Estudo mostra que desigualdade na Região Metropolitana do Rio é igual à do Nordeste
Selma Schmidt e Arthur Leal / O GLOBO
RIO — Quando o assunto é desigualdade de renda nas metrópoles, o Nordeste e o Rio têm muito em comum. Um abismo que foi agravado pela pandemia de Covid-19. Pesquisa feita pelo Observatório de Metrópoles, em parceria com a PUC do Rio Grande do Sul e o Observatório da Dívida Social, revela que os 10% mais ricos da Região Metropolitana do Rio tiveram uma renda média per capita, no primeiro trimestre deste ano, 74,6 vezes maior que os 40% mais pobres e que ganham até um quarto do salário mínimo (R$ 275). Uma relação que era de 35,6 vezes em igual período de 2020.
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No primeiro trimestre deste ano, os mais pobres tinham renda média de R$ 96,8, e os mais ricos, de R$ 7.271 no Rio. No ranking da desigualdade, a Região Metropolitana do Rio — inclui 22 municípios entre eles o do Rio e os da Baixada — só perde para a de João Pessoa, na Paraíba: lá, quem está no topo da pirâmide tem rendimento 99,9 vezes superior aos dos mais carentes. O levantamento foi feito com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad trimestral), realizada pelo IBGE.
Para o economista Marcelo Ribeiro, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da UFRJ e pesquisador do Observatório das Metrópoles, um dos coordenadores do estudo, o alto grau de informalidade explica a posição da Região Metropolitana do Rio:
— O Rio de Janeiro está com o patamar de desigualdade semelhante ao do Nordeste, principalmente ao de João Pessoa e Recife, apesar de sua maior complexidade econômica. Isso porque boa parte das suas atividades econômicas são precárias, oferecendo um nível de remuneração muito baixo. São atividades informais, como a de camelôs. Uma das coisas que se observa ainda que é, durante a pandemia, o aumento da desigualdade do Rio se dá, principalmente, pelo fato de as pessoas de baixa renda terem perdido muito rendimento. E essa perda vem do fato de elas estarem com vínculos muito frágeis no mercado de trabalho.
A quarta edição do Boletim Desigualdade nas Metrópoles mostra também que a situação do Rio é muito pior do que a média brasileira. Enquanto no início de 2020 quem estava no topo da distribuição de renda ganhava, em média, 29,6 vezes a mais do que os da base da pirâmide, agora eles ganham 42,3 vezes mais. Os dados levam em consideração empregos formais e informais, mas não auxílios como o emergencial e o Bolsa Família. Os números foram atualizados.
— O aumento das desigualdades no Brasil, mais especificamente nas metrópoles, já vinha ocorrendo desde 2015. Já partimos de um patamar extremamente elevado. No último ano, no entanto, há um enorme salto nessa desigualdade, fruto de um contexto em que quase todos perdem, mas os mais pobres perdem relativamente muito mais — explica Andre Salata, da PUC do Rio Grande do Sul.
Impacto em áreas mais pobres do RJ
E é em lugares da Baixada Fluminense, como nos barracos do bairro Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, a apenas 25 quilômetros do Centro do Rio, que se tem a visão clara do tamanho da segregação. Nas ruas mais internas do bairro — nem todas totalmente asfaltadas — , os muros improvisados, feitos com telhas e tapumes, assim como as cabras, cavalos e galinhas que convivem pelas vielas ao lado de cães e gatos, dão sinais claros de que, ali, a vida já é muito diferente dos grandes centros.
A Solange da Conceição Reis, de 35 anos, é uma dessas pessoas, que, junto com seus quatro filhos – Vitória, de 16 anos, Julio César, de 18, Raíssa, de 4, e Lucas, de 13, vive numa casa improvisada, bem próximo ao local onde funcionava o lixão, e construída basicamente a partir de lascas de madeira e tapumes. Água? só de madrugada, e, mesmo assim, quando há poucas bombas ligadas. A energia elétrica chega, mas, com a geladeira quebrada e sem condições de consertar, ela recorre a ajuda de vizinhos, que vivem em situação igualmente complicada. Ela conta que, o que já era difícil, piorou com a chegada da pandemia.
— Para mim piorou bastante. Antes eu podia trabalhar até aqui na reciclagem, mas agora estamos tendo muito mais dificuldades. Eu tenho um filho que toma remédio controlado e preciso acompanhar as aulas da escola com ele, para garantir que ele tome o remédio. Agora na pandemia, os lugares também não estão contratando, estão só dispensando. Meu último trabalho foi como camareira num hotel, mas, de lá pra cá, já tentei vaga em supermercado e só estavam mandando gente embora. Também procurei uma ex-patroa para trabalhar na casa dela como doméstica, mas ela também disse que por enquanto não dava por causa da pandemia — contou.

Solange conta que ela e vários outros moradores ali, hoje, só não estão passando fome por causa da ajuda de ONGs, como a Casa Semente, que se desdobra para ajudar com cestas básicas, água tratada e acesso a computadores e impressoras, que eles utilizam para conseguir montar seus currículos.
