Trump retorna hoje à presidência dos EUA mais forte, com apoio das big techs e controle do Congresso
Por Luiz Raatz / O ESTADÃO DE SP
Donald Trump começa nesta segunda-feira, 20, ao meio-dia (14h no horário de Brasília) seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, quatro anos depois de deixar a Casa Branca pela porta dos fundos, quando não participou da cerimônia de posse de Joe Biden, sob acusações de ter apoiado o ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021.
Após a vitória de novembro contra a democrata Kamala Harris, tanto no colégio eleitoral quanto no voto popular, Trump retorna ao poder fortalecido, com o comando das duas casas do Congresso, uma maioria conservadora na Suprema Corte e uma agenda na qual propõe tolerância zero com a imigração ilegal, guerra comercial com outros países e o combate ao que chama do “politicamente correto” em nome da liberdade de expressão.
A ressurreição política do magnata republicano vem acompanhada de duas tendências. A primeira, e mais esperada, é que seu entorno está mais leal e menos propenso a tentar moderar os impulsos de seu ego. A segunda, esta uma novidade em relação ao primeiro mandato, é que a agenda política do presidente está sendo replicada pela América corporativa.
Ainda que as maiorias legislativas sejam pequenas — no Senado, os republicanos terão apenas dois senadores a mais que os democratas e na Câmara, quatro deputados — a força de Trump em seu retorno, segundo analistas, é inegável.
“Ele não tinha nem de longe a mesma legitimidade que tem agora. Esta eleição foi muito mais clara. Ele saiu mais forte e tem pessoas muito mais experientes ao seu redor. Isso significa que as expectativas são maiores”, disse Berverly Gage, historiadora da Universidade de Yale ao Washington Post. “ A questão é se estamos diante de um governo de alta ambição ideológica e política ou de uma gestão marcada por queixas mesquinhas e testes de lealdade.”
Uma coalizão com os ultra-ricos
Com amplo domínio sobre o Partido Republicano, Trump forjou para o segundo mandato uma coalizão com as principais empresas do Vale do Silício. Historicamente ligadas aos democratas, companhias como Meta, Google, Open AI e outras cortejam o republicano, que durante a campanha sedimentou uma aliança com outro magnata: Elon Musk, o dono da Tesla e do X, o antigo Twitter, e com uma fortuna estimada em US$ 434 bilhões.
De certa maneira, o Vale do Silício, em particular, e a América corporativa em geral, vêm tentando replicar a transformação política de Musk, que foi de apoiador e fã de Barack Obama, em 2008, a maior financiador da campanha de Trump. Musk se tornou o líder de uma guerra aberta dos republicanos contra práticas de inclusão a favor de minorias étnicas e sexuais nos EUA — chamadas pejorativamente pelos conservadores americanos de ‘woke’ e cuja tradução mais próxima em português seria ‘lacrador’.
“As novas diretrizes da Meta e o simples alinhamento do Elon Musk ao Trump já mostram que essas plataformas oferecerão um espaço maior para narrativas que favorecem o presidente”, diz Lucas de Souza Martins, historiador da Temple University nos Estados Unidos.
‘Uma energia mais masculina’
Até aqui, o maior impacto dessa aliança entre o Vale do Silício e a Nova Casa Branca foi a decisão do dono da Meta, Mark Zuckerberg, de encerrar o programa de checagem de notícias do Facebook e no Instagram. “As últimas eleições foram um ponto de mudança na direção de priorizar a liberdade de expressão”, resumiu Zuckerberg em um comunicado em vídeo publicado este mês. “Então vamos voltar às nossas raízes e nos concentrar em reduzir erros, simplificar nossas políticas e restaurar a liberdade de expressão em nossas plataformas.”
O fim do programa de checagem por agências jornalísticas não foi a única medida da Meta que indicou uma aproximação com Trump. A empresa também adotou um modelo similar ao do X, de Elon Musk, de notas da comunidade, para moderar seu conteúdo. Zuckerberg também já tinha doado em dezembro US$ 1 milhão para a cerimônia de posse do republicano.
Recentemente, ele também convidou o dono do UFC Dana White, outro aliado do presidente eleito, para assumir uma posição na diretoria da empresa, trocou o cargo do chefe de diversidade da Meta e acabou com os programas de Diversidade, Igualdade e Inclusão (DEI, na sigla em inglês), que priorizavam contratações e benefícios para minorias.
