Janja impopular
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, chegou ao fim de 2024 com uma marca constrangedora para quem se dispôs a atuar como plenipotenciária influenciadora digital do governo e conselheira universal do marido e de seus ministros. Desde as primeiras semanas do atual mandato de Lula da Silva, Janja perdeu quase metade da sua popularidade, segundo pesquisa Genial/Quaest. Eis um bom recado para quem passou os dois primeiros anos de governo convicta não apenas de que seria capaz de influenciar o presidente, como também afetar a vida dos brasileiros – uma tarefa para a qual evidentemente não foi eleita.
Segundo divulgado em dezembro pela Quaest, 22% dos eleitores têm uma opinião positiva sobre Janja, índice que chegava a notáveis 41% em fevereiro de 2023. Por outro lado, 28% a avaliam negativamente, patamar que há quase dois anos estava em 19%. Outros 30% a veem como regular (eram 22% em fevereiro de 2023). Ainda que a espiral de Janja seja descendente desde o início do governo, o histórico da pesquisa mostra uma inversão de cenário no último ano: em dezembro de 2023, a primeira-dama ainda tinha mais admiradores do que críticos; um ano depois, a curva se inverteu. Janja chega a ter avaliação pessoal pior do que a avaliação do governo como um todo.
Ao participar da campanha eleitoral e ao subir a rampa ao lado do presidente, Janja emergiu como um ativo político de um Lula redivivo após os anos de prisão. Com a autoestima decorrente do triunfo eleitoral do marido, as convicções de quem pretendia “ressignificar o conteúdo do que é ser uma primeira-dama” e a disposição para se mostrar independente, Janja resolveu agir. Seus tentáculos avançam sobre a comunicação digital do governo e a intromissão frequente em assuntos de Estado com cobranças públicas (e privadas) a ministros. E é assim que se envolve em sucessivas polêmicas (como a última, na qual, durante reunião do G-20, ofendeu gratuitamente o empresário Elon Musk) e tem opinião assertiva sobre quase tudo o que diz respeito ao governo.
São frequentes os relatos de que sistematicamente interfere nas mensagens da Secretaria de Comunicação da Presidência e, não raro, faz o papel de estrategista e câmera do presidente nas redes sociais – um dos seus últimos feitos foi revelar o “domingo energizado” pela nova cascata artificial da Granja do Torto. A cascata irrigando um vinco que forma um caminho até um pequeno lago e as carpas coloridas que nadam em água cristalina com seixos no fundo tornaram-se ainda mais polêmicas porque foram mostradas ao distinto público em pleno debate do pacote de revisão de gastos do governo.
Quem age como personagem política passa a ser avaliada também como tal. Se Lula deseja mantê-la como ativo político, e se Janja pretende seguir “ressignificando” o papel de primeira-dama, a curva negativa de sua popularidade serve de alerta e aprendizado – se não para fazê-la voltar à tradição discreta da maioria das antecessoras, que pelo menos sirva para calibrar suas aparições e seus atos.
Mudança no segundo tempo: distante do Congresso, Lula se aproxima do STF e planeja reorganizar governo
Por Sérgio Roxo e Dimitrius Dantas— Brasília / O GLOBO
Com um apoio maior no Supremo Tribunal Federal (STF) do que no Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou à metade de seu terceiro mandato à frente do país com a ideia de reorganizar o governo com vistas à disputa eleitoral de 2026. Motivo de ansiedade nos primeiros meses, a busca por uma marca para a gestão deixou de ser preocupação para o petista. O plano agora é consolidar os programas já lançados, explorar a proposta de aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda para tentar alavancar a popularidade e, ao mesmo tempo, atenuar as críticas do mercado financeiro em virtude da situação da economia.
Com um apoio maior no Supremo Tribunal Federal (STF) do que no Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou à metade de seu terceiro mandato à frente do país com a ideia de reorganizar o governo com vistas à disputa eleitoral de 2026. Motivo de ansiedade nos primeiros meses, a busca por uma marca para a gestão deixou de ser preocupação para o petista. O plano agora é consolidar os programas já lançados, explorar a proposta de aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda para tentar alavancar a popularidade e, ao mesmo tempo, atenuar as críticas do mercado financeiro em virtude da situação da economia.
