Recuo no Pix expõe fragilidades da atuação do governo
Por Editorial / O GLOBO
A decisão do governo federal de cancelar norma da Receita Federal sobre o aumento da transparência das transações via Pix é constatação do estrago feito. Em setembro, o Fisco publicou nova regra avisando que a partir de 1º de janeiro de 2025 as instituições financeiras conhecidas como fintechs, como os bancos digitais, e as operadoras de cartões de crédito passariam a notificar movimentações de pessoas físicas acima de R$ 5 mil por mês. A medida não tinha nada de anormal. Os bancos tradicionais há muito têm regra idêntica. É um instrumento para detectar grandes sonegadores.
Bem explicada e com uma estratégia de comunicação ampla, a decisão seria compreendida facilmente pela população. Não foi o que ocorreu. Com a divulgação relapsa do governo, o que se viu nas duas primeiras semanas do ano foi desinformação, confusão, medo e queda nas transações por Pix. O erro não se deu no mérito da questão, mas na execução.
Logo os propagadores de fake news exploraram o vácuo deixado pelo governo. Informações falsas transmitidas de forma dolosa encheram as redes sociais. Uma das principais dizia que haveria quebra de sigilo de todos os usuários de Pix. Uma mentira, porque a medida da Receita não previa a exposição de detalhes das operações financeiras do cidadão. Apenas os responsáveis por movimentações suspeitas seriam chamados para esclarecimentos. O mesmo já acontece com correntistas de bancos grandes.
Outra falsidade propagada nas redes sociais dizia que estava sendo cobrado imposto sobre as transações ou que o governo tinha o plano de começar a taxar. A boataria foi tamanha que a quantidade de operações com Pix teve uma queda de 11% entre 4 e 10 de janeiro na comparação com igual período do ano passado. Na sexta-feira da semana passada, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva gravou vídeo fazendo transferência para o Corinthians quitar a dívida da construção de seu estádio e negando intenção de começar a taxar o Pix. Outras tentativas oficiais de esclarecimento deram em nada. O estrago estava feito.
Tomada a decisão de recuar, o governo ainda precisa agir, de forma concomitante, em pelo menos três frentes. A primeira é montar uma estratégia para aprovar de uma vez por todas a regulamentação das redes sociais no Congresso. O caso do Pix é apenas mais um numa longa lista de episódios de desinformação propagados nas redes. Vídeos e posts com mentiras deslavadas viralizaram, sem nenhuma reação das plataformas.
A segunda resposta esperada do governo é uma autocrítica. Fake news sobre a criação de novos impostos só se espalharam porque havia um terreno fértil. Desde que assumiu, o governo Lula sustentou parte do aumento do gasto público com uma rara sanha arrecadatória. No país com uma das cargas tributárias mais altas do mundo, a notícia falsa de mais um imposto logo ganha credibilidade.
governo estava 'do lado da verdade' e desistir 'dá vitória' à oposição, diz ministro Renan Filho sobre Pix
Por Renata Agostini — Brasília / O GLOBO
O ministro dos Transportes, Renan Filho, avalia em entrevista ao GLOBO que o governo errou ao ceder às críticas e à pressão da oposição. Após a revogação da norma da Receita que ampliou o monitoramento sobre transações por Pix, o auxiliar de Luiz Inácio Lula da Silva avalia que era preciso partir para a luta política, já que o Executivo tinha o “argumento certo”. Segundo Renan Filho, se o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tivesse entrado numa campanha, seria possível superar a disseminação de “mentiras”.
O governo tomou a decisão correta ao revogar a norma sobre o Pix?
Acho que o governo deveria ter insistido, porque estava do lado da verdade. Recuar significa utilizar uma arma desproporcional para encerrar o debate. É como se não tivesse a necessidade de se comunicar bem. Na política, sempre se tem que perseverar na discussão e convencer as pessoas, sobretudo quando você está com o argumento certo. O vídeo que o Nikolas gravou é mentiroso. Tem que ser combatido por alguém do tamanho do ministro Fernando Haddad.
Uma campanha com Haddad teria efeito?
