Supremo não deveria incentivar censura na internet
O Supremo Tribunal Federal prepara-se para mais uma invasão das competências do Congresso Nacional. Desta vez o alvo específico são dispositivos do Marco Civil da Internet, mas a mira geral aponta para a liberdade de expressão.
Consta da pauta desta quarta-feira (4) da corte a sequência do julgamento de ações que questionam fundamentalmente o artigo 19 da lei, promulgada em 2014, que estabeleceu as balizas para o funcionamento da rede mundial de computadores no Brasil.
O trecho em discussão do diploma assevera que provedores do serviço só poderão ser responsabilizados civilmente por conteúdo gerado por terceiros se descumprirem ordem judicial para tornar indisponível tal conteúdo.
Não há problema com esse comando se ele for avaliado pelo crivo clássico do Estado democrático de Direito. Proibir alguém de se expressar configura sanção tão drástica a um direito fundamental que ela deveria ser exercida, ainda assim em casos excepcionalíssimos, apenas pela caneta de uma autoridade do Judiciário.
O artigo 19 do Marco Civil nem precisaria disso, mas toma o cuidado de deixar explícito o seu propósito nas palavras introdutórias. Ele está na lei com "o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura".
O espírito do tempo, no entanto, alterou esse entendimento inclusive no tribunal constitucional brasileiro, que num passado não tão remoto se portava como bastião da livre expressão no país.
Não mais. O ministro relator de uma das ações, Dias Toffoli, já indicou que ampliará os casos de responsabilização de provedores, pois segundo ele o sistema de punição deveria se ajustar ao modelo atual das redes, que incentivaria a difusão de inverdades e conteúdos odiosos e criminosos.
Será uma surpresa positiva se a maioria dos integrantes do Supremo contrariar a predisposição de Toffoli de impulsionar a autocensura nas empresas provedoras. A própria iniciativa do presidente Luís Roberto Barroso de colocar em pauta o julgamento demonstra a inclinação por dar mais um passo na direção da limitação do direito à expressão.
Os ministros pelo visto se cansaram de esperar que o Congresso Nacional, ao qual ainda cabe a função de legislar pela Constituição, decida sobre um projeto que trata desse assunto.
Então, ao mau hábito recente de interferir, por vias ortodoxas e heterodoxas, nas prerrogativas de expressão dos cidadãos, os supremos magistrados somaram um outro costume pernicioso, que têm adotado com frequência —o de meter-se em questões típicas de um outro Poder.
A saliência da cúpula do Judiciário brasileiro conota uma leitura equivocada da política. Há quase dois anos não subsiste mais a ameaça constante de um presidente da República autoritário, irresponsável e adversário da Carta de 1988. Os tempos são de normalidade institucional absoluta, e o Supremo já deveria ter-se recolhido a seu papel estrito.
Milei dá lição de disciplina fiscal para o continente
Por Editorial / o globo
Quando completar o primeiro ano na Presidência da Argentina na semana que vem, Javier Milei terá muito o que comemorar. Apesar do perfil provocador, seu governo tem sido até o momento uma força de estabilização. Ao assumir, a economia flertava com a hiperinflação. De 25% em dezembro de 2023, o índice mensal caiu a 2,7% em outubro. O ano de 2024 fechará em recessão, mas o PIB tem se recuperado e deverá voltar a crescer em 2025. Apesar de o choque ter levado a pobreza ao pior nível em 20 anos, Milei conta com a paciência dos argentinos. Tem aprovação de 49% dos eleitores— acima dos dois antecessores a esta altura do mandato.
Maldita talvez seja uma palavra branda demais para descrever a herança com que ele teve de lidar. Sempre em nome da alardeada “preocupação social”, governos anteriores — a maioria peronistas, mas não apenas — mantiveram intacto um sistema insustentável de gastos públicos. Incapazes de promover ajuste fiscal, enfrentavam dificuldades para acessar fontes externas de financiamento depois de sucessivos calotes. Repetindo os mesmos erros, dedicaram-se a imprimir dinheiro.
Com uma mão, quem estava no poder mantinha subsídios, concedia ajustes a aposentadorias e financiava programas sociais. Com a outra, tirava o dinheiro do bolso de todos na forma da inflação galopante e do caos econômico que afugentava investimentos.