A responsabilização das plataformas por publicações também foi um assunto que o governo não teve força para levar adiante. O PL das Redes Sociais travou na Câmara. Sem um posicionamento do Congresso, o Supremo iniciou em dezembro o julgamento de ações sobre a validade do artigo 19 do Marco Civil da Internet, que estabelece que não cabe às plataformas decidir se conteúdos publicados pelos usuários são lícitos ou não.
Os ministros do STF negam que exista jogo casado entre o Planalto e o governo, mas reconhecem confluência nas pautas. Apesar do entendimento de que a Corte tem ajudado a gestão Lula, há também em setores do governo queixas sobre um excesso de protagonismo por parte principalmente de Dino.
Aliados de Lula no Congresso dizem que o presidente fez uma “opção por governar com o Judiciário” e deixou os parlamentares de lado por erros na construção da base de apoio. A aposta é vista como arriscada porque os congressistas podem entrar em conflito com o Judiciário e colocar o governo no meio da disputa, como aconteceu no início da tramitação do pacote de ajuste fiscal. Contrariados com a paralisação dos pagamentos de emendas por decisão do Supremo, os deputados ameaçaram não votar as medidas propostas pelo Ministério da Fazenda. O governo teve que publicar uma portaria para contornar a situação.
A convivência do presidente com os parlamentares, que era intensa nos dois primeiros mandatos, se tornou apenas esporádica no atual governo.
— As dificuldades na relação com o Congresso começaram na montagem do governo. A articulação política ficou muito distante do Legislativo — afirma o deputado Eunício Oliveira (MDB-CE), que foi ministro das Comunicações no primeiro mandato do petista.
Há uma possibilidade de mudança do cenário com a reforma ministerial que Lula prepara para os primeiros meses deste ano, com o objetivo de pavimentar a formação da chapa da eleição de 2026, seja quem for o candidato. A possibilidade de o atual presidente não disputar um novo mandato ganhou força após a cirurgia às pressas realizada no dia 10 de dezembro para drenar um coágulo na cabeça. Mesmo antes, o petista, aos 79 anos, vinha deixando a possibilidade de não concorrer ao Palácio do Planalto pela sétima vez em aberto, apesar de a direção do PT considerar que não há um outro nome.
A grande dúvida da reforma ministerial é se Lula vai abrir os postos no Palácio do Planalto a aliados. Até o momento, apesar de ter optado por um governo com menos ministérios para o PT em comparação aos dois primeiros mandatos e com participação de mais partidos, o presidente manteve apenas petistas em cargos-chaves da gestão. Uma sinalização significativa poderia ocorrer com a entrada de um representante do Centrão na articulação política no lugar de Alexandre Padilha (PT). Nos dois primeiros mandatos, o posto foi ocupado por Aldo Rebelo (PCdoB), Walfrido dos Mares Guia (PTB) e José Mucio Monteiro (PTB). Por enquanto, a única troca dada como certa é na Comunicação, com a saída de Paulo Pimenta e a possível entrada do marqueteiro Sidônio Palmeira. O martelo, porém, ainda não foi batido.
Herança em jogo
A reforma também pode ser usada para dirimir os conflitos internos. Apesar de aliados afirmarem que Lula sempre estimulou essas rixas, a avaliação é que o petista já não mostra a mesma disposição para administrá-las e isso pode acabar desgastando a gestão.
Em uma analogia, uma pessoa próxima do presidente diz que ele optou por montar um governo de “sobrinhos” que estão de olho na sua herança. A herança, no caso, é de votos, como mostrou a pesquisa Quaest que coloca Lula na liderança em todos os cenários de segundo turno para 2026. Ainda nas palavras desse aliado, esses postulantes não percebem que as brigas por poder perigam dilapidar o patrimônio eleitoral e, ao fim, todos ficarem sem ter o que herdar.
A mais expressiva das disputas até o momento é travada pelos ministros da Fazenda, Fernando Haddad, e da Casa Civil, Rui Costa. Mesmo fechando um acordo no caso do pacote de ajuste fiscal, os dois são considerados representantes de modelos antagônicos de gestão: Haddad preocupado em cortar gastos para melhorar a situação fiscal e Rui em busca de dinheiro para acelerar as obras do PAC.