Se fizesse o combate, teria. Mas, para isso, seria necessário perseverar. As pessoas iam ver que era mentira. Houve a troca na Secom, está no começo. Não sei de onde veio a orientação. Mas sei que, na política, desistir dá essa vitória aí (para a oposição). Quando um cara do outro lado conta uma mentira grosseira, como Nikolas contou, tem que ser um cara que tenha “punch” para dizer: “Tá vendo esse rapaz aqui? É por isso que a política chegou nesse ponto, porque pessoas desse nível topam mentir para disseminar ódio”. E aí o Nikolas não aguenta. Ele corre.
O governo tinha que ter partido pra briga?
Com certeza. O problema é que mentira na rede precisa ser combatida com disponibilidade. Não é que o governo não tenha capacidade. O governo não atua. Enquanto Nikolas dedica dez horas por dia para gravar vídeo, quantas horas Haddad grava? Haddad tem muito mais credibilidade, mas tem que usar a ferramenta adequada, fazer um “react”, que é o que se usa para descredibilizar quem está mentindo. Tem que ser alguém que as pessoas conheçam, com autoridade moral para falar. O vídeo do Lula com a doação ao Corinthians bombou, só que não foi bala de prata. O governo precisa fazer esse combate diariamente, não só na crise. Lula tem muito mais realizações do que Bolsonaro.
Teremos uma segunda metade do governo com juros em alta, incerteza sobre inflação. É um cenário mais difícil.
Por isso, precisamos ancorar novamente as expectativas. Não se pode depositar toda a responsabilidade de conter a inflação na política monetária. Esse ano a meta do arcabouço é déficit zero. Tem que garantir que vai cumprir. Em alguns momentos, ruídos foram gerados em torno disso.
É o momento de abrir mais espaço para partidos aliados?
O presidente Lula é o maior líder de centro do Brasil. Defendo o exercício da Frente Ampla dentro do governo. Entendo que há espaço para que o governo faça uma reforma e ela amplie a sustentação no Congresso. Precisa resolver também o problema das emendas. Isso cria ruído. O movimento mais importante o ministro Haddad já fez ao colocar emenda dentro do arcabouço. Se tiver espaço político para reduzir, bom. Se não tiver, exija-se transparência. O que eu defendo é virar a página. Essa briga com o Congresso deixa o governo sempre em dificuldade.
Um dos argumentos para uma reforma é construir alianças em 2026. Mas partidos como o MDB não estão dispostos a decidir agora. Não seria inócuo?
Não. Ou, quando chegar lá na frente, o cara vai dizer “pô, tu nunca fez nada, vou ficar contra”. É como mandar flores a alguém. O MDB vai decidir qual caminho vai tomar por convenção. Não tem no mundo quem saiba. Mas isso impede o governo de prestigiar o partido? A política toda é feita de gestos. Se houver consonância, fica mais fácil. Se vier acompanhado de aprovação alta do presidente, mais fácil ainda. O MDB não tem identidade com o bolsonarismo raiz. No máximo, estará neutro ou terá candidato próprio. Votar no negacionismo, no golpe, é muito difícil. Por isso, defendo o exercício de conquistar esse MDB.
A conversa sobre a vice de Lula tem de estar nisso?
O presidente vai, no tempo apropriado, discutir isso também. Para a eleição passada, a indicação do vice-presidente Geraldo Alckmin foi uma construção muito boa, porque ampliou a candidatura. Foi uma aliança de adversários históricos demonstrando que, se for para defender a democracia, a gente precisa se unir. Foi um discurso importante para aquela eleição. Qual vai ser o discurso para essa?
Sob essa ótica, seria interessante então considerar o MDB para uma chapa?
O presidente vai fazer uma reflexão com relação a todos os partidos, inclusive o PT. Ele pode decidir por uma chapa “puro sangue” petista. Não tem decisão simples. O presidente tem que olhar o que o ajuda mais eleitoralmente e na sustentação congressual. Valorizar o bom companheiro é importante, mas às vezes a eleição precisa de outro que amplie mais. Lula é franco favorito. Jair Bolsonaro está inelegível e o campo dele está divididíssimo.
O senhor vai ser candidato ao governo de Alagoas?
É uma possibilidade. Vou discutir isso com o nosso grupo político de lá. A preferência hoje no MDB é essa. Isso se não acontecer nenhum fato novo.
Por exemplo, a vice de Lula?
