Governo federal deve acelerar finalização de obras paralisadas
Por Editorial / O GLOBO
Foi oportuna a lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2023 instituindo o Pacto Nacional pela Retomada de Obras Inacabadas, uma maneira de concluir os milhares de construções erguidas país afora com recursos federais e interrompidas por motivos diversos. Mas seria oportuno também se o governo se empenhasse em cumpri-la de forma mais célere. Como mostrou reportagem do GLOBO, o Brasil ainda tem 2.762 obras paralisadas ou inacabadas apenas na área da Saúde (na época da assinatura do pacto eram 5.573).
Em muitos casos, são obras de Unidades Básicas de Saúde (UBSs), onde são realizados serviços de prevenção, diagnósticos e tratamentos, atuando como portas de entrada do SUS. Na lista estão ainda instalações para a saúde mental, centros de reabilitação, Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e ações do programa Rede Cegonha. Sabe-se que mesmo nas cidades que contam com boas condições de atendimento, as estruturas públicas disponíveis não são suficientes para suprir a demanda crescente, o que não raramente se traduz em longas esperas.
Os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pará e Maranhão reúnem o maior número dessas obras inacabadas. Entre elas, está uma academia de saúde em Amapá do Maranhão (MA), onde apenas 30% dos serviços foram executados. Do total previsto de R$ 100 mil, foram repassados somente R$ 20 mil em 2012. Em São Paulo, uma obra que aparece como “cancelada” é a construção de uma UBS em Mairiporã. Houve apenas um repasse de R$ 102,4 mil do total de R$ 512 mil, mas o empreendimento não foi feito. O presidente da Confederação Nacional de Municípios, Paulo Ziulkoski, diz que o principal entrave é a interrupção das verbas. “O governo cria programas e não libera o dinheiro”.
Enquanto parte dessas obras se deteriora com o tempo, a prometida retomada acontece lentamente. Em setembro do ano passado, o Ministério da Saúde anunciou a reativação e repactuação de mil obras que estavam paralisadas. Isso inclui tanto a retomada quanto a regularização de empreendimentos já concluídos que ainda não constam no sistema do governo (sem a regularização, estados e municípios teriam de devolver os recursos federais).
Chama a atenção que ao menos 670 obras aparecem como canceladas, uma vez que não houve manifestação de prefeituras ou estados sobre a intenção de retomá-las. A situação traduz a forma atabalhoada como esses projetos são decididos. Se um prefeito ou governador não tem interesse em executar uma obra com recursos federais numa área prioritária como a Saúde, é porque provavelmente ela não é tão necessária. E, se não é necessária, não deveria ter sido cogitada.
O governo federal deveria acelerar a retomada das obras prioritárias antes de fincar novas placas. Empreendimentos iniciados já consumiram dinheiro do contribuinte. Do jeito que estão, não servem para nada. Quanto mais tempo ficarem parados, maior será o prejuízo, pois pode ser necessário recuperar o que foi degradado.
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Militares já veem novo foco de crise com Lula por ato de 8 de janeiro
Por Bela Megale / O GLOBO
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, e os comandantes das Forças Armadas participam do ato que marca os dois anos do 8 de janeiro, nesta quinta-feira, para dar o recado que não compactuam com os ataques e prezam pela democracia. Nos bastidores, porém, militares da ativa e da reserva já veem um novo foco de crise envolvendo o próprio evento.
O fato que tem sido alvo de críticas na caserna é o último momento do evento, no qual Lula descerá a rampa do Palácio do Planalto para um abraço em torno da palavra “democracia”, escrita com flores. No local estarão representantes do MST, CUT e outros movimentos sociais que fazem parte da base do PT, os quais estão entre os organizadores do ato.
Para os militares, o gesto pode passar a imagem de que predomina o aspecto ideológico no evento. Ainda existe a preocupação de que alguns discursos inflamem os ânimos nas Forças Armadas.
O clima entre governo e os fardados azedou há alguns meses, com a mudança do regime de aposentadoria dos militares proposta pelo Ministério da Fazenda no pacote fiscal. Outro fator foi a prisão e indiciamento de oficiais das Forças, inclusive de alta patente, no inquérito do golpe que tem Jair Bolsonaro como personagem central.
O sentimento nas Forças Armadas está em sintonia com uma ala de ministros do governo, que avalia que o ato deveria ser mais protocolar e, até mesmo, reduzido a manifestações públicas do presidente Lula e de autoridades que representam os Três Poderes. Para esse grupo, colocar o 8 de janeiro como uma bandeira do governo ajuda a acirrar a divisão da sociedade.
