'Golpe militar' vira 'reforma militar' em letra de música do Blues Etílicos alterada na internet
Macedo Rodrigues / o globo
O fantasma em torno do golpe de 1964 aparece até onde menos se espera. Na música "Safra 63", do grupo Blues Etílicos, uma espécie de coautor invisível resolveu modificar a letra na internet. Onde se lia "golpe militar", hoje se lê "reforma militar", em grande parte dos sites de músicas, cifras e letras. A descoberta, feita por acaso, foi do autor da canção, Claudio Bedran, que se espantou com a parceria forçada. E a situação é ainda pior, ele se deu conta, quando constatou que a mudança foi feita também em sites dos Estados Unidos e da Europa.

— Fiquei indignado. Isto é uma vergonha inominável. E não sou imbecil. É uma pena, mas eu nunca vou descobrir quem é este esse sujeito, porque muitos sites de música funcionam assim: há liberdade para escrever, sem se identificar.
Claudio se pergunta qual o alcance do mecanismo de atualização que, do país de origem da música, envia mudanças que reverberam internacionalmente. Os sites letras.mus.br e vagalume.com.br não responderam à reportagem até a publicação. No Letras, a reportagem verificou que basta se inscrever que qualquer um pode editar a música que quiser, e a letra de "Safra 63" já voltou à versão original. No site, a obra vem acompanhada da informação: "Enviada por Fernando. Revisão por Rogerio. Viu algum erro? Envie uma revisão." Já, no Vagalume, não é possível que assinantes façam revisões facilmente — e, lá, a letra segue com a expressão "reforma militar".
A música, lançada em meados dos anos 80, passou incólume à Censura da época.
— E veio se tornar polêmica justamente agora, com o Brasil dominado pela ultradireita. Talvez, até hoje, existam apenas umas três músicas com "golpe militar" nas letras — acredita Claudio, que achou o problema em sua letra em mais de uma dúzia de sites e tem tentado entrar em contato com administradores fora do Brasil para fazer a correção em todos os registros. — Não posso me conformar com uma coisa dessas. Imagina se esses caras resolvem se meter na obra de um Chico Buarque.
Ministro do TCU obriga Petrobras a explicar contratos milionários para assessoria jurídica

O ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) Benjamin Zymler determinou que a Petrobras forneça a auditores do órgão os detalhes de contratos milionários da estatal com empresas que prestaram a ela “serviço de investigação e assessoria jurídica” e de “tecnologia forense e apoio à investigação” na época da Lava Jato.
LUZ
Os contratos foram assinados entre 2015 e 2016 e ficaram em vigor até 2019. O valor total de três deles passa de R$ 573 milhões, em valores da época.
LUZ 2
A estatal tem se recusado a apresentar os dados completos. Argumenta que, se isso for feito, estratégias sigilosas em ações judiciais poderiam vir a público. Zymler levou a discussão do caso para uma sessão secreta do TCU. As razões da PB não foram aceitas.
FOCO
Um dos contratos chamou a atenção: o que foi firmado com o Trench Rossi Watanabe Advogados, que durou de 2016 a 2018. No período, o escritório contratou o ex-procurador Marcelo Miller para seus quadros. Ele foi depois acusado de fazer jogo duplo, ajudando delatores da JBS quando ainda integrava o Ministério Público Federal.
PONTO
A denúncia contra Miller foi considerada “inepta” pela Justiça em 2019.
Aprendiz de feiticeiro - Miguel Reale Júnior, O Estado de S.Paulo
Entre os motivos por que alertava para não se votar em Bolsonaro, eu ressaltava, nesta página de outubro de 2018, ser o candidato pessoa que não tivera ao longo da vida relações sociais ou políticas, sendo um outsider, sem densidade e compreensão da pluralidade própria do nosso mundo e para quem o Brasil, na sua complexidade, era visto como um quartel.
No quartel não há dissidentes ou debate livre entre membros de escalões diferentes, pois, como ensina o Manual de Campanha – Ordem Unida do Exército, 4.ª edição, 2019, as principais características de uma instituição militar são a disciplina e a coesão, entendida a disciplina como o predomínio da ordem e da obediência, sendo esta pronta, espontânea e entusiástica.