A vice é a circunstância, não está dependendo tanto disso. Mas assim, se não acontecer nenhum fato novo, acho que o MDB local vai querer. É natural que cogitem o meu nome agora, mas também está um pouco longe. Ainda tenho muitas tarefas aqui. O presidente, de vez em quando, me diz para eu não ser candidato.
Por quê?
Não sei também. Fico com vergonha de perguntar. Ele fala que já fui governador, que é importante ter figuras experientes no Senado, na Esplanada. A política está mudando muito, tem um ambiente de mentira que precisa ter gente com densidade para combater.
Crises mostram que governo Lula está com a casca fina
Vera Magalhães / O GLOBO
Todas as recentes crises enfrentadas pelo governo mostram que Lula e seus ministros estão com a casca muito fina para enfrentar pancadas. E, se existe algo que a oposição costuma farejar no ar, é governo com receio de encarar as batalhas — que serão muitas, e cada vez mais complexas, daqui até a eleição.
Lula parece estar sentindo o estreitamento da avenida que imaginava que teria para trafegar por fatores que não anteviu e sobre os quais parece não ter sido alertado. E as cartas de que dispõe para responder a cobranças parecem ser de poder limitado ou já gastas, por terem sido usadas à exaustão.
A ideia de que o “Brasil voltou” e de que sua missão seria a de “reconstruir” o país depois de Jair Bolsonaro, presente nos slogans oficiais, até rendeu uma largada tranquila, em que o presidente soube unir a classe política em resposta ao 8 de Janeiro e voltou a circular nos fóruns internacionais com a autoridade de quem poderia fazer a diferença em temas como o urgente enfrentamento da crise climática.
Passados dois anos, os desafios são de outra natureza, e a oposição, embora esteja ainda em maus lençóis com o iminente julgamento de Bolsonaro e de aliados de alto calibre, encontrou rotas alternativas para fustigar Lula, e é nesses flancos que sua gestão precisa atuar de forma mais profissional e menos reativa, depois do leite já derramado.
A crise do Pix deveria virar um case em muitas frentes, mas, até aqui, o que se vê é o presidente e os ministros insistindo num discurso que nem de longe previne que haja outros desgastes semelhantes.
Nem Lula, nem Fernando Haddad, e nem a Advocacia-Geral da União — que parece ter enveredado sem volta por um caminho de ameaçar com processo todo aquele que criticar o governo em alguma medida — entenderam que a ideia de que o governo taxaria o Pix só colou porque havia um ambiente favorável a isso, que não se restringe à difusão de notícias falsas.
Se não se der conta da desconexão entre alguns de seus projetos e setores cada vez mais amplos da sociedade — que não se limitam aos bolsonaristas, como erroneamente parecem concluir os auxiliares do presidente —, o governo corre o risco de caminhar até 2026 de crise em crise.
A ideia estapafúrdia, defendida de forma orgulhosa pelo ministro Luiz Marinho, de insistir na cobrança de uma nova modalidade de imposto sindical tem tudo para ser um novo embate no qual o governo entrará para perder.
Caso não se articule e não construa um consenso mínimo, que dependerá da montagem da nova base aliada após a eleição das Mesas da Câmara e do Senado, o governo também pode dar adeus à sua reforma do Imposto de Renda, anunciada de forma atabalhoada no fim do ano passado como se fosse um contraponto à necessidade de medidas para tornar viável o ajuste fiscal.
Um governo que usa o termo fake news de forma bastante ampla, enquadrando como tal toda e qualquer crítica a suas políticas, pratica algo próximo à desinformação quando propala que a reforma passará no Congresso. Ninguém no comando das duas Casas acenou com qualquer compromisso nesse sentido, e também não se ouviu fora da ala à esquerda da base qualquer elogio à medida. A negociação, portanto, terá de ser feita a partir da estaca zero, essa é a verdade dos fatos.
Da mesma maneira, a Medida Provisória feita às pressas para substituir, em parte, o conteúdo da instrução normativa que aumentava a fiscalização sobre meios de pagamento corre o risco de cair na vala dos projetos que já chegam “bichados” ao Parlamento, dado o fuzuê que a antecedeu. Vai requerer, portanto, diálogo — o que, é sempre bom lembrar, é um exercício em que se fala, mas também se ouve o outro lado.
