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Agro do Ceará cresce e o tomate já é seu principal produto

Escrito por Egídio Serpa / DIARIONORDESTE
 
 
Em 2024, a fruticultura do Ceará perdeu, em exportação, para a do Rio Grande do Norte. O que aconteceu? – perguntam leitores desta coluna. Responde o secretário Executivo da Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE) do governo do estado, Sílvio Carlos Ribeiro: 

“O Rio Grande do Norte passou o Ceará em exportação de frutas faz algum tempo, devido à crise hídrica iniciada em 2014. A região da Chapada do Apodi, para o lado potiguar, tem potencial muito bom, principalmente para o melão. Naquele ano, o Rio Grande do Norte tinha, como ainda tem, muita água subterrânea e isso fez a diferença. Todavia, o Ceará reinventou-se no agronegócio com várias ações que fizeram com que, mesmo com pouca água, pudéssemos continuar crescendo.”

Sílvio Carlos respira fundo e prossegue:

“Crescemos no leite, graças a uma gestão eficiente das propriedades rurais, a uma indústria forte estimulando a produção e a uma cultura para reserva alimentar – a palma forrageira – que fez e faz muita diferença. Crescemos na carcinicultura, que nos dá o camarão, um produto de alto valor agregado. A essa atividade – empresarialmente moderna – estão aderindo centenas de antigos agricultores, que agora, utilizando água salobra e solos já não tão produtivos para a agricultura, fizeram do Ceará o maior produtor de camarão do Brasil, com quase 15 mil hectares de área cultivada e 54% da produção nacional.”

O executivo da SDE avança com mais informações:

“Crescemos nas hortaliças. Hoje a região da Ibiapaba tem o maior Valor Bruto da Produção Agrícola (VBP) do Estado, sendo a cultura do tomate – com VBP de R$ 716,9 milhões – a que gera mais renda. A Ibiapaba, seu clima e seu solo atraíram empresas de referência nacional como a Trebeschi – maior produtora brasileira de tomates – que tem fazenda de cultivo sob telas em Ubajara, hoje uma referência nacional. Na mesma geografia da Ibiapaba e utilizando a tecnologia do cultivo protegido (sob estufas), está, em São Benedito, a Itaueira Agropecuária, que produz pimentões coloridos comercializados para grandes redes de supermercados do país. Na mesma São Benedito, estão a Reijers, que, igualmente sob estufas, produz grande variedade de flores e a Fazenda Santo Expedito, da família Schwartz, que, igualmente, produz flores, sendo filiada à maior cooperativa da floricutura de Alhambra, em SP.

Sílvio Carlos, esbanjando otimismo, tem mais a dizer:

“E a produção e a exportação de melão no Ceará dará um grande salto de qualidade neste ano, pois a Itaueira Agropecuária voltará a produzir essa fruta, e, também, melancia no interior do estado, onde implanta um projeto que, quando estiver totalmente concluído, ocupará uma área de 3 mil hectares. Na primeira fase, que começará no próximo mês de maio, o cultivo será feito em 1.500 hectares, o que representará 1.500 novos empregos, pois na fruticultura do melão um hectare representa um emprego. Nessa área, a Itaueira vem, há mais de um ano, investindo no tratamento do solo e na construção de instalações, entre as quais a ‘packing house’ (casa de embalagem).

“A exportação é um indicador importante, mas a maior parte da produção do agro cearense destina-se ao mercado interno brasileiro. Assim, como estamos crescendo no VBP do agronegócio, acreditamos que o Ceará segue bem, mas também pode melhorar muito, principalmente pela oportunidade de novas culturas de alto valor agregado, com maior eficiência no uso da água e na atração de novos investidores para o setor.

“Mas temos, ainda, outros setores do agro que cresceram e crescem, de que são exemplos a água de coco, que ganhou da Embrapa uma inovação tecnológica na qual investiu a Fazenda Grangeiro, dos empresários Fernando e Rita Grangeiro, produto que já está nas gôndolas dos supermercados de Fortaleza. O Ceará produz, também, acerola orgânica toda destinada à produção de Vitamina C, além de madeira para reflorestamento, como é o caso do Grupo Jacaúna, que tem 1.500 hectares cultivados de eucalipto no município de Marco, além de plantas ornamentais que são exportadas para os EUA e a Europa.

Sílvio Carlos Ribeiro lembra o desenvolvimento da avicultura, um ramo do agro cearense que tem crescido na velocidade do frevo.

“Nossa avicultura avançou em todos os aspectos, principalmente na tecnologia e na inovação. E houve, nos últimos dois anos, importantes fusões e aquisições que fortaleceram o setor, dando-lhe músculos que o fazem, hoje, abastecer o mercado de ovos e de carne de frango do Ceará e de vários estados do Nordeste, chegando ao Pará com a marca da qualidade cearense”, conclui.

A atividade agrícola no Ceará é 100% dependente de chuvas. Por esta razão, há, neste momento, uma grande expectativa sobre a estação chuvosa deste ano.

A Funceme, em novembro do ano passado, prognosticou que há 45% de chance de a pluviometria de 2024 vir abaixo da média histórica. No mesmo novembro, três estudiosos do clima, a convite da Faec, desenharam em Tauá o mesmo cenário, dizendo, porém, que que as chuvas deste ano têm tudo para ser na média ou acima da média.

