Distorções das emendas parlamentares continuam se agravando
01 de julho de 2021 | 03h00
Volto e voltarei a escrever sobre essas emendas, pois constituem uma das grandes distorções do sistema político brasileiro. Refiro-me às verbas que parlamentares federais colocam no Orçamento, particularmente em benefício de prefeituras de cidades onde cultivam suas bases eleitorais, de olho em assegurar votos em futuras campanhas de reeleição.
O valor total dessas emendas cresceu ao longo do tempo, e elas foram objeto de emenda constitucional. Mas é possível argumentar que mesmo assim seriam inconstitucionais, assunto ao qual voltarei mais à frente.
Há quatro tipos de emendas: a individual, do próprio parlamentar, as apresentadas pelo relator-geral do orçamento, as oriundas de comissões e as de bancadas estaduais. O total das dotações alcançou as expressivas cifras de R$ 36,2 bilhões em 2020 e R$ 33,8 bilhões em 2021. É interessante verificar que são valores comparáveis às dotações do programa Bolsa Família, de R$ 29,5 bilhões em 2020 e R$ 34,9 bilhões em 2021. Mas esse programa tem reconhecidos méritos, chegando a perto de 15 milhões de famílias e a muito mais pessoas se contados os dependentes familiares.
As emendas atendem a interesses dos parlamentares e de seus beneficiários, e destinam-se principalmente a projetos municipais. São penduricalhos do Orçamento federal, já que não se destinam a finalidades típicas desse orçamento como, por exemplo, uma rodovia ou um porto marítimo que servisse a vários Estados.
Volto novamente à avaliação dessas emendas por Cecília Machado, professora da Fundação Getúlio Vargas, em artigo na Folha em 13/4/21: “Na prática, a execução descentralizada e atomizada das emendas ... pode encontrar ... desafios na sua implementação ... Primeiro, a discricionariedade individual dos parlamentares na escolha de projetos vem ao custo de uma avaliação mais ampla de alternativas para a aplicação dos recursos, e ... é falha na identificação de ações prioritárias. ... muitos municípios, especialmente os menores, não têm levantamento prévio de suas necessidades ... com critérios técnicos ... Inexistem critérios de necessidade ou custo-efetividade dos projetos, que passam a seguir lógica populista ou eleitoral ... ainda que os maiores gargalos possam estar em outras regiões ou municípios”.
A autora apontou também outros defeitos das emendas. Uma implicação muito relevante de sua análise é que a pulverização, e a falta de critérios na distribuição das emendas, faz com que não atentem para o bem comum dos brasileiros, o que é indicativo de um comportamento aético dos parlamentares.
E o noticiário sobre o assunto continua a revelar aberrações. Uma tem sido objeto de reportagens deste jornal centradas no chamado orçamento secreto. Segundo a última matéria, que vi no site do jornal em 25/6, dos repórteres Breno Pires e André Shalders, recorrendo às emendas do relator “parlamentares aliados indicaram transferências em valores muito superiores àqueles aos quais têm direito pelas tradicionais emendas ao orçamento – que são as individuais e as de bancada. As indicações, definidas nos bastidores, são oficializadas por meio de ofícios ocultos ao público”. Assim, o destino final dos recursos não consta da lei orçamentária, mas só posteriormente pelo meio mencionado, o que é um absurdo.
Segundo a mesma matéria, o Tribunal de Contas da União considerou o procedimento inconstitucional. Uma das transferências realizadas dessa forma chama a atenção. A prefeitura de Tauá, sob comando de Patrícia Aguiar, mãe do relator-geral do Orçamento de 2019, Domingos Neto (PSD-CE), foi beneficiada com R$ 146 milhões em 2020, o que dá uma média de R$ 2.476,77 por habitante, enquanto a capital cearense, Fortaleza, teve valor per capita de R$ 77,85. E por aí vai o dinheiro do contribuinte...
Volto agora à minha visão da inconstitucionalidade das emendas em geral, apontada em artigo neste espaço em 21/4. A Constituição, no seu artigo 4.º, diz que todos são iguais perante a lei, uma de suas cláusulas pétreas, ou seja, que não podem ser alteradas por reformas constitucionais.