O problema das contas públicas, hoje uma realidade que atrapalha o governo, não existia nos dois primeiros mandatos. Em 2003 e 2004, Lula já produzia superávits fiscais, que agora são previstos para serem alcançados somente em 2026. O petista iniciou seu primeiro mandato com um capital político maior, o que permitia enfrentar o desgaste do arrocho, por causa dos 61,27% dos votos obtidos contra José Serra no segundo turno de 2002. Contra Bolsonaro em 2022, Lula teve 50,9% dos votos válidos.
Neste terceiro mandato, Lula também assumiu pessoalmente a batalha contra as taxas de juros. O papel antes era desempenhado pelo então vice, José Alencar. Em 2004, ao fim do segundo ano do primeiro mandato, a taxa de juros era de 17,25%, enquanto hoje está em 12,25%. A inflação é menor: 4,8% de projeção contra 7,6%. A meta de inflação, entretanto, era um pouco maior nos primeiros mandatos de Lula, em torno de 4,5%. Agora, a meta perseguida pelo BC é de 3%. O dólar, além disso, após a decepção do mercado com o pacote de ajuste fiscal, fechou o ano a R$ 6,18 contra R$ 2,65 na primeira gestão.
Fruto de críticas do mercado, a elevação da taxa de isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, anunciada junto com as medidas de cortes de gastos, é a principal aposta do governo para os dois últimos anos.
A ideia é manter o tema em debate durante a tramitação da proposta no Congresso e usar o discurso da justiça tributária para tentar alavancar a popularidade do governo. Pesquisa Datafolha de dezembro de 2024 mostra que Lula tem 35% de avaliação como ótimo e bom, cenário semelhante ao de quando começou a terceira gestão, mas distante dos 45% da primeira metade do primeiro mandato e dos 70% da primeira metade do segundo mandato — e mais longe ainda dos 83% de quando encerrou o período de oito anos, em 2010.
O presidente tem repetido que os dois últimos anos são para colheita e que a apresentação de novas ideias estão proibidas. Programas já lançados, como o Pé-de-Meia (que concede auxílio financeiro a estudantes), o Desenrola (que prevê perdão de dívidas) e o Acredita (voltado ao empreendedorismo) são as apostas da gestão para se transformarem em marcas da terceira passagem de Lula pelo Planalto.
Cavalo-de-pau
Por Merval Pereira / O GLOBO
O presidente Lula tem fama de gastador, e a percepção de que o futuro da economia brasileira está ameaçado devido a essa tendência só pode ser revertida pelo próprio, que é quem comanda, sem contraste, um governo que tem um presente econômico bastante bom, mas que pode se transformar em uma crise grave fiscal.
Não é à toa que, no mundo financeiro, acredita-se que só um “cavalo-de-pau” pode nos salvar. Uma maneira delicada de dizer que só um outro governo, não esse, colocará o país nos trilhos novamente. A maldade do mercado financeiro, que faz o dólar e a Bolsa subirem ao anúncio de uma doença do presidente, reflete esse anseio por um novo governo, cruel recado, mesmo que metafórico.
Segundo o dicionário Aurélio, “cavalo-de-pau” é uma “manobra de emergência que consiste em fazer um veículo inverter de direção, mediante a aplicação súbita de freios”. Foi o que fez em 2003, no primeiro governo, quando manteve ao assumir uma taxa de juros de 26,5%. Os sinais, hoje, são contrários. O governo está mais para o “gasto é vida” defendido pela ex-presidente Dilma, que se impõe a cada movimento de Lula.
Ainda agora, para não perder o orçamento de 2024, liberou diversas verbas de fundos públicos, adiou repasses e transferências, para financiar programas públicos. São todos necessários e urgentes? Pode ser que sim, pelo menos no caso do Rio Grande do Sul, afetado pelas enchentes. Mas sinalizam uma falta de contenção de gastos que pode levar a dívida pública a 85% do PIB no final do governo, como teme o mercado financeiro.
Quando anunciou o pacote fiscal, que já fora enfraquecido antes mesmo de chegar a público por influências de setores que foram chamados a palpitar, o governo anunciou também o aumento do nível de isenção do Imposto de Renda, que não tem nada a ver com a contenção de gastos. Confundiu a mensagem de sobriedade fiscal com a prodigalidade social, indicando a dificuldade do presidente Lula de jogar a longo prazo para colher frutos da austeridade.
