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Programa do Ibama para converter multas de R$ 30 bi em recuperação ambiental trava em burocracias

André Borges / FOLHA DE SP

 

O plano de restauração ambiental mais ambicioso do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que previa a conversão de multas bilionárias em projetos de recuperação da fauna e flora, está emperrado em um emaranhado de burocracias administrativas e limitações de pessoal.

A criação da iniciativa de conversão de multas em programas e serviços ambientais foi apresentada pelo Ibama como a solução para seu passivo de mais de 200 mil multas ambientais, que somam cerca de R$ 30 bilhões, conforme dados de 2023.

Em média, menos de 5% dessas autuações são pagas pelos infratores. Os processos acabam mergulhados em intermináveis recursos administrativos e judiciais, sem que o pagamento ocorra efetivamente —isso quando a multa não prescreve.

Com o programa criado pelo Ibama, a multa pode ser trocada por algum projeto de preservação, melhoria ou recuperação ambiental. Como contrapartida, o autuado tem o valor de sua multa reduzido em até 60%, conforme o tipo de adesão que fizer e o prazo de recurso daquela infração.

Ao assumir o comando do Ibama no início do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em janeiro de 2023, o presidente do órgão, Rodrigo Agostinho, afirmou que o programa seria o principal instrumento de restauração e preservação do país.

Em março do ano passado, o advogado-geral da União, Jorge Messias, aprovou pareceres que permitiram a cobrança de R$ 29,1 bilhões em multas ambientais aplicadas pelo Ibama, mas que foram barradas pelo governo Jair Bolsonaro (PL) sob o argumento de prescrição. Isso permitiu que o órgão ambiental revertesse o ato de Bolsonaro que podia levar à anulação das multas.

Em junho do mesmo ano, o Ibama publicou um decreto para acelerar os resultados do programa, por meio de um formulário online de adesão que prometia reduzir "o tempo do processo de conversão de multas de anos para poucos minutos".

Ocorre que, dois anos depois de o governo anunciar que faria uma reviravolta no cenário das multas ambientais, as conversões seguem em marcha lenta, com avanços pontuais e sem o ganho de escala que se esperava.

Apenas seis projetos estão em andamento. Quatro deles somam R$ 113 milhões —para os outros dois, não há valores contabilizados. Na prática, se considerados os R$ 30 bilhões em multas empilhadas no Ibama, essa cifra convertida não chega a 0,5% do total.

Os projetos em curso referem-se a ações institucionais criadas pelo próprio Ibama, como o apoio aos Cetas (Centros de Triagem de Animais Silvestres) e o programa Quelônios da Amazônia. O órgão aprovou ainda a restauração de flora ameaçada de extinção na mata atlântica em Santa Catarina e a recomposição da vegetação na bacia do rio Urucuia, entre Minas Gerais e Goiás.

Outros dois projetos mais recentes passaram a ser tocados pelo órgão com recursos de conversão, com o salvamento de animais na tragédia climática que castigou o Rio Grande do Sul e as queimadas que assolaram o pantanal neste ano. Estes dois projetos ainda não têm valores computados.

Grandes iniciativas que estavam planejadas e chegaram a ser anunciadas pelo Ibama, como a retomada do edital de restauração dos rios Rio São Francisco e do Parnaíba, que envolveriam 33 projetos e a conversão de R$ 4 bilhões em multas, não aconteceram até hoje.

Folha apurou que o principal gargalo do programa está atrelado à sua complexidade financeira. Falta, até hoje, a definição de bancos parceiros para atuarem como intermediários dos repasses que serão feitos pelas empresas, para bancar os projetos que devem apresentar e que passam por análise e aprovação do Ibama.

Nos últimos meses, conversas foram realizadas com a diretoria do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, para se definir um "produto" que viabilize o trâmite financeiro, mas nenhum acordo foi efetivado.

Questionado sobre o assunto, o Banco do Brasil disse que, "no momento, a solução mencionada —que permitirá operacionalizar o programa de conversão de multas do Ibama— está em fase de estudo".

Já a Caixa afirmou que "atua em parceria com o Ibama na construção de soluções financeiras em apoio aos projetos do instituto, inclusive no programa de conversão de multas ambientais".