Cultivo Protegido na Ibiapaba DE TOMATE

 

 

Helder critica “ditadura de Maduro” e diz que Brasil não pode se omitir Leia mais em: https://veja.abril.com.br/coluna/radar/helder-critica-ditadura-de-maduro-e-diz-que-brasil-nao-pode-se-omitir/

Por Pedro Pupulim / VEJA

 

O governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), fez uma publicação em seu perfil no “X”, antigo Twitter, na manhã desta sexta, em que se manifestou de forma contrária à posse de Nicolás Maduro, reeleito  presidente da Venezuela em julho de 2024.  Em seu comentário, Helder chamou o governo Maduro de “ditadura” e pediu a saída do líder venezuelano do poder..

 

“Quem defende a democracia tem de abominar a ditadura de Maduro e condenar a opressão do regime. Não podemos fazer condenações seletivas a golpistas. O Brasil não pode se omitir: fora Maduro!”, disse. Alguns membros do governo Lula também criticaram, mais cedo, a chegada de Maduro a mais um mandato presidencial. 

 

Ministro do Transportes, Renan Filho classificou o chavista como “ditador incansável” que tomou o poder através da “força bruta”.  Pouco depois, o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, afirmou na mesma rede social que a posse de Maduro ocorreu “sem legitimidade internacional e marcada pela força”, sendo “um ataque aos princípios democráticos”.

Ameaças de Trump indicam mandato mais turbulento

Por Editorial / O GLOBO

 

Logo após o republicano Donald Trump vencer com folga as eleições presidenciais e ver seu partido conquistar maioria no Congresso, líderes de países em diferentes partes do mundo passaram a traçar novos cenários sobre o que aconteceria com sua volta à Casa Branca. Trump não os fez esperar tanto. A menos de duas semanas da posse, deu o tom do segundo mandato. Em entrevista nesta semana, declarou ser possível o uso da força para desafiar a soberania de países aliados. Trump quer o controle do Canal do Panamá e que a Dinamarca venda a Groenlândia. Na mesma ocasião, fez provocações e ameaças de pressão econômica para que o Canadá se torne um estado americano. Pode ser tudo parte de estratégia para obter concessões. Com exceção de Trump e seus assessores, ninguém sabe. Daí a impressão de que o segundo mandato será ainda mais imprevisível que o primeiro.

 

Nos últimos dias como secretário de Estado, Antony Blinken tem aconselhado seus pares “a não perder tempo” com a ameaça à Groenlândia. Jean-Noël Barrot, ministro de Relações Internacionais da França, também acha improvável um ataque à Dinamarca, membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Expressando o sentimento de muitos, Barrot disse que estamos entrando num período “da lei do mais forte”.

 

Embora o estilo ameaçador seja totalmente reprovável, é preciso reconhecer que em alguns pontos a grosseria de Trump encobre motivações sensatas. No primeiro mandato, a pressão para países europeus investirem mais em Defesa tinha razão de ser e obteve algum efeito. A causa da investida contra a Groenlândia é a preocupação com os interesses da China e da Rússia no Ártico. Com o degelo provocado pelo aquecimento global, novas rotas marítimas serão abertas.

 

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os americanos têm uma base na Groenlândia. Localizada a 1.500 quilômetros do Polo Norte, possui sistema de detecção de mísseis e comando de satélites. Após Trump manifestar novo desejo de adquirir o território, o governo dinamarquês declarou que não estava à venda, mas afirmou disposição de cooperar de forma mais próxima com os Estados Unidos. Se o plano de comprar a Groenlândia for mesmo apenas uma estratégia para obter concessões, ainda não está claro o que Trump quer. O estranho é alguém tão preocupado com a China e a Rússia tratar tão mal os aliados.

Para a América Latina, uma das promessas de campanha com maior potencial de impacto é a deportação em massa de imigrantes ilegais. As remessas de dinheiro de todo o mundo para a região em 2023 totalizaram US$ 155 bilhões, quantia superior ao total de investimentos estrangeiros, de acordo com o Banco Mundial. Na América Central, o dinheiro transferido, principalmente dos Estados Unidos, tem um peso desproporcional na economia. Na Nicarágua equivale a 26% do Produto Interno Bruto (PIB), e em Honduras a 25% (no Brasil é inferior a 1%).

 

Nem tudo corre o risco de desaparecer. Parte das remessas vem de trabalhadores já legalizados. Além disso, Trump terá dificuldades logísticas para cumprir a promessa de deportar 15 milhões de pessoas. Mas, mesmo que o número acabe sendo menor, algum impacto negativo será sentido. O segundo mandato de Trump ainda desperta muitas dúvidas e pelo menos uma certeza: não faltará truculência.

 

Existe vida após a morte? Cientistas estudam reencarnação e comunicação com o 'além'

Por Saskia Solomon, Em The New York Times — Charlottesville, EUA / O GLOBO

 

 

Em um escritório no centro de Charlottesville, Virgínia, um pequeno baú de couro fica em cima de um arquivo. Dentro há uma fechadura com combinação, fechada há mais de 50 anos. Quem colocou está morto.

 

Por si só, a fechadura não tem nada de especial: é uma daquelas usadas na academia. Possui um código de uma palavra de seis letras convertida em números que era conhecido apenas pelo psiquiatra Ian Stevenson, que o elaborou muito antes de morrer e anos antes de se aposentar como diretor da Divisão de Estudos Perceptivos (DOPS, em inglês), uma unidade de pesquisa parapsicológica que ele fundou na Faculdade de Medicina da Universidade da Virgínia em 1967.

 

Stevenson chamou esse experimento de Teste de Sobrevivência da Fechadura Combinada. Ele pensou que, se pudesse transmitir o código a alguém a partir do túmulo, poderia ajudar a responder as questões que o consumiram durante a vida: a comunicação do “além” é possível? Ou, simplesmente: a reencarnação é real?