Há tempos tinha a curiosidade de saber se não haveria uma hierarquia de princípios constitucionais. Pesquisando o assunto na internet, encontrei um texto do jurista Douglas Cunha (https://douglascr.jusbrasil.com.br/artigos/616260325/a-piramide-de-kelsen-hierarquia-das-normas) onde é dito o seguinte: “Embora não exista hierarquia entre normas constitucionais originárias (acrescento: como o artigo 4.º citado) ... as emendas constitucionais (normas constitucionais derivadas) poderão, sim, ser objeto de controle de constitucionalidade”.
Está aí, portanto, um caminho para argumentar pela inconstitucionalidade das emendas, pois infringem o referido artigo 4.º, ao criarem duas categorias de candidatos: os incumbentes, que buscam a reeleição e usam as emendas como um instrumento de suas campanhas, e os candidatos sem mandato e sem acesso a elas.
ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR SÊNIOR DA USP. É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR
A improbidade se desnuda - Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo
Peço desculpas por quebrar o encanto do dia a dia e lembrar que estamos rodeados pelo horror. De um lado, cresce a bandidagem de rua e nos assaltam (ou matam, até) em busca do celular ou do carro. De outro, em plena pós-modernidade, reaparece o perverso e retrógrado feminicídio, dando ao machismo “status” de superioridade total, que nem sequer fora insinuada pela versão bíblica de que a mulher surgiu da costela do primeiro homem. Para comprovar basta ler os jornais.
Além disso, pequenos e grandes horrores se acumulam uns sobre outros por decisão dos que nos governam. Já seria brutal recordar a mistura de insensatez, cinismo e falsidade que surge dos atos do governo federal e que o presidente da República aciona dia a dia como metralhadora giratória, atingindo os quatro pontos cardeais. Agora, a Câmara dos Deputados, que (em teoria) representa o povo, aprovou projeto alterando a Lei de Improbidade Administrativa e, assim, abrindo portas à expansão da corrupção na área administrativa.
O mais absurdo é que governistas do seio íntimo do bolsonarismo se uniram aos mais duros oposicionistas e votaram a favor do parecer do relator, deputado Carlos Zarattini, do PT paulista. Essa insólita união entre adversários não foi feita em torno de um projeto de governança em benefício da população. Ao contrário, uniram-se para acobertar crimes contra o patrimônio público. Assim, acobertam o assalto e entronizam a corrupção.
A alteração principal na lei atual é uma aberração em si ao exigir que exista clara “intenção” de lesar o patrimônio público. Esqueceram-se o deputado relator e a ampla maioria que o acompanhou que o crime atua em silêncio, sem revelar o que pode ou vai provocar. O crime é como silenciosa serpente escondida no matagal, que nunca se mostra ou se exibe. Exigir que mostre “intenção” de lesar significa isentar antecipadamente o crime em si.
Essa inesperada união entre deputados bolsonaristas e oposicionistas, além de tudo, é perigosamente reveladora de que os supostos “representantes” do povo não nos representam e são, apenas, um aglomerado de gente em busca de poder político e vantagens pessoais. Ou revela, ainda, que pode ser verdadeira aquela afirmação de que “são todos iguais” ou que os atuais partidos nada representam.
Os próprios políticos contribuem para essa visão popular ao mudarem de partido como se trocassem a camisa suada no verão tórrido. O presidente Jair Bolsonaro é um exemplo gritante. Ele pulou tanto de partido em partido que já se perdeu a conta, não se sabendo se esteve em oito legendas, ou menos. E agora busca outra mais.
Nosso Parlamento não se compõe de castas donzelas acima de qualquer suspeita. Dos 513 deputados federais, 106 estão sob investigação da Justiça em diferentes áreas. E quase todos os dias surge mais gente entrando na roda. Um exemplo concreto é a atual CPI do Senado que investiga o desdém com que nosso governo combateu a maléfica covid-19.
