Relação do governo Lula com PSD de Kassab estremece em meio a reforma ministerial
Catia Seabra / FOLHA DE SP
A relação entre o governo Lula (PT) e o PSD sofreu abalos às vésperas da reforma ministerial, depois que o presidente do partido, Gilberto Kassab, fez duras críticas à política econômica conduzida pelo ministro Fernando Haddad (PT).
Aliados do presidente Lula enxergaram nas declarações um sinal de que não está garantido o apoio do PSD à sua reeleição ainda que já ocupem três ministérios, além da ameaça de que o partido aproveitará o momento de fragilidade do Executivo para ampliar seu espaço na Esplanada.
As declarações de Kassab, nesta quarta-feira (29), ocorreram no mesmo dia em que o senador Omar Aziz (PSD-AM) criticou a escolha da presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), para a Secretaria-Geral da Presidência.
O presidente Lula já avisou a aliados que Gleisi vai assumir um ministério na reforma que deve ser iniciada a partir da próxima semana, com o fim da eleição para o comando da Câmara e do Senado.
Interlocutores do presidente identificam nas críticas de Kassab um aceno ao mercado e à base bolsonarista do governo de São Paulo. Kassab é secretário de Governo da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Nesta quarta-feira, ele disse que Haddad é fraco na condução do Ministério da Fazenda, em comparação a ocupantes do cargo em governos passados, incluindo outros mandatos de Lula e até a ditadura militar.
"O que vemos hoje é uma dificuldade do ministro Haddad de comandar. Um ministro da economia fraco é sempre um péssimo indicativo", disse durante evento do banco de investimento UBS BB, em São Paulo.
Kassab disse ainda que "o PT não estaria na condição de favorito, mas de derrotado", se as eleições presidenciais fossem hoje.
No Palácio do Planalto, o discurso foi recebido como um alerta para o fato de o PSD não aceitar a perda de postos estratégicos. Em suas conversas, Kassab tem deixado claro que se opõe, por exemplo, à hipótese de demissão do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), cujo posto é visado pela cúpula do Senado.
Aliados de Lula têm apostado na reacomodação de Silveira em um cargo como cota pessoal do presidente. Entre as possibilidades à mesa seria sua nomeação na Secretaria de Relações Institucionais, hoje chefiada pelo ministro Alexandre Padilha (PT) —que, por sua vez, assumiria o Ministério da Saúde.
Petistas saíram em defesa de Haddad. O ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, elogiou, nas redes sociais, a atuação do ministro da Fazenda.
"Estranho seria se o articulador político do governador Tarcísio elogiasse o exitoso trabalho de @Haddad_Fernando à frente do Ministério da Fazenda. Recordes em geração de emprego, diminuição da pobreza, reforma tributária…São tantas as vitórias que devem mesmo irritar a oposição", publicou.
O deputado estadual Emídio de Souza (PT-SP) disse que "Kassab é fraco de memória". E acrescentou: "Haddad é o ministro que depois de quase quarenta anos aprovou a reforma tributária, fez o país crescer 7% em dois anos, reequilibrou as contas públicas que Bolsonaro e [Paulo] Guedes haviam desorganizado", exaltou.
Coordenador do grupo Prerrogativas, o advogado Marco Aurélio de Carvalho disse que essa foi uma crítica extemporânea e injusta que tem motivação meramente eleitoreira. "Não sei se foi só para agradar a base bolsonarista do governo Tarcísio ou se Kassab projeta uma hipotética disputa [com Haddad] para 2026", disse ele.
Procurado pela Folha, Kassab reiterou sua avaliação, mas afirmou que nunca supôs que suas declarações produziriam reação do governo Lula. O presidente do PSD disse que aquela foi uma simples análise em resposta a questionamentos de investidores sobre o cenário econômico.
"Se tem alguém que torce pelo Brasil, todos sabem que sou eu. Mas não posso deixar de dizer o que estou enxergando. Em momento algum quis agredir qualquer pessoa ou o governo."