 

Este último enigma — a sobrevivência da consciência após a morte — permanece na vanguarda da investigação da divisão. A equipe registrou centenas de casos de crianças que afirmam se lembrar de vidas passadas em todo o mundo, exceto na Antártida.

 

— Só porque não procuramos casos lá — disse Jim Tucker, que há mais de duas décadas investiga relatos de vidas passadas, e aposentou-se recentemente após ter sido diretor do DOPS desde 2015.

 

Para começar, foi um caminho inesperado.

 

— No que diz respeito à reencarnação em si, nunca tive um interesse especial nela — disse Tucker, que apenas pretendia ser psiquiatra infantil e foi, a certa altura, diretor da Clínica de Psiquiatria Infantil e Familiar da Universidade da Virgínia. — Nunca me ocorreu que acabaria neste trabalho. Agora, aos 64 anos, depois de viajar pelo mundo para registrar casos de possíveis memórias de vidas passadas e depois de publicar seus próprios livros e artigos sobre o tema, ele deixou o cargo.

 

— Há um nível de estresse na medicina e na academia — refletiu. — Sempre há coisas que você deveria fazer, artigos que deveria escrever, receitas que deveria prescrever. Eu gostava do meu trabalho diário, tanto na clínica quanto no DOPS, mas chega um momento que você não está disposto a ter tantas responsabilidades e cobranças.

 

De acordo com anúncio de emprego publicado pela Faculdade de Medicina, além de reputação acadêmica, o candidato ideal para substituir Tucker deve ter “um histórico de pesquisas rigorosas sobre experiências humanas extraordinárias, como a relação da mente com o corpo e a possibilidade de que a consciência sobreviva à morte física".

 

Nenhum dos oito membros principais da equipe possui a formação acadêmica necessária para desempenhar a função, por isso é necessário encontrar alguém de fora. — Acho que há uma sensação de que seria rejuvenescedor para o grupo ter alguém de fora entrando — disse Jennifer Payne, vice-presidente de pesquisa do Departamento de Psiquiatria, que chefia o comitê de seleção.

 

Cientistas que se desviaram do caminho habitual

Tucker trabalhava muito quando aprendeu sobre o DOPS. Era 1996 e o jornal local The Daily Progress de Charlottesville traçou o perfil de Stevenson depois de receber financiamento para entrevistar pessoas sobre suas experiências de quase morte. Atraído pelo trabalho pioneiro, Tucker começou a trabalhar como voluntário na divisão antes de ingressar como pesquisador permanente.

 

Cada um dos investigadores da divisão dedicou suas carreiras — e, até certo ponto, arriscou suas reputações profissionais — ao estudo do chamado paranormal. Isso inclui experiências de quase morte e extracorpóreas, estados alterados de consciência e pesquisas de vidas passadas, que são abrangidas pela “parapsicologia”. São cientistas que se desviaram do caminho habitual.

 

O DOPS é uma instituição curiosa. Existem apenas alguns laboratórios no mundo que possuem linhas de pesquisa semelhantes — a Unidade de Parapsicologia Koestler da Universidade de Edimburgo, por exemplo —, mas o DOPS é a iniciativa mais proeminente. A única outra grande unidade de parapsicologia nos Estados Unidos era o Laboratório de Pesquisa de Anomalias de Engenharia de Princeton, ou PEAR, que se concentrava na telecinesia e na percepção extrassensorial. Essa unidade foi fechada em 2007 .

 

Embora tecnicamente faça parte da Universidade da Virgínia, o DOPS ocupa quatro espaços semelhantes a condomínios dentro de um edifício residencial. Fica notavelmente longe do arborizado campus principal da universidade e a pelo menos alguns quilômetros da Faculdade de Medicina.

 

— Ninguém sabe que estamos aqui — disse Bruce Greyson, 78 anos, ex-diretor do DOPS e professor emérito de Psiquiatria e Ciências Neurocomportamentais na Universidade da Virgínia, que começou a trabalhar com Stevenson no final da década de 1970. — Ian era muito cauteloso em relação a isso. ele enfrentou muito preconceito. Ele manteve um muita discrição. Greyson recebeu muitas críticas antes de ingressar no DOPS. Ele havia trabalhado na Universidade de Michigan durante oito anos no início de sua carreira, mas seu interesse em experiências de quase morte começou a irritar outras pessoas.

 

— Disseram-me, sem rodeios, que eu não teria futuro se pesquisasse experiências de quase morte, porque isso não pode ser medido num tubo de ensaio— disse ele. — A menos que você pudesse quantificar isso com uma medida biológica, eles não queriam ouvir sobre isso. Ele deixou Michigan e foi para a Universidade de Connecticut, onde passou 11 anos, e depois foi para o DOPS.

 

O clima dentro do DOPS é calmo e de estudos. Existem apenas alguns sinais das atividades da equipe. No laboratório subterrâneo há uma gaiola de Faraday revestida de cobre usada para testar indivíduos em experiências fora do corpo, e cabeças de manequim de espuma com tampas de EEG. No andar de cima, ao longo de toda a parede da Biblioteca Memorial Ian Stevenson, que possui mais de 5 mil livros e documentos relacionados à pesquisa de vidas passadas, há uma vitrine com uma coleção de facas, espadas e maças, armas descritas por crianças que se lembraram de um fim violento em sua vida anterior.

