Após críticas a Bolsonaro, Lula eleva gastos no cartão corporativo e mantém sigilos de cem anos no patamar do antecessor
Por Patrick Camporez— Brasília / O GLOBO
Mesmo após uma série de críticas na campanha de 2022, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aumentou os gastos ocultos no cartão corporativo nos dois primeiros anos de mandato e manteve a imposição de sigilos de 100 anos a dados do governo no mesmo patamar da gestão de Jair Bolsonaro.
De um lado, a administração petista justifica que manter as despesas presidenciais confidenciais é questão de segurança, argumento idêntico ao usado pelo governo anterior. Do outro, afirma trabalhar em uma nova legislação para acabar com o segredo por tanto tempo.
Dados obtidos pelo GLOBO mostram que, de 1º de janeiro de 2023 até 20 de dezembro de 2024, foram 3.210 pedidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) negados sob a justificativa de se tratarem de dados pessoais — o que, na prática, representa impor o sigilo de 100 anos. Isso significa um aumento de 8,4% na comparação com o mesmo período da gestão Bolsonaro, quando a medida foi decretada 2.959 vezes.
Quando contabilizados o total de pedidos, porém, houve uma leve queda, proporcionalmente, em relação a Bolsonaro. No governo passado, as negativas que envolviam segredo de 100 anos corresponderam a 18,08% do total, contra 16,5% na gestão atual.
Visitantes de Janja
Integrantes do governo Lula atribuem os índices a interpretações equivocadas sobre a regra em alguns órgãos. Citam, como exemplo, que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) teve uma alta exponencial de negativas ao colocar sigilos de cem anos a solicitações relacionadas ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Foram, ao todo, 702 pedidos rejeitados, o que representou 21% do total dos casos da atual gestão.
A Controladoria-Geral da União (CGU) orientou as equipes do instituto sobre como tratar as informações, e a avaliação é que o número de solicitações negadas deve cair a partir do ano que vem. Procurado, o Inep alegou que houve um aumento no número de requisições dos boletins de desempenho do exame, que contêm “dados sensíveis e pessoais”. O órgão acrescentou que, desde setembro do ano passado, passou a disponibilizar as informações em seu site para cada participante. “Espera-se, portanto, que as ações reduzam a quantidade de pedidos de Acesso à Informação e, consequentemente, do número de negativas por dados pessoais”, pontuou o Inep.
Os dados do Enem, no entanto, não são os únicos a ganhar cem anos de sigilo no governo Lula. Entre os documentos colocados em segredo estão a lista dos visitantes da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja. O Planalto sustenta que, por não ter cargo público, ela não está sujeita aos critérios da LAI. Especialistas contestam a justificativa, uma vez que ela tem atribuições públicas.
A gestão petista também impôs sigilo à declaração de conflito de interesses do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e à lista dos militares do Batalhão de Guarda Presidencial que estavam trabalhando no dia do ataques golpistas na Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023.
Ao assumir o governo, em janeiro de 2023, Lula chegou a anunciar que não seguiria a prática de seu antecessor de impor sigilos de 100 anos a informações. Mas, após dois anos, o governo ainda trabalha numa proposta para pôr fim à prática.
A CGU afirma que está “em fase final de elaboração de um projeto de lei para acabar com o prazo máximo de 100 anos de restrição de acesso a informações pessoais”. A nota enviada pelo órgão prossegue: “As últimas propostas enviadas estão em análise, e a expectativa é que o PL seja enviado ao Congresso ainda no primeiro semestre de 2025”.
Pelo projeto de lei em discussão, ao receberem pedidos de informação, os servidores terão que verificar, obrigatoriamente, se há interesse público — além disso, em caso de negativa, será preciso justificar esse entendimento. A CGU acredita que hoje pedidos são negados por diferentes órgãos da administração federal com o argumento de que contêm informações pessoais, sem que o interesse público seja levado em conta.