Bolsonaro, formatado na ordem unida, transformou o Ministério da Saúde num quartel, com ministro general e secretário executivo coronel, imperando o que haviam aprendido na caserna: disciplina, ou seja, um manda e o outro obedece às ordens superiores, com submissão cega às determinações do presidente Bolsonaro. Conclusão: nem no prédio do ministério se usavam máscaras.
Enquanto o presidente brincava de “marcha soldado”, milhares de brasileiros morriam. Mas quando chegou a três centenas de milhar, as elites políticas e econômicas resolveram dar um basta à brincadeira.
O repertório de encenações do pretenso mito está a se esgotar. Deu, então, uma cambalhota no palco presidencial para reafirmar sua autoridade. Tosco no plano político, sem traquejo na montagem de negociação, que presume ter-se fim preciso a ser alcançado e meios a serem negociados para chegar à meta, Bolsonaro imaginou que, abandonando seus correligionários originais e se unindo ao Centrão, estava garantido no poder para o que desse e viesse.
Como o aprendiz de feiticeiro, Bolsonaro desencadeou forças sobre as quais pensou ter controle, mas que o dominam. Como só conhece as regras da ordem unida, e não a arte da mudança de rumos e da aceitação de uma pluralidade de soluções, imaginou que teria à frente da Câmara e no Senado, em razão de seu apoio, dois outros Pazuellos.
Bolsonaro é presidente, mas sente que não mais governa, só administra crises e corre atrás do prejuízo. Diante do desastre sanitário gigantesco, o Centrão resolveu intervir no governo. Forçado pelos dirigentes das Casas do Congresso, Bolsonaro demitiu o ministro da Saúde, mas não seguiu a orientação de nomear médica de São Paulo, para desgosto em especial de Arthur Lira, que chegou a dizer serem os remédios do Parlamento amargos, podendo mesmo ser fatais.
Bolsonaro, em vista dessa pressão decorrente do número de mortos e do desespero da situação hospitalar, resolveu convocar os chefes dos Poderes para possível pacto, deixando, contudo, de convidar governadores, prefeitos e secretários da Saúde, contra os quais se voltou em posterior reunião do comitê, para culpá-los pelo desemprego decorrente das sabidamente necessárias medidas restritivas. O presidente do Senado, ao contrário, reuniu-se com governadores e deles recebeu várias sugestões.
Há evidente parlamentarismo branco. Os presidentes da Câmara e do Senado impuseram a saída do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, cuja gestão fora desastrosa para o Itamaraty. Araújo pediu demissão, apesar de já demitido por Rodrigo Pacheco e Arthur Lira.
Tendo-se feito de surdos-mudos em meio à tormenta, na resistência, própria das vítimas de estelionato, a se reconhecerem enganadas, como o foram, por Bolsonaro, os agentes econômicos (Fiesp e Febraban) finalmente resolveram se juntar aos presidentes da Câmara e do Senado e tomar posição em face do presidente. Formou-se, então, um conjunto consistente de pressão sobre o governo.
Em reação, o presidente demitiu o Ministro da Defesa, que preservara as Forças Armadas como instituição de Estado, merecendo por isso o apoio dos comandantes das três Armas. No campo militar e nos ministérios da área jurídica, Bolsonaro tenta criar nichos de obediência, com ministros próximos à família, serviçais como Pazuello, a permitir-lhe até mesmo o devaneio do estado de sítio e de se afirmar como presidente.
A esquizofrenia se faz presente no governo: de um lado, caudatário do Centrão, entrega a Secretaria de Governo para inexpressiva deputada gerenciar emendas e cargos; de outro, temeroso da ingerência do Centrão, reforça com amigos a linha repressiva: delegado ligado à bancada da bala no Ministério da Justiça, o disciplinado André Mendonça na AGU e Braga Netto na Defesa. Com tal time e a possível mobilização de polícias militares pelo governo federal, concretiza-se o risco de caminho antidemocrático.
Pouca preocupação há em dotar o governo de capacidade gerencial ante a pandemia e a crise econômica que se avizinha: o que se quer é poder. E assim o aprendiz de feiticeiro tenta novos contorcionismos visando a sobrenadar no mar dos seus desatinos. Mas mais poder para quê? Para confrontos e mobilização nacional com o “seu” exército? Não haverá!