O ato final da “trumpização” de Zuckerberg foi sua entrevista ao podcast do apresentador Joe Rogan, outro nome próximo de Trump durante a campanha, no qual ele criticou a ascensão de empresas “culturalmente castradas”.
Com os cabelos mais longos, uma camiseta preta folgada e uma corrente dourada no pescoço, Zuckerberg disse que empresas nos EUA precisam de uma energia mais masculina. “Um pouco de energia mais masculina é bom, sabe. As empresas tentaram se afastar disso, mas acho que termos uma cultura que celebra a agressão um pouco mais tem seus méritos”, disse.
Doações em série
Zuckerberg não é o único líder do Vale do Silício a se aproximar da agenda trumpista. Ainda na campanha, o fundador da Amazon, Jeff Bezos, impediu o Washington Post, do qual é dono, de endossar a democrata Kamala Harris na eleição. Ele também doou US$ 1 milhão para posse, e assim como Zuckerberg e outros, esteve em Mar-a-lago para um jantar com Trump. A Amazon também fechou um acordo de US$ 40 milhões para produzir um documentário sobre a primeira-dama Melania Trump.
Tim Cook, da Apple, Sundar Pichai, do Google, e Sam Altman, da Open AI, também jantaram recentemente com Trump em Mar-a-Lago. Junto com Musk, Zuckerberg e Bezos, eles devem também prestigiá-lo na posse, além de ter doado dinheiro para a festa. Além dessas cinco empresas, entre os nomes do Vale do Silício que deram dinheiro para a cerimônia, estão ainda Microsoft e Uber, todos com doações de US$ 1 milhão.
No sábado, a maioria dos pesos pesados da tecnologia e a cúpula do trumpismo esteve reunida em uma festa dada em Washington em homenagem ao presidente eleito, promovida por Peter Thiel, fundador do PayPal e apoiador de Trump desde 2016.
Thiel é conhecido tanto pelas festas de arromba que costuma dar quanto pelo seu conservadorismo. Ele doou US$ 15 milhões para a campanha do vice-presidente eleito J.D. Vance ao Senado em 2022, e apoiou outros nomes republicanos hoje lealmente aliados a Trump, como o presidente da Câmara, Mike Johnson.
Financiador do Facebook, o empresário tem uma visão cética a respeito do aquecimento global e é visto como uma espécie de “Rasputin” do Vale do Silício. Assim como Musk, tem raízes na África do Sul do apartheid e costuma dizer que empresas podem gerir países melhor que governos porque seu sistema de decisão depende de uma pessoa só e não da maioria.
Além da influência política, por trás dessa aliança, dizem analistas, estão os interesses das big techs na regulação da inteligência artificial. " A aliança política entre Trump e as big techs tem a ver com desregulamentação e com não submeter as possibilidades da IA à institucionalidade americana”, explica Leonardo Trevisan, professor de relações internacionais da ESPM, que faz um paralelo com outro momento da história americana.
“Se a gente voltar mais de 100 anos para trás, quando avanço das ferrovias formou os barões do século 19, houve uma regulação estatal que limitou o espírito voraz dos empresários da época. Desta vez, o Vale do Silício conseguiu essa promessa inédita, que é promissora para o empresário e preocupante para a realidade institucional americana”, acrescenta.
Um adeus à diversidade e sustentabilidade?
Outras empresas de fora do Vale do Silício também tem abandonado programas de diversidade. A tendência começou depois de a Suprema Corte americana, de maioria conservadora, derrubar a lei que permitia ação afirmativa nas universidades, ainda em 2023. Empresas não são obrigadas por lei a contratar por regime de cotas, mas, com a decisão, algumas se sentiram sem uma certa pressão política de implementá-las.
Foi o caso, segundo o jornal Financial Times, da Ford e da Harley Davidson. Com a eleição de Trump, essa pressão se tornou praticamente nula e o movimento cresceu. McDonald’s e Walmart, gigantes do setor de varejo e alimento, seguiram a mesma linha.
Em Wall Street, ainda de acordo com o Financial Times, esse movimento ocorreu na área de mudança climática. Com a vitória de Trump, um cético do impacto do aquecimento global no planeta, muitas empresas abandonaram os programas de sustentabilidade.
Amigos até quando?