O Senado pode, ainda, frear a decisão e recusar o horror inventado pelos deputados. É improvável, porém, que o faça. Nada menos que 21 dos 81 senadores respondem a processos na Justiça, acusados de diferentes delitos. Estão livres devido à excrescência do tal “foro privilegiado”, que se transformou em aberração. Foi instituído para garantir imunidade à atuação parlamentar, mas passou a englobar também as demais atividades.
Antes disso, vimos o Supremo Tribunal Federal desmontar – na prática – as conclusões da Operação Lava Jato e, assim, anular a condenação do ex-presidente Lula da Silva, como se tudo o que foi apurado ao redor nunca houvesse existido. Criou-se a ideia ou sensação de que não houve jamais um centavo roubado, nem milhões de dólares depositados no estrangeiro, nem sequer o devolvido ao erário pelos próprios ladrões nas tais “delações premiadas”.
Nada supera, porém, o horror da suspeita sobre a milionária propina pela compra da vacina indiana pelo Ministério da Saúde. O combate à covid-19 esconde uma aberração ético-moral sem paralelos. A Embaixada do Brasil na Índia informou que a dose da vacina custaria 100 rúpias (ou US$ 1,34), mas o governo Bolsonaro avaliou cada unidade em US$ 15 (R$ 80,70 na cotação da época), a mais cara das seis vacinas compradas, e “empenhou”, ou reservou, os milhões correspondentes.
Tudo tão rápido que o próprio funcionário pressionado para apressar a compra levou a suspeita, pessoalmente, a Bolsonaro, que nada fez de concreto. Ao contrário, o presidente (que antes se proclamava como “o supremo manda-tudo”) disse que não podia saber dos atos de cada ministro, “tantos são os ministérios”.
Nesse quadro (e noutros não descritos aqui) a improbidade se desnuda e crescerá com as alterações dos deputados. Além da patética MMM, “média móvel de mortos”, se entroniza a sigla de que, no Brasil, cadeia é só para PPP, “pobre, preto e prostituta”.
JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
Engasgos e soluços - Bolívar Lamounier, O Estado de S.Paulo
“...un nobre potrillo que justo
en la raya afloja al llegar”
Carlos Gardel
Em 1958, quando publicou seu clássico Os Donos do Poder, Raymundo Faoro apresentou-nos uma tese deveras preocupante: a de que, desde os tempos coloniais, um “patronato político” se apropriara do Estado, apagando praticamente a distinção entre o público e o privado.
Curioso é que tal tese, por mais preocupante que fosse, permitia duas interpretações diametralmente opostas. Uma, pessimista, sugeria que tal sistema de domínio, o chamado patrimonialismo, fincara raízes profundas, a ponto de ninguém descortinar um caminho para a sua erradicação. Essa vertente sugeria que, do ponto de vista político, nossa melhor chance seria chegar a uma fachada democrática, atrás da qual o patronato prosseguiria com seus negócios; economicamente, estaríamos condenados ao mesmo grau de mediocridade, uma vez que tal sistema jamais permitiria uma transição efetiva para o capitalismo nem a opção para um totalitarismo dinâmico, como o da China atual. Na vertente otimista, asseverava-se que o patrimonialismo não resistiria ao crescimento econômico, à urbanização, à crescente intensidade da competição política – à modernização, enfim.
Retomando a questão original, a que conclusão chegaríamos hoje? Atrevo-me a afirmar que o cenário pessimista não só prevaleceu, como se tornou muito pior do que o concebido por Faoro. Não levo essa afirmação ao extremo de contestar que avançamos bastante na construção da democracia, tese que defendo em meu livro Da Independência a Lula: dois séculos de política brasileira, cuja segunda edição está no prelo. Parece-me, porém, certo que não logramos o mesmo índice de progresso em termos econômicos, sociais e educacionais. E mais certo ainda que a estagnação econômica e a degradação institucional das últimas duas décadas já ameaçam seriamente as próprias conquistas democráticas. Para substanciar essa avaliação, nossa renda anual per capita e nossos índices educacionais são mais que suficientes.