‘Não se introjetou’
Na avaliação da diretora da Transparência Brasil, Marina Atoji, o atual governo melhorou algumas regras para diminuir o número de negativas que se enquadram nos cem anos de sigilo. Mesmo assim, diz a especialista, “é preocupante que ainda haja casos importantes de negativas indevidas de acesso com base nesse argumento”:
— Há de se reconhecer que há um esforço, no atual governo, de se diferenciar da gestão anterior. Mas, em muitos casos, a coisa não se introjetou como deveria. O anúncio foi muito mais barulhento do que o resultado efetivo. Mas não vemos mais um esforço tão ativo de negar a informação.
Outra crítica dos especialistas diz respeito aos gastos sigilosos do cartão corporativo. De janeiro de 2023 a outubro de 2024, a Presidência desembolsou R$ 38,3 milhões, montante 9% superior aos dois primeiros anos do governo passado — de R$ 35,04 milhões, já corrigidos pela inflação.
O levantamento obtido pelo GLOBO junto ao portal da CGU leva em conta apenas gastos sigilosos dos cartões usados para as despesas do presidente, seus familiares e auxiliares mais próximos. Não contabiliza, por exemplo, as faturas apresentadas pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que também utilizam o método de pagamento.
Uma das justificativas do governo atual para o aumento é a quantidade de viagens internacionais feitas por Lula. Apenas no primeiro ano de mandato, quando foram desembolsados R$ 23,5 milhões nesta modalidade, o petista ficou fora de Brasília por 63 dias para cumprir agendas no exterior. Nestas ocasiões, o cartão corporativo costuma ser usado para bancar despesas como hospedagem, deslocamentos e alimentação. Já em 2024, quando o presidente reduziu as viagens para fora do país, o gasto foi de R$ 14,7 milhões.
Para justificar o segredo sobre os gastos, o Palácio do Planalto cita o artigo da própria LAI que prevê questão de segurança como um dos motivos para negar acesso público à informações. “O § 2º do mesmo artigo prevê que informações que possam colocar em risco a segurança do presidente, vice-presidente, seus cônjuges e filhos (as) sejam classificadas como ‘reservadas’, mantendo-se em sigilo até o término do mandato ou, em caso de reeleição, do último mandato”, disse a Presidência, em nota.
Exceção, não regra
A crítica dos especialistas está menos focada no valor gasto e mais no volume de recursos ao qual é imposto segredo. O governo tem mantido a regra, adotada na gestão passada, de colocar em sigilo todos os gastos da Presidência, independentemente de representarem ou não risco à segurança de Lula. A ponderação é a que a prática deveria ser exceção, não regra.
Diretor de Advocacy da plataforma Fique Sabendo, Bruno Morassutti destaca que, apesar de uma conscientização maior no atual governo, ainda há gestores com uma “visão ultrapassada da transparência pública”.
— Por mais que o governo tenha um discurso em prol da transparência, é importante que tenhamos medidas concretas, não adianta só o discurso — frisa Morassutti.
NO BRASIL: A polarização como doença social
Demétrio Magnoli / FOLHA DE SP
Viradas de ano são intervalos dedicados a mensagens aspiracionais utópicas. Ninguém as leva a sério, inclusive seus autores. Previsivelmente, este 2025 começou com o chamado, dirigido aos políticos, pelo fim da polarização. A súplica não será atendida —mas, de qualquer forma, erra o alvo.
O discurso polarizador tornou-se estratégia política: um cálculo frio sobre ganhos eleitorais. Não é de agora. "Nós contra eles" forma uma gramática da política populista desde o século 19. O PT a exercita há décadas –e chegou ao poder nas suas asas. Bolsonaro e os seus a conduziram até um ápice, na tentativa de preparar a ruptura da ordem democrática. Nenhum dos campos rivais desistirá da ferramenta, ao menos enquanto ela produzir os resultados almejados.
O ponto relevante é outro: a contaminação das relações sociais pela polarização que percola da superfície partidária. Ilustração didática: os comentários de leitores à notícia sobre as ameaças de um policial contra a jornalista Natuza Nery num supermercado paulistano. Há, claro, uma maioria que, constatando o óbvio, solicita a punição do agressor. Contudo, refletindo uma doença social, sobram os praticantes de fuzilamentos simbólicos.
