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‘Capacidades são finitas’, diz diretor de fabricante sobre escassez de oxigênio para rede de saúde

Priscila Mengue e Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2021 | 05h00

Em meio ao agravamento da pandemia da covid-19, fabricantes de oxigênio medicinal têm relatado limitações para dar conta do aumento da demanda. Em entrevista ao Estadão, o presidente e diretor da Indústria Brasileira de Gases (IBG), Newton de Oliveira, afirmou que a produção está praticamente no limite. A White Martins aponta aumento de 56% na demanda.

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“O consumo vinha subindo paulatinamente, mas, nas últimas semanas, ficou meio exponencial. Aí começa a haver problemas”, afirma Oliveira. “Tanto nas fábricas quanto na logística, as capacidades são finitas. Chega um momento que a sua capacidade é aquela (no limite).”

Em todo o País, multiplicam-se relatos de dificuldades de conseguir o insumo hospitalar. Como o Estadão mostrou, em 54 cidades paulistas o estoque é crítico e na capital também houve transferências de pacientes às pressas. No interior gaúcho, seis pacientes morreram semana passada após falha na distribuição de oxigênio. O Ministério da Saúde afirma que o estoque em 13 Estados preocupa. 

Segundo Oliveira, os relatos de escassez hoje se devem mais à logística do que à produção, mas isso pode mudar. “Estamos correndo para tentar apagar uma fogueira. Hospitais que tinham (abastecimento) uma vez por semana, precisam agora uma, duas vezes por dia. É um crescimento vertiginoso”, comenta.

Manaus
Em Manaus, homem espera cilindro de oxigênio para atender pacientes com covid-19, durante colapso do insumo em janeiro  Foto: REUTERS/Bruno Kelly (31/1/2021)

Ele estima estar atuando com 95% da capacidade total máxima. “Envolve tudo: motoristas especializados, que têm treinamento. Se dobra o consumo dos hospitais, você não consegue dobrar o número de funcionários a curto prazo”, comenta. Por isso, sugere que o poder público faça cartilhas de orientação para evitar o desperdício nas unidades. Outra reivindicação é a vacinação dos motoristas das carretas contra a covid-19, já que costumam entrar em hospitais.

O diretor cita que o aumento da demanda também tem gerado problemas nos sistemas já em funcionamento de hospitais e unidades de atendimento que utilizam tanques. Nesses mecanismos, quando a demanda é maior do que a programada, o oxigênio líquido nem sempre é totalmente vaporizado, gerando o congelamento da estrutura e, consequentemente, panes no sistema. “Tem hospital que está consumindo 4, 5, 6 vezes mais do que consumia”, destaca.

A IBG tem quatro fábricas, três em Jundiaí (SP) e uma em Santa Catarina, das quais partem produtos para Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. São cerca de 400 hospitais atendidos, privados e públicos, além de prefeituras e outros contratantes. Entre as medidas para aumentar a produção, está a maximização da extração do oxigênio e minimização do nitrogênio, a partir do ar. Com o aumento da demanda na Saúde, a IBG também passou a ser mais procurada por indústrias que necessitam de oxigênio industrial. 

Em paralelo, a importação de cilindros para o abastecimento de oxigênio gasoso também foi afetada. Uma compra, da Áustria, que levaria de três a quatro semanas, agora pode demorar até seis meses para chegar. 

White Martins teve crescimento de 56% na demanda brasileira por oxigênio

Uma das principais empresas do setor no País, a multinacional White Martins relata ter identificado alta de 56% na demanda por oxigênio medicinal na 1ª quinzena de março em relação ao mesmo período de dezembro. “Os clientes da White Martins nos estados do Ceará, Minas, Mato Grosso, Pará, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Distrito Federal, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina têm apresentado um consumo de oxigênio expressivo no momento”, apontou, em nota.