 

— Não se trata da arma em si, mas do tipo de arma usada — explicou Tucker. Cada objeto é rotulado com detalhes intrincados, às vezes sangrentos. Uma das exposições contava a história de uma menina birmanesa, Ma Myint Thein, que nasceu com deformidades nos dedos e marcas de nascença nas costas e no pescoço. "De acordo com os aldeões”, dizia a placa, “o homem cuja vida ele lembrava foi assassinado, seus dedos foram extirpados e sua garganta foi cortada com uma espada”.

 

Há também uma fotografia das mãos da menina, à direita faltam dois dedos. O fato de as crianças que afirmam lembrar-se de vidas passadas serem mais prevalentes no sul da Ásia, onde a reencarnação é um princípio básico de muitas crenças religiosas, tem sido usado pelos críticos para desacreditar os estudos. Afinal, é certamente muito fácil encontrar provas corroborativas em locais onde existe uma crença pré-existente na reencarnação.

 

No entanto, a questão da vida após a morte tem sido uma preocupação existencial para os humanos ao longo dos tempos e, em muitas culturas, a reencarnação é um princípio central da crença. O budismo, religião na qual se acredita que existe uma jornada de 49 dias entre a morte e o renascimento; o hinduísmo, com o seu conceito de samsara, o ciclo sem fim; e as nações nativas americanas e da África Ocidental compartilham conceitos básicos semelhantes da alma ou espírito passando de uma vida para outra. Um inquérito da Pew Research de 2023 descobriu que um quarto dos americanos acredita que é “definitivamente ou provavelmente verdade” que as pessoas que morreram podem reencarnar.

 

Quando se trata de reivindicações de vidas passadas, a equipe do DOPS trabalha em casos que quase sempre vêm diretamente dos pais.

 

Entre os traços comuns das crianças que afirmam ter tido uma vida anterior estão a precocidade verbal e os modos que não coincidem com os do resto da família. Acredita-se também que fobias ou aversões inexplicáveis ​​​​foram transferidas de uma existência passada. Em alguns casos, as memórias são extremamente claras: os nomes, profissões e peculiaridades de um grupo diferente de parentes, ou as particularidades das ruas onde moraram, e às vezes até lembram de acontecimentos históricos pouco conhecidos, detalhes que a criança não conseguiria saber.

 

 

Um dos casos mais famosos em que a equipe trabalhou foi o de James Leininger, um garoto americano que se lembrava de ter sido piloto de caça no Japão. O caso atraiu muita atenção do DOPS, mas também atraiu muitos detratores. Ben Radford, vice-editor da Skeptical Inquirer, uma revista dedicada à pesquisa científica, acredita que o pensamento positivo e a ansiedade geral da morte impulsionaram um interesse crescente na reencarnação e encontra falhas na metodologia de pesquisa DOPS, que ele frequentemente disseca em seu blog.

 

— O fato é que, por mais sincera que a pessoa seja, muitas vezes as memórias recuperadas são falsas— disse ele.

 

A evidência não é impecável

Lembrado por muitos como um homem digno, com uma queda por ternos de três peças, Stevenson vivia para sua pesquisa. Ele quase nunca tirava folga. — Certa vez, tive que passar no escritório na véspera de ano-novo e havia apenas um carro no estacionamento, e era o dele — lembra Tucker. Nascido em 1918, Stevenson, que era canadense e se formou em história em St. Andrews antes de estudar bioquímica e psiquiatria na Universidade McGill, foi chefe do Departamento de Psiquiatria da Universidade da Virgínia por dez anos, até 1967.

 

No início da década de 1960, ele ficou desiludido com a medicina convencional. Numa entrevista ao The New York Times em 1999, ele disse que se sentiu atraído pelo estudo de vidas passadas devido ao seu “descontentamento com outras explicações da personalidade humana. Nem a psicanálise, nem o behaviorismo, nem a neurociência me satisfizeram. Parecia-me que faltava alguma coisa”.

 

Então ele começou a registrar potenciais casos de reencarnação, que viria a chamar de “casos do tipo reencarnação” (CORT). Foi um dos seus primeiros trabalhos de pesquisa CORT, de uma viagem à Índia em 1966, que chamou a atenção de Chester Carlson, o inventor da tecnologia por trás das fotocopiadoras Xerox. Foi o generoso apoio financeiro de Carlson que permitiu a Stevenson deixar seu cargo na Faculdade de Medicina e se dedicar integralmente à pesquisa de vidas passadas.

 

O reitor da Faculdade de Medicina da época, Kenneth Crispell, não aprovou essa incursão no paranormal. Ele ficou satisfeito quando Stevenson renunciou ao seu cargo no Departamento de Psiquiatria e, acreditando na liberdade acadêmica, concordou com a formação de uma pequena divisão de pesquisa. No entanto, qualquer esperança que Crispell tivesse de que Stevenson e suas ideias pouco ortodoxas desapareceriam nas sombras acadêmicas rapidamente se esvaiu: Carlson morreu de ataque cardíaco em 1968 e, em seu testamento, legou US$ 1 milhão para o projeto de Stevenson.

 

Embora nem toda a atenção tenha sido positiva nos primeiros anos da divisão, algumas pessoas na comunidade científica ficaram intrigadas. "Ou Stevenson comete um erro colossal ou será conhecido como o Galileu do século XX", escreveu o psiquiatra Harold Lief num artigo de 1977 para o Journal of Nervous and Mental Disease.