Em seu pronunciamento de despedida do cargo, o presidente Joe Biden alertou para a ascensão de uma oligarquia de ultra-ricos nos Estados Unidos. “Hoje, uma oligarquia está tomando forma na América de extrema riqueza, poder e influência que literalmente ameaça toda a nossa democracia, nossos direitos e liberdades básicos, e uma chance justa para todos progredirem”, disse Biden. “Temos de prestar atenção numa perigosa concentração de poder nas mãos de algumas pessoas ultra-ricas. Consequências perigosas se seu abuso de poder não for controlado.”
Os temores de Biden, no entanto, ainda na avaliação de analistas podem não se confirmar em virtude de disputas internas do próprio movimento trumpista. “Uma questão importante é como a visão das big techs vai se combinar com o movimento populista liderado pelo Trump. A gente viu isso aqui recentemente nos EUA na questão do visto de trabalho para estrangeiros, que foi defendida pelo Musk, com o Steve Bannon a criticando”, explica o cientista político Carlos Gustavo Poggio, professor do Berea College nos Estados Unidos.
“Vai haver uma tensão doméstica que vai ser interessante observar. Vamos ver se o Trump e o Musk continuarão amigos em dezembro de 2026.”
Erros do governo na comunicação do Pix são apenas sintomas de uma doença grave
Encaminhado com Frequência / FOLHA DE SP
Editada por Felipe Bailez e Luis Fakhouri, fundadores da Palver, coluna traz perspectivas sobre os dados extraídos de redes sociais fechadas
A discussão em torno do Pix escancarou as dificuldades de comunicação do governo federal, ao mesmo tempo em que fortaleceu a oposição nas redes sociais. O vídeo que mais viralizou sobre o tema é do deputado Nikolas Ferreira (PL) com mais de 320 milhões de visualizações em apenas cinco dias.
Para efeito de comparação, os vídeos de Barack Obama, um dos políticos com maior número de seguidores no Instagram, dificilmente chegam aos 10 milhões de visualizações. Nem Kim Kardashian, Trump, Messi, Neymar, Lula e nem Bolsonaro tiveram vídeos com o mesmo alcance. Cristiano Ronaldo é a única exceção. Sua conta no Instagram possui mais de 647 milhões de seguidores, e, ainda assim, superou a marca de Nikolas apenas uma vez.
A postagem de Nikolas encontrou enorme ressonância com o sentimento de uma grande parcela das pessoas, e as principais vulnerabilidades do governo exploradas pelo deputado são a dificuldade de comunicação e a credibilidade junto à população.
Desde o início, o governo enfrenta o desafio de comunicar seus feitos de forma simples e nos formatos adequados para o ambiente digital. Soma-se a isso o fato de que há muitas pessoas tentando se promover nas redes sociais criticando o governo e suas ações, o que dificulta ainda mais a divulgação dos pontos positivos.
Na última terça-feira (14), o presidente Lula oficializou a troca no comando da Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Sidônio Palmeira assume a pasta com o desafio de criar uma estratégia de comunicação atualizada e que leve em conta as nuances das redes sociais. É necessário construir uma linguagem que seja capaz de engajar e conectar com as pessoas.
Em suas redes sociais, Lula gravou um vídeo com a jaqueta do Corinthians para anunciar que não haverá taxação no Pix. O formato já é destoante dos demais em sua conta, mas ainda está longe da capacidade da direita de se comunicar nas redes sociais.
Nos mais de 90 mil grupos públicos de WhatsApp analisados pela Palver, o vídeo de Lula circulou timidamente. No entanto, outra figura da esquerda conseguiu acertar o tom na comunicação e foi amplamente reproduzida nos grupos. A postagem da deputada federal Erika Hilton (PSOL) foi compartilhada em grupos de esquerda e direita no WhatsApp. No Instagram, o vídeo obteve mais de 40 milhões de visualizações, frente aos 17 milhões do vídeo de Lula.
A falta de credibilidade do governo também foi explorada no vídeo de Nikolas. A confiança da população serve como um escudo contra as fake news. Se há confiança, quando uma informação duvidosa passa a circular, as pessoas dão o benefício da dúvida e aguardam atualizações. Quando não há confiança, é como se qualquer informação fosse consumida sem filtro, despertando as emoções instantaneamente.
No monitoramento da Palver, há vídeos circulando em grupos de direita desde outubro e cujo conteúdo visa minar a credibilidade do governo fazendo associações com a China e outras ditaduras. Nesses vídeos, fala-se na fiscalização das transações digitais como uma forma de controle dos governos ditatoriais sobre sua população.