A maioria dos integrantes do governo Lula, porém, defende que é necessário transformar essa data num marco, especialmente diante da violência dos ataques proferidos contra os prédios dos Três Poderes e do risco do retorno da extrema direita ao poder, como ocorreu nos Estados Unidos com Donald Trump.
Slogan ‘real, moeda forte’ é lembrança que se desintegra diante da alta do dólar na gestão Lula
Por Monica Gugliano / O ESTADÃO DE SP
“Real, moeda forte”. De todos os slogans criados para o lançamento da nova moeda no Plano Real, nenhum me marcou tanto como esse. Nunca esqueci da frase que, obviamente, voltou à minha cabeça com força nesses dias em que vimos nossa “moeda forte” se desintegrar perante o dólar. O fundo do poço parecia nunca chegar e nele despencava nossa moeda, perdendo valor como não se vira desde que o Plano, criado há 30 anos e implementado em três etapas durante o governo do então presidente Itamar Franco (1930-2011) derrubou uma inflação de 40% ao mês ou três mil por cento ano ano. Em 1º de julho de 1994 nasceu o Real, a sexta moeda brasileira, e sem estar contaminada pela hiperinflação.
O presidente, que fora contra o plano e àqueles que o elaboraram sob o comando do então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, e que sempre defendia o congelamento de preços, exultou. E viu ali, ano de eleições presidenciais, uma chance de ouro de fazer seu sucessor. A campanha eleitoral, até aquele momento, era dominada por Luiz Inácio Lula da Silva. O petista, que vira no confuso governo de Itamar a chance de chegar ao Palácio do Planalto, num primeiro momento não deu muita importância.
O passar dos dias, porém, mostrou o quanto o PT estava equivocado e o tamanho do erro que cometera ao votar contra a Medida Provisória 542 que criava a nova moeda. Itamar lançou o tucano FHC à presidência da República. Lula, que até então, estava na frente nas pesquisas começou a perder terreno. E não havia estratégia que lhe devolvesse a liderança. Enquanto o petista patinava, as pessoas se aglomeravam ao redor de Fernando Henrique, brandindo as notas de R$ 1,00 e pedindo que o candidato as autografasse. O sociólogo venceu no primeiro turno.
O fim dessa história todos nós conhecemos, inclusive a reeleição de FHC e os equívocos cometidos na condução da economia em seu governo que, dessa vez, em 2002, deram a vitória a Luiz Inácio Lula da Silva.
“Real, moeda forte”, pensei novamente enquanto nossa moeda saía da casa dos R$ 5,00 e entrava na dos R$ 6,00. E não parava por aí, R$ 6,10, R$ 6,20, R$ 6,30... Segundo a consultoria Elos Ayta, o desempenho do real foi o terceiro pior, em termos nominais, desde 2010. Foi a sétima moeda que mais se desvalorizou no mundo. A queda registrada em 2024 só perde para a desvalorização de 31,98% vista em 2015, quando a então presidente Dilma Rousseff enfrentou a crise política e econômica que culminou com seu impeachment e para a queda de 22,44% verificada em 2020, no auge da pandemia de covid-19.
Em leilões de câmbio sucessivos durante oito dias distintos na última semana de 2024, o Banco Central vendeu um montante de U$ 33,3 bilhões. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, visivelmente abatido, tentava convencer o mercado que o governo está entregando o ajuste fiscal, que os juros altos vão conter a inflação e que mesmo o cenário internacional não justificam o dólar nas alturas. Se der certo, Lula ganha pontos para disputar a reeleição em 2026 ou tentar fazer um sucessor. Se der errado, o Real que bateu o petista em 1994 pode voltar a fazê-lo. Daquela vez por que deu certo. Desta vez por que a moeda se desfez e a economia deu muito errado.
O supremo ‘delegado’ federal
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Nos últimos anos, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes se tornou uma espécie de “delegado” na Corte – e, ao que parece, tomou gosto pela função, sob o beneplácito de seus pares.
O que já era perceptível à luz da atitude e de certas decisões monocráticas de Moraes pôde ser atestado por números. De acordo com um levantamento feito pelo Estadão com base em dados do portal Corte Aberta, no fim do ano passado, nada menos que 21 dos 37 inquéritos criminais em andamento no STF estão concentrados no gabinete do ministro Alexandre de Moraes. Para dar a dimensão dessa anomalia, o segundo ministro com mais investigações criminais sob sua relatoria, Luiz Fux, conduz apenas 3 inquéritos.