ADVOGADO, PROFESSOR TITULAR SÊNIOR DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, FOI MINISTRO DA JUSTIÇA
Manifesto de presidenciáveis sinaliza aliança, mas diferenças persistem
O manifesto de seis presidenciáveis sinaliza pela primeira vez um embrião de alianças possíveis para 2022, mas todos os seus signatários estão cientes de que as diferenças de objetivos por ora os mantêm separados.
Segundo a Folha ouviu de pessoas ligadas à confecção do texto "Manifesto pela Consciência Democrática", o que motivou o grupo foi a necessidade de marcar a entrada no debate público num momento agudo de crise e sob o domínio narrativo da polarização entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
O texto sugerido por volta das 16h desta quarta-feira (31) ao governador João Doria (PSDB-SP) pelo ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) foi assinado por Eduardo Leite (PSDB-RS), João Amoêdo (Novo-SP), o apresentador Luciano Huck (sem partido) e, para a surpresa do grupo, Ciro Gomes (PDT-CE).
O nome do candidato três vezes à Presidência foi uma ideia de Mandetta, que se destacou ao romper com Bolsonaro devido à sua condução negacionista da pandemia da Covid-19, crise que até aqui gerou 315 mil mortes no país.
Como o pedetista é desafeto público de Doria, coube a Mandetta procurá-lo —acabou localizando-o pelo celular da mulher de Ciro. Em poucos minutos, o texto foi aprovado pelo pedetista.
Aliados de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o ex-presidente que passou os últimos anos buscando um nome centrista viável, se animaram. Ninguém gosta especialmente de Ciro, dado que ele é visto com um radical de centro-esquerda dado a populismos.
Mas todos lembram que ele já foi tucano e próximo do cacique do partido no Ceará, o senador Tasso Jereissati. Assim como já foi ministro de Lula, embora hoje nutra horror ao PT, que negou acordo com ele no pleito de 2018.
A entrada de Ciro na equação daquilo que antes se autodenominava Centro Democrático e agora virou Polo Democrático, para não ferir sensibilidades progressistas que reclamam de sua coloração de centro-direita, muda o nível do jogo.
A crise do momento ajudou. Apesar de diferenças, todos os envolvidos se filiam a correntes democráticas claras, e o país vivia uma crise militar sem igual desde que Ernesto Geisel demitiu seu ministro do Exército por tentar reverter a abertura da ditadura, em 1977.
Na segunda (29), Bolsonaro demitiu seu ministro da Defesa, Fernando Azevedo, por não concordar com a politização exigida pelo chefe das Forças Armadas, o que inclui na prática sugestões golpistas como o uso do "meu Exército" contra medidas restritivas visando conter a pandemia.
No dia seguinte, os três comandantes entregaram os cargos e foram demitidos por Walter Braga Netto, o sucessor de Azevedo que na mesma tarde emitiu nota falando em "celebrar" o golpe de 1964, que completou 57 anos na quarta.
Foi, segundo integrantes do grupo, a gota d'água para a confecção do texto que, cuidadoso, fala da defesa democrática sem citar nomes.
De todo modo, ninguém, nos partidos envolvidos, está contando com algo mais do que sinalização de alianças possíveis em 2022. O importante, disse um articulador do grupo, teria sido "colocar o bloco na rua".
O denominador comum agora é que, desde que Lula foi restaurado no jogo pela decisão do ministro Edson Fachin que lhe devolveu direito a ser candidato, a percepção do mundo político foi de um embate inevitável entre o petista e Bolsonaro.
Assim, o manifesto foi lido até por petistas e bolsonaristas como um sinal de que alguma placa tectônica se mexeu na corrida para 2022, ainda que publicamente as palavras sejam de deboche.
Os óbices óbvios são as desconfianças mútuas. Apesar de ter se retraído nas últimas semanas e buscado uma atitude mais de consenso, sinalizando inclusive que pode disputar a reeleição em São Paulo, Doria é visto como o jogador mais ativo do time.
No PSDB, o movimento antecipado por seu rival Aécio Neves (MG) de deixar a sigla sem candidato em 2022 pode ter adeptos na Câmara, onde a bancada tem fortes características de centrão, mas causou reações mesmo de pessoas que torcem o nariz em relação ao governador paulista.