Quando o tema do Pix ganha destaque no debate público, as informações são deturpadas pelos ruídos causados por esses vídeos que já circulavam. Quando o assunto é trazido, ao invés da pessoa processar como uma nova informação, que pode ou não ser verdadeira, cria-se ressonância com uma memória ruim, que traz sentimento de ameaça e medo.
Enquanto no curto prazo é importante para o governo conseguir acertar o formato e linguagem das redes sociais, no longo prazo o que importa é a construção e fortalecimento da credibilidade. Portanto, o ministro Sidônio tem o desafio de encontrar porta-vozes que acumulam credibilidade junto à opinião pública ao mesmo tempo em que estrutura uma máquina de comunicação digital.
O resultado nessa empreitada pode indicar como será a performance do governo nas eleições do próximo ano.
Principal promessa de Lula foi cumprida, mas não basta
Na extensa lista de promessas de campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escrutinada em reportagem da Folha, chama a atenção que a principal delas seria mera platitude em outros tempos.
"Manter normalidade e respeito institucional - diálogo respeitoso com os Poderes", como consta do plano de governo, é o mínimo que se espera de qualquer autoridade pública em regime democrático —mas não foi o que se viu nos quatro anos de Jair Bolsonaro (PL) no Planalto.
Para afastar os riscos de ruptura autoritária, líderes e eleitores de outras preferências escolheram Lula em 2022, viabilizando sua vitória por margem minúscula. Esse foi, portanto, o compromisso fundamental da atual administração. De menos normal, todavia, há hoje o ímpeto censório de Executivo e Judiciário contra as redes sociais.
Já nas demais 102 promessas elencadas era possível antever equívocos e fragilidades agora evidentes na metade do mandato. Em vez de responder a uma nova conjuntura política e econômica, a plataforma lulista priorizou reafirmar feitos, reais ou imaginários, e negar erros dos governos petistas do passado.
Na economia, calcanhar de Aquiles do partido desde o desastre sob Dilma Rousseff, destacavam-se intenções de retrocesso. Falava-se em rever as reformas previdenciária e trabalhista, duas das conquistas mais difíceis e importantes dos últimos anos, e a privatização da Eletrobras.
Felizmente, nada disso foi nem será cumprido, seja por falta de condições políticas, seja porque o próprio governo tem noção do desatino das bravatas vendidas à militância. Muito melhor foi ter apoiado a reforma tributária.
Lula cometeu seu erro capital, porém, ao "revogar teto de gastos e remodelar o regime fiscal brasileiro". Para substituir uma regra demonizada por ter o objetivo de sanar a ruína de Dilma, inventou-se um tal "arcabouço fiscal" que já se mostrou ineficaz para conter a dívida pública.
A disparada do gasto contribuiu para dois anos de crescimento econômico acima das expectativas, mas, a esta altura, a alta do dólar, da inflação e dos juros ameaça a segunda metade do governo —e tende a ofuscar as parcas realizações em outras áreas, como a redução do desmatamento e o programa de bolsas contra a evasão no ensino médio.
A plataforma voltada ao umbigo petista se reflete na formação do ministério, no qual praticamente todas as áreas importantes estão entregues ao partido e a seus aliados de esquerda. A fragilidade da coalizão partidária ajuda a explicar o descumprimento da promessa de dar fim à farra das emendas parlamentares, ainda necessária para a árdua negociação de projetos no Congresso.
Se Lula também pretende abandonar o compromisso de não disputar a reeleição, como parece, o tempo e as condições para apresentar em 2026 mais trunfos do que a normalidade democrática se estreitaram.
Lula manda caçar bruxas
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O presidente Lula da Silva está atordoado após o vexame que foi sua reação amadora ao já famoso vídeo no qual o deputado oposicionista Nikolas Ferreira (PL-MG) levanta suspeitas de que uma instrução normativa da Receita que previa o monitoramento de operações via Pix seria o primeiro passo para cobrar mais impostos. Incapaz de fazer vingar sua versão dos fatos, Lula mandou criminalizar o discurso da oposição, numa clara demonstração de que seu compromisso de defender a democracia – com o qual se elegeu presidente na disputa contra Jair Bolsonaro – nunca foi realmente sério.