Nesta quarta, a ausência de um expoente do PSD em cerimônia no Palácio do Planalto causou um mal-estar entre os aliados de Lula. O governador paranaense Ratinho Júnior (PSD) não compareceu a evento de anúncio de investimentos para rodovias do Paraná.
"Às vezes, é difícil para alguns governadores prisioneiros da polarização que não reconhecem, mas presidente Lula segue republicano e trabalhando sempre em parceria", disse o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.
Ao final do evento, questionado por jornalistas se Ratinho seria um desses governadores, Mercadante disse que não citou nenhum especificamente.
Nesta quarta, em entrevista ao UOL, o senador Omar Aziz disse que a chegada de Gleisi à Esplanada "não será boa para o presidente" porque ela "é militante". "A Gleisi faz críticas ao Haddad... Como é que você vai botar uma ministra que faz crítica a outro ministro? Me explica."
Na Secretaria-Geral da Presidência, a presidente do PT ocuparia um um gabinete dentro do Palácio do Planalto e teria entre suas atribuições a relação com os movimentos sociais.
Lula chamou Gleisi para duas conversas na semana passada. Em uma delas, o presidente afirmou que seu nome vinha sendo defendido para o ministério. A presidente do PT teria dito, em resposta, que o presidente da República não convida, manda.
Nos últimos dias, Gleisi negou a interlocutores que já tivesse sido convidada. Mas a notícia foi repassada pelo próprio Lula a nomes estratégicos de seu entorno.
Derrotas de Lula no Congresso expõem coalizão frágil
A medida provisória 542, de 30 de junho de 1994, instituiu o Plano Real, transformou em definitivo a economia brasileira e decidiu as eleições daquele ano. A despeito de tamanho impacto, o texto permaneceu intocado pelo Congresso por um ano —quando foi convertido em lei, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) já era presidente, e a nova moeda, fato consumado.
Eram tempos de um presidencialismo caracterizado pela subserviência do Legislativo ante desígnios do Planalto. As MPs eram editadas em profusão e reeditadas por anos a fio; os parlamentares aceitavam passivamente os vetos do chefe de Estado a projetos que aprovavam; deputados e senadores dependiam do Executivo para que suas emendas ao Orçamento fossem executadas.
Para o bem e para o mal, o cenário é inteiramente diverso hoje. Especialmente no último decênio, o Congresso passou a exercer com maior evidência seu papel no sistema de freios e contrapesos entre os Poderes, não sem aviltar o gasto público com um volume descabido de emendas de execução impositiva.
É nesse contexto que o governo Luiz Inácio Lula da Silva amarga derrotas legislativas em quantidade inimaginável nos primeiros dois mandatos do líder petista. Segundo levantamento realizado pela Folha, apenas 20 de 133 MPs editadas nos últimos dois anos (15%) foram aprovadas e viraram leis, com modificações.
O desempenho consegue ser pior que o de Jair Bolsonaro (PL), que em período equivalente teve 58 de 156 medidas aprovadas (37%). Na mesma base de comparação, Lula teve 32 vetos derrubados total ou parcialmente, ante 31 do antecessor.
O cotejo entre os dois deve levar em conta peculiaridades como conflitos entre Câmara dos Deputados e Senado que prejudicaram os resultados recentes. Fato é que, em ambos os casos, as coalizões partidárias montadas para a sustentação do governo se mostraram frágeis.
Lula não é um adepto do confronto institucional como Bolsonaro —que, na segunda metade de seu mandato, teve de comprar o apoio do centrão para se manter na cadeira. A administração petista, no entanto, paga um preço elevado por privilegiar o partido e seus aliados à esquerda, que têm no ministério um peso incompatível com sua inserção na sociedade e no Congresso.
O PT, cuja federação partidária tem apenas 16% da Câmara, reservou para si as pastas de maior poder de decisão, como Casa Civil e Fazenda, e outras de grande visibilidade, como Educação, Trabalho e Desenvolvimento Social. A legendas ao centro e à direita, como PSD, MDB, União Brasil, PP e Republicanos, que somam 47% dos deputados, são oferecidos setores secundários.