 

Hoje, o DOPS continua a ser financiado inteiramente por doações privadas. Em outubro, foi anunciado que a divisão havia recebido o primeiro pagamento de uma doação de US$ 1 milhão do Philip Rothenberg Legacy Fund, que será usada para financiar pesquisadores em início de carreira. Também dão o seu apoio as irmãs Bonner, Priscilla Bonner-Woolfan e Margerie Bonner-Lowry, atrizes de cinema mudo da década de 1920, cuja doação continua a financiar o funcionamento do DOPS. Outro apoiador improvável é o ator John Cleese, que encontrou a divisão pela primeira vez no Instituto Esalen, um retiro localizado em Big Sur, Califórnia.

 

— Essas pessoas se comportam como bons cientistas — disse Cleese em entrevista por telefone. — Os bons cientistas procuram a verdade: não querem apenas estar certos. Penso que é absolutamente surpreendente e bastante embaraçoso a forma como a teoria reducionista materialista ortodoxa contemporânea lida com todas as coisas, e há muitas, que não consegue explicar.

 

Nos primeiros anos do departamento, Stevenson viajou extensivamente ao redor do mundo e registrou mais de 2.500 casos de crianças que diziam se lembrar de vidas passadas. Nesta era pré-internet, descobrir tantas histórias e tendências semelhantes serviu para reforçar sua tese. Os resultados dessas excursões, recolhidos na caligrafia elegante de Stevenson, são armazenados por país em arquivos e estão em lento processo de digitalização.

 

A partir dessa base de dados, os investigadores tiraram conclusões que consideram interessantes. Os casos mais fortes, segundo os pesquisadores do DOPS, foram encontrados em crianças com menos de 10 anos, e a maioria das memórias geralmente ocorre entre 2 e 6 anos, idade a partir da qual parecem desaparecer. O tempo médio entre a morte e o renascimento é de cerca de 16 meses, período que os pesquisadores consideram uma forma de intervalo. Muitas vezes, a criança guarda lembranças que coincidem com a vida de um parente falecido.

 

Contudo, apesar de todo esse trabalho meticuloso, Stevenson estava ciente das limitações da pesquisa de vidas passadas. “A evidência não é impecável e certamente não obriga a tal crença”, explicou ele numa palestra na Universidade do Sudoeste da Louisiana (agora Universidade da Louisiana em Lafayette) em 1989. “Mesmo o melhor está aberto a interpretações alternativas, e só podem ser censurados aqueles que dizem que não há provas.”

 

— Ian achava que a reencarnação era a melhor explicação, mas não tinha certeza — disse Greyson. — Achei que muitos dos casos poderiam ser outra coisa. Poderia ser uma espécie de possessão, poderia até ser uma ilusão. Existem muitas possibilidades diferentes. Pode ser clarividência ou obter informações de outras fontes das quais você não tem conhecimento.

 

Depois de passar mais da metade de sua vida estudando vidas passadas, Stevenson aposentou-se do DOPS em 2002, passando o bastão para Greyson. Embora acompanhasse os procedimentos de longe, orientando quando solicitado, nunca mais pisou na divisão. Ele morreu de pneumonia cinco anos depois, aos 88 anos.

 

Muitas memórias são difíceis

Todos os anos, o DOPS recebe mais de cem e-mails de pais sobre algo que seus filhos disseram. Abordar a divisão é muitas vezes uma tentativa de esclarecer as coisas, mas os investigadores nunca prometem respostas. Sua única promessa é levar essas alegações a sério, “mas, em termos de o caso ser grande o suficiente para ser investigado, o suficiente para potencialmente verificar se corresponde a uma vida passada, [as chances] são muito poucas”, disse Tucker.

Neste verão, Tucker dirigiu até a cidade rural de Amherst, Virgínia, para visitar um caso de possível memória de vidas passadas. Ele estava acompanhado pelos colegas Marieta Pehlivanova e Philip Cozzolino, que assumiriam a pesquisa no novo ano.

 

Pehlivanova, 43 anos, especializada em experiências de quase morte e crianças que se lembram de vidas passadas, está no DOPS há sete anos e inicia um estudo sobre mulheres que tiveram experiências de quase morte durante o parto. Quando conta às pessoas o que faz, elas acham o assunto fascinante e perturbador.

— Recebemos e-mails de pessoas dizendo que fazemos o trabalho do diabo — disse ela.

 

Ao chegar na casa da família, a equipe entrou na cozinha. Uma menina de três anos, a mais nova de quatro irmãos que estudavam em casa, espiou por trás das pernas da mãe, olhando timidamente. Ela vestia uma camiseta larga da Minnie Mouse e foi se sentar entre os avós em um banquinho, observando enquanto todos se sentavam ao redor da mesa da sala de jantar.

 

— Vamos começar do início — disse Tucker depois que a mãe da menina, Misty, de 28 anos, assinou a papelada. — Tudo começou com a peça do quebra-cabeça? Alguns meses antes, mãe e filha olhavam para um quebra-cabeça de madeira dos Estados Unidos, no qual cada estado era representado por uma caricatura de uma pessoa ou objeto. A filha de Misty apontou com entusiasmo para a peça irregular que representava Illinois, que tinha uma ilustração abstrata de Abraham Lincoln.

 

— É Pom — exclamou a filha. Ele não está usando chapéu.

 

Na verdade, era um desenho de Abraham Lincoln sem chapéu, mas o mais importante é que embaixo da imagem não havia nenhum nome que indicasse quem ele era. Depois de semanas de conversas ininterruptas sobre como “Pom” sangrou até a morte depois de ser ferido e colocado em uma cama pequena demais — o que a família começou a pensar que poderia estar relacionado ao assassinato de Lincoln —, eles começaram a considerar que sua filha havia sido presente no momento histórico. E isso apesar de a família não ter nenhuma crença anterior na reencarnação nem qualquer interesse particular em Lincoln.