Por fim, chama a atenção uma dinâmica que, a se tornar permanente, tem tudo para ser nitroglicerina pura: se o novo comando da Comunicação for sistematicamente ficar em lado oposto à Fazenda, como aconteceu na discussão sobre o anúncio da reforma do IR e, agora, na polêmica do Pix, terá saído pior a emenda que o soneto na única área que Lula se dispôs até aqui a tentar consertar.
Lula já não governa. É governado
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O governo de Lula da Silva deu uma inacreditável demonstração de covardia ao revogar uma normativa da Receita Federal sobre o Pix, voltando atrás de uma decisão correta apenas porque foi criticada e distorcida nas redes sociais. Se acreditava que a medida em questão era boa, como de fato era, o governo deveria tê-la bancado. Ao ceder facilmente à pressão das redes, o presidente da República mostrou-se incapaz de defender até mesmo suas decisões mais comezinhas, como era o caso desta. Isto é, Lula deu claros sinais de que já não governa – ao contrário, é governado.
E note-se: o veteraníssimo Lula não está sendo governado apenas pelas raposas felpudas do Centrão, mas também por um rapaz de 28 anos, mal entrado na política. O rapaz em questão é o deputado oposicionista Nikolas Ferreira (PL-MG), que gravou um vídeo singelo no qual levantou dúvidas sobre as verdadeiras intenções do governo ao obrigar bancos digitais e operadoras de cartão de crédito a informar ao Fisco movimentações mensais por Pix superiores a R$ 5 mil por pessoas físicas e a R$ 15 mil por pessoas jurídicas – como, aliás, já fazem bancos públicos e privados e cooperativas de crédito – com o propósito de fechar brechas para a sonegação fiscal e a lavagem de dinheiro.
É ocioso discutir se a intenção do referido deputado era suscitar questões legítimas ou explorar politicamente o receio dos pequenos empreendedores de terem sua modesta renda mordida pelo Fisco. O fato é que o vídeo teve mais de 200 milhões de visualizações e o espírito de sua mensagem chegou com força ao mundo real. É muito provável que o parlamentar tenha gastado em seu vídeo apenas uma ínfima fração do dinheiro que o governo despendeu para contra-atacar a boataria, e, no entanto, foi infinitas vezes mais bem-sucedido. E isso aconteceu porque ninguém mais acredita no governo.
Já faz algum tempo que Lula parece ter se dado conta disso, a ponto de recentemente entregar sua Secretaria de Comunicação a um profissional de marketing eleitoral, mas talvez fosse o caso de contratar um ilusionista. Diante do desafio colossal de recuperar a confiança dos brasileiros em Lula, o ministro-marqueteiro já avisou que tocará adiante uma licitação de quase R$ 200 milhões para turbinar as redes sociais governistas. Debalde: será jogar dinheiro no lixo, porque, a julgar pelo episódio da normativa da Receita, os brasileiros já se convenceram de que o único propósito do governo Lula é arrancar o suado dinheiro dos contribuintes para aumentar a capacidade do Estado de lhes atrapalhar a vida. Fazer gracinhas nas redes sociais, a título de confrontar o que o governo chama de fake news, não vai resolver o problema de fundo do governo.
Se quisesse mesmo contestar o discurso da oposição, bastaria ao governo encaminhar medidas que sinalizassem uma genuína vontade de conter os gastos públicos, de modo a demonstrar aos cidadãos ressabiados que há compromisso de reduzir a pesadíssima carga tributária. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e a ministra do Planejamento, Simone Tebet, até tentaram fazer isso, mas foram atropelados pelos imperativos eleitoreiros do lulopetismo.
O governo, no entanto, prefere continuar a passar vergonha. Não só revogou a normativa da Receita de maneira atabalhoada, como editou uma medida provisória para garantir que o Pix não será taxado, algo que já está estabelecido na legislação sobre esse meio de pagamento. Ou seja, Lula assinou uma medida provisória – instrumento constitucional que tem força de lei enquanto vigora e, por isso, deve respeitar pressupostos de urgência e relevância – apenas para dar satisfação ao burburinho das redes sociais.