Lula não divide poder, a exemplo do que já fizera em seus dois primeiros governos. Hoje, sem a popularidade nas pesquisas de opinião e a complacência do Congresso de outrora, as consequências são bem mais severas.
Uma boa discussão desperdiçada
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Não durou mais que algumas horas a possibilidade levantada pelo governo de revisar o regulamento dos prazos para consumo de produtos alimentícios. É um exemplo de uma discussão pertinente nascida pelos motivos errados e morta pelos motivos errados.
A proposta integra um pacote de medidas sugerido em julho passado por associações da indústria de alimentos e supermercados, e implica a adoção de um modelo de rotulagem similar ao de países como EUA, Canadá e Reino Unido. Produtos estáveis em temperatura ambiente, como biscoitos, macarrão, grãos ou enlatados, poderiam conter indicações do tipo “ideal para consumo até a data X”. Isso porque esses produtos tipicamente perdem certas qualidades após um certo período – por exemplo, a crocância dos biscoitos –, mas o prazo para o consumo seguro pode se estender muito além disso.
Ante a escalada da inflação dos alimentos, o governo, mais perdido que cachorro em dia de mudança, se move por tentativa e erro, e chegou a aventar essa proposta no conjunto de medidas estudadas para baratear preços. Mas, traumatizado após a sova da oposição nas redes sociais durante a “revolta do Pix”, logo a descartou.
Evidentemente, a ideia de oferecer “comida vencida” ou “picanha podre para pobre” é um prato cheio para a oposição, e pode-se imaginar o que os petistas fariam se estivessem em posição trocada. Na verdade, nem é preciso imaginar. Durante a pandemia, o governo de Jair Bolsonaro chegou a sugerir algo semelhante. Imediatamente as redes petistas foram inundadas com acusações de “higienismo” e perversidade “antipobre”.
Assim como não cabe ingenuidade em relação às estratégias marqueteiras de governo e oposição, tampouco cabe em relação aos interesses do varejo. A medida, por si só, não levaria necessariamente a preços menores para o consumidor. Seguramente ela não teria nenhum efeito sobre a inflação. Mas, acompanhada de outras, poderia ter alguma utilidade para atender populações carentes e, sobretudo, para minimizar o desperdício de alimentos.
A ONU estima que algo como 800 milhões de pessoas (10% da população mundial) sofra com subnutrição crônica, ao mesmo tempo que cerca de um terço de todos os alimentos produzidos no mundo é perdido ou desperdiçado – o suficiente para alimentar 1 bilhão de pessoas. Não há uma causa ou um culpado, mas muitos. Descontadas as perdas durante a produção, a ONU estima que 13% da comida seja desperdiçada no varejo; 26%, nos serviços de alimentação; e 61%, nas casas.
Reduzir as perdas e desperdícios implicaria ganhos como aumento da produtividade e crescimento econômico, mais segurança alimentar e nutrição e mitigação de impactos climáticos. Calcula-se que o desperdício de alimentos seja responsável por 8% a 10% das emissões globais de carbono, pelo menos o dobro das emissões da aviação.
Nesse contexto, diversos países vêm promovendo iniciativas para prevenir o desperdício ou reaproveitar alimentos. Há startups que facilitam a compra a preços mais baixos de produtos rejeitados pelos supermercados como defeituosos – às vezes por razões puramente estéticas, mas aptos ao consumo. Há aplicativos que oferecem descontos em comida de restaurantes prestes a ser jogada fora. Na França e na Califórnia, foram promulgadas leis que obrigam supermercados e restaurantes a doar alimentos consumíveis que seriam descartados.