Sob quaisquer pontos de vista, isso não pode ser considerado normal, a começar pelo elevado número de investigações criminais sob a responsabilidade de uma Corte que, em tese, deveria se ocupar precipuamente da guarda da Constituição. E note-se que entre esses 37 inquéritos em curso não estão contabilizados os que tramitam na forma de “petições”, como a Petição 12.100, que investiga a formação dos acampamentos golpistas em frente dos quartéis do Exército, nem os que correm sob sigilo, como é o caso, por exemplo, do interminável e abrangente inquérito das fake news (Inquérito 4.781). Vale dizer, o número de investigações conduzidas pelo “delegado” Moraes é ainda maior do que o apurado por este jornal.
É certo que a Constituição confere ao STF o poder de processar e julgar ações penais que envolvam réus com foro especial por prerrogativa de função, o chamado “foro privilegiado”. Porém, o entendimento do colegiado sobre o alcance desse dispositivo constitucional tem a firmeza de um prego na areia. A depender das conveniências políticas de ocasião, para dizer o mínimo, os ministros mudam com impressionante rapidez e sem-cerimônia ímpar a própria jurisprudência da Corte para, na prática, escolher quem vão julgar a partir de critérios bem menos transparentes do que os fixados pela Lei Maior, o que ora aumenta, ora diminui os casos criminais em tramitação no STF. Não é assim que funciona o sistema de Justiça em um Estado Democrático de Direito.
Ademais, aqui ainda nem se está tratando de ações penais, mas de inquéritos policiais. Por que tantos sob a relatoria de Alexandre de Moraes? O que, em tese, o tornaria mais apto do que seus pares para presidir essas investigações? A rigor, nada, a não ser, talvez, sua propensão para atuar mais como um chefe de polícia do que como ministro de Corte Suprema, no melhor cenário, ou a tibieza de seus pares para frear esse acúmulo de poder, no pior. A Lava Jato já mostrou o que acontece quando se tenta estabelecer “juízos universais” sobre o que quer que seja. No caso de Moraes, a suposta defesa da democracia.
Para agravar um quadro anômalo por si só, não se pode desconsiderar que a alta concentração de inquéritos no gabinete do sr. Moraes se deve, entre outras razões, a uma compreensão elástica do instituto da prevenção. Diz-se “prevento” o juiz que primeiro decidiu em determinado processo, de modo que todos os outros casos ligados de alguma forma ao caso original devem ser submetidos à apreciação desse mesmo magistrado. A prevenção é, pois, uma salvaguarda do sistema de Justiça contra decisões discrepantes sobre questões que estejam relacionadas. Mas será mesmo que todos os 21 inquéritos relatados por Moraes chegaram até ele por estarem direta ou indiretamente ligados? Não parece ser o caso, afinal são múltiplas as investigações policiais em andamento, quando a prevenção, a rigor, pressupõe que sejam unificadas, como ressaltou a este jornal o professor Gustavo Badaró, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).
Tudo já seria espantoso se essa miríade de inquéritos relatados por Moraes tivesse objetos bem definidos e prazos razoáveis. Em muitos casos, não há nem uma coisa nem outra. E quanto mais essa aberração institucional perdurar, mais profunda será a fissura entre o STF e sua legitimidade perante parcela cada vez mais expressiva da sociedade brasileira.
2025 será ano-chave para saber até onde vai a responsabilização pelo 8 de Janeiro, diz pesquisadora
Por Guilherme Caetano / o estadão de sp
BRASÍLIA – O ano de 2025 será primordial para saber se a responsabilização pelos ataques golpistas do 8 de Janeiro vai alcançar os idealizadores e financiadores do esquema. A avaliação é da professora e pesquisadora da FGV Direito, Eloísa Machado, para quem a reação do Supremo Tribunal Federal (STF) ao episódio teve pontos positivos e outros preocupantes.
Se, para ela, o sistema de Justiça funcionou para esclarecer as investigações e chegar a condenações, por outro, há “muitas dúvidas sobre a adequação do STF no papel de corte criminal”. Ela menciona, por exemplo, a limitação do direito de defesa e os julgamentos em plenários virtuais como pontos que merecem reflexão.