O gosto pelos eufemismos leva-nos a empregar termos como estagnação, cenário preocupante e análogos, mas o buraco é bem mais embaixo. O que estamos vendo, desde muito antes da pandemia, é um abismo profundo, ou um colossal retrocesso, como queiram. Nesse sentido, limito-me a sublinhar um fato. Com dez minutos de reflexão, qualquer cidadão é capaz de discorrer com propriedade sobre as consequências de uma radicalização entre Lula e Bolsonaro – ou da vitória de qualquer um dos dois – na eleição presidencial de 2022.
Para bem entender a hipótese do retrocesso, penso que dois importantes fatores precisam ser levados em conta. Primeiro, nossa cultura política, que sempre teve dezenas de defeitos, submergiu em mais alguns que nós, por indiferença, medo ou hipocrisia, não nos dispomos a discutir. Éramos atrasados, mas não éramos boçais. Como sociedade, nunca chegamos ao convívio pacífico e fraternal que os acólitos da ditadura Vargas tentavam nos vender como mercadoria valiosa, mas tampouco chegávamos sequer perto do radicalismo grosseiro que se configurou plenamente a partir da eleição de 2018. E aqui preciso suscitar o segundo fator novo a que acima me referi. Essa aceitação preguiçosa da realidade de um país em decomposição explica-se sobretudo pela inexistência, entre nós, de uma elite digna do nome, quero dizer, no sentido sério do termo.
A reversão do cenário pessimista que tentei delinear nos parágrafos precedentes exige a superação do patrimonialismo e, portanto, o robustecimento do setor privado da economia, e respeito pelas instituições democráticas e pela esfera pública, valores que não estão à vista. Essa revolução – sim, porque essa é a revolução de que necessitamos – requer o fortalecimento, dentro da elite, de uma parcela efetivamente voltada para o bem comum, expressão antiga, mas ainda útil. Um pedaço ao menos de uma elite orientada por objetivos públicos, e não “amigos do rei”, voltados para a obtenção de vantagens pessoais e para o favorecimento de grupos privados.
Justiça seja feita, um embrião de uma elite desse tipo existiu em vários momentos de nossa História, e existe ainda hoje, mas ela permanece exígua em relação ao conjunto. Permanece e permanecerá exígua enquanto a parte maior se deixar pautar pela indiferença, pelo medo e pela hipocrisia.
Esse é o quadro com que nos deparamos quando examinamos o funcionamento do nosso sistema político, expressão que compreende os três Poderes, as empresas estatais e toda a miríade de organizações que gravita em torno deles. Refazê-lo de alto a baixo tem de ser o alfa e o ômega de uma verdadeira reforma política do País.
Desde os tempos de Faoro, quando esperávamos a debilitação do tosco patrimonialismo de origem portuguesa, o que vimos foi a transformação dele numa grande máquina corporativista e corrupta, perpetuando a subjugação do País por interesses exclusivistas. A manter-se tal engrenagem, o que gostaríamos de chamar de desenvolvimento sustentável será apenas a mesma interminável série de engasgos e soluços que temos testemunhado desde pelo menos a 2.ª Guerra Mundial.
SÓCIO-DIRETOR DA AUGURIUM CONSULTORIA, É MEMBRO DAS ACADEMIAS PAULISTA DE LETRAS E BRASILEIRA DE CIÊNCIAS
Bolsa recebe R$ 48 bi de capital estrangeiro com melhora do cenário econômico brasileiro
03 de julho de 2021 | 05h00
O primeiro semestre de 2021, que foi de surpresas positivas na economia brasileira, arrebanhou um saldo recorde histórico de estrangeiros no mercado local de capitais. De acordo com a B3, até a última quarta-feira, esses investidores aportaram R$ 48 bilhões no mercado à vista, sem contar as aberturas de capital. É o melhor desempenho da série histórica compilada pelo Estadão/Broadcast, que vem desde o Plano Real.
Uma conjunção de fatores explica essa entrada, como a melhoria nas projeções para o PIB deste ano, a valorização nos preços das commodities no mercado internacional e a alta dos juros, que atraiu recursos estrangeiros para o País.