Na defesa do policial delinquente, emergem expressões como "ratos vermelhos" e "ratos corruptos", versão bolsonarista do "gusanos" castrista. Um valente chega a escrever que, diante de um jornalista da Globo, faria "o mesmo que esse policial". Em linha similar, mas simulando condenar a agressão, alguns opinam que, na condição de figura pública, a jornalista fica "sujeita a esse tipo de importunação".
O "outro lado", digamos assim, sai-se melhor –mas nem tanto. Dele, emana o mais clássico chavão, "nazifascismo", aplicado genericamente a rivais políticos de Lula. Hitler, nada menos. No auge do delírio, saudoso do "controle social da mídia", um pensador profundo declara que "a Folha de S.Paulo é culpada por isso" pois "alimenta a direita" e "sempre foi neonazista".
De acordo com um clichê, a sociedade brasileira nunca foi tão "politizada". De fato, é o contrário. A febre de proclamações políticas obtusas que escorrem pelas redes sociais e contaminam as conversas cotidianas, no bar ou à mesa de jantar, evidencia o fenômeno da despolitização social.
Hannah Arendt percebeu que um traço singular do totalitarismo encontra-se na colonização das instituições sociais e da vida privada pela política. "Tudo é político!" –o lema compartilhado por extremistas de direita e esquerda, pregadores religiosos e militantes identitários foi inventado pelos regimes consagrados ao extermínio radical da divergência política.
O sistema democrático caracteriza-se, em tempos normais, pela segregação da política aos processos eleitorais e às manifestações reivindicatórias. As pessoas esperam que o governo administre as coisas, fugindo à tentação de administrar as mentes. Votam, às vezes protestam nas ruas. Fora disso, querem que os políticos as deixem em paz, com seus amigos e afetos, seus hobbies e suas diversões.
Nosso problema não é a polarização do discurso dos políticos, mas a esmagadora polarização social. Ou, dito de outro modo, a despolitização radical do discurso político das pessoas comuns. Tempos anormais. Feliz 2025.
O fim melancólico da Sete Brasil
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Depois de oito anos e meio de um infrutífero processo de recuperação judicial, a Sete Brasil teve falência decretada pela Justiça. Em sua sentença, o juiz Luiz Alberto Carvalho Alves, da 3.ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, entendeu que a empresa “não apresenta mais condições para seu soerguimento” e mencionou ter sido constatada uma inadimplência praticamente integral da dívida calculada hoje em R$ 36 bilhões: 99,9614% dos créditos não foram pagos.
A Sete ainda pode recorrer da decisão em instância superior, mas o enorme prejuízo acumulado e a inoperância da empresa indicam que este seja, de fato, o fim melancólico de um projeto irreal e megalômano que coroou o igualmente megalomaníaco segundo mandato de Lula da Silva. Maravilhado com a descoberta do pré-sal, Lula fez da Petrobras o cerne de uma política nacional-desenvolvimentista que por pouco não colocou a própria petroleira no caminho da bancarrota.
Talvez a melhor síntese daquela época de devaneios – e corrupção – em série seja mesmo a Sete, criada do zero em 2010 a partir da obsessão do próprio Lula em transformar, num estalar de dedos, o Brasil numa potência industrial que ditaria os rumos da economia mundial. Do País sairiam navios portentosos e uma enxurrada de combustíveis refinados com tecnologia revolucionária, por meio de projetos bilionários embalados em um discurso ufanista que lembrava a campanha “O petróleo é nosso”, da era Vargas.
O governo conduziu fundos de pensão de estatais e bancos públicos e privados a se associarem à Petrobras, que seria minoritária na empresa para conferir-lhe um status privado. Para começar, de uma só tacada, 28 navios-sonda foram encomendados por um valor que correspondia, então, à metade de todo o orçamento da Petrobras. Depois de anos, a muito custo, apenas quatro foram entregues.
Durante as investigações da Operação Lava Jato – cujas decisões judiciais vêm sendo desmontadas pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal –, delações dos ex-funcionários da Petrobras João Carlos Ferraz e Pedro Barusco, que integravam a diretoria da Sete Brasil, indicaram que a mesma circulação de propinas que ocorria na Petrobras era replicada na nova empresa. O chamado “petrolão” foi um escândalo que tomou de arrasto a Petrobras e a levou ao patamar de empresa mais endividada do mundo, situação que exigiu uma rigorosa mudança nas regras de governança da empresa.
