Entenda como a Receita fiscaliza transações e o que muda após revogação de norma do Pix
Tamara Nassif / FOLHA DE SP
O governo federal revogou a norma que atualizava os serviços de monitoramento da Receita Federal sobre transações financeiras nesta quarta-feira (15). O recuo se deu após as redes sociais serem tomadas por uma onda de informações distorcidas e enganosas –entre elas, a de que o Pix seria taxado.
Com isso, voltam a valer as regras em vigor até o fim de 2024.
"Vamos revogar ato da Receita que mudou valores para monitoramento de movimentações financeiras. Pessoas inescrupulosas distorceram e manipularam o ato normativo da Receita Federal prejudicando milhões de pessoas, causando pânico principalmente na população mais humilde", afirmou Robinson Barreirinhas, secretário responsável pelo Fisco.
O Fisco monitora transações há mais de 20 anos. O reporte das instituições financeiras à Receita Federal foi instituído no ano de 2001, por meio de uma lei complementar que dispõe sobre o sigilo bancário. De lá para cá, foram feitas atualizações no serviço para melhorar o "gerenciamento de riscos pela administração tributária", segundo o órgão.
COMO ERA A NORMA QUE ATUALIZAVA O MONITORAMENTO DO FISCO?
Até ser suspensa, a atualização do Fisco ampliava o serviço de monitoramento sobre movimentações financeiras. Antes, o órgão administrativo era notificado por bancos tradicionais caso transações TED e de cartão de crédito somassem R$ 2.000 ao mês, para pessoas físicas, e R$ 6.000, para jurídicas.
Os valores tinham subido para R$ 5.000 e R$ 15 mil, respectivamente, e a norma incluía os novos membros do sistema financeiro no reporte –notadamente o Pix, entre os meios de transação, e fintechs e bancos digitais, entre as instituições.
Na prática, nada mudaria para o contribuinte. A norma iria inclusive diminuir o número de transações reportadas ao Fisco, já que as réguas dos valores haviam subido.
"A norma resultou de um acordo entre a Receita, bancos, que já reportavam desde 2015, e meios de pagamento, que foram incluídos na regra, e na verdade vai diminuir a quantidade de dados de baixa renda disponíveis para tornar o sistema mais racional", afirmou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, antes da revogação da medida.
POR QUE A NORMA MELHORARIA A FISCALIZAÇÃO SOBRE GRANDES SONEGADORES?
Ao subir a régua dos valores, a norma diminuiria a quantidade de dados reportados à Receita Federal e permitiria que movimentações suspeitas fossem identificadas mais facilmente.
"Quem precisa da atenção da Receita Federal é quem usa esses novos meios de pagamento para ocultar dinheiro ilícito, às vezes decorrente de atividade criminosa, de lavagem de dinheiro. O foco da Receita é para eles. Não é para você, trabalhador, pequeno empresário", disse o secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas.
Segundo ele, mesmo em casos de movimentação atípica, como de empréstimo de cartão de crédito a um familiar, não há risco de autuação pela Receita por se tratar de uma prática comum entre os brasileiros. "Não é porque em um determinado mês você gastou um pouco mais que isso vai gerar algum problema com a Receita Federal," ressalta.
As movimentações suspeitas seriam identificadas através de um cruzamento de dados. A partir das informações que o Fisco já tem sobre os contribuintes –como declarações de Imposto de Renda, dados bancários, registros em cartório, entre outras–, seria possível identificar inconsistências entre o que é declarado e o que é, de fato, movimentado.
Por exemplo: uma pessoa declara receber R$ 5.000 ao mês e começa a depositar R$ 100 mil em sua conta bancária regularmente. Ao cruzar dados do contribuinte, a Receita poderia intimá-lo para prestar explicações, já que a movimentação poderia ser indício de lavagem de dinheiro ou outra atividade ilícita.
POR QUE O GOVERNO REVOGOU A ATUALIZAÇÃO?
A norma foi revogada por causa da forte repercussão negativa nas redes sociais sobre a medida, tanto por conta de desinformação sobre uma falsa taxação do Pix quanto pelo discurso da oposição de que o governo federal seria uma gestão que gosta de impostos e de taxar.