O aporte estrangeiro na Bolsa desde janeiro representa o dobro do recorde anterior, de R$ 21,5 bilhões, registrado no primeiro semestre de 2015, mas as condições agora são opostas. Nos últimos meses, o Ibovespa bateu recordes à medida que o mercado elevava as previsões de crescimento do País após indicadores melhores que o esperado.
Segundo o relatório Focus, do Banco Central, o mercado financeiro projeta alta de 5% para o PIB brasileiro neste ano. Há um mês, esperava alta de 3,5%.
Essa entrada deve continuar, e outros fatores entram na conta. Alexandre Almeida, economista da CM Capital, observa que a taxa Selic começou a subir e deve passar por novas altas, o que atrai mais capital estrangeiro. “Foi se formando um ambiente mais favorável para os estrangeiros, com a sinalização de alta das taxas, e isso tende a se intensificar, com a recente ata do Copom, que sinalizou que esses aumentos não devem ser apenas parciais”, diz.
Na visão de Ermínio Lucci, CEO da corretora BGC Liquidez, o estrangeiro deve buscar Brasil graças ao cenário externo benéfico para emergentes produtores de commodities, que tendem a se beneficiar da retomada da economia mundial. “As estimativas para crescimento global em 2021 estão entre 4,5% e 5%, o que considero robusto”, diz. “Acredito que esse fluxo positivo de estrangeiros na Bolsa deve se prolongar ao longo do ano.”
Ronaldo Patah, estrategista-chefe do UBS Consenso, também vê na maior demanda por commodities o propulsor da entrada de estrangeiros na Bolsa brasileira. “A China, um dos países que melhor lidaram com a pandemia, segue com crescimento robusto, e a nossa oferta de commodities calha exatamente com a demanda dos chineses (minério, carne de porco, carne bovina, de frango). Nesse caso, o Brasil é um dos países que mais se beneficiam entre os emergentes.” /COLABOROU MATHEUS PIOVESANA
Estudo revela que houve epidemia de coronavírus na Ásia Oriental há 20 mil anos
Carl Zimmer, The New York Times
Pesquisadores encontraram indícios de que uma epidemia de coronavírus varreu a Ásia Oriental há cerca de 20.000 anos e foi devastadora o suficiente para deixar uma marca evolutiva no DNA das pessoas vivas atualmente.
O novo estudo sugere que um antigo coronavírus afetou a região por muitos anos, dizem os pesquisadores. A descoberta pode ter implicações muito sérias para a pandemia de covid-19 se ela não for controlada logo por meio da vacinação.
“Isso deve fazer com que nos preocupemos”, disse David Enard, biólogo evolucionista da Universidade do Arizona que liderou o estudo, que foi publicado na quinta-feira na revista científica Current Biology. “O que está acontecendo agora talvez aconteça por gerações e gerações.”
Até agora, os pesquisadores não podiam olhar muito para trás na história dessa família de patógenos. Nos últimos 20 anos, três coronavírus se adaptaram para infectar humanos e causar doenças respiratórias graves: covid-19, SARS e Mers. Os estudos a respeito de cada um desses coronavírus indicam que eles saltaram de morcegos ou de outros mamíferos para a nossa espécie.
Outros quatro coronavírus também podem infectar as pessoas, mas eles normalmente causam apenas resfriados leves. Os cientistas não observaram diretamente esses coronavírus se tornando patógenos humanos, então eles têm se baseado em pistas indiretas para estimar quando os saltos de uma espécie para a outra aconteceram. Os coronavírus ganham novas mutações em um ritmo mais ou menos regular e, portanto, a comparação da variação genética deles torna possível determinar quando eles se separaram de um ancestral comum.
O mais recente desses coronavírus leves, denominado HCoV-HKU1, cruzou a barreira das espécies na década de 50. O mais antigo deles, denominado HCoV-NL63, pode ter tido origem há 820 anos.
Mas antes daquele ponto, o rastro do coronavírus não podia mais ser seguido - até que Enard e seus colegas aplicaram um novo método à pesquisa. Em vez de olhar para os genes dos coronavírus, os pesquisadores analisaram os efeitos no DNA de seus hospedeiros humanos.