 

No caminho para Amherst, Tucker confessou sua hesitação em assumir esse caso específico, ou qualquer outro envolvendo uma pessoa famosa. — Se você disser que seu filho era Babe Ruth, por exemplo, haveria muita informação na internet — disse ele. — Quando recebemos esses casos, geralmente é porque os pais estão envolvidos. É um pouco estranho sair da boca de uma criança de três anos. Agora, se ele tivesse dito que sua filha era Lincoln, provavelmente não teria feito a viagem.

 

Ultimamente, Tucker tem feito exames de imagem nas crianças.

— Quando pensamos que conhecemos a pessoa de quem estamos falando, mostramos a ela uma foto daquela vida e depois mostramos outra, falsa, de outro lugar, para ver se conseguem escolher a certa — disse ele. — Você precisa ter algumas fotos para que isso signifique alguma coisa. Tive um em que o cara se lembrava de ter morrido no Vietnã. Mostrei a ele oito pares de fotos; algumas delas ele não escolheu, mas nas demais acertou seis das seis. Então, você sabe, isso faz você pensar. Mas essa garota é tão jovem que não acho que possamos fazer isso.

Na ocasião, a menina não se engajou na conversa e estar dormindo. Depois, ela realmente acabou adormecendo.

— Ele participará em breve — garantiu Misty aos investigadores.

Com o passar dos minutos, Tucker decidiu que seria melhor deixar o teste das imagens para outro momento. A menina ainda dormia quando os investigadores retornaram ao carro.

Após o primeiro encontro, a única coisa a fazer é não fazer nada e esperar, para ver se as lembranças se transformam em algo mais concreto. Como a pesquisa de vidas passadas se baseia em memórias espontâneas, a equipe não está muito convencida sobre o conceito de regressão hipnótica.

— As pessoas são hipnotizadas e orientadas a voltar às suas vidas passadas e tudo mais, o que nos deixa bastante céticos — disse Tucker. — Muitas coisas também podem ser inventadas, mesmo que sejam lembranças desta vida.

 

 

O DOPS raramente leva em conta as histórias dos adultos.

— Eles não são nosso principal interesse em parte porque, como adulto, você foi exposto a muitas coisas — explicou Tucker. — Você pode pensar que não sabe coisas sobre a história, mas é provável que tenha sido exposto a elas. Mas, além disso, o fenômeno ocorre tipicamente em crianças pequenas. É como se carregassem as memórias e geralmente são muito pequenas quando começam a falar.

 

Também existe a preocupação de que os pais estejam buscando atenção.

— Há pessoas que dizem: "Bem, os pais só fazem isso para conseguir seus 15 minutos de fama ou algo assim" — disse Tucker. —Mas a maioria deles não se importa que alguém saiba, você sabe, porque é constrangedor ou porque temem que as pessoas pensem que seu filho é estranho.

Para uma criança, lembrar de uma vida passada pode ser difícil.

— Eles podem sentir falta das pessoas ou sentir que há assuntos inacabados — disse ele, continuando com voz contemplativa depois de um silêncio. — Francamente, provavelmente é melhor para a criança não ter essas memórias, porque muitas delas são difíceis. A maioria das crianças que se lembram de como morreram tiveram algum tipo de morte violenta e não natural.

Ajude as pessoas a se tratarem um pouco melhor

Os investigadores esperam que a ideia de que a mente sobrevive à morte corporal seja mais bem compreendida nos próximos anos e levada mais a sério.

— Duvido que haja uma descoberta ou um estudo que de repente convença a todos de que temos que mudar a forma como entendemos a realidade, mas acho que isso pode encorajar as pessoas a explorá-la — disse Tucker, referindo-se ao trabalho que tem sido feito no campo da pesquisa de vidas passadas no século passado.

Mas por que tudo isso importa?

A equipa do DOPS acredita que uma maior aceitação de que a vida é um ciclo contínuo poderia ter um efeito positivo na forma como vivemos.

— Isso certamente poderia influenciar a forma como as pessoas veem suas vidas — disse Tucker. — Acho que é uma visão mais esperançosa do que a ideia de que este é apenas um universo aleatório sem significado. É claro que as pessoas encontram isso em sua religião, mas, se pudessem ver que existe esse aspecto delas mesmas que continua, isso poderia ajudar com a dor e a ansiedade da morte e, você sabe, ajudaria as pessoas a se tratarem um pouco melhor. Haveria uma sensação mais forte de que estamos todos juntos nisso e que, novamente, esta não é uma existência sem sentido.

 

Tucker pensa menos no passado e mais no futuro iminente. Ele passou os últimos meses resolvendo pontas soltas antes de sua partida.

Uma coisa é certa: quem assumir a direção do DOPS se tornará o novo guardião do experimento de Stevenson. Afinal, existem mais de um milhão de combinações possíveis para a fechadura, e não há coincidência em adivinhar a correta. Muitos tentaram, alguns até tentaram recuperar o código do próprio Stevenson recorrendo à ajuda de médiuns espirituais, em vão.

Quanto a Tucker, ele planeja se mudar para a Carolina do Sul com a esposa para ficar mais perto dos netos.

— Estou pensando em virar a página e começar um novo capítulo — disse ele.

Uma nova vida, talvez?

— Exatamente. Embora não seja assim que usamos esse termo aqui — disse ele com um sorriso.

