Posse ilegítima de Maduro exige mais pressão do Brasil
Por Editorial / O GLOBO
A posse de Nicolás Maduro como presidente da Venezuela nesta sexta-feira confirma seu desprezo pela vontade popular. Diante de derrota humilhante no pleito presidencial de julho do ano passado, escondeu os boletins de urnas, se declarou vencedor e assumiu, sem disfarces, ser um ditador. Não satisfeito em roubar as eleições, mandou a Justiça prender Edmundo González, o oposicionista consagrado pelo voto que acabou saindo do país. De lá para cá, a repressão sistemática se manteve intacta. Apoiado pelas Forças Armadas, Maduro desistiu de parecer legítimo.
Como lidar com um vizinho desse tipo é um dos maiores problemas da política externa. A embaixadora brasileira em Caracas, Glivânia Oliveira, esteve na cerimônia de posse na presença de diplomatas de México, Colômbia e representantes de ditaduras como Cuba, Rússia e Nicarágua. Estados Unidos e União Europeia não compareceram. Se a participação da embaixadora representar a volta da fracassada política de apaziguamento, o Itamaraty estará cometendo um erro enorme. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recusou o convite, mas comitivas do PT viajaram para a Venezuela. Dois dias depois da defesa da democracia nos eventos do 8 de Janeiro, integrantes do partido festejaram a posse de um tirano.
O caminho a ser seguido pelo Itamaraty deve estar de acordo com os valores da sociedade brasileira. O governo precisa manter a posição de não reconhecer o resultado da farsa eleitoral e apoiar todas as medidas futuras para forçar Maduro a promover uma transição pacífica de poder. É possível que Donald Trump decida abrir mão dos contratos dados a petroleiras americanas na Venezuela para adotar postura mais dura. Caso seja essa a política adotada, a defesa da democracia pode ser uma das áreas de cooperação entre o novo governo americano e o brasileiro.
Apesar da necessidade de aumentar a pressão sobre o regime ditatorial, o rompimento das relações não é desejável. Brasil e Venezuela dividem uma fronteira longa e porosa numa região com ação do crime e do garimpo. A preservação da floresta, a proteção de indígenas e o fluxo de refugiados dependem de canais de comunicação e cooperação mínima. Será desafiador equilibrar todos esses objetivos com um pária sem escrúpulo algum.
Nas relações com Maduro, o presidente Lula passou por uma tortuosa curva de aprendizado. As tentativas de manter um bom relacionamento contaram com episódios constrangedores. Em 2023, o venezuelano foi recebido com honras em Brasília. Meses depois, Lula afirmou em entrevista que a Venezuela tinha mais eleições que o Brasil e chegou ao absurdo de tentar relativizar o conceito de democracia.
A mudança de tratamento foi tardia, mas aconteceu. Nas vésperas das eleições na Venezuela, o presidente se disse assustado com as declarações de Maduro de que, se perdesse o pleito, haveria “um banho de sangue”. Apesar de o PT ter descrito o roubo eleitoral escancarado como uma “jornada democrática e soberana”, Lula não chancelou a fraude. Junto com os governos da Colômbia e do México, tentou, sem sucesso, uma saída negociada. Maduro nem fingiu que daria ouvidos.
É hora de redobrar a coação. Maduro parece temer a reimposição de sanções. No ano passado, a Venezuela aprovou uma lei que prevê 25 anos de prisão para quem defender tais medidas.
A pesquisa que testa Bolsonaro e Michelle contra dois novos nomes da esquerda para Presidência
Por Bela Megale / O GLOBO
Na próxima semana, será divulgada uma nova pesquisa que testou lideranças da direita, como Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e o governador Tarcísio de Freitas, com nomes da esquerda, além de Lula, na disputa pela Presidência.
A presidente do PT e deputada federal, Gleisi Hoffmann e o ministro da Educação, Camilo Santana, foram incluídos no último levantamento realizado pela Paraná Pesquisas, na primeira semana de 2025. O nome de Lula também foi testado em cenários distintos com expoentes da direita.
A Paraná Pesquisas, instituto que presta serviços para o PL, partido de Bolsonaro, vem fazendo levantamentos frequentes sobre as intenções de voto para Presidência em 2026. O capitão reformado está inelegível, mas segue incluído nas pesquisas.