Um sistema de informações nas embalagens diferenciando entre o prazo para um consumo de qualidade e o prazo para o consumo seguro poderia embasar medidas desse tipo, seja no varejo, para oferecer produtos a menores preços ou para doação, seja nas casas, para evitar o descarte de alimentos aptos ao consumo. As associações de produção e varejo estimam que isso poderia gerar uma economia de R$ 3 bilhões ao ano em comida desperdiçada.
O problema da perda de alimentos é complexo e as soluções exigem a coordenação de múltiplos atores, desde o governo, passando por produtores, vendedores e consumidores, até a infraestrutura de compostagem e reciclagem. Por isso mesmo, é lamentável desperdiçar, no brejo das picuinhas políticas, uma discussão que poderia contribuir para reduzir o desperdício.
6 coisas que entendemos errado sobre o sono
Por Katie Mogg (The New York Times) / O ESTADÃO DE SP
Não há dúvida de que o sono é importante para a sua saúde. Sem o suficiente, o risco de desenvolver doenças como demência, pressão alta e diabetes tipo 2 pode aumentar, além de você ser mais propenso a sentir irritação e ansiedade.
Na busca por uma noite perfeita de descanso, algumas pessoas experimentam beber “mocktails para dormir” ou investem em rotinas noturnas elaboradas. Mas muitas dessas soluções não têm respaldo científico e não resolvem problemas subjacentes de higiene do sono.
“Há muita oportunidade de mudar a percepção errada” sobre o sono, diz Rebecca Robbins, professora assistente na divisão de medicina do sono da Harvard Medical School e autora principal de um estudo de 2019 sobre equívocos relacionados ao sono. O The New York Times procurou 11 especialistas em sono para esclarecer os mitos mais comuns que eles ouvem.
1- Você não pode treinar seu corpo para precisar de menos sono
Se você já experimentou privação de sono por longos períodos, pode ter sentido como se seu corpo tivesse se ajustado. Você pode encontrar formas de lidar com menos sono, como beber cafeína ou evitar atividades noturnas, comenta Ian Katznelson, neurologista do Northwestern Medicine Lake Forest Hospital. Mas isso não significa que você evitará os efeitos negativos da falta de descanso, que podem incluir piora da memória, alterações de humor e diminuição da criatividade.
2- Mais sono nem sempre é melhor
Um sono curto e de baixa qualidade não é bom para você, mas dormir demais também pode estar ligado a problemas de saúde, ressaltam os especialistas.
Um estudo de 2023, que incluiu dados de quase 500 mil participantes, descobriu que adultos que dormiam mais de nove horas por dia tinham 35% mais chances de morrer de doenças respiratórias. Uma revisão de 2021 constatou que pessoas que dormem muito têm maior risco de desenvolver diabetes tipo 2 em comparação com aquelas que dormem de sete a oito horas por dia.
No entanto, ainda não está claro se dormir excessivamente causa problemas de saúde ou se o sono prolongado é um sintoma de questões subjacentes, pondera Fariha Abbasi-Feinberg, do conselho diretor da Academia Americana de Medicina do Sono.
Os adultos devem geralmente buscar dormir de sete a nove horas por noite, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Se sentir necessidade de dormir muito mais do que isso, considere consultar um especialista em sono, recomenda Jennifer Goldschmied, pesquisadora do sono e professora assistente de psiquiatria no Hospital da Universidade da Pensilvânia. Esses especialistas podem avaliar se você tem algum distúrbio, como apneia do sono, que causa fragmentação e baixa qualidade no descanso.
3- Não é possível compensar o sono perdido no final de semana
Dormir 30 minutos a mais no sábado de manhã geralmente não é um problema, afirmam os especialistas. Mas, se você está dormindo horas a mais todo fim de semana, provavelmente é um sinal de que não está descansando o suficiente durante a semana, avalia Thomas Kilkenny, diretor do Instituto do Sono no Northwell Staten Island University Hospital. Se você precisa de sete horas de sono por noite, mas dorme apenas seis de segunda a sexta, por exemplo, terá perdido quase uma noite inteira de sono quando o sábado chegar, explica Kilkenny. Isso é chamado de “dívida de sono”.