 

Prefeito nomeia noiva, pai e primo como secretários no Ceará

Por Gabriel de Sousa / O ESTADÃO DE SP

 

 

BRASÍLIA – O prefeito do município de Moraújo (CE), Ruan Lima (PSD), nomeou a noiva, o pai e o primo para secretarias estratégicas da cidade. Na cerimônia de posse, realizada no último dia 1º, o prefeito disse que escolheu “pessoas técnicas” para a gestão municipal. É a primeira vez que Lima, de 32 anos, comanda o município, que tem 8.254 habitantes. Procurada pelo Estadão para comentar a situação, a prefeitura não se posicionou.

 

Letícia Luna Osterno, noiva do chefe do Executivo municipal, é estudante de medicina e passou a comandar a Secretaria de Saúde da cidade. Alex Lima, pai do prefeito, é o chefe das Relações Institucionais. Marcos Aurélio, primo de Lima, assumiu o Desenvolvimento Agrário. A informação foi divulgada inicialmente pelo portal de notícias UOL e confirmada pelo Estadão. Procurados, prefeito e secretários também não retornaram os contatos.

 

A noiva de Ruan ainda não tem formação na área da saúde. Atualmente, ela está no internato – estágio obrigatório aos estudantes de medicina que estão nos últimos anos da graduação. Nas redes sociais, a noiva do prefeito disse que vai exercer o cargo com “maestria e dedicação”.

 

“Com tamanha honra que assumirei tal cargo, prometendo exercer com maestria e dedicação. Sabemos o quanto a saúde representa em uma gestão, assim trabalharemos em prol do nosso melhor para a população moraujense, visando uma saúde mais humanizada, tendo como base nossos princípios fundamentais do SUS: equidade, integralidade e universalidade. Uma equipe unida faz toda a diferença. Faremos história, com Deus sempre a nos guiar”, disse Letícia.

 

O número 2 da Saúde de Moraújo, Iramar Vieira, é bacharel em enfermagem e tem uma pós-graduação na área. Também atuou como plantonista hospitalar por dez anos e gerenciou uma Unidade Básica de Saúde (UBS) por outros 15 anos.

 

Em 2024, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) destinou R$ 5,8 milhões em recursos para o Fundo Municipal de Saúde de Moraújo. Os repasses foram detalhados como custeio de serviços de atenção primária e assistência farmacêutica.

 

Nas redes sociais, Ruan Lima apresentou o pai como um nome que “traz consigo uma vasta experiência no setor privado, além de sólidas relações políticas que, sem dúvida, elevarão Moraújo a um novo patamar”. Na cerimônia de posse, o prefeito chamou Alex Lima de “braço direito” e “pessoa de confiança”.

 

“Meu pai é o meu braço direito. É meu secretário de Relações Institucionais. É uma pessoa da minha confiança. Ele, junto comigo, vai fazer história dentro do município, apesar de ele não ser daqui, mas ele apoia o meu projeto”, disse o prefeito.

 

No início do mês passado, Alex Lima esteve para Brasília, onde se encontrou com o líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE). Outro parlamentar que recebeu a visita dele foi André Figueiredo (PDT-CE). O pedetista chamou o pai do prefeito de Moraújo de “grande liderança” da cidade.

 

Sobre o primo, Marcos Aurélio, Ruan Lima declarou na solenidade de posse que ele foi “pego de surpresa” com a indicação ao cargo de secretário da cidade. Segundo o prefeito, ele é uma “pessoa capacitada” e que fará um grande trabalho pela população local.

 

“Queria agradecer ao meu primo Marquinhos. Ele mesmo foi pego de surpresa pela Secretaria de Desenvolvimento Agrário, Recursos Hídricos, Proteção Ambiental e Meio Ambiente. É uma pessoa capacitada, e eu não tenho dúvidas que ele fará um grande trabalho”, disse o prefeito.

 

Nomeações do prefeito configuram nepotismo?

De acordo com a Súmula Vinculante nº 13 do Supremo Tribunal Federal (STF), publicada em 2008 pela Corte, a nomeação de cônjuges ou parentes até o terceiro grau viola a Constituição Federal de 1988.

 

“A nomeação de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, da autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica investido em cargo de direção, chefia ou assessoramento, para o exercício de cargo em comissão ou de confiança ou, ainda, de função gratificada na administração pública direta e indireta em qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, compreendido o ajuste mediante designações recíprocas, viola a Constituição Federal”, diz o entendimento do STF.

 

Porém, a Corte também decidiu que os cargos de natureza política estão fora da súmula. Mesmo assim, a Corte exige que o nomeado tenha qualificações técnicas para exercer a função atribuída pelo chefe do Executivo. “Não é porque pode nomear que vai sair chamando qualquer pessoa e levando apenas o parentesco em consideração”, disse Alberto Rollo, especialista em Direito Eleitoral ao Estadão.

 

O Supremo, porém, pode mudar este entendimento em breve. Desde junho do ano passado, está sendo julgada pela Corte uma ação que busca uniformizar as nomeações de parentes de autoridades em cargos políticos.

 

Nos anos posteriores à publicação da súmula, o STF adotou a prática de considerar válida a nomeação de parentes em cargos de natureza política. Por isso, a ação em andamento no Tribunal teve uma repercussão geral reconhecida e a futura decisão deverá ser adotada por toda a Justiça brasileira. Segundo Alberto Rollo, a Corte pode considerar que as funções de secretariado exigem um grau de confiança que abre brechas para a inclusão de familiares.