Ao longo de gerações, os vírus provocam enormes quantidades de mudanças no genoma humano. Uma mutação que protege contra uma infecção viral pode muito bem significar a diferença entre a vida e a morte, e será transmitida aos descendentes. Uma mutação que salva vidas, por exemplo, talvez permita que as pessoas dividam separadamente as proteínas de um vírus.
Mas os vírus também podem evoluir. As proteínas deles podem mudar de formato para superar as defesas do hospedeiro. E essas mudanças podem fazer com que o hospedeiro desenvolva ainda mais contraofensivas, levando a mais mutações.
Quando uma nova mutação aleatória acontece para proporcionar resistência a um vírus, ela pode rapidamente se tornar mais comum de uma geração para a outra. E outras versões desse gene, por sua vez, tornam-se mais raras. Portanto, se uma versão de um gene é dominante em relação a todas as demais em grandes grupos de pessoas, os cientistas sabem que muito provavelmente isso é uma marca evolutiva rápida do passado.
Nos últimos anos, Enard e seus colegas têm pesquisado o genoma humano para esses padrões de variação genética com o objetivo de reconstruir a história de uma série de vírus. Quando a pandemia de covid-19 surgiu, ele se perguntou se os antigos coronavírus teriam deixado uma marca distintiva própria.
Ele e seus colegas compararam o DNA de milhares de pessoas em 26 populações diferentes do mundo inteiro, analisando uma combinação de genes conhecidos por serem cruciais para os coronavírus, mas não para outros tipos de patógenos. Em populações da Ásia Oriental, os cientistas descobriram que 42 desses genes tinham uma versão dominante. Esse era um forte indício de que as pessoas naquela região se adaptaram a um antigo coronavírus.
Mas o que quer que tenha acontecido na Ásia Oriental parece ter se limitado àquela região. “Quando os comparamos com as populações ao redor do mundo, não conseguimos encontrar o indício”, disse Yassine Souilmi, pesquisador de pós-doutorado da Universidade de Adelaide, na Austrália, e coautor do novo estudo.
Os cientistas então tentaram calcular há quanto tempo os asiáticos dessa região tinham se adaptado a um coronavírus. Eles tiraram proveito do fato de que, uma vez que uma versão dominante de um gene começa a ser transmitida de geração em geração, ela pode se beneficiar de mutações aleatórias inofensivas. À medida que mais tempo se passa, mais dessas mutações se acumulam.
Enard e seus colegas descobriram que todos os 42 genes tinham aproximadamente o mesmo número de mutações. Isso significava que todos eles haviam evoluído rapidamente mais ou menos ao mesmo tempo. “Este é um indício que sem dúvida não devemos esperar [encontrar] por coincidência”, disse Enard.
Eles calcularam que todos esses genes desenvolveram suas mutações antivirais em algum momento entre 20.000 e 25.000 anos atrás, muito provavelmente ao longo de alguns séculos. É uma descoberta surpreendente, já que os asiáticos dessa região na época não viviam em grandes comunidades, mas, em vez disso, formavam pequenos grupos de caçadores-coletores.
Aida Andres, geneticista evolucionista da Universidade College London, que não participou do novo estudo, disse que achou o trabalho extremamente interessante. “Estou bastante convencida de que há algo por trás disso”, disse ela.
Entretanto, ela não acha que já seja possível fazer uma estimativa concreta de há quanto tempo a antiga epidemia ocorreu. “Calcular o momento exato é complicado”, disse ela. “Quer isso tenha acontecido alguns milhares de anos antes ou depois - eu pessoalmente acho que isso é algo que não podemos ser tão confiantes a respeito.” O ESTADÃO
Os cientistas que pesquisam medicamentos para combater o novo coronavírus talvez queiram examinar minuciosamente os 42 genes que evoluíram em resposta à antiga epidemia, disse Souilmi. “Na verdade, isso está nos indicando os botões moleculares para ajustar a resposta imunológica ao vírus”, disse.