No comunicado, a empresa diz ter  “alertado exaustivamente todos os seus clientes medicinais dos setores público e privado” que o abastecimento de oxigênio não depende apenas da produção. “Muitos hospitais têm apresentado um aumento de consumo de oxigênio que vai além da sua capacidade de estoque instalada e da sua própria infraestrutura hospitalar de redes e central reserva de cilindros.”

A White Martins ainda criticou a transformação de unidades de pronto-atendimento em espaços para leitos de internação. “Algumas unidades não contam com infraestrutura apropriada, como tanques de estocagem de oxigênio e redes centralizadas para o gás, ou não têm a dimensão adequada para a expansão do consumo.”

Preocupação é com hospitais municipais de pequeno porte e no interior, diz secretário

Secretário de Saúde da Bahia, Fábio Vilas-Boas diz que a preocupação é com hospitais municipais de pequeno porte, no interior, abastecidos com cilindros de oxigênio. “Usavam um cilindro por mês, se transformaram em PA (pronto-atendimento) para covid e, de uma hora para outra, o consumo explodiu.”

Ele disse ter requisitado ao ministério a devolução de 300 cilindros emprestados durante a crise de oxigênio no Amazonas. Ainda conforme o secretário, em alguns municípios foi preciso remover pacientes para outras unidades ou fechar leitos diante da incapacidade de atender pacientes da covid em unidades sem oxigênio.

Covid-19: Brasil tem 3.241 mortes e 82.493 infectados em 24 horas

O Brasil bateu novo recorde e superou três mil mortes por covid-19 registradas em 24 horas. Entre ontem e hoje, foram registradas 3.241 vidas perdidas para a pandemia. Com isso, a quantidade de pessoas que não resistiram à covid-19 chegou a 298.676. 

Ainda há 3.396 mortes em investigação por equipes de saúde. Isso porque há casos em que o diagnóstico sobre a causa só sai após o óbito do paciente.

O total de registros de pessoas diagnosticadas com covid-19 em 24 horas foi de 82.493. Com estas adições às estatísticas, a soma de infectados pela pandemia desde o seu início alcançou 12.130.019. 

O recorde de mortes registradas em 24 horas e os dados de casos foram divulgados pelo Ministério da Saúde em balanço diário, publicado na noite desta terça-feira (23). A atualização é elaborada a partir das informações levantadas pelas autoridades estaduais e locais de saúde sobre casos e mortes provocados pela covid-19.

O número de pessoas recuperadas chegou a 10.601.658. Já a quantidade de pacientes com casos ativos, em acompanhamento por equipes de saúde, ficou em 1.229.685.

Os dados em geral são menores aos domingos e segundas-feiras pela menor quantidade de trabalhadores para fazer os novos registros de casos e mortes. Já às terças-feiras eles tendem a ser maiores, já que neste dia o balanço recebe o acúmulo das informações não processadas no fim-de-semana.

Estados

O ranking de estados com mais mortes pela covid-19 é liderado por São Paulo (68.623), Rio de Janeiro (35.331), Minas Gerais (22.123), Rio Grande do Sul (17.499) e Paraná (14.281). Já as Unidades da Federação com menos óbitos são Acre (1.201), Amapá (1.243), Roraima (1.290), Tocantins (1.838) e Sergipe (3.322).

Vacinação

Até o início da noite de hoje, haviam sido distribuídas 29,9 milhões de doses de vacinas. Deste total, foram aplicadas 15 milhões de doses, sendo 11,4 milhões da 1ª dose e 3,6 milhões da 2ª dose.