O tema também foi debatido no mundo político, e a oposição ao governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganhou terreno no meio digital.
Nos últimos dias, viralizaram vídeos e publicações críticas ao governo quanto à medida do Pix.
O principal deles é o do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), em que ele afirma que o governo "só está pensando em arrecadar, sem te oferecer nada" e fala em "quebra de sigilo mascarado de transparência". O vídeo registra mais de 300 milhões de visualizações no Instagram.
"O estrago causado está feito por esses inescrupulosos, inclusive senador e deputado, agindo contra o Estado. Essas pessoas vão ter que responder pelo que fizeram, mas não queremos contaminar a tramitação da MP no Congresso", disse Haddad.
Dentro e fora do Palácio do Planalto, a avaliação é a de que o governo sofreu uma derrota para a oposição, após uma sucessão de erros. Entre os pontos criticados, está o fato de uma medida dessa magnitude ter recebido um tratamento burocrático da equipe econômica, sem a definição de uma estratégia de comunicação.
O QUE ESTÁ VALENDO AGORA?
Com a revogação, voltam a valer as regras anteriores. A monitoração será sobre transações que, no mês, somam mais de R$ 2.000 para pessoas físicas e de R$ 6.000 para jurídicas.
Só bancos tradicionais seguem obrigados a repassar os dados à Receita, mas fintechs e instituições digitais, como o Nubank, podem enviar as informações voluntariamente.
O reporte ao Fisco não faz distinção entre modalidade de pagamento. Ou seja, serão repassados quaisquer transações que se enquadrem na norma.
Governadores de MG, RJ e RS querem viver à custa do país
O Congresso Nacional aprovou no final de 2024 outro favor para os estados mais endividados do país. Minoritário no Parlamento, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve de engolir o que deve redundar em mais um perdão de dívidas com a União.
Os governadores dos três estados desde sempre campeões da irresponsabilidade fiscal —Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul— acharam pouco. Queixaram-se de vetos presidenciais sobre dispositivos que implicariam favores ainda maiores, de curto prazo, e aumentariam o déficit federal. Querem que os parlamentares derrubem os vetos.
Relembre-se a história: no final dos anos 1990, o governo federal assumiu os passivos de estados praticamente quebrados por endividamento excessivo e má gestão. Os maiores beneficiados foram São Paulo, que vem ajustando suas contas, Rio, Minas e Rio Grande do Sul.
O refinanciamento envolveu taxas de juros razoáveis e prazos de pagamento estendidos. Desde 2014, porém, tem havido novas revisões das condições de pagamento, regimes especiais para recalcitrantes e ajudas do Supremo Tribunal Federal.
O novo Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), imposto em conchavo com o Congresso, permite que a taxa de juros da dívida seja reduzida a até zero, caso os governos entreguem ativos (de estatais a recebíveis), invistam em educação e segurança pública e contribuam para um fundo de compensação para unidades federativas que cuidam de suas finanças.
Mas o trio campeão do endividamento queria que a União ainda bancasse alguns de seus débitos atuais e que pudesse pagar dívidas com sua parte do futuro Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional, criado pela reforma tributária, tópicos que foram objeto de vetos de Lula.
Rio (com dívida equivalente a 188% da receita corrente líquida em 2023), Rio Grande do Sul (185%) e Minas Gerais (168%) estão entre os estados que mais gastam com salários e Previdência.
O governador mineiro, Romeu Zema (Novo), criticou os vetos dizendo que o dinheiro dos pagamentos mineiros irá para mordomias federais —Zema, diga-se, reajustou o seu salário e os da cúpula estatal mineira. Tais itens não têm peso relevante nas contas fiscais, mas a demagogia hipócrita é evidente e vai muito além de populismo nas redes sociais.
Minas não paga suas dívidas, amparada por decisões judiciais duvidosas, não ajusta suas contas e, sob um governo que se diz liberal, não privatiza empresas. Com o Propag, pode tentar empurrar suas estatais para a União, em troca de abatimento de débitos e juros. Mas por que não vendeu antes esses ativos?
No fim das contas, o governo federal terá de fazer mais dívida a fim de compensar a perda de receita financeira. Seriam mais R$ 20 bilhões por ano, na estimativa oficial —uma conta para todos os contribuintes do país.