A corrupção, comprovada em depoimentos de tantos envolvidos no caso, foi um enorme prejuízo para empresa, mas a maior perda decorreu do modelo defendido por Lula da Silva, de tornar o Estado o indutor da economia – modelo este em que a Petrobras foi usada como braço do governo. Não cabe ao Estado brasileiro escolher as empresas “campeãs nacionais”, como fez o lulopetismo utilizando o BNDES; não cabe ao Estado impor a uma companhia de capital misto, como a Petrobras, projetos como o Comperj e a Refinaria Abreu e Lima, que juntos consumiram dezenas de bilhões de dólares e se mostraram um fiasco; não cabe ao Estado ditar a estratégia negocial de empresas privadas, como a Vale.
O quinto mandato do PT na Presidência da República tem sido menos voraz na relação com as empresas não por uma mudança conceitual, mas sim pelo trauma causado, principalmente, pelos horrores da década de 2010. Mesmo assim, o caráter intervencionista do lulopetismo se mostra presente em decisões como o incentivo à indústria naval, exigência de conteúdo local e a retomada de investimentos da Petrobras que já se mostraram deficitários, como os projetos em fertilizantes, uma ideia fixa de Lula, para os quais a companhia vai destinar US$ 900 milhões (em torno de R$ 5,4 bilhões), de acordo com seu plano estratégico recentemente divulgado.
Quando a Sete Brasil pediu recuperação judicial, em 2016, sua dívida era estimada em torno de R$ 19 bilhões. Hoje, é quase o dobro desse valor. A agonia da empresa, criada a partir de um arroubo irresponsável, é a prova de que não há mais lugar para delírios ufanistas que acabam sendo pagos por toda a sociedade.
A batalha do consignado
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS) vai se reunir agora em janeiro para tratar do teto de juros no crédito consignado para aposentados, atualmente em 1,66% ao mês, patamar baixo e cada vez mais defasado por conta da trajetória de alta da taxa Selic. O teto atual, no qual não se mexe desde junho de 2024, já é bastante limitado, o que na prática fez com que bancos privados, e também os públicos, tenham reduzido a oferta do produto em correspondentes bancários, por exemplo.
Em tese, toda vez que a Selic sofre alteração, o teto do consignado é ajustado. No entanto, apesar de o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central ter elevado por três vezes os juros de referência da economia brasileira no segundo semestre, em setembro, novembro e em dezembro, para os atuais 12,25%, o teto do consignado ficou congelado.
Os bancos, que já vinham sinalizando para o governo que o teto baixo compromete a oferta desse tipo de financiamento, alertam agora que, sem ajustes, a concessão de crédito consignado torna-se inviável mesmo em canais próprios de distribuição. Como o Copom já indicou que promoverá mais duas altas de 1 ponto porcentual cada em suas primeiras reuniões de política monetária no início de 2025, a questão do teto do consignado torna-se ainda mais relevante.
Criado em 2003, no primeiro mandato de Lula da Silva, o crédito consignado para aposentados converteu-se em um cabo de guerra entre governo e bancos nesta terceira passagem do petista pelo Planalto.
Para muitos aposentados, a contratação do consignado é o que torna possível fechar as contas do mês; para os bancos, esse tipo de empréstimo pessoal é vantajoso porque praticamente elimina o risco de inadimplência, uma vez que as parcelas do financiamento são descontadas diretamente da folha de pagamento do beneficiado.
A insistência do governo Lula, porém, em facilitar o acesso ao crédito – leia-se, pressão para que os bancos ignorem custos de operação e métricas de inadimplência e disponibilizem juros camaradas – vem gerando uma série de ruídos.
No ano passado, o CNPS, liderado pelo ministro da Previdência, Carlos Lupi, teve de voltar atrás após reduzir abruptamente o teto do consignado de 2,14% para 1,70%, o que fez com que os bancos, até mesmo a Caixa e o Banco do Brasil, interrompessem a oferta do produto. Após a reação, o governo fixou o teto, à época, em 1,97%.