Foi a exaustão dos eleitores com essa farsa que levou à derrota dos peronistas. Em 12 meses, Milei não cansou de repetir o refrão: “no hay plata” (não tem dinheiro). Promoveu contração real do gasto público de 28%. Reduziu subsídios, investimentos e benefícios previdenciários. Até os mais otimistas ficaram apreensivos. Mas a previsão é encerrar 2024 com superávit fiscal pela primeira vez em 16 anos.
É verdade que os avanços não são garantia de sucesso futuro. Como sentiram os torcedores de Botafogo e Atlético Mineiro em Buenos Aires, os preços na Argentina estão altos. O câmbio está valorizado. Mas o governo tem medo dos efeitos da transição para um sistema de flutuação livre. Um novo acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), com a volta de Donald Trump à Casa Branca, poderia ajudar.
O peso artificialmente forte gera apreensão. Está fresco na memória o custo do colapso da convertibilidade da Era Menem. Entre 1999 e 2002, o índice de Gini, que mede a desigualdade, aumentou 4 pontos. Pelo indicador oficial, os pobres chegaram a 65,5% (hoje são 52,9%). Mas pobreza é sempre algo difícil de medir. Pelos números do economista Marcelo Neri, da FGV Social, a Argentina tinha 9,1% de pobres em 2011, ante 31,6% no Brasil, usando a linha da pobreza equivalente à renda mensal de R$ 666 por pessoa (adotada no Brasil). Em 2022, os números eram respectivamente 10,9% e 23,5%. A realidade decerto piorou sob Milei, mas não ao extremo do passado.
Para ter a chance de acabar o mandato em alta, ele precisa que a economia volte a crescer a taxas robustas, com criação de emprego e renda. No front político, tem mostrado capacidade de diálogo inimaginável para quem tratava oponentes como inimigos na campanha. Se vencer as eleições legislativas no ano que vem, seu poder de barganha aumentará.
Milei ainda continua a falar como “o louco” da campanha eleitoral, mas pelo menos no aspecto fiscal tem mantido um nível de sanidade que faz falta no Brasil.
Escolas cívico-militares não são bom modelo para educação no país
Por Editorial / o globo
A implantação de escolas cívico-militares, que ganhou impulso no governo Jair Bolsonaro, sempre despertou controvérsia. Agora, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) se prepara para julgar sua constitucionalidade. No fim do mês passado, o ministro Gilmar Mendes derrubou uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo que impedia a instalação desses estabelecimentos por meio de um programa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Independentemente dos aspectos jurídicos que cercam a questão, escolas militares ou cívico-militares não são um bom modelo para o país. Estabelecimentos de ensino não precisam ser militarizados para impor disciplina. Além disso, militares não estão familiarizados com as carências da educação brasileira. Se a preocupação é melhorar a qualidade do aprendizado, mais lógico seria reproduzir modelos de sucesso, como o Ceará, que transformou o ensino a partir de escolas regulares, iguais para todos.
O modelo de escolas cívico-militares é adotado eventualmente desde os anos 1990. No governo Bolsonaro, foi alçado à categoria de política pública. Depois da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os ministérios da Educação e da Defesa decidiram acabar gradualmente com o programa, mas ele sobrevive em estados e municípios. Levantamento do GLOBO junto às redes estaduais mostrou que há pelo menos 569 estabelecimentos desse tipo em 16 unidades da Federação.
Em São Paulo, o governo Tarcísio pretende implantar 45 escolas cívico-militares a partir de 2026. Professores, pais de alunos com até 16 anos e estudantes com mais de 16 precisarão chancelar a iniciativa por meio de votação. Ainda em fase embrionária, a medida agita a rede estadual, com denúncias de repressão a professores contrários e protestos de alunos.
Não faz sentido criar dois modelos dentro de uma mesma rede. O desejável é que as diretrizes da Secretaria de Educação sejam aplicadas a todas as escolas. E que todos os estudantes sejam submetidos às mesmas normas pedagógicas, disciplinares e avaliação. A solução para a violência que assusta muitos estabelecimentos não é militarizá-los, mas cuidar da segurança em parceria com as autoridades competentes.