Esta quarta-feira, 8, marca os dois anos do episódio que estremeceu a democracia brasileira. Eloísa coordena o grupo de pesquisa “Supremo em pauta”, que se debruça sobre os trabalhos na mais alta instância da Justiça brasileira, onde correm as ações contra os envolvidos nos ataques golpistas.
Em 8 de janeiro de 2023, Brasília foi palco de um ataque sem precedentes contra a democracia. Qual o balanço a senhora faz da resposta das instituições aos envolvidos nesse episódio?
É possível perceber que o sistema de justiça conseguiu se mover para dar uma resposta adequada, composta pela elucidação dos fatos e busca de responsabilização. Ministério Público, advocacia, defensorias, política e Judiciário foram atuantes nos casos. No âmbito do sistema de Justiça, a responsabilização caminhou. Já no âmbito do sistema político, forças que procuram minar a democracia, infelizmente, seguem com espaço.
A senhora analisou as decisões no âmbito das investigações sobre o 8 de Janeiro no Supremo Tribunal Federal. A que conclusões chegou?
Ao olharmos para todas as ações penais sobre 8 de janeiro até junho de 2024, pudemos perceber duas coisas interessantes. A primeira se refere ao tempo dessas ações, já que é possível estabelecer um cronograma, uma linha temporal muito clara em todas para as fases de investigação, denúncia, instrução, julgamento e recursos. Outra coisa interessante se refere aos tipos de decisões tomadas, mostrando que temas como incompetência do tribunal, impedimento de ministros e prisões foram apreciados não só pelo ministro relator, mas também pelos colegiados do tribunal, seja no plenário ou nas turmas.
Que elogios e críticas podemos tirar de todo esse processo, desde as investigações até as condenações?
O sistema de Justiça ter funcionado para dar um deslinde às investigações e ter concluído julgamentos é, sem dúvidas, um ponto positivo. Mas há questões importantes, que transcendem o episódio do 8 de Janeiro e que se referem ao próprio funcionamento do STF, que merecem uma reflexão mais aprofundada. Há muitas dúvidas sobre a adequação do STF no papel de corte criminal, há um debate relevante sobre direito de defesa e julgamentos em plenários virtuais, há uma limitação do direito ao recurso em casos julgados no STF. Não são temas específicos do 8 de Janeiro, mas que se recolocam quando um processo tão amplo, com mais de mil ações, chegam ao Tribunal.
A senhora vê o País hoje mais preparado para lidar com um eventual novo ataque desse tipo? A reação à tentativa de golpe foi suficientemente institucional ou se pautou demais na figura do ministro Alexandre de Moraes?
Eu vejo o País mais preparado hoje do que em 2022 e em 2023. De lá para cá, já houve a investigação sobre este tipo de crime, interpretação sobre os crimes de tentativa de golpe e de abolição violenta do estado democrático de direito e foram desvendadas as estratégias usadas na tentativa de golpe. Há um aprendizado que vem tanto da avaliação sobre que permitiu que essas articulações golpistas prosperassem dentro do governo, como da efetiva responsabilização promovida pelo sistema de Justiça. A reação à tentativa de golpe veio do governo federal, do sistema político, do Ministério Público, Judiciário e da sociedade civil. Moraes, como relator dos casos, assumiu um esperado protagonismo. Mas a resposta foi muito maior e institucional.
Por se tratar de um julgamento em última e única instância, a margem para recursos é limitada. Como a senhora vê essa situação?
O Supremo julga casos criminais em única e última instância nas hipóteses de foro por prerrogativa de função. Por isso, não há recurso, ao menos não nos termos considerados adequados, ou seja, um recurso que seja capaz de reavaliar matéria probatória e que seja acessível a todos os acusados. Essa falta de recurso afetou os condenados no Mensalão, na Lava Jato e no 8 de janeiro e em todas as demais ações penais que tramitaram no STF. Há uma interpretação que sustenta que a colegialidade compensa a falta de recurso, já que o réu seria julgado apenas uma vez, mas por vários juízes ao mesmo tempo.
Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) costumam se queixar da dimensão das penas, que variam entre 11 e 17 anos de prisão. Na sua opinião, são críticas razoáveis?