Já foi diferente, mas por relativamente pouco tempo. Quando o ministro da Fazenda Antônio Palocci foi substituído por Guido Mantega, a direção da rota sofreu uma alteração que desaguou na nova matriz econômica e na crise que levou à derrocada do governo Dilma. Não é possível criticar a política social do governo, a não ser na fragilidade de não tocar em questões estruturais que fazem do Bolsa Família, por exemplo, um programa permanente, cuja eficácia, em vez da redução do número de dependentes, mede-se pelo aumento dos inscritos.
Mas é necessário chamar a atenção para as deficiências do sistema em que está baseada a política econômica, não por culpa do ministro Fernando Haddad, mas pela aceitação das pressões populistas do PT. Como sempre faz, o governo petista atribui ao antecessor os erros que teriam sido supostamente herdados. Antes foi a “herança maldita” do governo de Fernando Henrique Cardoso, agora o “descalabro nas contas públicas” deixado pelo ministro da Economia de Bolsonaro Paulo Guedes. Sem lembrar que, desde o início o novo governo cavou com seus próprios pés o déficit com uma PEC da Transição no valor de R$ 145 milhões.
À medida que se aproximam as eleições de 2026, mais difícil será uma mudança efetiva, já que a data entra em todas as cogitações futuras, e o tempo encurta. O próprio PT, ao criticar internamente a política econômica e forçar um populismo que não tem espaço nas contas públicas, prejudica seu futuro, pois Haddad é o que tem de mais eficaz para o caso de Lula não se candidatar à reeleição. Essa disputa interna também impede uma saída harmoniosa para a crise futura que já está marcada, e sendo precificada à medida que se torna inevitável.
Descobrindo mais moradores de rua
O Cadastro Único de Programas Sociais detectou, em apenas um ano, um número de pessoas que vivem em situação de rua no país 25% maior que o de 2023 —de 261.653 para 327.925 em 2024, segundo pesquisa desenvolvida na UFMG.
Considerada a série histórica, o saldo atual é 14 vezes o verificado há 11 anos. Boa parte da explicação do incremento dramático decorre da fonte desses dados.
Como o CadÚnico tornou-se o principal programa social para pessoas em vulnerabilidade, não houve necessariamente um aumento real da população de rua na mesma proporção dos novos inscritos. De todo modo, a cifra acende o sinal de alerta para gestores nos três níveis da Federação. Ou deveria acender.
A percepção geral dos brasileiros também é um indicativo. No anos passado, pesquisa do Ipec mostrou que 1 em cada 4 vê avanço na população de rua, e 93% dos moradores do centro da capital paulista acreditam que esse é o principal problema da região.
Governantes devem ir além dos números. É preciso compreender, de um lado, as causas que levam ao acréscimo da população de rua e, de outro, o perfil específico desse contingente.
A política conhecida como "moradia primeiro" ("housing first") privilegia a oferta de moradias fixas ou temporárias com vista a fortalecer laços comunitários e facilitar a busca por trabalho. Há uma experiência paulistana nesse sentido, o Programa Reencontro, hoje vetado pela Justiça por falta de consulta popular.
Ao mesmo tempo em que o estado de São Paulo congrega 43% das pessoas em situação de rua, 20% dos imóveis do centro da capital estão sem uso e poderiam ser remodelados para moradia.
É possível que se desenhem, a exemplo de outros países, políticas habitacionais que visem, também, famílias inteiras —é cada vez mais comum encontrá-las ao relento nas grandes cidades.
Além da moradia, devem-se adotar políticas transversais que provejam dignidade e direitos.
O acolhimento a moradores de rua com questões de saúde mental e dependência química segue insuficiente. É imperativo ampliar o atendimento especializado, que leve em consideração as especificidades de cada subgrupo, incluindo o entendimento psicossocial adequado e políticas de redução de danos para usuários.
A população de rua merece atenção integrada de municípios, estados e União. Desde 2009, o Brasil conta com uma política nacional para o setor, que ainda carece de mecanismos efetivos de implantação. Dados e normas são abundantes; faltam resultados.
Programa militar nas fronteiras vira emendoduto para farra de obras e máquinas
O Calha Norte, tradicional programa das Forças Armadas brasileiras, recebeu mais de R$ 3 bilhões em verbas de emendas parlamentares nos últimos sete anos, o que significou um desvio na finalidade original de atuação militar estratégica nas fronteiras.
