.

A opção por se manter parte de tal clube mina a credibilidade da defesa que o PT faz da democracia, respeitada durante os 13 anos de administrações do partido.

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Compartilhar Conteúdo

444