Assim, parece claro que Lula, outrora demiurgo, está a reboque dos acontecimentos e se limita a reagir a eles de maneira confusa e desorganizada. E isso tudo acontece porque, como está cada vez mais claro, Lula não tem projeto para o País. Venceu a eleição com o discurso de que era necessário impedir a vitória de Jair Bolsonaro e o avanço das forças antidemocráticas, mas, uma vez no poder, viu-se refém de uma conjuntura muito mais espinhosa do que a de seus mandatos anteriores e hoje parece perdido – e incapaz de impor a sua versão dos fatos.
Tratamento VIP para o PCC
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O Ministério Público (MP) e a Polícia Civil de São Paulo deflagraram uma operação contra uma ONG e advogados suspeitos de atuarem no sistema prisional a serviço de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo as investigações, realizadas ao longo de três anos, eles garantiriam facilidades e regalias a bandidos em um presídio de segurança máxima.
Uma espécie de “plano de saúde do crime” proporcionava serviços a presidiários da Penitenciária II de Presidente Venceslau, no oeste paulista. Muito além das necessidades médicas, eram oferecidos também tratamentos estéticos, como clareamento dental. Tudo isso se deu em unidade gerenciada pela Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) do Estado mais rico do País, cujo governo se orgulha da linha dura contra o crime.
Conhecidos como integrantes da “Sintonia dos Gravatas”, os advogados eram responsáveis por levar à prisão médicos e dentistas para atender os condenados. Mesmo quando estavam em unidade com o Regime Disciplinar Diferenciado, mais conhecido como RDD e bastante temido pelos integrantes da facção, em virtude de sua rigidez, bandidos receberam até botox. Foi o caso, por exemplo, de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, principal líder do PCC.
Além de apurar o oferecimento desse atendimento articulado pelos “gravatas”, os investigadores também desnudaram a atuação da ONG Pacto Social & Carcerário – Associação de Familiares e Amigos de Reclusos. A entidade, com sede em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, teria sido criada sob demanda dos presos ligados ao PCC para fabricar denúncias de violações de direitos humanos, atacar agentes públicos e tentar mobilizar a opinião pública contra o Estado.
O trabalho da ONG foi tão bem-sucedido que alguns de seus integrantes participaram de um documentário que discute o sistema carcerário e seu impacto nas famílias dos detentos. O filme, disponível na Netflix, se chama O Grito, título que inspirou o nome da operação policial (“Scream Fake” – grito falso, em português) que cumpriu 12 mandados de prisão, entre eles contra os advogados e os falsos ongueiros.
Segundo o relatório do MP e da Polícia Civil, o PCC “invadiu a sociedade civil organizada e vem, agora, se apropriando de discursos politizados para fazer valer os seus interesses próprios”. Infelizmente, tal constatação pode colocar em dúvida o trabalho de entidades sérias que buscam melhores condições nas prisões e defendem os direitos de parentes de presos que não raro sofrem constrangimentos.
Está-se diante de uma nova estrutura do PCC, batizada de “Setor das Reivindicações” e que lembra um sindicato, nesse caso sustentado, sobretudo, por dinheiro do tráfico de drogas. Todo esse esquema só reforça a urgência de maior controle dos presídios, de onde, até hoje, líderes do PCC emitem ordens aos subordinados nas ruas para que dominem territórios, espalhem o terror e expandam o tráfico para mercados estrangeiros. O que não se sabia, e agora se sabe, é que no cárcere de “segurança máxima” tinham até tratamento VIP.
Culpar as fake news pelos erros do governo Lula é fake news
Por Fabiano Lana / O ESTADÃO DE SP
Temos uma nova fake news na praça, e de teor oficial: sustentar que o governo federal é excelente, que oferece serviços satisfatórios à população, que nos colocou novamente na rota do desenvolvimento e da democracia, mas a população em sua esmagadora maioria só não tem consciência desses magníficos fatos porque está com a sua percepção turvada pelas fake news estimuladas pelas bigh techs, como a Meta de Mark Zuckerberg ou o “X” de Elon Musk, trumpistas, logo gente má.
Um corolário desse tipo de pensamento auto ilusório é colocar a culpa nos próprios problemas como se fosse algo de ajuste de “comunicação” para enfrentar essas big techs. Como se questões de sentimentos em relação à gestão, algo de uma complexidade e profundidade significativas, tivesse a ver sobretudo com propaganda. O resultado dessa soma de autoenganos tem sido querer criminalizar, censurar ou mesmo perseguir politicamente quem não possui essa visão rósea da administração Luiz Inácio Lula da Silva.