Os bilhões de reais aplicados por deputados federais e senadores no Calha Norte recentemente levaram o programa a executar obras de pavimentação e construção, além de entregar máquinas, veículos e equipamentos nos redutos eleitorais indicados a dedo pelos congressistas.
A desfiguração levou o governo federal a anunciar que o programa, prestes a completar 40 anos, será transferido do Ministério da Defesa para o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, que já tem sob sua responsabilidade uma estatal também convertida em emendoduto, a Codevasf.
Há vários paralelos nas trajetórias recentes do Calha Norte e da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba), empresa pública criada há 50 anos para promover projetos de irrigação no semiárido que foi capturada pelos padrinhos de emendas.
Um dos que mais chamam a atenção é o da expansão territorial nos últimos anos para abranger mais municípios de interesse de deputados e senadores.
A Codevasf hoje vai da Amazônia Legal ao litoral do Nordeste, enquanto o Calha Norte chega até a se afastar das regiões fronteiriças, alcançando o estado do Tocantins.
Um dos maiores saltos no programa militar ocorreu em 2022, no último ano da gestão de Jair Bolsonaro (PL), quando a área de abrangência cresceu em 40%, passando de 442 para 619 localidades.
No primeiro ano do governo Lula (PT) houve novo acréscimo, e agora ao todo são 783 municípios. No entanto, apenas cerca de um quinto deles, 170, está nas fronteiras brasileiras.
Hoje, aproximadamente 60% do território nacional é coberto pelo Calha Norte, que chega a dez estados: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.
Os valores de emendas destinados ao programa começaram a aumentar significativamente a partir de 2017.
Daquele ano a 2023, último ano completo considerado no pedido de informações feito pela Folha ao ministério, os valores anuais de emendas executados no Calha Norte saltaram de R$ 266 milhões, em 2017 (valores corrigidos pela inflação), para R$ 688 milhões, em 2023, o que corresponde a um aumento de cerca de 160% no fluxo de dinheiro público anual.
Em 2024, até outubro, o montante foi de R$ 572 milhões. Ao todo, desde 2017, foram R$ 3,5 bilhões em emendas executadas no âmbito do programa. Desse total, cerca de 70% dos recursos foram destinados a obras, o equivalente a R$ 2,4 bilhões.
A lista de obras e serviços de engenharia realizados pelo Calha Norte é ampla e inclui pavimentação e construção de escolas, hospitais, mercados municipais, praças, quadras de esportes, estádios, ginásios, quartéis, delegacias, presídios e terminais de carga ou passageiros.
Aproximadamente R$ 1 bilhão em emendas foi gasto para a entrega de produtos, o que incluiu a distribuição de 1.877 veículos e 637 máquinas pesadas desde 2017.
O elenco de bens é bastante variado: motocicletas, carros, picapes, ônibus, ambulâncias, caminhões, compactadores de lixo, retroescavadeiras, motoniveladoras e tratores de esteira.
Em setembro, o governo anunciou que o Calha Norte será transferido do Ministério da Defesa para o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional a partir deste mês.
À época, o ministro da Defesa, José Mucio, justificou a medida sob o argumento de que a pasta "vinha fazendo um trabalho que é de Desenvolvimento Regional, fugindo da finalidade do nosso ministério".
"As Forças Armadas devem trabalhar na área delas, não devem fazer o trabalho que vinham fazendo porque isso confundia, misturava as coisas, atrapalhava a nossa gestão", afirmou.
"Estamos deixando de fazer o que não é do nosso ministério e nem temos conhecimento para isso, e meu desejo é que as Forças Armadas voltem para os quartéis para cumprirem suas obrigações", completou.
Mucio endossou a avaliação das Forças Armadas, sobretudo do Exército, de que o Calha Norte tinha se transformado num festival de emendas para outros fins que não os militares, como a construção de praças, quadras e espaços esportivos.
Uma série de empreendimentos desses dá voto, nas palavras de um integrante do Alto Comando do Exército. Mas, abrigados na pasta de Defesa, davam a impressão de que eram verbas para as Forças Armadas.
Uma vez tomada a decisão de transferir o Calha Norte, a preocupação dos militares passou a ser como garantir que, num quadro de corte de gastos pelo Ministério da Fazenda, seja mantida a parte imprescindível do programa para conservar os pelotões de fronteira numa região estratégica para a defesa nacional.