Para quitar totalmente essa dívida, seria necessário dormir 12 horas em apenas uma noite, algo inviável para a maioria das pessoas. E, mesmo que consiga, provavelmente ficará preso em outro ciclo de dívida de sono, já que se sentirá menos cansado na noite seguinte. Em vez disso, tente distribuir mais horas de descanso ao longo da semana, indo para a cama gradualmente mais cedo.
“Tente ir para a cama 15 minutos mais cedo esta noite e talvez mais 15 minutos na próxima noite”, sugere Rebecca. “Sem mudanças drásticas.” Observe como se sente no dia seguinte para ajustar o horário ideal para você, acrescenta.
4- Acordar durante a noite nem sempre é sinal de sono ruim
Levantar às 3h para ir ao banheiro pode parecer perturbador, mas os especialistas dizem que não é necessariamente motivo de preocupação. Seu corpo passa por várias fases de sono durante a noite, e às vezes essas transições causam breves despertares, explica Jennifer. Muitas pessoas acreditam que “você deve deitar a cabeça no travesseiro, adormecer instantaneamente e não acordar até o amanhecer”, observa. “E eu costumo dizer: ‘Isso não é sono. Isso é coma.’”
Mas, se levar mais de 15 ou 20 minutos para voltar a dormir, saia da cama. Ficar se virando de um lado para o outro pode gerar frustração e dificultar ainda mais o descanso, avisa Mehwish Sajid, médica do sono na Universidade de Michigan. Faça algo relaxante, como ler um livro tranquilo ou meditar, e volte para a cama apenas quando sentir sono novamente.
5- Sentir-se lento ao acordar nem sempre é motivo de preocupação
Depois de uma soneca longa ou um sono profundo, você pode acordar sentindo-se atordoado e desorientado. Isso pode temporariamente piorar sua performance cognitiva ou te deixar de mau humor, mas alguma letargia pode ser normal — os especialistas chamam isso de inércia do sono. “Você não acorda brilhante e revigorado de uma vez”, diz Ann Romaker, diretora dos centros de distúrbios do sono da Universidade de Cincinnati.
De acordo com o CDC, a inércia do sono pode durar de 30 minutos a duas horas. Se você estiver privado de sono, a sensação pode durar mais, embora os especialistas ainda não compreendam completamente o motivo. Medicamentos que induzem o sono, como anti-histamínicos e sedativos, também podem agravar a inércia do sono e criar um “efeito ressaca”, esclarece Jennifer.
Para lidar com a sensação, ela recomenda dar uma breve caminhada ao ar livre pela manhã, se possível: a luz solar é um sinal natural para o corpo que é hora de acordar. Mas, se a letargia nunca desaparecer ou dificultar sua vida diária, vale a pena conversar com um médico especialista em sono.
6- Roncar nem sempre é inofensivo
Milhões de pessoas relatam roncar ocasionalmente, mas isso nem sempre é algo benigno, informa Mehwish. Roncos frequentes, altos e perturbadores muitas vezes são um sinal de apneia obstrutiva do sono, uma forma comum de apneia que ocorre quando os tecidos da garganta e os músculos da língua relaxam, bloqueando as vias aéreas, esclarece a médica.
Grupos como homens, mulheres pós-menopausa, pessoas com obesidade, fumantes, consumidores de álcool e adultos de meia-idade ou mais velhos estão em maior risco para essa condição. (Ann observa que mulheres com apneia do sono nem sempre roncam alto e podem sofrer de despertares frequentes durante a noite.)
Se você perceber que está “engasgando, ofegando” ou “acordando com o próprio ronco” — ou se alguém que divide a cama com você notar esses comportamentos — “são sinais que precisam ser avaliados por um especialista, pois podem indicar um problema de saúde subjacente”, comenta Mehwish.