Já era previsível a mobilização de partidos e entidades esquerdistas para acionar a Justiça contra os opositores que estão fazendo o governo de gato e sapato nas redes sociais, mas, na prática, o efeito disso é limitado e provavelmente ficará apenas no terreno do ridículo. Por outro lado, a contraofensiva oficial determinada por um presidente da República humilhado mostra que Lula está disposto a usar a força colossal do Estado contra cidadãos que ousam criticá-lo ou levantar dúvidas sobre suas reais intenções, algo que é intrínseco à política. É evidente que isso contraria os fundamentos da democracia e do Estado de Direito.
O deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP) e o grupo de advogados Prerrogativas anunciaram representações ao Conselho de Ética da Câmara e à Procuradoria-Geral da República contra o deputado Nikolas Ferreira, acusando-o, entre outras coisas, de “estelionato” e “crime contra a economia popular”. Qualquer um de boa-fé que tenha assistido ao vídeo do parlamentar sabe que ali não houve nada disso. E ainda que houvesse, mentir na política não é crime, assim como é lícito em uma democracia desqualificar medidas governamentais, ao contrário do que alguns querem fazer parecer. Mas aqui ao menos estamos apenas no terreno do pitoresco.
Tudo fica mais sério quando, por ordem direta do Palácio do Planalto, a Advocacia-Geral da União (AGU) aciona a Polícia Federal (PF) para que seja aberto um inquérito policial a fim de investigar a disseminação de “fake news” sobre o Pix, notadamente sobre a suposta taxação do serviço. A tática é manjada: o governo Lula estigmatiza como “fake news” tudo o que lhe desagrada como forma de cerceamento do livre exercício da crítica. Não custa reiterar: espalhar mentiras ou, vá lá, “desinformação” não é crime, salvo em raras exceções tipificadas no Código Penal – apologia ou incitação ao crime, manifestações racistas, crimes contra a honra, contra a saúde pública e fraudes processuais, entre outras.
Nada disso se aplica a este caso.
Portanto, não há qualquer justificativa republicana, quiçá jurídica, para a intervenção de um órgão de Estado como a AGU em socorro de um governo zonzo em meio a uma batalha eminentemente política. Donde se pode concluir que a ordem de Lula para que a AGU envolva a PF no caso do Pix não se presta a outra coisa senão a intimidar opositores, que, a depender do desdobramento do caso, pensarão dez vezes antes de criticar publicamente uma medida do governo.
A ameaça de Lula não poderia ser mais clara: se até um parlamentar como Nikolas Ferreira, o deputado mais votado nas eleições de 2022, pode ser acionado na Justiça pelo que fala contra o governo, malgrado estar amparado pela imunidade parlamentar assegurada pela Constituição, o que pode acontecer com um cidadão que não tem as mesmas prerrogativas?
Na petição à PF, a AGU argumenta que “os resultados negativos da ampla disseminação de desinformações sobre o Pix já estão sendo sentidos com a maior queda de número de transações desde a implementação do sistema, após desinformação sobre sua taxação, conforme dados do Banco Central”. E daí? Se o número de movimentações financeiras via Pix caiu, isso se deve não à eventual prática de crimes, mas à inépcia de um governo em descrédito.
Se Lula é incapaz de defender no campo da comunicação uma medida correta de seu governo, não será acossando adversários na Justiça que vai resgatar a confiança dos brasileiros.
Surra no Pix expõe deficiência grave da gestão Lula
Um governo que abriu a tampa do gasto público antes mesmo de tomar posse, abraçou toda e qualquer medida para aumentar a arrecadação, relaxou metas fiscais em vez de cortar despesas e desprezou reiterados alertas sobre a explosão da sua dívida terá obviamente baixa credibilidade diante de largos contingentes da população quando promete fazer o contrário do que tem feito.
Tampouco se verá livre de grande desconfiança um partido cujos quadros se desconectaram há muito tempo da realidade da volumosa fatia dos trabalhadores que batalha pelo pão amiúde na informalidade, deseja empreender e tem ojeriza a intromissões da burocracia nos seus afazeres.
Não há, portanto, grande surpresa na surra que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) levou na opinião pública por ocasião da tentativa de ampliar os mecanismos de comunicação obrigatória à Receita Federal de movimentações feitas por Pix.
Decerto ondas de notícias falsas, dando conta por exemplo de que o governo passaria a tributar as transações na plataforma de pagamentos, circularam pelas redes sociais. Mas notícias falsas ocorrem em praticamente todos os assuntos nos dias de hoje, à direita, ao centro e à esquerda.