A questão da taxação do Pix e a resposta que se pretender dar a essa fragorosa derrota política do governo, por meio da punição severa a quem reagiu, mesmo que seja por meio de desconfianças e insinuações, se encaixa nessa visão autoritária e enganosa dos fatos.
O vídeo do deputado Nikolas Ferreira criticando a acesso da receita a movimentações via Pix acima de R$ 5 mil chegou a mais de 200 milhões de views não devido a fake news, crimes, ou teorias da conspiração como “auxílio deliberado da Meta para aumentar a visualização” (outra fake news). Mas porque a sociedade, majoritariamente, tem percebido que o governo está obcecado em aumentar a arrecadação buscando qualquer brecha disponível. O fato tornou um prato cheio para um parlamentar oportunista e com amplo domínio do modus operandi das redes.
Como o PT bem sabe, por ser mestre no assunto ao longo de sua trajetória até bem recentemente, fake news sempre foi parte do debate político. E que considerar versões divergentes sobre um acontecimento como fake news também faz parte da luta política. Muitas vezes, quando se quer coibir “fake news”, o que se pretende, na verdade, é restringir opiniões e informações que não corroborem a versão oficial das coisas. É o que estão buscando fazer quando clamam por regulação e controle.
De fato, é angustiante para um presidente que já foi quase unanimidade nacional, no ano de 2010, imaginar que hoje mal consegue agradar a metade do eleitorado. Talvez um pouco menos. E que boas notícias na economia como baixo índice de desemprego e um crescimento do PIB pouco acima de 3% não levem à consagração popular. Pior que hoje não é mais possível colocar a culpa nos tucanos, no ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ou mesmo na Rede Globo. É preciso encontrar outro inimigo.
Mas ao invés de jogar a responsabilidade em desafetos físicos ou jurídicos não seria melhor ter um diagnóstico mais preciso e sincero das circunstâncias? Imaginar, por exemplo, que uma parcela da sociedade, quando prospera, acredita que seja mérito próprio e não do governo de plantão, caso do segmento evangélico? Que certos posicionamentos, seja na área internacional, seja na questão de valores, não encontram mais aderência na população brasileira?
Admitir que se fale demais para convertidos e não com aqueles que ainda veem o governo com desconfiança? Que muitas vezes até os que apoiaram o presidente Lula no segundo turno de 2022, alegando querer evitar o mal maior, são gratuitamente agredidos. Que mesmo o estilo deslumbrado da primeira-dama e seu alto custo na estrutura de governo pode ser uma âncora na aprovação. Que a leniência com a inflação pode ser um fator de corrosão de popularidade? Será que as falas do presidente Lula, em geral longas e autocongratulatórias, não têm mais o poder de encantar como era antigamente, num mundo dos cortes rápidos das redes sociais? É preciso investigar tudo isso.
Lembrar, por exemplo, que Lula venceu apenas nas faixas de renda de até dois salários mínimos. O que levaria a conclusão, lógica, de que quanto maior o acesso à internet maior a rejeição ao governo – e talvez por isso o banho que o petismo leve nas redes e qualquer tentativa de coibir o debate seria contraprodutiva. O que se vê nas redes é consequência de um estado de espírito de quem por lá frequenta, não exatamente uma manipulação perversa de um algoritmo.
Enfim, sem preconceitos e ideias preconcebidas, entender as razões do mal humor da população para tentar buscar a solução correta. Admitir que o governo é medíocre, no sentido do termo de “estar apenas na média”, sem entregas ou realizações vistosas, e aproveitar que neste momento, devido às divisões no campo político adversário, o presidente Lula, mesmo com números insatisfatórios de aprovação, segue como favorito para as eleições de 2026 – o que pode mudar caso os erros de diagnóstico continuem.
Por último, mas não menos relevante: na crise do Pix o deputado bolsonarista Nikolas, evangélico, de 28 anos, passou a ter mais seguidores nas redes do que o presidente Lula, com décadas de trajetória política. Melhor do que tentar cassar ou prender o rapaz, talvez o melhor é se aprofundar nas suas técnicas e meios e buscar algum aprendizado nisso – para neutralizar movimentos como o dele na política, na comunicação correta, e não na polícia.