— A minha renda hoje é só o Bolsa Família e a Casa Semente, que me dá uma forcinha. Se não fossem eles, a gente estaria passando fome e tendo mais dificuldade ainda, porque o pai deles não paga pensão. Eu sou sozinha para resolver tudo — conta, ao lado da sorridente Raíssa, de 4 anos. — É muito difícil, porque a gente não tem de onde tirar, enquanto as pessoas mais ricas têm. A gente depende de trabalhar, para conseguir sustentar a família. Só vamos saber como tudo vai ficar quando acabar essa pandemia, quando estivermos todos vacinados.
Não muito longe dali, mora Sandra Silva de Souza, de 55 anos. Há poucos dias, durante uma chuva, o banheiro e a cozinha de Sandra, construídos com madeira e tapumes, foram engolidos pelo mangue após uma chuva. Agora, ela eos filhos, que já viviam com extrema dificuldade, tentam juntar os cacos. A geladeira, um pequeno fogão e uma mesa para as refeições foram improvisados na pequena sala. Elas, no entanto, continuam vivendo sem banheiro.
— A nossa vida é muito difícil. Não só em alimentação, mas também para conseguir água. Aqui não tem. Só a do poço, que vem com cheiro de fezes, do mangue. A gente usa para lavar quintal ou banheiro, que eu não tenho mais — contou Sandra. — O dia que o pessoal da ONG disser que não pode mais me ajudar, eu vou ter que fechar as portas de casa e ir morar na rua, virar pedinte. Eles me acolheram quando eu não tinha nada, nada.

Ela diz que não possui nenhuma renda, sequer auxílio do governo. Dos oito filhos, só alguns aparecem em casa, e outros ela define como “problemáticos”. Para tentar ajudar um pouco na sobrevivência, Sandra decidiu usar o muro de sua casa para abrir um pequeno comércio, onde vende biscoitos. No entanto, diz que a iniciativa não tem dado muito certo.
— Hoje eu não tenho renda nenhuma. Não consigo o Bolsa Família há anos, meus filhos, já adultos, muitos deles são problemáticos, e a gente vê que a situação só piora com a pandemia, né? — disse, mostrando a pequena vendinha que abriu, improvisada no muro de sua casa. — Se eu consigo fazer R$ 2 por dia ali é muito.
Por fim, criticou o abismo social que existe hoje no Rio entre os muito ricos e os muito pobres. Sandra chegou a chorar ao lembrar do dia em que estava passando fome e, ao achar que teria que lutar por uma cesta básica, foi surpreendida com duas, além de itens de limpeza.
— Eu não consigo pensar em outra palavra… é sacanagem! O pobre fica cada vez mais lascado e o rico mais rico em meio a uma pandemia dessa. Enquanto isso, eu me emociono ao contar de quando fiquei toda feliz no dia em que fui receber uma cesta básica e acabei sendo surpreendida com duas. Fiquei sem acreditar, ganhei até kit de limpeza, que eu não tinha. Será que as pessoas ricas, tão distantes de nós, tem noção do que é isso? Você procurar um óleo e não ter, procurar uma carne moída e não ter… procurar sabão e não ter. Eu não tinha nem fubá antes de a ONG me a
Escalada de desocupação
Segundo Marcelo Ribeiro, apesar do avanço da vacinação em municípios como a capital do Estado do Rio, o primeiro trimestre deste ano finalizou com uma escalada de desocupação do mercado de trabalho que ainda não se recuperou:
— Para que o nível de renda possa se reverter, é necessário que haja mais postos de trabalho e que as pessoas tenham acesso à renda.
Conforme o estudo, a renda média metropolitana brasileira regrediu ao patamar de 2012, e a desigualdade atingiu o nível mais alto registrado pela série histórica medida pelo Observatório.
No caso da Região Metropolitana do Rio, a renda domiciliar per capita média, que era de R$ 1.118, no primeiro trimestre de 2012, passou para R$ 1.247,8, nos primeiros três meses de 2020, e para R$ 1.231,5, em igual período deste ano. No conjunto das regiões metropolitanas, foram de R$ 1.209,9, R$ 1.296,9 e R$ 1.201,6, respectivamente. Na Região Metropolitana de São Paulo, nos três períodos, as médias foram: R$ 1.428, R$ 1.578 e R$ 1.442,8.
No primeiro trimestre de 2012, em média, os 10% mais ricos ganhavam R$ 5.322, no Rio; R$ 7.293, em São Paulo; e R$ 5.993, no conjunto de regiões metropolitanas do país. Em 2020, os valores eram de R$ 7.013, R$ 9.561,5 e R$ 6.884,7, em Rio, São Paulo e no conjunto das capitais. Este ano, foram de R$ 7.271, R$ 8.606 e R$ 6.482,7.
Já os mais pobres, nos primeiros três meses de 2012, tinham uma média per capita de rendimentos de R$ 227,8, no Rio; R$ 329,7, em São Paulo, e R$ 264,3, no país. Em 2020, os valores estavam em R$ 102,3; R$ 293,5; e R$ 223,7, nas três áreas, respectivamente. Este ano, foram para R$ 96,8, R$ 222 e R$ 161,1, em Rio, São Paulo e no conjunto das regiões administrativas do país.