![]()
Festa da democracia relativa
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, inaugurou anteontem um ilegítimo mandato como presidente da Venezuela após ter sido fragorosamente derrotado nas urnas pelo oposicionista Edmundo González Urrutia. No falso juramento perante a Assembleia Nacional, o ditador prometeu uma era de “paz e prosperidade”, além de anunciar o início de uma “nova democracia”, eufemismo para uma ditadura tão velha quanto abjeta.
Um processo eleitoral fraudado do início ao fim para favorecer Maduro e, ademais, marcado pela violenta repressão aos opositores e à imprensa profissional não podia mesmo resultar em outra coisa a não ser naquele embuste travestido de cerimônia de posse.
Maduro foi entronizado no poder que usurpou por um séquito de aduladores, civis e militares, que lhe prestam vassalagem em troca das polpudas benesses estatais que costumam comprar a associação dos pusilânimes com regimes de força, como o que ele comanda com mãos de ferro há quase 12 anos. Caso conclua o atual mandato, Maduro será o mais longevo líder da Venezuela na história do país, superando seu padrinho político, o coronel Hugo Chávez (1999-2013), e até Simón Bolívar (1819-1830).
A patacoada foi completamente esvaziada de líderes de peso, um retrato do absoluto isolamento internacional de Maduro, tratado como pária. Nem a China nem a Rússia, os dois mais poderosos aliados do ditador venezuelano, enviaram autoridades de alto escalão para prestigiar o tirano. Por outro lado, como não poderia deixar de ser, os ditadores de Cuba, Miguel Diáz-Canel, e da Nicarágua, Daniel Ortega, fizeram questão de assistir pessoalmente à sagração de Maduro.
O presidente Lula da Silva, como se sabe, não foi aclamar o companheiro venezuelano, mas nem por isso deixou de envergonhar o Brasil. Depois de adotar uma atitude ambígua em relação à eleição, dizendo que reconheceria a vitória de Maduro no instante em que ele apresentasse as atas eleitorais – o que nunca fez –, o governo enviou a embaixadora Glivânia Maria de Oliveira para representar o País na “posse”, um gesto que, nas palavras do chanceler de facto Celso Amorim à CNN Brasil, não passou de mero cumprimento de “um ritual diplomático entre Estados”.
Ao fazê-lo, o Brasil, na prática, reconheceu a vitória eleitoral de Maduro e seu novo mandato, conquistado na base da roubalheira e da violência. Havia alternativa: o Chile, por exemplo, não mandou ninguém para prestigiar o ditador, porque, nas palavras do presidente Gabriel Boric, a “posse” era “desprovida de legitimidade democrática”.
Recorde-se que Boric é de esquerda – mas, ao contrário de outros líderes de esquerda na América Latina, como Lula, considera inaceitável que um regime se perpetue no poder à base da força, ainda que esse regime seja esquerdista. Boric entendeu muito bem que enviar um representante à culminação da farsa eleitoral na Venezuela significaria, na prática, reconhecer a autoridade de um presidente ilegítimo.
Mesmo que Lula fosse lúcido como Boric e tivesse deixado vazia a cadeira reservada ao representante brasileiro na “posse” de Maduro, não mudaria o fato incontestável de que o petista foi um dos principais avalistas da degeneração da democracia venezuelana. A Venezuela não se transformou em ditadura agora: há anos se sabe que o país é governado por uma feroz e corrupta tirania, disfarçada por vitórias eleitorais fabricadas para comprovar o suposto apoio popular.
Apesar das gritantes evidências, Lula chegou a dizer que aquele país tinha “excesso de democracia”. Mais recentemente, justificou o apoio da esquerda à ditadura venezuelana dizendo que “a Venezuela tem mais eleições que o Brasil” e que “o conceito de democracia é relativo”. O mesmo Lula, depois de receber Maduro com honras de chefe de Estado em 2023, quando já se sabia que o tirano preparava sua vitória eleitoral na marra, disse ao companheiro que ele precisava “construir sua narrativa” para se contrapor à “narrativa que eles têm contado contra você”.
Maduro seguiu o conselho de Lula e construiu sua “narrativa”: a de que ganhou a eleição presidencial de maneira limpa. Aqui é Lula quem tenta construir a “narrativa” de que salvou a democracia brasileira. Em ambos os casos, só os sabujos e os incautos acreditam.