Ceará começará a receber mais R$ 1 bilhão em precatórios do Fundef a partir de 2025
A Educação cearense vai receber, ainda este ano, a primeira das três parcelas de um novo montante, de aproximadamente R$ 1 bilhão, referente aos precatórios do extinto Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), implantado em 1996 e que perdurou até 2006.
A cifra corresponde aos valores controversos da dívida em questão, os quais foram alvo de divergência entre as partes envolvidas. Indagada pelo Diário do Nordeste, a Procuradoria-Geral do Estado do Ceará (PGE-CE) disse que a inscrição do valor do pagamento já foi realizada e “assim que a União aprovar o Orçamento deve ser projetada uma data”.
“O que, por ora, está garantido é a inscrição do pagamento. A PGE-CE está no aguardo da aprovação do orçamento pela União, quando deve ter novidades sobre datas”, indicou o órgão estadual por meio de nota.
Mais uma parcela
Opresidente doSindicato dos Servidores Públicos lotados nas Secretarias de Educação e de Cultura do Estado do Ceará e nas Secretarias ou Departamentos de Educação e/ou Cultura dos Municípios do Ceará (APEOC), Anízio Melo, explicou que esse novo volume de recursos irá se somar à parte incontroversa, recebida até 2024.
Segundo o dirigente sindical, as verbas incontroversas, que, ao todo, contabilizando os juros, representaram cerca de R$ 3 bilhões para o Ceará, foram pagas em três parcelas. Elas foram garantidas após o Supremo Tribunal Federal (STF) reconhecer o direito do Estado em reconsiderar um dos parâmetros de cálculo do Fundef, o Valor Mínimo Nacional por Aluno (VMNA).
“Conseguimos que fossem garantidos em três pagamentos. A primeira parcela em 2022, a segunda em 2023 e a terceira em 2024. Essa (última) está sendo paga. Ela já foi paga para grande maioria dos professores, tendo algum resíduo agora em relação a familiares (herdeiros e herdeiras) e também em relação a quem já não tinha mais vínculo com o Estado”, detalhou.
A reportagem questionou a PGE-CE a fim de saber detalhes sobre as quantias residuais e acerca da quantidade de beneficiários impactados pelo repasse de precatórios do Fundef. Em resposta, a divisão da administração estadual recomendou o acionamento da Secretaria da Educação do Ceará (Seduc), por ser a pasta responsável por manter um banco de dados e ter o detalhamento.
Percentual já pago
Procurada, a Seduc informou que foram beneficiados com os precatórios do Fundef em torno de 50 mil profissionais que trabalharam entre agosto de 1988 e dezembro de 2006.
“Inicialmente foram pagos os valores aos profissionais que possuem vínculo com a rede estadual e permanecem ativos na folha de pagamento da Seduc e profissionais aposentados”, frisou a secretaria.
Conforme destrinchou a pasta, em seguida foram pagos os ex-servidores que realizaram cadastro em uma plataforma desenvolvida pelo Governo do Estado e aos herdeiros que protocolaram requerimento do pagamento por meio de alvará judicial.
Acordo ente Estado e União
O valor controverso foi definido em outubro de 2023, com a assinatura de um acordo entre a União e o Governo do Ceará. No total, foi acordado o pagamento de R$ 898 milhões — quantia que, com os juros, pelo que calcula a APEOC, se aproxima da casa de R$ 1 bilhão. Assim, semelhante ao que houve com as demais parcelas e cumprindo ao que ficou determinado por lei, 60% irão para os professores e os outros 40% para a gestão estadual.
A dimensão do aporte é questionada pelos professores, uma vez que, conforme disse a entidade que os representa, foi concedido um desconto expressivo na quantia devida e não houve participação da categoria ou da sociedade civil organizada na assinatura do acordo pelo Estado. “Essa negociação, questionada por nós, gerou nos valores um deságio, aqui, no Ceará, que entendemos ser de cerca de 50%”, destacou Anízio Melo, que alegou que a classe deve ingressar com ações para reverter a situação.
Questionada sobre como se deu o acordo e provocada a se manifestar sobre o assunto, a PGE-CE não teceu comentários. O espaço segue aberto para eventuais esclarecimentos que possam surgir.