No grupo em torno de FHC, o nome de Doria virou quase um consenso devido a seu trunfo político encarnado na vacina Coronavac e na gestão que faz da pandemia, mesmo com os escorregões conhecidos.
Essa ala gosta muito de Leite, o jovem governador gaúcho de 35 anos que se ofereceu para as prévias de outubro do PSDB, mas crê que ele ainda está cru para uma disputa nacional.
O outro presidenciável óbvio é Ciro, que está em campanha desde 2018, quando amealhou 12,47% dos votos no primeiro turno. Seu racha com o PT parece impossível de ser revertido e ele, mesmo se colocando numa centro-esquerda do espectro político, parece disposto a conversar.
Se isso pode ser uma costura para primeiro turno, é bastante difícil de predizer. Mas há a certeza, diz um cacique do PDT, que apenas um nome deveria se apresentar de fato entre Bolsonaro e Lula —obviamente, ele quer que seja o do cearense.
Os outros nomes têm situação mais fluida. Mandetta é visto por quase todos partidos do Polo, Centro ou outro nome que venha a ter, como o vice ideal que, de quebra, remendaria o DEM após a implosão decorrente do apoio de boa parte da bancada do partido a Arthur Lira (PP-AL) à chefia da Câmara.
A chegada do centrão ao Planalto e à chave do cofre de emendas na figura da Secretaria de Governo entregue nesta semana a Flávia Arruda (PL-DF) também cimentou no grupo a certeza de uma blindagem contra eventual impeachment de Bolsonaro.
Huck, nome quase publicamente “in pectore” de FHC, hoje cada dia mais é visto como um candidato a ficar no lugar de Fausto Silva na Globo.
Mas é um ator ativo da trama, e surpresas acontecem. Leite, como dito, é peso-pena tucano ainda, embora quem o defenda veja nisso uma vantagem para construir um nome em 2026. E Amoêdo é um coadjuvante que tem eleitores na avenida Faria Lima, coração financeiro de São Paulo.
Ausente ficou um apoiador da turma, o ex-ministro Sergio Moro, que apoiou mas não assinou o texto alegando questões contratuais com a consultoria que o emprega.
Antes presidenciável, Moro está sob pressão por ter sido declarado suspeito ao condenar Lula, e é avaliado mais como um apoiador valioso.
Os próximos passos são algo incertos. A avaliação do grupo foi de que o manifesto foi um sucesso, mas isso não implica um texto por semana. A modulação ainda está por vir, e será definida no grupo de WhatsApp montado.
Além das pretensões pessoais, há a preocupação em não gerar atritos excessivos nas estruturas partidárias, mantendo um palanque retórico ativo.
Há a certeza de que a solução da crise militar por Bolsonaro é temporária, e que mais turbulência se avizinha. Por outro lado, há certeza, calcada por percepção aferida em pesquisas, de que a solução Lula é restrita a talvez 30% do eleitorado —fatia igual à que apoia Bolsonaro.
Como alcançar os 40% restantes é o desafio que o grupo vê à frente, isso se chegar unido até lá.
Manifesto dos seis pode abrir caminho para fuga da Terra dos Mortos
A entrada de Luiz Inácio Lula da Silva na disputa eleitoral tem provocado, até agora, apenas desdobramentos virtuosos. Espero que se cumpram as regras do devido processo legal e que juízes não decidam tomar o lugar dos eleitores. Dois desses efeitos foram antecipados por este colunista neste espaço: a necessidade de o tal “centro” se organizar e a emergência de Ciro Gomes (PDT) como uma alternativa de um arco ideológico que vai da direita democrática à centro-esquerda. Vamos ver.
Seis pré-candidatos à Presidência divulgaram na quarta (31) à noite um manifesto essencialmente correto em defesa da democracia. Em ordem alfabética: Ciro Gomes (PDT), Eduardo Leite (PSDB), João Amoêdo (Novo), João Doria (PSDB), Luiz Henrique Mandetta (DEM) e Luciano Huck (sem partido). O ex-presidente Lula não foi convidado. Faz sentido. Sergio Moro foi. Não faz sentido.