Escolas cívico-militares não se justificam nem do ponto de vista pedagógico nem orçamentário. Apenas no período 2020-2022, o programa consumiu R$ 94 milhões, tornando-se um dos 15 maiores gastos das verbas discricionárias da educação básica.
Por mais que o programa seja questionável, não cabe ao Judiciário se intrometer em políticas pedagógicas. Governadores têm autonomia para decidir os rumos da educação, desde que sigam as diretrizes do MEC. O ensino brasileiro padece de diversas carências, como deficiências na formação de professores, resultados fracos em avaliações nacionais e internacionais, instalações precárias e falta de equipamentos. Certo seria se dedicar a tais problemas e deixar de lado a militarização. Escola não é quartel.
A busca do equilíbrio
Por Merval Pereira / o globo
A reação dos parlamentares às exigências do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino para o pagamento das emendas a que têm direito mostra que o interesse deles é particular, e não coletivo, como deveriam ser seus projetos. O ministro nada mais fez do que detalhar o que já era exigido quando mandou parar de pagar as emendas: a transparência do envio dos recursos do Tesouro Nacional a que cada parlamentar tem direito.
Incomodaram-se os senhores deputados e senadores com critérios técnicos exigidos pelo ministro do Supremo, como identificação do deputado que endereçou a emenda e de quem a recebeu, prefeitura ou organização não governamental. Também uma boa inovação foi exigir que as emendas para Saúde sejam aprovadas pelo ministério seguindo “orientações e critérios técnicos” estabelecidos por ele e por comissões de gestores estaduais e municipais.
Outros ministérios deveriam ter entrado nessa exigência, para que as verbas federais fossem investidas em programas coerentes com as linhas de ação do governo eleito. A partir do momento em que Executivo e Legislativo chegaram a um acordo a respeito das emendas parlamentares, não restava outra saída a Dino senão as liberar. Ele havia suspendido o pagamento e esperava uma definição dos dois outros Poderes. Depois que o governo aceitou as verbas imensas — são R$ 50 bilhões — e fechou acordo com o Congresso, ele criaria uma crise enorme caso não aceitasse.
A exigência de transparência, ponto central da decisão de Flávio Dino quando suspendeu as emendas, precisa ser acompanhada para ver como será cumprida. Tenho a impressão de que, em vários casos, poderá haver impugnação, e o STF terá de intervir. Mas, de qualquer maneira, já é uma vitória o Congresso assumir a obrigação de ser transparente e de explicar a origem e a destinação das verbas liberadas. Depois desse susto, creio, haverá contenção dos parlamentares. Será preciso acompanhar a execução; certamente será mais fiscalizada, e haverá muitas denúncias. Não é o ideal, mas é o possível.
Pela decisão, as verbas das emendas de comissão e dos restos a pagar do orçamento secreto só poderão ser executadas caso o parlamentar solicitante seja identificado nominalmente no Portal da Transparência. As “emendas Pix”, liberadas sem que se soubesse quem mandou e onde foram gastas as verbas, terão de obedecer a um plano de trabalho, estabelecidos objeto e prazos para a obra, que terá de ser aprovada pelo governo.
Dino tenta, assim, organizar a distribuição de verbas públicas para que não sejam pulverizadas em projetos que não combinam com o plano nacional que o governo eleito tenha escolhido. Com essas medidas, o equilíbrio entre Executivo e Legislativo será alcançado, e o parlamentarismo à brasileira imposto pelas circunstâncias políticas será minimizado.
Não adianta nada ao país, num momento em que é preciso equilibrar as contas públicas, distribuir uma verba gigantesca para que os parlamentares gastem à vontade, sem que tenham de prestar contas em muitas ocasiões. Os parlamentares enxergam nessas exigências de Dino uma combinação com o Palácio do Planalto para equilibrar o jogo político, que, desde que Bolsonaro decidiu abrir mão de governar para tramar seu golpe de Estado, pendia para o Legislativo. As circunstâncias políticas neste momento beneficiam o governo. O plenário virtual já formou maioria para a aprovação das exigências de Flávio Dino.
Os parlamentares terão de partir para a chantagem explícita se quiserem resistir. O pouco tempo para aprovação do pacote do governo neste ano pode jogar a favor dos políticos, mas contra o país. Também a falta de convicção do governo Lula em relação ao corte de gastos ajuda a complicar a situação.