Pelo que prevê a Emenda Constitucional n.º 114, promulgada em dezembro de 2021, que estabeleceu um novo regime para o pagamento de precatórios pela União, as parcelas dos valores controversos do Fundef para o Ceará serão direcionadas da seguinte maneira: 40% ainda em 2025, 30% em 2026 e 30% em 2027. A fim de antecipar o precatório, profissionais do magistério cearenses indicaram que estão peticionando o Executivo para poder haver o desembolso da primeira parcela ainda no primeiro semestre.

Com 230 mm em Pacujá, Ceará registra maior chuva em janeiro dos últimos 21 anos
Fortes chuvas banharam Fortaleza e todas as regiões do Ceará, entre terça (14) e quarta-feira (15). O maior registro é histórico: em Pacujá, na região do Sertão de Sobral, choveu 230 milímetros em 24h, a maior precipitação da história do município e a maior em janeiro dos últimos 21 anos em todo o Estado.
O recorde anterior foi de 250 mm, em Fortaleza. O registro foi anotado pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) no dia 29 de janeiro de 2004, conforme levantamento do Diário do Nordeste. Sobral, na Região Norte, também detém um marco: em janeiro de 2002, a cidade teve chuva máxima de 250 mm.
ERRAMOS (Atualização feita no dia 15 de janeiro às 12h29): Na primeira versão desta matéria, o Diário do Nordeste informou que a chuva de 230 milímetros registrada em Pacujá, no Ceará, foi a maior de janeiro em 50 anos. A informação correta é dos últimos 21 anos, e foi incluída no texto no momento desta atualização. A última precipitação nesse patamar foi registrada em 29 de janeiro de 2004, em Fortaleza, com 250 mm.
Vale lembrar que janeiro é o segundo mês da pré-estação de chuvas no Estado. A quadra chuvosa tem início oficialmente em fevereiro e segue até maio.
Já neste ano, até as 10h40 de hoje, choveu em 178 municípios do Ceará – todas as 10 maiores chuvas foram acima de 180 mm, acumulado considerado alto. Atrás de Pacujá, aparecem Forquilha, com 203 mm; e Acaraú, com 192 mm.
A grande quantidade de água em Pacujá, que tem cerca de 6 mil habitantes, causou transbordamento de canais que cruzam vias públicas, resultando em alagamentos, como mostram publicações de moradores nas redes sociais.
10 maiores chuvas no Ceará em 24h
- Pacujá: 230 mm
- Forquilha (Posto: Forquilha): 203 mm
- Acaraú (Posto: Acaraú): 192 mm
- Itarema: 189 mm
- Acaraú (Posto: Aranaú) : 185 mm
- Forquilha (Posto: Açude Arrebita) : 184 mm
- Senador Sá : 183.2 mm
- Graça: 182 mm
- Mucambo: 180 mm
- Tauá: 180 mm
As chuvas e rajadas de vento intensas já eram previstas tanto em avisos do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) quanto da Funceme, publicados pelo Diário do Nordeste.
De acordo com o órgão de meteorologia cearense, as fortes precipitações registradas de ontem para hoje são efeito da atuação conjunta de sistemas meteorológicos, como a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), o Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN) e a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT).
Previsão do tempo
As chuvas, aliás, devem continuar nos próximos dias, como aponta previsão da Funceme. Confira:
Quarta-feira, 15/01/2025
- Tarde: Céu variando de nublado a parcialmente nublado em todas as macrorregiões com chuva em todas as macrorregiões.
- Noite: Céu variando de nublado a parcialmente nublado em todas as macrorregiões com chuvas isoladas de intensidade fraca a moderada, ocasionalmente forte, e que podem estar acompanhadas de trovoadas isoladas e rajadas de vento no Cariri e no sudoeste do Sertão Central e Inhamuns no final da noite. Nas demais regiões, há previsão de chuvas isoladas.
Quinta-feira, 16/01/2025
- Madrugada: Céu variando de nublado a parcialmente nublado com chuva no sul do Sertão Central e Inhamuns e no Cariri. Nas demais regiões, há alta possibilidade de chuva isolada e passageira.