Edição: Aline Leal / AGÊNCIA BRASIL

Kassio diz que as conversas hackeadas não podem ser usadas como provas no caso Lula x Moro

Amanda Pupo, Rafael Moraes Moura/BRASÍLIA e Paulo Roberto Netto/SÃO PAULO

23 de março de 2021 | 15h31

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)Kassio Nunes Marques, disse há pouco que o uso de provas obtidas de forma ilícita em processos penais seria um “incentivo enorme ao crime”. Marques se referiu as mensagens divulgadas a partir hackers e atribuídas ao ex-juiz federal Sergio Moro e a integrantes da força-tarefa em Curitiba. O conteúdo é usado pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para acusar o ex-juiz de ter sido parcial em seu julgamento.

ministro votou contra a suspeição de Moro, considerando que a quebra de parcialidade do ex-juiz por via de habeas corpus – sem o direito ao contraditório do magistrado – e com base nas conversas hackeadas ‘desordenaria ritos da lei processual’. Ao ler seu entendimento sobre o caso na Segunda Turma, Nunes Marques foi claro em sua posição de não admitir o uso de tais provas.

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“Se hackeamento fosse tolerável para meio de obtenção de provas ninguém mais estaria seguro de sua intimidade, tudo seria permitido”, afirmou o ministro. “No caso em exame os arquivos foram obtidos por hackers. Com a devida vênia, tenho que são absolutamente inaceitáveis tais prova, por serem obtidos diretamente de crimes. Seria forma transversa de legalizar atividade hacker no Brasil”, afirmou o ministro.

O ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal. Foto: Fellipe Sampaio/SCO/STF

“Essa prática abjeta de espionar, bisbilhotar a vida das pessoas, estaria legalizada e a sociedade viveria um processo de desassossego semelhante às piores ditaduras. Não é isso que deve prevalecer em sociedades democráticas”, contionou o ministro.

Nunes Marques ainda questionou a confiabilidade dessas mensagens, que podem ter sido alvo de modificações. “A inclusão de uma simples palavra pode mudar todo o seu significado. Como confiar em provas fornecidas por criminosos? Será que uma perícia poderia testar que as conversas interceptadas são autênticas, sem a supressão de qualquer palavra? Isso sequer foi feito. Não houve perícia”, apontou.

Mudar Lei de Improbidade prejudicará combate à corrupção, dizem ministérios da Justiça e Casa Civil

Camila Turtelli e Breno Pires, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2021 | 05h00

BRASÍLIA – Pareceres dos ministérios da Justiça e da Casa Civil sobre o projeto que altera a Lei de Improbidade Administrativa demonstram preocupação de integrantes do governo com prejuízos ao combate à corrupção no País caso a medida seja aprovada. Os documentos, obtidos pelo Estadão por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), foram elaborados pelas assessorias técnicas das duas pastas e sugerem mudanças no texto apresentado na Câmara pelo relator, deputado Carlos Zarattini (PT-SP).

O presidente Jair Bolsonaro defende a votação do projeto e, no mês passado, afirmou já ter conversado sobre o assunto com o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL). O argumento de Bolsonaro é de que a legislação atual “engessa” a atuação de prefeitos, que deixam de agir em determinados momentos com receio de serem processados.

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Palácio do Planalto
Vista geral do Palácio do Planalto, em Brasília Foto: Dida Sampaio/Estadão

Entre as principais alterações discutidas na Câmara está a exclusão do artigo 11 da lei, que prevê punições a práticas que afrontem os princípios da administração pública, como o nepotismo, a “carteirada” e até a “furada de fila” da vacinação. Segundo a proposta, apenas condutas que gerem enriquecimento ilícito ou prejuízo aos cofres públicos poderiam ser alvo de processos contra prefeitos e demais gestores.

“O texto do substitutivo revoga dispositivos importantes para o combate à improbidade administrativa e vai de encontro à finalidade do PL (projeto de lei), que é a de aprimorar o texto legal e conferir maior eficiência e eficácia ao combate à corrupção e à malversação dos recursos públicos”, diz o relatório da Casa Civil, que recomenda alterações em 44 pontos do texto apresentado por Zarattini. 