Por que vivemos em uma era dominada pelo surpreendente encanto da ignorância?
Por Mark Lilla* (The New York Times) / o estadão de sp
Aristóteles ensinou que todos os seres humanos desejam o conhecimento. Nossa própria experiência nos ensina que todos os seres humanos também desejam não conhecer, às vezes vorazmente. Isso sempre foi verdadeiro, mas há certos períodos históricos em que negações de verdades parecem assumir uma vantagem, como se algum vírus psicológico se espalhasse de maneiras misteriosas, com o antídoto subitamente impotente. O atual período é um desses.
Cada vez mais gente rejeita atualmente a racionalidade, classificando-a como um empenho inútil que serve apenas para disfarçar maquinações do poder. Outras pessoas sentem, em vez disso, que têm um acesso especial à verdade que as exime de questionamentos, como uma protelação esboçada. Multidões em transe seguem profetas disparatados, rumores irracionais engendram atos de fanatismo, e pensamentos mágicos expulsam e substituem o senso comum e a experiência. E ainda por cima disso tudo profetas das elites pregam ignorância, pessoas escolarizadas que desprezam o conhecimento, idealizam “o povo” e o encorajam a resistir à dúvida e erguer muralhas em torno de suas crenças imutáveis.
Sempre é possível encontrar causas históricas imediatas dessas irrupções de irracionalidade: guerras, colapsos econômicos, mudanças sociais. Mas buscá-las pode desviar-nos do reconhecimento de que a fonte definitiva encontra-se num ponto mais profundo, dentro de nós mesmos e do próprio mundo.
O mundo é um lugar recalcitrante, e há coisas sobre o mundo que preferimos não reconhecer. Algumas são verdades inquietantes sobre nós mesmos; as coisas mais difíceis de aceitar. Outras são verdades sobre a realidade que nos cerca, que, uma vez reveladas, nos furtam crenças e sentimentos que de algum modo melhoram e facilitam nossas vidas — ou pelo menos dão a parecer que o fazem. A experiência do desencanto é tanto dolorosa quanto comum, e não surpreende que um verso de um poema inglês, que não fosse por isso acabaria esquecido, tornou-se um provérbio comum: a ignorância é uma bênção.
Qualquer um de nós é capaz de encontrar motivos para nós mesmos e outras pessoas evitarem conhecer certas coisas, e muitos desses motivos são perfeitamente racionais. Seria um despropósito uma trapezista prestes a subir na plataforma consultar a tábua de expectativa de vida para profissionais de sua área. Até mesmo a pergunta, “Você me ama?”, deveria passar por vários questionamentos mentais antes de ser pronunciada.
Mas todos nós também possuímos uma disposição básica de conhecer, uma maneira de levar nossas vidas no mundo conforme as experiências que aparecem no caminho. Algumas pessoas são apenas naturalmente curiosas sobre como as coisas chegaram a ser o que são. Gostam de enigmas, gostam de investigar, gostam de aprender por quês. Outras são indiferentes em relação ao conhecimento e não veem nenhuma vantagem particular em fazer perguntas que lhes parecem desnecessárias para simplesmente seguir a vida.
E há pessoas que, seja por que for, desenvolveram uma antipatia particular em relação à busca do conhecimento, cujas portas internas foram trancadas a sete chaves contra qualquer coisa que possa colocar em dúvida o que elas acreditam que já conhecem. Essas atitudes não se limitam aos pouco escolarizados; são estados de espírito que emergem em todos nós, por mais atípicos que possam parecer.
Por que isso ocorre? Porque procurar e obter conhecimento não é uma busca apenas cognitiva, é também uma experiência emocional. O desejo de conhecer é exatamente isso: um desejo. E sempre que nossos desejos são satisfeitos ou frustrados nossos sentimentos também estão envolvidos.
Dada a intensa rapidez com que tudo muda na vida hoje em dia, não é melhor nos fiarmos com frequência nas conquistas intelectuais e morais que já alcançamos? Por que buscar a verdade se a verdade exige de nós o árduo trabalho de repensar o que já conhecemos? Da mesma forma que somos capazes de desenvolver um amor pela verdade que nos incita ao interior, nós podemos também, portanto, desenvolver um ódio pela verdade que nos preenche com uma sensação apaixonada de propósito. É possível que haja um conflito de emoções, com o desejo de defender nossa ignorância levantando-se como um adversário poderoso ao desejo de escapar dela.