Tentativa de golpe e de abolição violenta do estado democrático de direito são crimes graves para os quais o legislador deu penas altas. No STF, a principal discordância se deu com a interpretação de que o crime de tentativa de golpe absorveria o crime de tentativa de abolição violenta do estado democrático de direito, ou seja, de que um seria meio para o outro e, portanto, o réu responderia apenas pela prática de um deles. É um debate sobre interpretação da lei e não sobre abuso de poder. Apoiadores do ex-presidente Bolsonaro consideram que o 8 de janeiro foi uma “mera manifestação”, algo que está dissociado da realidade.
Até a prisão de generais, em especial a de Walter Braga Netto, havia uma preocupação em parte da sociedade civil de que somente os “peixes pequenos” da tentativa de golpe fossem punidos. A senhora vê hoje as autoridades se movendo na direção certa para responsabilizar os idealizadores e financiadores desse esquema?
Há outros inquéritos em andamento, voltados a investigar os idealizadores e financiadores da operação. Há outras frentes de investigação que olham para os fatos anteriores ao 8 de janeiro, que ajudaram a deflagrar o 8 de Janeiro. 2025 será um ano-chave para saber se os mentores e os que seriam beneficiados por esses crimes serão responsabilizados.
A senhora vê viabilidade na tentativa do Congresso de anistiar os golpistas?
Vejo com muita preocupação o PL da Anistia. É um projeto que, de certa forma, mantém viva a sanha golpista, confrontando o STF e tentado legitimar o 8 de Janeiro. O avanço das investigações, mostrando envolvimento do ex-presidente Jair Bolsonaro e da cúpula de seu governo e a gravidade e a violência do plano de golpe parecem ter desidratado o projeto. Considero um projeto que mostra a falta de compromisso do Congresso com a democracia brasileira.
STF não pode ter o casuísmo como guia de suas regras
Passados meros dois anos e meio desde que o tema foi debatido em plenário, ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) articulam uma mudança na regra sobre a validade dos votos de magistrados que tenham participado de um julgamento e, depois, deixado a corte.
De acordo com o Código de Processo Civil, nos julgamentos de órgãos colegiados, um magistrado pode alterar seu próprio voto a qualquer momento antes da proclamação do resultado —a menos que tenha sido afastado ou substituído, hipóteses nas quais seu voto será mantido, e não trocado pelo do sucessor.
Em junho de 2022, por iniciativa de Alexandre de Moraes, o STF estendeu esse entendimento aos casos transferidos do ambiente virtual para o presencial.
Ou seja, se um ministro profere seu voto em um julgamento virtual e depois se aposenta, seu substituto não poderá interferir na posição adotada, ainda que o processo seja levado para discussões no plenário físico.
Foi uma decisão sensata. Não havia motivos para distinguir o ambiente físico do virtual quanto a uma diretriz que tem a função de reduzir incertezas e, portanto, elevar a segurança jurídica.
De forma incipiente, entretanto, Luiz Fux, Dias Toffoli e Moraes começam a defender uma revisão da regra. Para eles, em julgamentos não concluídos, os ministros novatos deveriam poder votar, seja no plenário físico ou no virtual, trocando as manifestações dos aposentados pelas suas.
Tomada pelo valor de face, a proposta não chega a ser absurda. Desde que adotadas providências cautelosas para evitar manobras oportunistas, ela apenas equipara o calouro aos seus colegas veteranos, já que estes têm a faculdade de mudar de opinião no processo em curso.
O fato de a proposta não ser absurda, porém, não a torna necessariamente desejável. E ela não o é —menos pelo conteúdo em si do que pela sua motivação.
Nem é preciso ser um observador arguto do STF para notar o casuísmo da operação. Afinal, de modo imediato, apenas Cristiano Zanin e Flávio Dino se beneficiariam da novidade, e os dois têm algo em comum: foram indicados pelo presidente Lula (PT).
Em 2022, deu-se o oposto. A extensão da regra sobre validade dos votos prejudicava, de modo mais evidente, André Mendonça e Kassio Nunes Marques. Levados à corte pela caneta de Jair Bolsonaro (PL), ambos foram recebidos com resistência dentro de um colegiado que sofria ataques reiterados do então presidente.
Se a nova proposta vingar, pode mudar a tendência em processos importantes, como o da descriminalização do aborto e o do ISS na base de cálculo do PIS/Cofins.
Não se trata de defender a tendência atual nesses casos, mas de reconhecer que o STF, como instituição, precisa superar a polarização que grassa na sociedade e oferecer o máximo de estabilidade jurídica. Os ministros, infelizmente, com frequência agem na contramão desses desideratos.