“A medida proposta caminha na contramão do melhor entendimento acerca da definição de improbidade administrativa, devendo ser rejeitada”, afirma, por sua vez, parecer do Ministério da Justiça, em relação à exclusão do artigo 11. O documento é assinado por Roberto Domingos Taufick, especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, Augusto Levi Monteiro Galindo, coordenador-geral de Atos Normativos em Matéria Penal, e tem o aval de Rodrigo Barros de Souza, chefe substituto da Assessoria Especial de Assuntos Legislativos da pasta. Neste parecer, são 27 sugestões de alterações no projeto. 

A Lei de Improbidade Administrativa foi criada em 1992 como resposta à sensação de impunidade, em meio ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello. As alterações gestadas no Congresso não preocupam apenas integrantes de áreas técnicas do governo, mas membros de órgãos de investigação e juristas, que também veem retrocesso no combate à corrupção.

Tanto o parecer do Ministério da Justiça, comandado por André Mendonça, quanto da Casa Civil, chefiada pelo general Walter Braga Netto, são favoráveis a mudanças na lei com o objetivo de aprimorá-la, mas desde que contempladas as ressalvas feitas ao texto de Zarattini.

Os relatórios foram objeto de discussão entre governo, deputados e juristas que acompanham os debates sobre as mudanças da lei no início de fevereiro. Os defensores do projeto negam que as alterações prejudiquem o combate à corrupção e alegam que a mudança define com mais clareza o que é de fato improbidade administrativa e amplia a pena. “Não estamos tirando nada que tem a ver com corrupção, isso é um argumento para criar comoção. Não existe isso”, disse Zarattini ao Estadão.

O deputado afirmou que prepara uma nova versão do texto, que poderá ser votada diretamente no plenário da Câmara, pulando etapas da discussão, como a comissão especial criada ainda em 2019 para discutir o projeto. O último encontro do grupo ocorreu em novembro daquele ano.

Perda de cargos

Outra mudança criticada pelos técnicos do governo é a que trata sobre a perda de cargo. Pela regra atual, um deputado condenado por desviar dinheiro público quando era prefeito, por exemplo, pode ter o atual mandato cassado. Na nova versão, porém, o político só poderia ser apeado da cadeira que ocupa se, no momento da condenação, estiver exercendo a mesma função de quando cometeu o ato ilícito. Ou seja, só se ainda for prefeito.

“Vamos levar em consideração os apontamentos, mas depende do enquadramento da pena, eu não posso fazer uma pessoa perder o cargo público por uma irregularidade formal. Tem de ter muita clareza. Se for por enriquecimento ilícito, perde o cargo público”, afirmou Zarattini, que não deu previsão de quando apresentará a nova versão do texto.

Segundo o entendimento dos que defendem a mudança na legislação, é preciso evitar casos como a cassação ou a perda de direito político de um prefeito até mesmo pelo fato de prestar contas fora do prazo. 

Autor do projeto de lei, o deputado Roberto de Lucena (Podemos-SP) disse que algumas distorções no relatório fizeram do texto um “cavalo de Troia”, mas que o relator deverá acatar sugestões. Entre os pontos que serão alterados, segundo Lucena, está a devolução do artigo 11, com uma nova redação.    

“Manifestei minha preocupação ao relator e de alguns outros pontos e distorções que estavam transformando o projeto de lei em um 'cavalo de Troia' que iria flexibilizar e enfraquecer a lei, como toda a nossa proposta e luta de combate à corrupção”, afirmou o parlamentar.

Também favorável ao projeto, o líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (Progressistas-PR), afirmou que a lei precisa ser mais específica em relação às condutas que podem ser punidas. Como revelou o Estadão, o parlamentar defende a contratação de parentes de políticos em cargos públicos, prática hoje vedada pelo Supremo Tribunal Federal e enquadrada na Lei de Improbidade.

“Precisamos definir uma regra para que o Judiciário cumpra e não que ele crie a regra. Não sou a favor nem contra. Estou dizendo que ser parente só não pode ser motivo de restrição. Agora, vamos decidir quais casos”, disse Barros. 