 

“Isso não significa que é moral, pode ser legal, mas não significa que é moral. Será que no município não tem outra pessoa com o mesmo grau de confiabilidade e competência do parente? Ter sido eleito não significa transformar a prefeitura em cabide de empregos para parentes”, afirmou.

 

Moraújo figura entre piores municípios em mortalidade infantil e PIB per capita

 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Moraújo figura entre os municípios com maior mortalidade infantil (índice que calcula o óbito de crianças até um ano por mil recém-nascidos) e pior PIB per capita (riqueza econômica da cidade dividida pelo número de habitantes).

 

No primeiro item, a cidade é a 31ª pior dos 184 municípios do Ceará. Segundo o levantamento do IBGE, feito em 2022, o índice de morte de crianças de até um ano entre mil recém-nascidos é de 17,54. Em comparação, o índice de Acaraú, a melhor no ranking do Estado, é de 2,06.

 

Já o PIB per capita foi calculado em R$ 8.555,95, em 2021, sendo a 19ª pior entre as cidades cearenses. Em comparação, o município melhor posicionado é São Gonçalo do Amarante, com R$ 175.103,17. O índice é 20 vezes maior que o de Moraújo.

Lula quer se apropriar do 8 de Janeiro

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Aconteceu exatamente como todos esperavam: o presidente Lula da Silva politizou de vez o 8 de Janeiro. A exemplo do que fez seu antecessor e antípoda, Jair Bolsonaro, que tentou transformar o 7 de Setembro em feriado comemorativo do bolsonarismo, o petista quer fazer da data de lembrança do ataque à sede dos Três Poderes um dia de louvação a si mesmo e ao PT, como esteios da democracia.

 

O constrangedor ato de anteontem no Palácio do Planalto em memória daquela data fatídica, seguido de um encontro com meia dúzia de gatos-pingados reunidos na Praça dos Três Poderes pelo PT e centrais sindicais ligadas ao partido, esteve muito mais próximo de um evento de campanha do que de uma solenidade institucional, impessoal e republicana conduzida pelo chefe de Estado e de governo para lembrar do mais sórdido ataque à ordem constitucional vigente no País há quase 40 anos.

 

A patacoada já tem lugar na história não pela cerimônia em si, mas por mais uma gafe de Lula – que, ao se declarar “amante da democracia”, enfatizou que “os amantes são mais apaixonados pela amante do que pelas mulheres”.

 

A ninguém é dado o direito de se surpreender, em se tratando de Lula, que transforma qualquer ocasião de Estado em palanque eleitoral. Afinal, para o chefe de um governo sem cara, vale dizer, sem um projeto de país coerente, responsável e exequível para apresentar ao País, malgrado já ter iniciado a metade final de seu mandato, parece não restar alternativa a não ser posar como o único líder político capaz de “salvar a democracia” de seus inimigos, notadamente os bolsonaristas, o que é uma rematada falácia.

 

Lula sabe muito bem que politizar o 8 de Janeiro significa manter viva a chama golpista que anima Jair Bolsonaro e seus apoiadores. Os bolsonaristas, que também dependem desse antagonismo, não perderam a oportunidade de usar a efeméride para, mais uma vez, pugnar pela anistia aos golpistas. Trata-se, portanto, de um jogo eleitoral do qual os únicos beneficiários são Lula e Bolsonaro, malgrado este estar inelegível até 2030.

 

A memória do 8 de Janeiro, é sempre bom lembrar, não pertence a Lula nem muito menos ao PT ou a qualquer outro partido. A insurgência de bolsonaristas contra o resultado da eleição presidencial de 2022 pertence à história do Brasil. E assim, de forma institucional e republicana, haverá de ser lembrada no futuro, insubmissa aos desígnios políticos dos mandatários de turno.

 

É inegável que Lula teria sido uma das principais vítimas caso a tentativa de golpe prosperasse. Segundo a Polícia Federal, alguns militares da ativa e da reserva são suspeitos até de preparar um plano para assassiná-lo a fim de impedir sua posse. Mas não se pode esquecer que, ao longo de toda a sua vida pública, Bolsonaro sempre esteve imbuído de um espírito golpista, o que significa dizer que, ainda que fosse outro o candidato oposicionista a lhe impor a derrota naquele pleito, o desfecho da irresignação violenta, muito provavelmente, teria sido o mesmo. Por maior que seja, o ódio de Bolsonaro a Lula é menor do que seu desprezo pela Constituição de 1988, o marco jurídico que tirou o País dos grilhões da ditadura militar que ele tanto louva.

A ausência dos chefes dos Poderes Legislativo e Judiciário, além de outras altas autoridades da República, é eloquente por si só a respeito da politização do ato convocado por Lula. Em contraste, recorde-se do evento que marcou o primeiro aniversário do 8 de Janeiro, realizado no Congresso, símbolo maior de nossa democracia representativa, que há um ano dera o tom correto à condenação daquele ataque desabrido e, principalmente, à defesa da democracia.

 

Mas Lula é irremediável. Nunca esteve em seu horizonte separar os assuntos de Estado e de governo, que dirá o melhor interesse público, de seus interesses particulares ou os de seu partido. Pode-se dar como favas contadas uma nova pajelança em torno do petista em 8 de janeiro de 2026, ano em que, ao que tudo indica, Lula disputará a reeleição, atraindo para si as atenções que deveriam estar voltadas a algo mais nobre do que seu futuro político: a reafirmação do compromisso institucional com a preservação do Estado Democrático de Direito no Brasil.

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