Presidencialismo de coalizão resiste, mas falta de agenda de Lula é desafio, avalia Fernando Limongi
Por Hugo Henud / O ESTADÃO DE SP
Embora frequentemente apontado como um sistema em crise, o presidencialismo de coalizão – modelo político que permite ao Executivo formar alianças com o Legislativo para garantir governabilidade – ainda demonstra eficiência, mesmo diante de novos desafios, como o fortalecimento do Congresso, a ausência de uma agenda consistente no governo Lula, e o impacto de lideranças antissistêmicas, a exemplo de Jair Bolsonaro. A avaliação é do cientista político Fernando Limongi, autor de Democracia Negociada – obra que destaca a negociação política como mecanismo essencial para construir consensos em momentos cruciais das crises vividas no País, como a superação da ditadura militar e a elaboração da Constituinte.
“Quando o governo precisa fazer uma coalizão, ele vai fazer. Vai conseguir fazer? Sim, sempre vai conseguir. [...]. Mas e aí tem outro problema que é que o governo não sabe muito bem qual é sua agenda. Lula frequentemente fala do passado: ‘De 2002 a 2010 era lindo, era maravilhoso, vamos voltar para lá’. Mas como voltar, se as condições são diferentes? Que política o governo quer fazer? Não há o Bolsa Família ou o Minha Casa Minha Vida como novidade”, diz em entrevista ao Estadão.
Professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Limongi também projeta o cenário político para as eleições presidenciais de 2026, destacando a tendência histórica de bipartidarismo nas disputas pelo Planalto. Para o cientista político, é provável que o pleito seja polarizado entre Lula – ou um nome indicado por ele – e um candidato de centro-direita forte, cujo perfil dependerá, em grande parte, dos desdobramentos do inquérito relacionado ao golpe de Estado e do espaço político ocupado por figuras ligadas a Bolsonaro, como Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo.
Já o professor de economia da FGV, Leonardo Weller, coautor do livro, argumenta que a negação do governo da gravidade da crise fiscal – caracterizada pelo desequilíbrio entre receitas e despesas públicas –, somada à forte alta do dólar, representa um dos maiores obstáculos à recuperação econômica e à estabilidade política. “O PT se protege muito mal, dizendo que a crise não existe, que é inventada pela Faria Lima, uma coordenação maligna que faz o dólar chegar a R$ 6. Enquanto continuarem batendo nessa tecla, ficarão completamente perdidos”.
Confira a seguir a íntegra da entrevista de Limongi e Weller concedida ao Estadão:
No livro são mencionadas mudanças constitucionais que fortaleceram o Legislativo, como o trâmite das Medidas Provisórias. Além disso, outras questões, como os vetos e alterações nas leis orçamentárias, tangenciaram instrumentos de negociação utilizados pelo presidente. Apesar dessas transformações, a taxa de sucesso do Executivo no Congresso permanece elevada. Na visão de vocês, estaríamos diante um amadurecimento do presidencialismo de coalizão, agora negociado em novas bases? Quais seriam as principais características dessa mudança em contraste com a ideia de crise amplamente debatida?
Fernando Limongi: O presidente precisa formar uma coalizão. O que se tem em mente quando se fala em presidencialismo de coalizão? Quando o governo precisa fazer uma coalizão, ele vai fazer. Vai conseguir fazer? Sim, sempre vai conseguir, porque sempre há pessoas dispostas a cooperar com o governo e que preferem participar do governo a ficar na oposição. Por outro lado, sempre há quem prefira permanecer na oposição, esperando pela próxima eleição para chegar ao poder. Esse é o caso do grupo da direita bolsonarista. O resultado de 2022 trouxe uma vitória expressiva para essa direita no Congresso, mas eles perderam a presidência. Assim, ficaram numa espécie de limbo: não sabiam se aderiam ao governo ou se esperavam, apostando no Bolsonaro. Esse cenário deixou muitos sem interesse em participar do governo, pois sua identidade política está atrelada ao bolsonarismo e, mais do que isso, não depende de políticas públicas, mas sim de uma atuação baseada em redes sociais e lacração. Por exemplo, se fossem convidados a assumir o Ministério dos Transportes ou o Ministério da Saúde — como ocorria anteriormente, quando cargos ministeriais serviam como moeda de troca eficiente —, eles recusariam. Eles não fazem política mais dessa forma. Isso complicou a formação da coalizão, mas o poder dado a Arthur Lira pelo próprio Bolsonaro também teve impacto. Na versão de Bolsonaro do presidencialismo de coalizão, ele cedeu completamente o controle do Congresso e deixou que ‘eles fizessem a política’, permitindo que brincassem com o dinheiro disponível. Então, realmente dificultou um pouco mais com a mudança do tramite da medida provisória, veto foi um pouco mais efetivo, mas não tirou a força do presidente como força aglutinadora. Mas e aí tem outro problema que é que o governo não sabe muito bem qual é sua agenda. Lula frequentemente fala do passado. Mas como voltar, se as condições são diferentes? Que política o governo quer fazer? Não há o Bolsa Família ou o Minha Casa Minha Vida como novidade. Não há um “novo Globo”. Agora, contratar um marqueteiro para isso não resolve [em alusão à troca na Secretaria de Comunicação Social]. Já não deu certo com Dilma. Tudo isso pode complicar ainda mais a governabilidade.