No início de 2024, quando o Copom ainda promovia cortes na Selic, o CNPS seguia os passos da autoridade monetária e reduzia o teto do consignado. Agisse com coerência, e pensasse nos aposentados, o órgão ajustaria o teto para cima agora que a Selic voltou a subir.
Embora ninguém fique satisfeito pagando juros mais altos, sem a adequação das taxas, os bancos podem interromper de vez a disponibilidade do consignado, uma vez que não são obrigados a operar no prejuízo. Ao CNPS, cabe elevar o teto, impedindo que o consignado deixe de ser uma opção disponível para aposentados e pensionistas. Pior para os aposentados será se, na ausência do consignado, tiverem de recorrer a opções mais caras, como o crédito pessoal ou, pior, os agiotas.
O ‘Estadão’ e o jornalismo como causa
O ESTADÃO DE SP
A publicação de um jornal manifestamente republicano em 4 de janeiro de 1875 foi, antes de qualquer coisa, um ato de extrema coragem de seus fundadores, em particular de Américo de Campos, Francisco Rangel Pestana e, pouco depois, Júlio Mesquita. Escrutinar o poder da Coroa foi apenas o primeiro dos inúmeros desafios que o futuro reservava para aquele então modesto periódico.
Recorde-se que, quando este jornal circulou pela primeira vez, há exatamente 150 anos, o Brasil vivia sob o regime monárquico. Aqui não havia cidadãos, mas súditos. Logo, não havia igualdade de todos perante a lei, muito ao contrário: havia escravidão. São Paulo era uma província com cerca de 837 mil habitantes, de acordo com o Censo de 1872. Daí o seu primeiro nome, A Província de São Paulo.
A Província de São Paulo também ganhou as ruas naquela segunda-feira como uma profissão de fé, uma afirmação de valores que, quando materializados em ações – seja pelo poder público, seja pela iniciativa privada –, têm o condão de fazer do Brasil um país mais livre, justo e próspero para todos. Um século e meio depois, o distinto leitor encontra em cada um dos editoriais publicados por este jornal a defesa aguerrida dos mesmíssimos compromissos assumidos em sua edição inaugural. Não por recalcitrância, mas por firmeza na crença de que a defesa da liberdade, em suas múltiplas dimensões, é irrenunciável e imune ao transcurso do tempo.
A rigor, a fundação deste jornal foi o desdobramento natural de um movimento cívico que culminaria, 13 anos depois, na abolição da escravidão no País e, logo em seguida, na Proclamação da República. Foi a partir desse evento que São Paulo deixou de ser uma província e o jornal adotou o nome pelo qual é conhecido até hoje: O Estado de S. Paulo.
Além da coragem, a marca deste jornal hoje sesquicentenário é a independência. Para servir à causa da liberdade e do respeito às leis, o Estadão se estabeleceu como uma empresa jornalística financiada por seus próprios meios. Só assim estaria livre para exercer um jornalismo profissional e independente, de modo a estar “em posição de escapar às interposições do governo, às paixões partidárias e às seduções inerentes aos que aspiram ao poder”, como enunciado já no primeiro editorial.
Desde então, o Estadão tem se adaptado a cada um dos desafios de seu tempo ao longo desses 150 anos, mantendo-se na vanguarda do jornalismo, mas sem jamais abandonar seus princípios fundadores e compromissos editoriais. Aquele jornal logo passaria para as rotativas elétricas para se firmar como um jornal moderno e dinâmico não apenas para São Paulo, mas para o Brasil.
Do papel às plataformas digitais, do linotipo aos algoritmos, este jornal registrou e absorveu todas as transformações dos meios de comunicação para continuar a cumprir o seu dever de informar a sociedade com rigor técnico, ética e respeito à verdade factual. Assim era no início, assim é hoje e assim sempre será.
A chamada revolução tecnológica trouxe inúmeros desafios. O Estadão, ao invés de receá-los, abraçou as novas possibilidades e adaptou-se a cada uma das demandas da sociedade do século 21, criando versões digitais de suas publicações, aumentando os investimentos em jornalismo de dados e, não menos importante, incorporando a excelência de sua produção editorial às novas plataformas audiovisuais a fim de diversificar os meios pelos quais chega até os seus leitores.