Responsável pela DBFlo (Diretoria de Biodiversidade e Florestas) do Ibama, Lívia Karina Passos Martins disse à reportagem que a definição dos trâmites financeiros teve de passar pelo crivo do TCU (Tribunal de Contas da União).

O modelo já está definido e, segundo Martins, haverá um anúncio formal de parceria com uma instituição financeira ainda em dezembro.

"Houve certa demora para resolver essa questão, porque os bancos não tinham serviço adequado para atender a conversão de multas. Passamos esse tempo discutindo isso com os bancos. Neste momento, a proposta é analisada pela procuradoria. Em breve, isso estará resolvido."

Ainda em dezembro, segundo Martins, o Ibama deve publicar um novo edital como chamamento público para empresas interessadas em aderir ao programa. Há previsão de, pelo menos, mais R$ 100 milhões em novos projetos.

Os atuais programas em andamento são aqueles que o Ibama define como de modalidade indireta, pela qual o órgão federal pode ser o executor de projetos, e o autuado financia a entrega de insumos, materiais ou equipamentos. O modelo também permite o financiamento da prestação de serviços ou a execução de obras civis.

A segunda modalidade, que está emperrada, é a conversão direta, pela qual projetos apresentados pelo autuado devem passar por análise e aprovação do Ibama.

Nesse caso, o órgão publica um edital detalhando as áreas ou os serviços ambientais de interesse, e o autuado que assim desejar apresenta um projeto.

Tiros disparados contra cidadãos inocentes revelam despreparo de PMs

Por Editorial / O GLOBO

 

Na madrugada do último dia 20, o estudante de Medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta, de 22 anos, foi morto com um tiro disparado por um PM durante abordagem num hotel na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo. No dia seguinte, Sara Regina Cardoso Coelho, de 28 anos, foi baleada em seu carro no Méier, Zona Norte do Rio, quando voltava com o marido de uma visita à filha de 5 anos internada num hospital. Segundo a família, os tiros que atingiram o veículo partiram do local onde estava um grupo de policiais. A própria PM informou que eles participavam de uma abordagem quando houve confronto. Os episódios põem em xeque o treinamento de agentes públicos contratados para proteger os cidadãos.

 

No caso de Marco Aurélio, não se ignoram as condições da morte. Segundo os policiais, o estudante estava em estado alterado e agressivo. Passou pela viatura da PM e deu um tapa no retrovisor, como mostram imagens de câmeras de segurança. Depois correu para dentro de um hotel e foi perseguido pelos agentes. Durante a abordagem, puxou a perna e derrubou um PM. Mas nada disso justifica que o jovem, desarmado, fosse alvejado com um tiro à queima-roupa na altura do peito. Especialmente quando os policiais dispunham de arma não letal para dominá-lo. “O que justifica matar um menino de 22 anos, caído, sem camiseta, que não tem onde ocultar uma arma? O que está acontecendo com a polícia brasileira?”, indagou a mãe, Silvia Mônica Cardenas Prado.

 

A ação tem gerado questionamentos. O ouvidor das polícias de São Paulo, Cláudio Aparecido da Silva, ressaltou que os agentes não fizeram uso progressivo da força, como determinam as normas da PM. Embora os policiais estivessem com câmera no uniforme, o Boletim de Ocorrência informa que não usavam o equipamento. Eles foram afastados até o fim das investigações. Ainda que comprovada a culpa dos agentes, o crime já foi consumado.

 

No caso da mulher ferida no Rio, a PM informou ter instaurado procedimento para analisar as circunstâncias. Disse que um fuzil usado na operação foi recolhido. Chama a atenção que as câmeras dos policiais não estivessem funcionando, embora sejam de uso obrigatório. Casos assim não são incomuns. Dias antes, o motorista de aplicativo Bruno Bastos, de 46 anos, foi baleado de raspão por PMs em Inhaúma, na Zona Norte do Rio, ao abastecer o carro. A mulher de Bruno disse suspeitar que os policiais tenham confundido o veículo. O caso está sob investigação.