Seus estudos com a também cientista política Argelina Figueiredo indicam que as coalizões tendem a se expandir ao longo do mandato presidencial. Como o senhor avalia a base governista nesta segunda metade do governo Lula ?
Fernando Limongi: Essencial será a troca de Lira por Hugo Motta na presidência da Câmara. Lira tinha consolidado um grande poder, seja pelo controle da agenda, que ele recebeu de mão beijada por causa da pandemia, quando o Congresso transitou para o modelo virtual. Com isso, ele fazia absolutamente tudo e desfiava muito facilmente. Ele também recebeu de mão beijada uma parcela significativa do orçamento. Então, ele estava controlando uma boa base de parlamentares. E ele é um cara da escola de Eduardo Cunha, era da tropa de choque de Cunha. Não é um cara qualquer: bom de jogo, perigoso, ativo e capaz. Vamos ver como será com o novo presidente e o tipo de relação que ele vai ter com Lula. Lira é muito conflitivo, estica a corda até o último momento. Não acredito que o novo presidente da Câmara tenha a mesma envergadura que Lira, o mesmo traço psicológico, bom de negociação e de gerar conflito, e de segurar a onda. E já estão todos de olho em 2026.
Como a percepção do eleitorado em relação à economia, especialmente no que diz respeito à desvalorização cambial e à inflação, pode influenciar o desempenho de Lula em 2026?
Leonardo Weller: O PT se protege muito mal, dizendo que a crise não existe, que é inventada pela Faria Lima, uma coordenação maligna que faz o dólar chegar a R$6. Enquanto continuarem batendo nessa tecla, ficarão completamente perdidos. Acho que falta, no Brasil como um todo, mas especificamente ao PT, um entendimento da gravidade da crise econômica de 2015-2016, que inaugurou o período de baixo crescimento e deterioração fiscal que vivemos atualmente. A narrativa do PT sobre a crise do governo Dilma é essa: ‘não houve crise, foi a elite que quis derrubar a Dilma’. Enquanto continuarem com essa postura, não haverá solução. A deterioração fiscal coloca em xeque o futuro da sustentabilidade fiscal da dívida pública. Isso resulta em uma saída de recursos do Brasil, aumentando a probabilidade de uma crise mais grave no futuro. Infelizmente, não há mais o espaço fiscal que existia há 20 ou 30 anos para o lançamento de políticas públicas de grande envergadura. Além disso, o Congresso e os políticos querem vencer as eleições. Hoje enfrentamos um problema fiscal gravíssimo que, aparentemente, não tem solução. Se a situação estourar, afetará todos; se for resolvida, os frutos beneficiarão todos. Caso surja um Executivo capaz de colocar pessoas competentes para gerir o governo e apresentar soluções críveis, a classe política pode ir a reboque e acompanhar essa liderança. O problema é que o governo está negando a existência desse problema fiscal. Enquanto continuar negando, esqueça: não haverá solução.
Marketing faz bem, mas não resolve inflação, dengue, falta de gestão nem Congresso guloso
Por Eliane Cantanhêde / O ESTADÃO DE SP
Demorou, mas aconteceu o que Brasília inteira previa: o petista gaúcho Paulo Pimenta sai e o baiano Sidônio Palmeira entra na Secretaria de Comunicação da Presidência, com “carta branca” para montar a própria equipe e dar ordem de comando para que ministros e altos funcionários defendam o presidente Lula, o governo e eles próprios de ataques e fakenews. Daqui pra frente, tudo será diferente? Bem… marketing não faz milagre.