A explicação difícil, que deveria ser compreendida pelo governismo, é sobre por que desta vez a repercussão foi tão avassaladora a ponto de obrigar ministros e presidente atônitos a revogar a medida. É que não havia apenas demagogia oposicionista nem falsificações nessa enorme reação.
O governo afirmava, corretamente, que não haveria taxação do Pix, mas omitia estrategicamente que o objetivo no final das contas seria aumentar a fiscalização e, portanto, a arrecadação.
Foi esse o flanco explorado pela oposição. A mensagem de que o feirante, o motorista, a vendedora ambulante e a cabeleireira estariam mais expostos às garras do Leão, longe de ser falsa ou inverossímil, espalhou-se depressa e amalgamou antipatia maciça contra a intenção do governo.
Em nada ajudou a resposta inicial do oficialismo, de dizer que só criminosos estariam interessados na anulação da medida.
Mais preocupantes foram as iniciativas do governo de acionar a Polícia Federal e a Advocacia-Geral da União no caso. Daí até que se comece a criminalizar o exercício da oposição e a liberdade de crítica dos cidadãos vai uma distância pequena.
Não será pela tentativa de controlar o que o outro lado diz que a administração petista conseguirá equilibrar esse jogo. Uma corrida desesperada para distribuir benesses também só tenderá a agravar o problema de base —a gastança— sem melhorar o apreço pelo Executivo federal.
Não há atalhos que não sejam custosos econômica e politicamente. Aderir sem rodeios ao cânone da responsabilidade orçamentária e controlar despesas é o melhor que o governo Lula tem a fazer se quiser evitar dissabores na eleição do ano que vem.
Única fake news legítima na história do Pix foi produzida pelo próprio governo Lula
Por J.R. Guzzo / O ESTADÃO DE SP
O governo Lula pede ao público pagante que acredite na seguinte história que está contando – ou que tentou contar. A Receita Federal soltou uma ordem exigindo informações sobre o uso do seu Pix, mas nunca, em tempo algum, teve nenhuma intenção de cobrar um real a mais no imposto de renda que você paga. Foi tudo uma fake news da extrema direita para sabotar a ordem econômica.
Alguém já viu a Receita soltar uma portaria, uma única que fosse, para cobrar mais imposto? Alguém já viu o presidente Lula contar uma mentira, também uma única que fosse, ou dizer uma coisa e fazer outra? Ou seja: por que o medo?
Diante da vida pregressa que o governo tem em matéria de mentira e de verdade, já seria um milagre que a população acreditasse nas negativas coléricas sobre a cobrança de mais imposto. “Toca a Polícia Federal em cima deles”, exigiam as autoridades. “Chama a PGR. Chama a AGU. Chama o Xandão”. Vai daí o próprio governo, em pânico diante da reação indignada do público, anulou a portaria que tinha acabado de soltar. Mas se a revolta que explodiu nas redes sociais era fruto de fake news, e a decisão não tinha nada de errado, porque raios a portaria foi revogada?
É, mais uma vez, o governo sendo pego em flagrante delito – e voltando atrás quando é descoberto. Ficaram todos revoltados com as redes, mas o problema não tem absolutamente nada a ver com redes, “discurso do ódio” e outras criações do seu estoque de mulas-sem-cabeça. Tem a ver unicamente com a morte e o enterro de qualquer credibilidade que o poder público possa ter no Brasil de hoje. Ninguém acredita mais em Lula, Janja, Haddad etc., nem leva a sério nada que venha do governo – é esse o drama.
Lula já disse que a picanha estava, sim, caindo de preço, que não haveria impostos nas “blusinhas” e que “ninguém” tem mais “responsabilidade fiscal” do que ele. Já prometeu arroz do governo a preço de liquidação. Já anunciou que “agora” chegou o momento da “colheita” – como assim, se não plantou nada? A questão, à essa altura, se reduz a uma pergunta só: qual a razão objetiva para uma pessoa normal acreditar em qualquer coisa que presidente diga, ou que o governo anuncie?
A única fake news legítima nessa história do Pix, na verdade, foi produzida pelo próprio governo, com a gritaria histérica contra as redes. É como se fossem elas, e não a máquina estatal, que tivessem escrito a ordem idiota – tão idiota que eles mesmos tiveram de revogar. Pior que o soneto parece ser a emenda. O nível desesperadamente baixo da linguagem do novo Ministério da Comunicação em sua tentativa de reagir ao desastre só mostra que eles continuam sem entender nada.

Jornalista escreve semanalmente sobre o cenário político e econômico do País