- Manhã: Céu variando nublado a parcialmente nublado com baixa possibilidade de chuva isolada na faixa litorânea, Jaguaribana e Cariri.
- Tarde: Céu variando de parcialmente nublado a nublado com chuva isolada no Litoral Norte, na Ibiapaba, Litoral do Pecém, Maciço de Baturité, norte do Sertão Central e Inhamuns e na Jaguaribana.
- Noite: Céu variando de parcialmente nublado a poucas nuvens com alta possibilidade de chuva na Ibiapaba, no sul do Sertão Central e Inhamuns e no Cariri.
Sexta-feira, 17/01/2025
- Madrugada: Céu variando de parcialmente nublado a poucas nuvens com alta possibilidade de chuva isolada no sul dos Sertão Central e Inhamuns e no Cariri. Nas demais regiões, há baixa possibilidade de chuva em todas as macrorregiões.
- Manhã: Céu variando de parcialmente nublado a poucas nuvens com baixa possibilidade de chuva em todas as macrorregiões.
- Tarde: Céu variando de parcialmente nublado a poucas nuvens com baixa possibilidade de chuva isolada na Ibiapaba, Sertão Central e Inhamuns e no Cariri.
- Noite: Céu variando de parcialmente nublado a poucas nuvens com baixa possibilidade no sul do Sertão Central e Inhamuns e no Cariri.
Negar gravidade da atual crise fiscal é inadmissível
Por Editorial / O GLOBO
Num grupo de 23 economias emergentes e desenvolvidas, o Brasil aparece com o segundo pior resultado nas contas públicas. No levantamento que considera receitas, gastos e também despesas com os juros da dívida, apenas Bolívia tem desempenho pior, segundo análise do banco BTG Pactual. Esse foi o quadro registrado nos dois últimos anos e deve se repetir em 2025.
A previsão para os próximos 12 meses é que os bolivianos continuarão em primeiro lugar no ranking dos piores, mas conseguirão reduzir o tamanho do déficit. Por aqui, o cenário é de elevação. Há metodologias diferentes para determinar o quadro fiscal de um país. A que determina a trajetória da dívida pública é justamente a que leva em conta o pagamento de juros. Quanto maior o rombo a cada ano, mais alto o endividamento. É essa a métrica acompanhada pelos investidores. Deveria ser também o principal ponto de atenção do governo federal e dos congressistas.
Tentativas de ilusionismo ou negação não mudaram nem nunca mudarão a realidade. O desempenho brasileiro é ruim sob qualquer ângulo. O resultado é pior que a média dos emergentes, dos desenvolvidos e da América Latina. A previsão do BTG Pactual para este ano é de um déficit de 8,6% do Produto Interno Bruto (PIB). No México, Colômbia, Peru e Chile, o percentual deverá ser inferior a 4%.
Confirmada a manutenção do rombo das contas públicas e da despesa com juros da dívida, o endividamento em relação ao PIB crescerá 14 pontos percentuais ao longo do atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para um país com uma dívida alta como o Brasil, o cenário é um tremendo problema. Por isso a insegurança no mercado financeiro e as altas repetidas do dólar. Insinuar que as esquinas da Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, estão cheias de especuladores trabalhando contra o país é terraplanismo econômico.
Na semana passada, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, antecipou que o governo deve ter fechado 2024 com um déficit de 0,1% do PIB. O cálculo do ministro usa metodologia que não inclui as despesas com os juros da dívida. Na análise do resultado fiscal, a Fazenda também retira fatores extraordinários. Eventos como os gastos com as enchentes do Rio Grande do Sul não são considerados. O esforço pode ser válido, mas o incrível é que, com todas essas ressalvas, o governo não conseguiu equilibrar as contas. O percentual antecipado por Haddad se encaixa nas regras fiscais somente porque há uma tolerância de déficit de até 0,25% do PIB.
A comemoração desse resultado dá a medida do baixo nível da discussão fiscal no Brasil. O endividamento, é bom não esquecer, segue subindo. A se confirmarem as últimas projeções da Instituição Fiscal Independente (IFI), criada para ampliar a transparência das contas públicas e ligada ao Senado Federal, a dívida chegará a 86% do PIB no ano que vem, 91% em 2027, mais de 100% em 2030 e 116% em 2034, o horizonte das estimativas.