Nenhum gênio da comunicação e do marketing tem poderes extraordinários para esconder, ou de preferência apagar, dados objetivos e oficiais. Dois exemplos fresquinhos, de 2024: a inflação fechou em 4,83%, muito acima do centro da meta, 3%, e até do teto, 4,5%, e as mortes por dengue dispararam para 6041,400% a mais do que no ano anterior e ultrapassando a soma de 2015 a 2023.
Economia e Saúde são áreas críticas em qualquer país, para qualquer governo e não dá para jogar os números e a realidade debaixo do tapete. Além de pressionar juros e ameaçar os bons índices de crescimento que o Brasil vem atingindo no terceiro mandato de Lula, a inflação, sobretudo de alimentos, é um dos fatores econômicos que mais impactam a política e a popularidade dos governantes. Foi decisiva, por exemplo, para a derrota dos democratas para Donald Trump nos EUA.
O que falar da Saúde, que foi trágica no governo Bolsonaro e poderia ter gerado uma comparação nitidamente favorável para Lula? Não se viu nem ouviu nenhuma ação direta ou manifestação de Lula diante da dengue, que atingiu mais de seis milhões de brasileiros, nem se vê ou ouve um grande programa ou um grande sucesso do Ministério da Saúde. Ao contrário, há registros de falta de vacinas, especialmente para crianças, contra catapora, Covid, meningite, hepatite…
As primeiras providências de Sidônio, engenheiro civil que se converteu ao marketing político, foram botar Fernando Haddad e o próprio Lula para desarmar as fakenews contra mudanças no Pix e trocar a equipe de Pimenta, inclusive a responsável pelas redes sociais, amigona de Janja. Um teste e tanto para a tal carta branca.
E ele já assume com a Meta (Instagram, Facebook e WhatsApp) gerando um deus-nos-acuda e deixando rolar interesses políticos, religiosos, conservadores e financeiros nas redes. É um desafio para o mundo democrático e o Brasil. Não dá para combater bomba atômica com armas convencionais, nem mísseis digitais com munição analógica. Sidônio sabe muito bem.
Lula chega a 2025 com aliança de Trump e big techs para agitar a extrema direita internacional, o que tem reflexos no Brasil, e mais: falta de marca, críticas na gestão e na economia, Congresso guloso e arisco, popularidade claudicando, a candidatura à reeleição incerta e Haddad, o “plano B”, cercado por todos os lados. Sidônio vem a calhar, mas não é salvador da lavoura nem da Pátria.
Trabalho, ainda que formal, não garante porta de saída a beneficiário do Bolsa Família
Douglas Gavras / FOLHA DE SP
Após ser despedida de um restaurante por estar grávida, Ingrid Evangelista de Lima, 32, não tinha saída. "Fiquei sem emprego, foi bem difícil. Fiquei parada por mais de um ano, e o Bolsa Família era tudo que eu tinha para sustentar a minha filha mais velha e a bebê", conta.
Quando sua filha mais nova completou sete meses, a moradora de Diadema, na Grande São Paulo, entrou no programa Frente de Trabalho e hoje atua como auxiliar de limpeza em um Cras (Centro de Referência de Assistência Social) com um contrato de dois anos.
O salário mínimo que recebe vai para aluguel, luz, internet e outras despesas da casa, mas o Bolsa Família ainda a ajuda nos gastos com medicamentos e alimentação. "O benefício era a garantia de comprar fraldas para a minha filha, já o emprego atual me abriu a cabeça para muitos outros sonhos. Agora, quero prestar concurso."
Ainda que estejam trabalhando, 10,06 milhões de brasileiros entre 16 e 59 anos são beneficiários do programa Bolsa Família e se encontram em situação de pobreza ou extrema pobreza, sendo que 1,19 milhão deles têm emprego formal.
O grupo de beneficiários com carteira assinada inclui trabalhadores domésticos formais, aprendizes, estagiários, militares ou servidores públicos.
São 6,86 milhões dos trabalhadores nessa situação que atuam por conta própria, como autônomos ou fazendo bicos. Os demais (2 milhões) são trabalhadores temporários em áreas rurais, domésticos sem carteira e outros informais.