 

Parece claro que há falhas no treinamento da polícia e nas diretrizes das políticas públicas de segurança, tanto em abordagens quanto em situações que exigem prudência. Compreende-se que as grandes cidades registram índices de violência preocupantes, e policiais estão sempre na linha de tiro. A sociedade exige ação firme contra o crime. Mas existem protocolos justamente para proteger a vida de inocentes. Operações não podem ser guiadas pela truculência ou pelo abuso. A missão do policial é proteger o cidadão, não ameaçá-lo.

O poste de Lula no Ministério da Fazenda

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Nos quase dois anos de governo de Lula da Silva, cultivou-se no mercado financeiro a expectativa quase mística de que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, seria o guardião da sobriedade econômica ante o notório desprezo do lulopetismo pelo equilíbrio fiscal e pelo controle da inflação. Mas eis que veio o tão esperado anúncio do pacote de revisão de gastos do governo, e ficou claro que Haddad é apenas o poste de Lula no Ministério da Fazenda.

 

Acabou a ilusão de que Haddad poderia ser para Lula o que Fernando Henrique Cardoso foi para Itamar Franco, outro notório estatista que afinal se limitou a assinar as medidas necessárias para a efetivação do Plano Real. Se FHC conseguiu contornar o intervencionismo de Itamar (que, até as vésperas do Real, insistia em alguma forma de controle de preços), Haddad não conseguiu (e, em seu favor, diga-se que ninguém conseguiria) conter o ímpeto eleitoreiro de Lula, que determina todos e cada um de seus passos e de suas decisões.

 

No pronunciamento de Haddad, o verniz mais político do que deveria ser essencialmente econômico revelou, no fundo, não uma fortaleza similar a outros que, no passado, ocuparam a mesma cadeira e triunfaram politicamente, como Rodrigues Alves, Getúlio Vargas e FHC. Nem a robustez de homens notáveis que exerceram seu poder à frente da economia de forma quase inquestionável, como Rui Barbosa, Santiago Dantas, Delfim Netto e Mario Henrique Simonsen. O que se viu naqueles 7 minutos e 18 segundos de anúncio do pacote foi algo diferente: a fragilidade do ministro da Fazenda.

 

Parece um paradoxo, e é mesmo: um ministro convertido na face visível de um pacote anunciado em rede nacional como se fosse propaganda eleitoral, e ao mesmo tempo porta-voz do resultado de um extenuante esforço da equipe econômica, mas que adquiriu contornos populistas – com direito a slogan marqueteiro de consistência duvidosa (“Brasil mais forte, governo eficiente, país justo”). É puro Lula.

 

Era inquestionável, até aqui, o papel de Haddad como um dos poucos trunfos de responsabilidade entre os auxiliares de Lula. Mas seu calvário rumo ao anúncio demonstra o isolamento e o esmaecimento da equipe econômica e, sobretudo, a disputa entre forças políticas antagônicas no governo, na qual o ministro claramente foi derrotado. Em maio, quando o Orçamento de 2024 estava para ser enviado ao Congresso, o mesmo Haddad foi alvo de um ataque especulativo sobre sua autoridade. O chefe da Casa Civil, Rui Costa, tentava convencer Lula a desistir da meta de déficit zero para este ano, ponto de honra de Haddad. Deu-se um ataque articulado, que envolveu deputados petistas e declarações públicas da presidente do PT, Gleisi Hoffmann. A imprensa classificou as críticas ao plano do ministro da Fazenda como “fogo amigo”, mas o nome certo é motim. Ao fim, o projeto de Orçamento foi aprovado, mas o estrago estava feito.

 

De lá para cá, Haddad seguiu recebendo golpes abaixo da cintura, a ponto de um dos candidatos a substituir Gleisi Hoffmann na presidência do PT, o prefeito de Araraquara, Edinho Silva, vir a público alertar o óbvio: não há registro na história da existência de um governo forte com um ministro da Fazenda fraco. Silva mirou em Gleisi, mas esqueceu um personagem central, o chefe Lula da Silva.

 

Ninguém duvida que o modo lulista de governar requer bajuladores fiéis, estímulo aos conflitos internos (para triunfo único do líder máximo) e acenos contraditórios a públicos distintos, conforme as circunstâncias mais convenientes para si. Ocorre que Lula e o PT ignoram que ter um ministro da Fazenda confiável e com respaldo do chefe para exercer poder é imprescindível num país cuja economia vive em sobressalto. FHC demitiu amigos para preservar a autoridade de Pedro Malan na política econômica. Delfim era o homem forte de Emílio Médici. Simonsen, o de Ernesto Geisel.