Quando pisou na redação de A Província de São Paulo pela primeira vez, ainda como redator, em 1888, Júlio Mesquita encontrou um jornal que tinha exatos 904 assinantes. Em 1927, ano de sua morte, 48.638 pessoas pagavam para receber O Estado de S. Paulo todos os dias em casa, como registra Jorge Caldeira, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras, em sua portentosa obra Júlio Mesquita e Seu Tempo (2015).
Essa extraordinária transformação de um periódico provinciano no jornal que o Estadão é hoje é a prova maior de que firmeza de propósito, respeito aos fatos e compromisso com a democracia e com o desenvolvimento do Brasil não saem de moda e ainda compensam.
A polarização como doença social
Demétrio Magnoli / folha de sp
Viradas de ano são intervalos dedicados a mensagens aspiracionais utópicas. Ninguém as leva a sério, inclusive seus autores. Previsivelmente, este 2025 começou com o chamado, dirigido aos políticos, pelo fim da polarização. A súplica não será atendida —mas, de qualquer forma, erra o alvo.
O discurso polarizador tornou-se estratégia política: um cálculo frio sobre ganhos eleitorais. Não é de agora. "Nós contra eles" forma uma gramática da política populista desde o século 19. O PT a exercita há décadas –e chegou ao poder nas suas asas. Bolsonaro e os seus a conduziram até um ápice, na tentativa de preparar a ruptura da ordem democrática. Nenhum dos campos rivais desistirá da ferramenta, ao menos enquanto ela produzir os resultados almejados.
O ponto relevante é outro: a contaminação das relações sociais pela polarização que percola da superfície partidária. Ilustração didática: os comentários de leitores à notícia sobre as ameaças de um policial contra a jornalista Natuza Nery num supermercado paulistano. Há, claro, uma maioria que, constatando o óbvio, solicita a punição do agressor. Contudo, refletindo uma doença social, sobram os praticantes de fuzilamentos simbólicos.
Na defesa do policial delinquente, emergem expressões como "ratos vermelhos" e "ratos corruptos", versão bolsonarista do "gusanos" castrista. Um valente chega a escrever que, diante de um jornalista da Globo, faria "o mesmo que esse policial". Em linha similar, mas simulando condenar a agressão, alguns opinam que, na condição de figura pública, a jornalista fica "sujeita a esse tipo de importunação".
O "outro lado", digamos assim, sai-se melhor –mas nem tanto. Dele, emana o mais clássico chavão, "nazifascismo", aplicado genericamente a rivais políticos de Lula. Hitler, nada menos. No auge do delírio, saudoso do "controle social da mídia", um pensador profundo declara que "a Folha de S.Paulo é culpada por isso" pois "alimenta a direita" e "sempre foi neonazista".
De acordo com um clichê, a sociedade brasileira nunca foi tão "politizada". De fato, é o contrário. A febre de proclamações políticas obtusas que escorrem pelas redes sociais e contaminam as conversas cotidianas, no bar ou à mesa de jantar, evidencia o fenômeno da despolitização social.
Hanna Arendt percebeu que um traço singular do totalitarismo encontra-se na colonização das instituições sociais e da vida privada pela política. "Tudo é político!" –o lema compartilhado por extremistas de direita e esquerda, pregadores religiosos e militantes identitários foi inventado pelos regimes consagrados ao extermínio radical da divergência política.
O sistema democrático caracteriza-se, em tempos normais, pela segregação da política aos processos eleitorais e às manifestações reivindicatórias. As pessoas esperam que o governo administre as coisas, fugindo à tentação de administrar as mentes. Votam, às vezes protestam nas ruas. Fora disso, querem que os políticos as deixem em paz, com seus amigos e afetos, seus hobbies e suas diversões.
Nosso problema não é a polarização do discurso dos políticos, mas a esmagadora polarização social. Ou, dito de outro modo, a despolitização radical do discurso político das pessoas comuns. Tempos anormais. Feliz 2025.
Demétrio Magnoli
Sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP.