Questionado sobre uma previsão de quando a proposta poderá ser votada em plenário, Lira não respondeu. O Palácio do Planalto também não se manifestou sobre a proposta.

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Mais infraestrutura - FOLHA DE SP

Uma das poucas boas notícias vindas de Brasília nos últimos dias foi o avanço da pauta de modernização da infraestrutura. Dependem ou dependiam do Congresso projetos que rompem com décadas de paralisia regulatória e poderão facilitar investimentos em setores cruciais como energia, transportes, saneamento e telecomunicações.

Na semana passada houve dois passos importantes. O primeiro foi a aprovação final do texto que altera as normas no setor de gás, em um processo iniciado ainda no governo Michel Temer (MDB).

As novas regras visam aumentar a concorrência, removendo uma infinidade de gargalos. A Agência Nacional de Petróleo (ANP) ganha mais poderes para regular a comercialização e definir parâmetros nacionais para os contratos.

A construção de gasodutos e terminais de armazenagem passa a um regime de autorização, mais flexível que o anterior, de concessão. Haverá ainda garantias de direito de passagem, com acesso de terceiros interessados à infraestrutura, até aqui quase monopolizada pela Petrobras.

Também deve ocorrer o desinvestimento por parte da Petrobras de 19 de suas 27 participações em distribuidoras estaduais de gás, parte de um acordo de conduta celebrado em 2019 pela estatal com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e a ANP.

Por fim, ficam limitadas as possibilidades de contratos entre empresas do mesmo conglomerado, um ponto importante para evitar a formação de novos monopólios. Nos próximos dois anos a agência deve avançar nas definições dos parâmetros técnicos e concorrenciais que nortearão o mercado.

Com as mudanças espera-se o aparecimento de novos participantes em toda a cadeia do setor, o que vem a calhar num momento em que se espera forte crescimento da oferta de gás nas áreas do pré-sal. O novo ambiente de mercado deve permitir significativa redução nos custos nos próximos anos, com benefícios principalmente para a indústria.

Outro progresso notável foi a conclusão da votação do marco regulatório do saneamento, em que foram mantidos vetos presidenciais que se mostravam fundamentais para a modernização do setor.

Em particular, manteve-se o veto à renovação sem licitação por 30 anos dos atuais contratos de prefeituras com estatais, o que vai acelerar as novas concessões em regime de concorrência. Há 1.160 contratos precários ou que vencem em até cinco anos e agora se adequarão às novas regras.

São avanços importantes que vão se acumulando para tornar o país mais atrativo para investimentos e, no caso do saneamento, pôr fim a vergonhosas carências.

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STF na contramão do Direito, da ética e do País

Carlos Alberto Di Franco, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2021 | 03h00

Não me canso de reafirmar meu respeito ao Supremo Tribunal Federal (STF) enquanto instituição essencial da República. No entanto, as instituições não são abstrações. Encarnam-se nas pessoas que a compõem. A credibilidade da Corte depende, e muito, das atitudes dos seus integrantes. É a base da legitimidade. Perdida a credibilidade, queiramos ou não, abre-se o perigoso atalho para o questionamento da legitimidade.

O STF, infelizmente, não tem contribuído para fortalecer a sua credibilidade. É hoje, lamentavelmente, uma das instituições com maior rejeição. E isso é um grave risco para a democracia.

Meu artigo é um alerta angustiado. Já passou da hora de os ministros descerem do Olimpo dos deuses e fazerem uma séria e honesta autocrítica. A sociedade está farta de inúmeras decisões do STF. E a instituição, goste ou não, está mergulhando numa gravíssima crise de imagem.