Uma fonte desse conflito é considerarmos nossas opiniões prolongamentos de nós mesmos, como próteses. Quando elas são atacadas ou descartadas, nós sentimos que algo íntimo foi atingido. E quando nossas opiniões provam-se erradas, sentimos vergonha. Sócrates sustentava que não é vergonhoso estar errado, que vergonhoso é fazer algo errado. Ele estava certo. Mas não é assim que nos sentimos inicialmente, em especial quando outra pessoa expõe nossos erros.
Todo argumento tem dono. Por trás de toda afirmação há um afirmador; e é ele, não seu argumento, que fere nosso orgulho. Por mais estranho que possa parecer, matemáticos e cientistas que debatem questões distantes de suas vidas podem ser tão dogmáticos e melindrosos quanto qualquer correligionário político. Uma nova partícula elementar é descoberta: será um salto gigantesco para a humanidade ou um ponto para o nosso time?
Em algum momento todos nós recusamos a oportunidade de descobrir o que é realmente verdade. Nós abrimos mão voluntariamente de conhecer a verdade sobre o mundo por temer que ela exponha verdades sobre nós mesmos, especialmente nossa falta de coragem para o autoescrutínio. Nós preferimos a ilusão da autossuficiência e aceitamos nossa ignorância por razões exclusivamente próprias. Não importa que confiar em opiniões falsas seja a pior forma de dependência. Não importa que a teimosia possa nos fazer prescindir da felicidade. Nós preferimos afundar com o navio do que cair no esquecimento.
Então, da mesma forma que discordamos das pessoas que se encantam com charlatões e demagogos, não devemos eximir a nós mesmos. Nós queremos conhecer — e queremos não conhecer. Nós aceitamos a verdade — e resistimos à verdade. A mente vai e vem, numa partida de badminton consigo mesma. Mas essa dinâmica não parece um esporte; em vez disso, nos dá a parecer que nossas vidas estão em jogo. E estão./TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO
ONG investigada recebe R$ 90 milhões de emendas, foca games e tem suspeita de sobrepreço
Uma ONG com breve histórico de atuação em Anápolis (GO) recebeu mais de R$ 90 milhões em 26 emendas parlamentares nos últimos três anos para ações que vão de competições de jogos eletrônicos em dez estados a controle de zoonoses no Acre.
Nas ações de games, maior foco da entidade com o uso de emendas, boa parte dos recursos recebidos é atribuída a aluguéis de computadores com valor equivalente a 11 vezes o preço de compra, de acordo com os documentos oficiais obtidos pela Folha. A ONG ainda usa cerca de 40% do dinheiro das emendas em festas de abertura ou encerramento.
A Associação Moriá é comandada por militares e ex-integrantes do governo Jair Bolsonaro (PL). Ela está entre as 10 ONGs na mira de um relatório da CGU (Controladoria-Geral da União).
O órgão de controle encaminhou detalhes ao STF (Supremo Tribunal Federal) sobre essas organizações após determinação do ministro Flávio Dino para um pente-fino em despesas com emendas. Com relação à Moriá, identificou gastos "evitáveis" de R$ 1,7 milhão somente em dois desses convênios. A Controladoria também aponta "ausência de análise crítica" na aprovação de orçamentos pelo governo federal.
A Moriá nega qualquer tipo de irregularidade. "Os programas executados pela entidade atenderam todas as etapas estabelecidas pelo Executivo federal, respeitando todos os requisitos, critérios e padrões contratados", afirmou a ONG em nota.
No Orçamento 2024, a entidade recebeu emendas para levar os "Jogos Estudantis Digitais (Jedis)" para Goiás, Alagoas, Amazonas, Rondônia, Bahia, Minas e Distrito Federal. O objetivo é ensinar em escolas jogos online como Valorant, LOL, eFootball e Free Fire. Só a bancada do DF na Câmara destinou R$ 37 milhões.