Felizmente para os demais signatários, os interesses empresariais do ex-juiz —a gente é obrigado a escrever coisas estranhas no Brasil...— o impedem de assinar manifestos, mesmo aqueles em defesa da democracia, o que não deixa de ser estranho. Mas o liberam para fazer proselitismo sobre extravagâncias judiciais, o que é mais estranho ainda. No dia em que um defensor de excludente de ilicitude e processos de exceção merecer a alcunha de democrata, haverá algo de errado com os democratas. Mas não será ele a envenenar meu texto.
A iniciativa original é de Mandetta, e a ideia é tornar o 31 de Março uma espécie de Dia da Consciência Democrática, em oposição à renitente e asquerosa celebração golpista. Tomara que essa ideia prospere. Merece o assentimento de todas as pessoas decentes. Afirma o manifesto: “A conquista do Brasil sonhado por cada um de nós não pode prescindir da Democracia. Ela é nosso legado, nosso chão, nosso farol. Cabe a cada um de nós defendê-la e lutar por seus princípios e valores.” Inexiste democracia fora do devido processo legal, Moro e demais!
Ciro declarou voto em Fernando Haddad em 2018. Huck não foi explícito, mas deu a entender que Bolsonaro merecia uma chance. Todos os outros se alinharam com o atual mandatário. Não sei que parte dos discursos feitos pelo truculento fanfarrão ainda não haviam entendido. Em entrevistas, Leite e Doria manifestaram arrependimento, o que não significa, deixaram claro, que poderiam votar no PT caso as circunstâncias se repitam em 2022.
Não estou aqui a patrulhar escolhas, mas é preciso, em benefício da história, deixar registrado que não se pode acusar Bolsonaro de ter descumprido as promessas que fez não só na campanha eleitoral de 2018, mas ao longo dos 28 anos que a antecederam, em que construiu a carreira de um deputado federal medíocre e truculento. Feito o registro, saúdo o documento e entendo que, sob nenhum pretexto, alguns de seus signatários repetiriam o erro.
Começo a voltar ao ponto de partida. Se não faz sentido Moro assinar uma carta de pré-presidenciáveis que exaltam a democracia, faz sentido que Lula não esteja entre seus signatários, não porque lhe faltem as credenciais nesse caso. Os seis que endossam o documento partem da admissão tácita de que o petista tem tudo para ser um dos polos da disputa em 2022. Nesse sentido, articula-se um documento que, sendo inequivocamente antibolsonarista, também é antilulista.
Quando o ex-presidente se tornou elegível, auxiliares de Bolsonaro saíram a espalhar para colunistas distraídos que o presidente estaria feliz com a “polarização”, e muitos previram que o campo do centro e da centro-direita seria fulminado. Entendi, e o documento parece me dar razão, que, ao contrário, isso impunha a esses postulantes que entrassem num concerto de vontades em busca da personagem “nem-nem”. Fácil não é.
Não se tem ainda a definição de um nome, mas vejo ali Ciro e Doria, por exemplo, assinando um mesmo documento, o que era improvável até outro dia. Já pensaram, minhas caras, meus caros, essa terceira via como o caminho de uma eventual nova polarização que até mesmo venha a excluir Bolsonaro do segundo turno? Qualquer que fosse o vitorioso, seria a fuga da Terra dos Mortos.
Reinaldo Azevedo
Jornalista, autor de “O País dos Petralhas”.
O horror se reúne em festa nacional
02 de abril de 2021 | 03h00
Há momentos em que os absurdos brotam reunindo maldade e horror para atingir a todos. De um lado, a pandemia se propaga com fúria e ataca com novas cepas, fazendo da tétrica “média móvel de mortes” um hábito diário. De outro, o tumor cresce por atos dos que deveriam ser guardiães da ética, mas se portam como autores ou partícipes da balbúrdia, tal qual a decisão da Segunda Turma do Supremo Tribunal (STF) declarando o então juiz Sergio Moro “parcial” ao condenar o ex-presidente Lula da Silva. É como se o halo de justa justiça que a Lava Jato nos trouxe (ao desnudar o sórdido conluio dos intocáveis da política com os intocáveis do grande empresariado) fosse só devaneio.