A decisão monocrática do ministro Edson Fachin que anulou as condenações de Lula da Silva decididas na 13.ª Vara de Curitiba pelo então juiz Sergio Moro, no âmbito da Operação Lava Jato, e tornou o ex-presidente elegível não poderia deixar de causar um terremoto político e um tsunami de indignação moral. Como disse, oportunamente, a professora Catarina Rochamonte, colunista do jornal Folha de S.Paulo, trata-se daquele que é tido como chefe do chamado petrolão, que o ministro Gilmar Mendes, antes da sua conversão garantista, considerou “o maior escândalo de corrupção de que se tem notícia”. Também “não se tem notícia de uma transmutação de valores como a de Gilmar Mendes, que, de entusiasta da Lava Jato, passou a fazer da destruição da mesma sua prioridade e obsessão”, frisou a colunista.

Fachin, misteriosa e surpreendentemente, resolveu ressuscitar argumentos já analisados (e rebatidos) à exaustão sobre a competência da 13.ª Vara para julgar as ações contra Lula. Para sustentar sua decisão inexplicável afirmou que as ações contra Lula não tratavam especificamente da Petrobrás, foco central da Operação Lava Jato de Curitiba. No entanto, o próprio ministro incluiu em sua decisão trechos da denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal no caso do triplex, em que está claríssima a ligação entre os favores recebidos pela empreiteira OAS e nomeações e contratos da Petrobrás. Essa relação foi reconhecida em todas as instâncias nas quais Lula foi condenado – na primeira instância, pelo juiz Sergio Moro e no Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), como voto do relator João Pedro Gebran Neto sendo seguido pelos demais membros da Oitava Turma. Por fim, o Superior Tribunal de Justiça, que manteve a condenação de Lula, também analisou os questionamentos sobre a competência para julgar o caso e concluiu que não houve irregularidade alguma ao se realizar o julgamento na 13.ª Vara e pela Oitava Turma do TFR-4.

Em nota, Fachin disse que a questão já havia sido debatida diversas vezes no Supremo, mas só agora reuniu condições de ser julgada corretamente. Ele assumiu o caso em 2017, depois da morte do ministro Teori Zavascki. Foram necessários quatro anos para decidir “corretamente” sobre um assunto que ele havia decidido outras tantas vezes de modo diverso? Nenhum problema. Faz tempo que a Corte deixou de lado os fatos e o Direito e se embrenhou no campo de um ativismo de ocasião. O STF é hoje a principal fonte de insegurança jurídica no País.

Mas a coisa não parou por aí. Fachin errou feio ao anular os processos contra Lula, mas tão evidente quanto o fato de as denúncias e sentenças desses processos desmentirem sua argumentação é o fato de que, concorde-se ou não com essa decisão, uma vez anulados os processos, qualquer recurso impetrado dentro deles também se torna nulo.

Mas aí, caro leitor, aparece no horizonte o ministro Gilmar Mendes. Após segurar o caso por quase dois anos e meio, graças a um pedido de vista, o ministro sentiu forte comichão e decidiu pautar o tema Moro na famosa Segunda Turma do STF. Em voto longo e carregado de parcialidade (afinal, é desafeto público de Moro), Mendes dedicou-se à demolição da reputação do ex-juiz, no que chamou de “maior escândalo judicial da nossa História”, e, apesar de dizer que nem seria necessário usar as supostas mensagens atribuídas ao ex-juiz e aos procuradores da Lava Jato, mencionou seu conteúdo com grande generosidade.

O fecho de ouro foi dado pelo ministro Nunes Marques, escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para o STF. Pediu vista. Um artifício para adiar a provável degola do ex-juiz Sergio Moro e dar mais um empurrãozinho na Lava Jato rumo ao abismo diligentemente preparado num enorme acordão.

Não faz muito, terminei um de meus artigos com um comentário premonitório: Lula absolvido e Moro condenado. A narrativa começa a ser construída. Agora só falta prender o responsável pela maior operação de combate à corrupção da nossa História. Caminhamos céleres rumo à ditadura do Judiciário. Acho difícil, muito difícil, que a imensa maioria da sociedade brasileira, honrada, trabalhadora e sacrificada, aceite engolir um sapo de tamanhas proporções.


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