Aida concordou, dizendo que os genes identificados no novo estudo devem receber atenção especial como alvos para medicamentos. “Você sabe que eles são importantes”, disse ela. “Isso é a coisa legal sobre a evolução.”/TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA
'Currículo do cara é muito bom', diz Mandetta sobre ter nomeado acusado de ofertar propina de US$ 1 por dose
O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta elogiou nesta quarta-feira (30) o desempenho de Roberto Ferreira Dias à frente da diretoria de Logística do Ministério da Saúde.
Exonerado nesta terça (29) horas após ter sido citado em oferta de propina para aquisição de vacinas, Dias foi nomeado por Mandetta para o cargo no início do governo Jair Bolsonaro e mantido por seus três sucessores.
Mandetta diz que a escolha foi técnica, baseada no currículo de Dias. "O currículo do cara é muito bom e o desempenho foi bom. Ele sempre teve uma postura técnica, correta", disse Mandetta, lembrando que Dias era um dos dois únicos remanescentes da equipe que montou ao assumir o Ministério da Saúde.
Luiz Paulo Dominguetti Pereira, representante da empresa Davati Medical Supply, afirmou, em entrevista à Folha, que recebeu do diretor um pedido de propina de US$ 1 por dose em troca de fechar contrato com o Ministério da Saúde.
O ex-ministro conta que, ao deixar a Saúde em abril de 2020, recomendou que Bolsonaro preservasse a equipe para impedir descontinuidade do trabalho em plena pandemia. Mas que apenas Dias e a médica Mayra Pinheiro sobreviveram às trocas de ministros.
"Ele [Dias] permaneceu no ministério quando Bolsonaro se aproximou do centrão. Se ele permaneceu por questões políticas, não tenho como dizer", afirmou Mandetta.
O ex-ministro diz que uma das justificativas apontadas para sua exoneração foi a necessidade de melhoria da logística no ministério, mas o responsável pelo setor foi mantido. "Permaneceu exatamente no setor que eles falavam ser a razão de minha saída."
Dias foi apresentado a Mandetta pelo ex-deputado e então assessor da Casa Civil, Abelardo Lupion (DEM-PR). Convidado por Onyx Lorenzoni para a assessoria da Casa Civil, Lupion indicou Dias após ser consultado por Mandetta sobre possíveis ocupantes para a diretoria de Logística da Saúde.
Um dos padrinhos de Dias, Lupion disse duvidar que o ex-diretor de Logítica tenha cometido ilegalidade no cargo. Segundo Lupion, "o Roberto Dias tem uma formação excepcional". "Duvido que ele tenha feito o que estão falando."
O ex-deputado ressalta que Roberto Ferreira Dias foi convidado a ficar por todos sucessores de Mandetta, "inclusive o atual", tendo participado do grupo montado pelo governo Bolsonaro especialmente para o enfrentamento da pandemia.
"Roberto tem uma excepcional relação com o Planalto", disse Lupion, acrescentando que "ninguém assina nada sozinho dentro do Ministério da Saúde".
Lupion conheceu Dias em 2015, quando assumiu presidência da Cohapar (Companhia de Habitação do Paraná). Funcionário de carreira, Dias ocupava uma gerência da estatal.
Em abril de 2018, Lupion assumiu a Secretaria de Infraestrutura do Paraná da então governadora Cida Borghetti (PP), esposa do deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo Bolsonaro na Câmara e outro padrinho de Dias no Ministério da Saúde.
Naquela ocasião, Dias foi nomeado por Cida para a diretoria de logística da Secretaria de Infraestrutura. Com a eleição de Bolsonaro, Lupion foi convidado a participar do governo federal.
Consultado, diz ter indicado Dias para o Ministério da Saúde, onde também trabalhou por cerca de quatro meses, até a exoneração de Mandetta. Desde então, vive em uma fazenda no interior do Paraná.
"Depois que saí, óbvio que muita gente quis ficar padrinho do Roberto. Ele lidava bem com a classe política", disse Lupion.
O ex-deputado chama de picareta o autor de denúncias contra o afilhado político. Em alusão a uma personagem da canção Geni e o Zepelim , de autoria de Chico Buarque, em que uma prostituta é execrada por toda uma população, Lupion diz: "O Roberto jamais teria feito isso. Ele está virando a Geni dessa história".


