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Danos colaterais da guerra

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

As incertezas que cercam o futuro próximo dos preços de gasolina e diesel estão longe de ser a única ameaça a pairar sobre a inflação brasileira desde que os EUA e Israel entraram em guerra contra o Irã. O conflito, que se espalha rapidamente por todo o Oriente Médio, faz disparar o preço de insumos importantes, como gás e fertilizantes, com reflexos no mundo todo, impacto que tende a ser particularmente pesado para o Brasil.

 

Ao contrário do petróleo, cuja escalada de preços internacionais tem um lado positivo para a economia brasileira, já que o País, grande exportador do produto, ganha com a venda, no caso dos fertilizantes não há qualquer vantagem. Pelo contrário: altamente dependente da produção externa, o Brasil importa em torno de 87% do fertilizante utilizado em suas lavouras, e uma parte considerável das encomendas passa pelo agora conflagrado Estreito de Ormuz, vinda de países como Omã, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, todos já envolvidos indiretamente no conflito.

 

Em relação ao gás natural, a necessidade de importação não é tão relevante, resumindo-se a algo entre 20% e 30% do volume consumido. O Brasil também produz gás, mas reinjeta nos poços produtores uma grande parcela, seja por deficiências na infraestrutura de transporte, seja como técnica para ampliar a produção de petróleo. De qualquer modo, gás e fertilizantes são insumos que afetam diretamente os custos de produção tanto na agricultura quanto na indústria. Alta de custo de produção, como se sabe, sempre deságua nos preços do consumidor final, e isso significa alimentos e bens mais caros.

 

Por tudo isso, causa assombro quando o presidente do PT, Edinho Silva, diz, em entrevista ao jornal Valor, que considera a ameaça inflacionária mundial da guerra como “um risco menor” para o Brasil. Edinho declarou que “não há nada indicando na economia que não haverá queda de juros”. Felizmente, essa avaliação, típica do negacionismo lulopetista, provavelmente não será compartilhada pelos integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom), a quem cabe a decisão.

 

O início do ciclo de queda de juros em março foi anunciado pelo Banco Central no final de janeiro, um mês antes do inesperado e intenso bombardeio do Irã por EUA e Israel. O presidente americano, Donald Trump, que ordenou o ataque em meio a uma negociação diplomática com o Irã, despeja diariamente estimativas variadas para a duração do conflito e deixa o mundo inteiro em suspenso. Não há como ter qualquer certeza sobre os impactos econômicos da guerra.

 

O Copom se reúne nos dias 17 e 18 sob muita expectativa do mercado, que tem recalibrado apostas para baixo, ainda que de forma suave. Os juros de 15% ao ano podem, de fato, ser reduzidos na reunião, com a intensidade do corte revelando o nível de cautela da autoridade monetária. O Brasil anseia pela queda dos juros, hoje em um patamar que estrangula a economia, mas não se pode ignorar que os efeitos danosos da guerra mal se fizeram sentir, razão pela qual se recomenda prudência.

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