Um dos projetos em execução, os Jogos Estudantis Digitais de Brasília, prevê no plano de trabalho o atendimento de 300 jovens em 10 núcleos (3.000 pessoas). Mas as contratações de cursos, camisetas, medalhas e outros itens são para 5.000, conforme plano de trabalho acessado pela Folha em plataforma de transparência do governo.
Esse plano foi aprovado pelo Ministério do Esporte, de cujo orçamento saiu a emenda. A pasta não respondeu aos questionamentos da Folha.
Segundo a CGU, "não há um padrão e também não há critério claro por parte do gestor federal para aprovação e análise dos planos de trabalho, mesmo se tratando de itens idênticos".
"O que demonstra subjetividade e ausência de análise crítica do gestor (supervisão) na aprovação dos orçamentos encaminhados pelos proponentes. Isso está associado ao risco de sobrepreço em aquisição de bens e serviços", diz o órgão.
A ONG foi criada em 2017 pelo pastor Marcos Araújo e sua esposa Elida. Até 2022, o histórico da entidade com políticas públicas se restringia a um evento natalino em Anápolis e a dois convênios, de R$ 40 mil, com a prefeitura local.
Em 2022, ela recebeu uma emenda de R$ 4 milhões do deputado Pedro Augusto (PP-RJ) para organizar os jogos em dez núcleos no Rio. Ao assinar o termo de fomento, na última semana do governo Bolsonaro, a organização mudou de mãos: já era presidida por Gustavo Henrique Fonseca de Deus.
Ex-militar, Fonseca de Deus trabalhou na área de gestão de projetos de Esporte no então Ministério da Cidadania, como funcionário terceirizado. Chegaram depois à ONG o capitão reformado José Ferreira de Barros, seu colega na Marinha, e Daniel Raomaniuk Pinheiro Lima, que comandou a assessoria jurídica do Ministério da Saúde na gestão de Ricardo Barros (PP) após trabalhar para a esposa do agora deputado federal.
Ferreira de Barros e Pinheiro Lima são, respectivamente, vice-presidente e diretor administrativo da ONG.
Com nova direção e endereço em Brasília, a Moriá foi uma das ONGs que mais receberam emendas no Orçamento de 2024, com 13 vinculadas a cinco ministérios.
Um dos projetos em em execução, em Brasília, prevê a locação de 62 computadores para o Jedis-DF ao custo de R$ 2,2 milhões para um período de dez meses. O valor total equivale a R$ 35 mil por unidade.
Um computador similar (com processador de 5ª geração e tela 24 polegadas) custa menos de R$ 3.000 no site de compras Amazon. A CGU, por exemplo, identificou custo médio de R$ 4.500 para comprar as máquinas.
O projeto do Jedis-DF aprovado pelo Ministério do Esporte também prevê outros itens de mobiliário como cadeiras gamers (R$ 940 mensais) e TVs 43 polegadas (R$ 1.800 mensais), fornecidos pela mesma empresa que alugou um carro popular por R$ 50 mil anuais, sem citar modelo ou condições.
O contrato prevê o pagamento de 15 dias de aluguel de cada peça (R$ 900 no caso de uma TV) para a empresa transportá-la de uma escola a outra e instalá-la.
A ONG diz, em nota, que a locação é "sempre mais vantajosa" do que a aquisição. "Os preços contratados pela Moriá para a locação contemplam também a montagem, a desmontagem, o fretamento e a configuração das máquinas —custo bastante elevado", disse a nota.
Os projetos foram aprovados pelo Ministério do Esporte, que agora analisa os planos de trabalho e julga a prestação de contas do primeiro Jedis, no Rio. A pasta impôs sigilo aos documentos.
A partir de sete emendas da agora ex-deputada Perpétua Almeida (PC do B), a Moriá ampliou sua área de atuação em 2023, firmando um convênio de R$ 6,7 milhões com o Ministério da Saúde para monitorar a controlar vetores de arbovírus, como o da dengue, nas cidades de Rio Branco e Cruzeiro do Sul, no Acre.
Perpétua não respondeu a Folha.
Questionada sobre como comprovou capacidade técnica para atuar no combate à dengue, a Moriá disse que "conta com colaboradores experientes e renomados, que constam no plano de trabalho" e citou que o responsável técnico pelo projeto é um biólogo com experiência na área.