 

É essa sabedoria presidencial que permite ao País distinguir ministros da Fazenda dotados de instrumentos necessários para fazer o que é preciso daqueles que se convertem em meros operadores obedientes dos seus chefes.

É hora de uma nova direita

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Se ainda tentava encontrar meios de dar prova de vida enquanto sonhava com uma anistia que lhe devolvesse as credenciais políticas e eleitorais, o ex-presidente Jair Bolsonaro teve suas chances drasticamente reduzidas com a nova condição de indiciado. Embora sejam incertos os desdobramentos do indiciamento apresentado pela Polícia Federal – dele e de outras 36 pessoas do seu entorno pelo envolvimento numa suposta tentativa de golpe de Estado destinado a impedir a posse do presidente Lula da Silva –, há pelo menos uma certeza: o flagrante enfraquecimento político de Bolsonaro.

 

Os bolsonaristas mais fiéis costumam usar o exemplo de Lula da Silva – que cumpria pena de prisão por corrupção, de lá saiu em razão de questões processuais, ganhou a eleição e hoje é novamente presidente – para alimentar a esperança de que Bolsonaro, uma vez favorecido por uma anistia que lhe permita disputar eleições, possa voltar ao poder nos braços do povo. Mas há uma diferença essencial entre os dois casos: Lula não tinha (como não tem) herdeiros evidentes à altura; já no caso de Bolsonaro há um congestionamento de candidatos razoavelmente viáveis para herdar seus eleitores. Os bolsonaristas, contudo, não entregam os pontos e, sobretudo os filhos do capitão, desautorizam de forma agressiva quem quer que ouse se apresentar como o líder do bolsonarismo sem Bolsonaro.

 

Mas a realidade parece cada vez mais contrariar a vontade dos devotos de Bolsonaro. É claro que, mesmo fora da cédula eleitoral na próxima disputa presidencial, o ex-presidente ainda é um portento eleitoral, mas é inegável que sua capacidade de ditar os rumos da direita se reduziu drasticamente – e a prova disso é que seus enroscos judiciais são cada vez mais um assunto da família Bolsonaro e cada vez menos um assunto do Centrão.

 

O fato, portanto, é que a direita está diante de dois caminhos possíveis: o bolsonarismo golpista de um lado; e o liberalismo e a democracia de outro. Alguns candidatos a substituir Bolsonaro ainda titubeiam entre um e outro, caso, por exemplo, do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Ao comentar o indiciamento do ex-presidente, Tarcísio disse que a acusação “carece de provas” e que Bolsonaro “respeitou o resultado da eleição e a posse aconteceu em plena normalidade e respeito à democracia”. Ora, o inquérito corre sob sigilo, razão pela qual não é possível dizer se há provas ou não. E é escarnecer da inteligência alheia dizer que Bolsonaro respeitou o resultado da eleição, quando todos sabem que ele se recusou a passar a faixa a Lula e que seus seguidores tocaram o terror em Brasília nos dias imediatamente anteriores e posteriores à posse do petista. Sobrou desrespeito à democracia.

 

Se o governador Tarcísio hesita, este jornal não. Desde sempre, o Estadão deixou claro que o bolsonarismo é basicamente reacionarismo, um extremismo destrutivo e orgulhosamente delinquente, que prospera somente num ambiente de conflagração. É, portanto, a negação da direita liberal, que é democrática, sustenta-se nas ideias republicanas e pugna pela manutenção das instituições. Os candidatos a liderar essa direita precisam saber que ainda estão para nascer sociedades mais bem-sucedidas do que aquelas ancoradas em direitos e liberdades individuais e coletivos, em sistemas de freios e contrapesos, em democracias liberais que buscam uma alocação eficaz de recursos e meios de oferecer competividade e produtividade.