Fomos sonâmbulos ao crer que a luz havia iluminado a longa noite de falcatruas do nosso bizarro capitalismo montado no assalto ao Estado nacional. O ministro Gilmar Mendes, relator do caso no STF, preparou o caminho, mas inexplicável mesmo foi a mudança de voto da ministra Cármen Lúcia, que desfez o que fizera e, de repente, entendeu que o juiz Moro foi “parcial”.
O novo entendimento do Supremo abre portas para invalidar o cerne da Operação Lava Jato. Começou anulando, de fato, o já apurado sobre Lula e pode chegar ao absurdo de que os tais “delatores premiados” reivindiquem receber o que devolveram dos milhões roubados à Petrobrás.
Sim, pois se o juiz “foi parcial” com Lula, terá sido, também, com os demais…
A decisão do STF nem sequer alega que Moro tenha cerceado os direitos do réu ou dos advogados. No fundo, o STF baseou-se em ilações e concluiu a partir delas.
Os processos sobre o triplex no Guarujá passarão à Justiça de Brasília, mas nada do já apurado vai valer. No lento recomeçar do zero, os processos prescreverão e Lula se beneficiará das prescrições.
Assim, a pandemia penetra na política e na Justiça como efeito colateral da suspeição de Sergio Moro.
A festança nacional do horror, porém, vai além da destruição da Lava Jato. O Brasil sofre o impacto da covid-19, mas o Orçamento proposto pelo governo para 2021 (e aprovado pelo Congresso) não dá maior atenção à “gripezinha” de Bolsonaro, que a cada dia mata mais.
Em vez disso, o Orçamento destina para gastos militares um quinto do total a ser aplicado em todos os demais ministérios. As verbas de defesa irão a R$ 8,3 bilhões e, além da manutenção das Forças Armadas, destinam-se a construir submarinos e comprar aviões de caça e blindados. É como se nos preparássemos para a guerra iminente, mas que não combate o inimigo real, a pandemia...
Os funcionários civis estão com salários congelados, mas o Orçamento prevê aumentos para os militares, a consumir outros bilhões de reais. Em contraste, as verbas das universidades se “reajustam’ para menos.
Nada disso, porém, foi mais absurdo e perigoso do que a demissão do ministro da Defesa e, logo, a dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, sob o pretexto de “realinhá-los” com os propósitos do presidente.
O demitido ministro da Defesa (um general) lembrou que “preservou as Forças Armadas como instituições do Estado”, forma elegante de revelar que evitou transformá-las em serviçais de Bolsonaro e saiu por isso. Impõe-se perguntar: o presidente estaria desejando o apoio (ou conivência) das Forças Armadas numa espécie de “autogolpe” que lhe desse poderes absolutos?
Terá sido simples coincidência que no mesmo dia o deputado Major Vítor Hugo, que foi líder do governo até 2020 (e íntimo de Bolsonaro), tenha proposto uma lei que, de fato, faz do presidente um ditador durante a pandemia? O projeto de lei terá sido só uma engrenagem na máquina do rei absolutista instalada no Palácio do Planalto?
Tudo é difuso ou oculto nos atos do presidente, nos quais o fundamental vira desprezível acessório e o remotamente acessório passa a essencial. Nada explica a tardia vacinação (que expandiu a covid-19) nem a insistência charlatanesca de Bolsonaro sobre o “uso curativo” da cloroquina e similares, que acabaram desmobilizando até parte do setor médico.
O combate à pandemia confundiu-se com a trapaça e em Minas e Espírito Santo houve “ofertas” de 200 mil doses falsas de vacina. A investigação da Polícia Federal evitou a consumação da fraude, mas o fato em si já revela o grotesco a que Bolsonaro nos levou desmobilizando a vigilância da população.
Só isso explica que, em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais, distintos grupos se aglomerem em festas e a peste avance.
Vivemos a tempestade da pandemia como se, num temporal, a “solução” fosse amarrar os galhos das árvores porque, ao se moverem, causariam a ventania…
Para onde nos leva o estilo difuso do governo Bolsonaro, que, quanto mais opina, menos sabemos aonde quer chegar? No fundo, será ele um simulador nato e absoluto?
Tudo isso se acumula como se o horror reunisse suas variantes em festiva convenção nacional.
JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