Os dados mais recentes, de novembro de 2024, são do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, e foram compilados pela consultoria Kairós Desenvolvimento Social.
Em todas as categorias, quem não declara trabalho pode pertencer a famílias em que outros membros estejam trabalhando. Também, na mesma família, pode haver mais de uma pessoa trabalhando.
O número de beneficiários em situação de pobreza ou de extrema pobreza que não recebem salário ou sem trabalho declarado era de 16,1 milhões (61,5%).
"O total de trabalhadores corresponde a mais de 38% das pessoas nessa faixa etária que recebem Bolsa Família e estão em situação de pobreza ou extrema pobreza, demonstrando que trabalhar, mesmo com carteira assinada, não é necessariamente uma ‘porta de saída’ do benefício assistencial", afirma Elvis Cesar Bonassa, diretor da Kairós.
O especialista reforça que não existe uma porta de saída única do programa, já que há um conjunto de questões que provocam a vulnerabilidade.
Especificamente na melhora da geração de renda, é possível encontrar maneiras de tornar o trabalho informal mais rentável, como o empreendedorismo de base comunitária, com cooperativas de uma mesma comunidade em torno de uma atividade econômica viável com apoio de um programa público.
"Um outro caminho é se a gente conseguisse fazer o programa de Aprendizagem funcionar para os mais vulneráveis, o que hoje não acontece plenamente", entre outras ações, diz.
Ele destaca o número de 1,77 milhão de trabalhadores rurais temporários, que vivem em extrema pobreza ou pobreza e estão em famílias que precisam do benefício. Os dados disponíveis não especificam se esse trabalho temporário é registrado ou não. "E esse é um grupo submetido a uma extrema exploração do trabalho", diz.
"É uma vida de incertezas, a gente consegue algo durante a safra da cana-de-açúcar, mas depois, tem de se virar com o que aparecer, e os salários que oferecem são sempre baixos", conta Cleusa Assis, 39, trabalhadora rural em Pernambuco.
Parte do Bolsa Família desde 2015, ela relata que é por meio dele que consegue manter a casa quando os adultos da família ficam parados. "Quem fala mal dele é por nunca ter precisado. É pouco, mas vai continuar nos ajudando até que eu consiga uma ocupação mais segura."
Nas situações às quais o Bolsa Família é destinado, a de extrema pobreza compreende uma renda familiar mensal por pessoa (ou seja, o total de rendimentos dividido pelo número de membros da família) de até R$ 109; a de pobreza, de R$ 109 a R$ 218.
Além disso, há a "regra de proteção", em que um inscrito de baixa renda consegue emprego ou se torna empreendedor, mas mesmo assim sua renda familiar per capita fica abaixo de meio salário mínimo (R$ 706, em novembro), e a família continua a receber 50% do valor do benefício por um prazo de até dois anos.
De acordo com a Kairós, no grupo de baixa renda, que ainda configura vulnerabilidade, o número de trabalhadores remunerados é de 2,63 milhões e o trabalho formal chega a 1,91 milhão de pessoas.
Somando todas as categorias, portanto, há 3,1 milhões de pessoas com carteira assinada que não conseguem tirar a família da situação de vulnerabilidade.
"Isso mostra que mesmo o salário no emprego formal não cumpre, para essas pessoas, a garantia prevista na Constituição de prover para si e para a família moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e a Previdência Social", diz Bonassa.
"O que as empresas não pagam como salário, o governo transfere na forma de auxílio. Não deixa de ser indiretamente um subsídio para as empresas. A elevação do salário mínimo é um componente indispensável para criar uma porta de saída real dos benefícios socioassistenciais", completa.
Auxiliar de cozinha em um restaurante popular de Guarulhos, Maria Nazareth Garcia, 65, encontrou a sua porta de saída. "O Bolsa Família é uma ajuda para quem precisa mais, a partir da hora em que você está trabalhando e consegue se manter, eles cortam. Mas com o que ganho hoje, dá para viver", diz.
Ela, que atua em uma unidade ligada à prefeitura que serve mais de 600 refeições todos os dias, começou a receber o benefício em 2020, durante a pandemia, e conta que ele a ajudou em um momento de vulnerabilidade.
"Fez muita diferença, consegui também aquela tarifa de energia mais baixa, ajudou bastante a mim, meu filho e meu neto. Agora, que não preciso mais, quero continuar trabalhando."