 

Não é improvável que vejamos esses dois caminhos bifurcados em 2026. Que tenhamos em 2026 uma direita que expresse o cansaço de parcela considerável do Brasil com o modo bolsonarista de fazer política – assim como é desejável, embora improvável, uma esquerda moderna, com visão atualizada dos problemas que o País precisa enfrentar. Hoje pagamos a conta tanto do modelo de implosão do sistema político e de agressividade e ataque às instituições que marcam o bolsonarismo quanto do pensamento rupestre na forma de gerir o Estado que marca o lulopetismo.

 

Mas há uma boa notícia pelo menos em relação ao primeiro: a perda de vitalidade de Bolsonaro pode acelerar o processo de superação dessa fase tenebrosa da história brasileira.

Indiciamento de Bolsonaro traga eleição de 2026, muda discurso e gera temor de delação de generais

Por Guilherme Caetano / O ESTADÃO DE SP

 

BRASÍLIA - O indiciamento de Jair Bolsonaro (PL) e outras 36 pessoas pela Polícia Federal (PF) por tentativa de golpe de Estado tem antecipado cálculos eleitorais para a próxima eleição presidencial e gerado temor de que generais delatem aliados.

 

A tensão cresceu no círculo íntimo de Bolsonaro. Uma pessoa próxima a ele afirma “não duvidar” que os militares de alta patente possam fechar acordos de colaboração com o Ministério Público Federal (MPF) para prejudicar o ex-presidente, e que os “generais são inconsequentes”. A preocupação tem lastro no caso do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro e um de seus homens mais leais, cuja delação abasteceu as investigações.

 

Após o relatório de 884 páginas da PF ser tornado público pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, na última terça-feira, 26, pessoas no entorno de Bolsonaro passaram a colocar a disputa presidencial de 2026 como suposta motivação oculta por trás das investigações contra o ex-presidente.

 

Na quarta-feira, bolsonaristas mudaram o foco da defesa dos aliados, usando como subsídio uma pesquisa eleitoral indicando vantagem numérica de Bolsonaro contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) num eventual duelo pelo Palácio do Planalto. O discurso aposta num eventual cenário em que o cerco sobre Bolsonaro poderia turbinar sua imagem de perseguido pelo sistema, e fortalecer seu capital eleitoral.

 

“A trama midiática contra @jairbolsonaro tem um único objetivo: tirar da corrida eleitoral o único nome capaz de derrotar Lula”, diz o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em suas redes sociais, sendo endossado por outros parlamentares. “A nova estratégia da esquerda é deixar seus oponentes inelegíveis. Sem prender ou assassinar seus rivais políticos, eles visam manter ares de democracia no país dominado”, escreve seu irmão, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

 

O reposicionamento do discurso, que antes focava na questão processual — o deputado federal Paulo Bilysnkyj (PL-SP) vinha dizendo que “no relatório da PF não existe prova da participação de Bolsonaro em nenhum fato”, e o comunicador Leandro Ruschel, que “não há evidências concretas de uma tentativa de golpe” —, se dá junto da torcida de que a eleição brasileira espelhe mais uma vez a americana.

Nos Estados Unidos, Donald Trump manteve sua popularidade e se elegeu numa vitória avassaladora no último mês, retornando à Casa Branca a despeito de estar condenado criminalmente e responder como réu em três processos, um deles por tentar interferir no resultado da eleição de 2020, quando perdeu para Joe Biden.

 

O vereador eleito Gilson Machado Filho (PL-PE), filho do ex-ministro do Turismo de Bolsonaro que acompanhou Eduardo e o pai à mansão de Trump na Flórida na noite em que ele foi confirmado presidente eleito, aposta nisso. Na semana passada, Bolsonaro passou uma semana de férias na companhia da família Machado em São Miguel dos Milagres.

 

“Eu acredito que (essa perseguição) só fortalece. Para a direita até vai ser bom prender Bolsonaro injustamente, porque o povo se comove com isso. Vai acontecer igual houve com Donald Trump”, ele diz.

 

O senador Rogério Marinho (PL-RN), secretário-geral do PL e principal interlocutor entre Bolsonaro e o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, que estão impedidos pela Justiça de se comunicar, mantém o mesmo discurso: “Isso só fortalece o presidente (Bolsonaro), porque quado você exagera e persegue um grupo político desta forma, isso se reflete na população”, afirma.