Quanto mais elevada, maior o custo de rolagem. Neste ano os gastos com juros devem passar de R$ 1 trilhão. Diante de tantas evidências, negar a gravidade da crise fiscal é inadmissível. É hora de medidas à altura dos desafios. O ajuste deve ser amplo para ter efeito. Governo e Congresso devem sanar essa dívida com o país.
O poder da desinformação: 4 brasileiros contam por que passaram a evitar o uso do Pix
Por Caroline Nunes — Rio / O GLOBO
A entrada em vigor de uma norma para ampliar o monitoramento da movimentação de grandes quantias pela Receita Federal foi engolida por uma onda de notícias falsas nas redes sociais que deixaram na cabeça dos brasileiros dúvidas sobre um dos mais populares instrumentos financeiros do país atualmente: o Pix.
Entre as principais fake news difundidas está de que a medida significaria uma cobrança de imposto sobre as transações do sistema de transferências instantâneas do Banco Central (BC) ou que haveria violação do sigilo bancário para ampliar o alcance da malha fina do Imposto de Renda de pessoas de baixa renda ou informais.
A desinformação foi tão grande que nem mesmo o esforço do governo para esclarecer os cidadãos por meio da imprensa e afastar os boatos surgiu efeito. Ao contrário, houve uma queda brusca no uso do Pix, que vinha batendo recordes sucessivos. Na tarde de ontem, o Planalto jogou a toalha e resolveu suspender a norma da Receita Federal que deu origem ao imbróglio.
Além das fake news, golpistas aproveitaram o momento para tentar tirar dinheiro de quem usa o Pix. O governo federal já anunciou que pretende acionar a Justiça contra o que chamou de criminosos.
O número de transações do Pix registrou, nos primeiros dias de janeiro, a maior queda desde o seu lançamento em novembro de 2020. Levantamento do GLOBO na base nos dados do Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI) do BC, houve 1,25 bilhão de operações Pix entre 4 e 10 de janeiro (que concentram o maior volume por ser o período de pagamento de salários), 10,9% menos que o mesmo período de dezembro.
Veja a seguir o depoimento de quatro brasileiros que acreditaram nos boatos e não foram alcançados pelos esclarecimentos do governo. Eles mostram o poder da desinformação na era das redes sociais com decrescente moderação de conteúdo.
Novo banco, mas agora sem Pix
A aposentada Marília Valinho, de 70 anos, trocou de banco e resolveu que não iria habilitar a chave Pix. Antes de saber da revogação, ela disse que a norma da Receita poderia abalar o sucesso do meio de pagamento:
— Não vou entrar nessa de fazer Pix, não. Para mim, não ficou claro pelo sentido de ser algo invasivo. A gente tem que expor tanto a nossa vida, tem até valor estipulado para usar.
Nem para pagar o amendoim
O vendedor de amendoim Luciano Custódio, de 48 anos, percebeu nos últimos dias que a clientela estava evitando pagar com Pix e disse achar que as pessoas ficaram com receio de usar o sistema de pagamento.
— Todo mundo ficou com medo de fazer Pix. Os clientes estão preferindo pagar em dinheiro. Antes, chegava a fazer R$ 800 por dia só em transações via Pix, agora estou fazendo R$ 150 — reclamou.
Só na maquininha até segunda ordem
Na Bella Casa, a gerente Viviane dos Santos, de 41 anos, percebeu que os clientes tinham dúvida nos últimos dias se deveriam pagar com Pix. Na loja, até o modo de usar o sistema mudou: após o anúncio da norma da Receita, a ordem foi só aceitar pagamento via Pix pela maquininha de cartão:
— Paramos de aceitar o Pix por código e estamos usando só na maquininha até saber o que vai acontecer.
Apenas desta vez, mas é a última
A faxineira Maria Margarida da Silva, de 49 anos, fazia compras em uma loja da Saara, polo de comércio popular no Centro do Rio. E disse que aquela seria uma de suas últimas compras via Pix.
— A gente está sendo vigiado, especialmente nosso dinheiro. Eu vou ter que mudar a forma como pago as coisas. Não sei se vou depositar dinheiro nesse cartão para usar como Pix — contou.