Também se pensou o mesmo sobre outros projetos que recebem recursos do Calha Norte, como o dos navios-hospitais da Marinha que atendem populações ribeirinhas na porção setentrional da bacia amazônica.
A realocação desses recursos ainda estava para ser equacionada do ponto de vista burocrático e, em dezembro, havia receio entre militares de que ela pudesse adiar a transferência do Calha Norte para o Ministério da Integração.
A Folha perguntou ao Ministério da Defesa sobre o atual estágio da transferência e o aumento dos valores das emendas destinadas ao programa, mas a pasta não respondeu.


2025 começa com crises do ano velho
Por Vera Magalhães / O GLOBO
O ano começa com crises velhas, cuja resolução ou foi empurrada com a barriga ou escapou à capacidade de articulação dos Três Poderes. O desajuste na relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário, aliado à pressão de inflação e juros sobre a economia, são as heranças de 2024 que comprometem, desde a largada, o sucesso de 2025.
O governo Lula foi um espectador entre atônito e inerte de uma virada de ano em que as suas maiores fraquezas foram evidenciadas de forma alarmante e cara.
A disparada do dólar e o impasse das emendas mostraram que o Executivo está de mãos atadas tanto para vencer a falta de confiança dos agentes econômicos quanto para instituir uma governabilidade que não seja comprada caro à custa de transferência de dinheiro público para uma base que não morre de amores pelo projeto de Brasil do PT.
Com o câmbio, as contas públicas e a inflação descalibrados no nascer do novo ano, nada vai mudar com a troca de guarda no Banco Central, que por dois anos Lula cantou em prosa e verso como a solução para a única coisa que ia errado com a economia.
Sai Roberto Campos Neto e entra Gabriel Galípolo, mas o choque de juros para tentar levar a inflação para a meta prosseguirá, com a diferença de que será ainda mais bizarro ver o petismo vociferar contra a autoridade monetária, se é que vão ter coragem.
Câmara e Senado, que não terão um recesso propriamente dito, envolvidos na campanha para a troca das Mesas Diretoras, vão cobrar com juros ainda maiores que a Selic a insistência do Supremo Tribunal Federal em disciplinar o pagamento das emendas parlamentares.
Quem pagará essa conta não será o próprio STF. Por mais que sempre que acontecem esses impasses o Legislativo ameace partir para cima de suas prerrogativas, os parlamentares têm medo de esticar a corda com o Judiciário porque muitos ali têm pendências judiciais em curso ou prestes a estourar.
O boleto chegará mesmo para Lula, em quem os caciques que estão saindo do comando das Casas e os que estão chegando já não confiam minimamente e a quem atribuem a situação atual, pela nomeação de Flávio Dino para a cadeira de Ricardo Lewandowski.
Haja mudança de ministério para aplacar a ira de Arthur Lira e Davi Alcolumbre, a rigor os dois polos em torno dos quais a atual indústria da transferência de recursos do Orçamento para irrigar projetos políticos nas bases foi construída.
Por mais que tenha sido aprovado um projeto de lei, depois sancionado por Lula, para tentar disciplinar em definitivo essa questão, as posteriores intervenções de Dino mostram que ele está longe de ter atendido o que a corte suprema entende como necessidade de transparência nessa matéria.
E não é só na macroeconomia e na governabilidade que as pendências de 2024 são uma grave ameaça para o ano que começa. O que foi feito em termos de planejamento para evitar que se repita agora, no verão, a epidemia de dengue que vitimou mais gente no ano que terminou que em qualquer outro da história no Brasil?
A vacinação, que não deslanchou no auge do surto, também não foi divulgada e efetivada de forma massiva nos meses que se seguiram ao pico das mortes. Onde estão as campanhas de TV e rádio para a erradicação de focos do mosquito e a articulação com Estados e municípios para evitar que o surto descontrolado se repita?
Adiar problemas e esquecê-los quando passa a fase aguda das crises são características típicas de governo ao qual faltam liderança e mecanismos de cobrança de resultado, e o segundo ano do terceiro mandato de Lula mostrou que o presidente e seus principais ministros seguiram à deriva, apagando incêndios ou combatendo enchentes de canequinha, literal e metaforicamente. Nada disso é bom auspício para o ano que começa.