 

Se o líder do Partido Republicano é inspiração para Bolsonaro, Lula pode igualmente ser. Isso porque há conversas no entorno do ex-presidente para ele repetir a estratégia petista em 2018, quando Lula estava preso e foi inscrito como cabeça de chapa presidencial mesmo assim. Com o ex-presidente petista impedido de concorrer, o então vice Fernando Haddad assumiu o seu lugar, beneficiando-se da transferência de votos do aliado e chegando ao segundo turno.

 

No caso do PL, os nomes de Flávio e Eduardo são cogitados para a empreitada similar, se Bolsonaro continuar impedido de concorrer. Em 2023, ele foi condenado à inelegibilidade por oito anos pela Justiça Eleitoral por ataques à democracia. A direita, no entanto, se vê numa situação desconfortável: dois dos três nomes melhor posicionados para enfrentar o PT daqui a dois anos estão enroscados em ações que resultam em inelegibilidade. Além de Bolsonaro, Pablo Marçal (PRTB) responde a processos que podem tirar seu direito de disputar eleições, principalmente no caso de um documento inverídico divulgado por suas redes sociais contra Guilherme Boulos (PSOL) na reta final da campanha à Prefeitura de São Paulo.

 

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), por sua vez, também sob uma ameaça, ainda que considerada leve. Nesta semana, o ministro Kassio Nunes Marques arquivou uma notícia-crime aberta por Boulos contra Tarcísio que poderia deixá-lo inelegível.

Pacote inepto de Lula eleva patamar dos juros

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Para qualquer pessoa com alguma noção da realidade, era totalmente previsível que resultaria em desastre financeiro a atitude do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de divulgar um pacote pífio de controle de gastos associado a uma promessa vistosa de redução do Imposto de Renda.

Em apenas dois dias, os juros de mercado saltaram mais de 1 ponto percentual, e as expectativas já incorporam que a taxa Selic, do Banco Central, poderá superar 14,5% ao ano nos próximos meses. A irresponsabilidade de Lula alimentou a ameaça de disparada da dívida pública, em vez de contê-la, o que afetará todos os brasileiros.

Diante da descarada recusa do governo em realizar um ajuste sério, a cotação do dólar chegou a atingir R$ 6,10 na sexta (29), novo recorde de desprestígio da moeda nacional. O resultado é óbvio: mais lenha na fogueira da inflação, cujas chamas já vinham crescendo pela pressão de gastos públicos excessivos.

Já não se dúvida que o IPCA supere 5% em 2025, 2 pontos percentuais acima da meta do BC. Assim se encarecem matérias-primas, alimentos e bens intermediários essenciais para a produção e o transporte de artigos de primeira necessidade.

O cenário de descontrole fiscal dificulta a tarefa do Banco Central de estabilizar os preços, a ponto de torná-la impossível sem elevação de juros já exorbitantes. Longe de conjecturas apenas teóricas, trata-se de um golpe direto nos mais pobres, que são os grandes prejudicados.

O aperto das condições financeiras reverbera imediatamente no custo de financiamento de famílias e empresas. O torniquete do endividamento sufoca o setor produtivo e destrói intenções de investimentos e possibilidades de consumo das famílias.

É verdade que a economia do país ainda crescerá 3% ou mais neste ano, e o desemprego está baixo. Esse quadro é frágil, porém, pois se ancora em gastos federais insustentáveis, quando o necessário seria criar condições duradouras para juros baixos.

Está sendo contratada uma desaceleração da atividade que cedo ou tarde atingirá o emprego e piorará os indicadores sociais. A esta altura já não há dúvida de que o presidente da República e seu partido não têm uma compreensão clara da emergência em que colocaram o país.

Resta ao ministro Fernando Haddad, da Fazenda, fazer o discurso da sensatez, que tem cada vez menos credibilidade. Culpar o governo passado, ademais, pode açular a militância petista, mas em nada aumenta a confiança numa gestão que desdenha da solvência das contas públicas.

Não há mais motivos para esperar algum lampejo de lucidez de Lula —que nem se preocupa em fingir alguma responsabilidade orçamentária. Resta esperar que lideranças do Congresso, em nome do pragmatismo, examinem as propostas a serem apresentadas com a responsabilidade ausente no Palácio do Planalto.

 

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