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Angústia com segurança exige resposta ágil
Por Editorial / O GLOBO
Além de constatar queda na aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a última pesquisa Quaest mostra que a violência é hoje o tema que mais preocupa os brasileiros. Mencionada por 26% dos entrevistados, ultrapassou a economia (21%). Os pesquisadores recomendam cautela ao associar qualquer preocupação específica à queda na popularidade de Lula — atribuída sobretudo ao fiasco do Pix —, mas seria ingênuo supor que a segurança pública tem pouca influência sobre a opinião a respeito do governo. O resultado é um recado aos governos federal e estaduais. A população está insatisfeita com as medidas adotadas até agora. Propostas de solução, como a PEC da Segurança, caminham lentamente e geralmente esbarram na falta de consenso entre as esferas de governo. Isso precisa mudar.
A mensagem das ruas equivale a um pedido de urgência. Em dezembro de 2023, a violência ocupava a quarta posição no ranking dos cinco principais problemas do país, à frente apenas de educação. Seis meses depois, já ultrapassara corrupção, questões sociais e saúde, encostando na economia. Nos últimos 30 dias, saltou 5 pontos percentuais. A reviravolta é um retrato da vida real. Pela estimativa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 23,5 milhões de brasileiros com idade acima de 16 anos vivem em áreas com forte presença do crime organizado. E o resto da população vive com medo.
A atuação de organizações criminosas em todas as regiões do país, muitas vezes com conexões no exterior, exige resposta coordenada dos governos federal e estaduais. Não é razoável manter o atual arranjo institucional. Nem todos os bancos de dados se comunicam. O statu quo facilita a infiltração do crime na política, nas instituições e na economia. Diante da inércia das autoridades, o crime prospera. A PEC da Segurança busca corrigir alguns erros. Aumenta o protagonismo do governo federal e prevê mais ações integradas. O texto precisa ser uma das prioridades dos novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. Deve ser avaliado e votado sem demora.
As resistências no Congresso diminuíram depois de o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, ter feito modificações para atender a demandas de governadores. A nova versão torna explícita a subordinação das polícias militares, civis, penais e dos bombeiros aos estados. As acusações de interferência do governo federal eram descabidas, mas agora o texto não deixa espaço para dúvida. A atuação prevista para a Polícia Viária Federal, criada a partir da Polícia Rodoviária Federal, também foi revisada, para não se sobrepor ao trabalho da Polícia Federal e da Polícia Civil.
A aprovação da PEC da Segurança seria um avanço institucional. Não terá, porém, o condão de resolver todos os problemas. As autoridades precisarão agir noutras frentes. Os governadores, tão ciosos do comando das polícias locais, têm o dever de coibir a infiltração do crime entre as instituições e forças da lei. O combate às facções deveria começar dentro das próprias delegacias e batalhões. O governo federal precisa assumir o protagonismo na necessária integração de bancos de dados, fundamental para a inteligência de combate ao crime. Por fim, é preciso ação eficaz nos presídios, que servem de sede e fonte de mão de obra para o crime organizado. É certo que não são tarefas triviais, mas sem elas não haverá resposta à altura da angústia da população comprovada pelos números.
De crise em crise, governo não tem cara
Por Vera Magalhães / O GLOBO
O que falta ao governo Lula 3 é uma cara. Os dois primeiros mandatos do petista tiveram o êxito que se viu, a ponto de sobreviverem a escândalos de corrupção que mobilizaram o país, como o mensalão, e de terminarem com a eleição de alguém que nunca havia disputado eleições, como Dilma Rousseff, porque havia o que mostrar, mas, sobretudo, havia um bom resumo para a posteridade do que aqueles oito anos representaram na História brasileira.
Lula chegara ao poder tão ou mais desacreditado pelos agentes econômicos do que hoje, mas estreou oferecendo austeridade fiscal e diálogo com setores mais amplos da sociedade, proposto desde a campanha, com a Carta ao Povo Brasileiro. Saiu, oito anos depois, tendo mantido o controle da inflação legado pelo Plano Real, mas, sobretudo, tendo promovido a ascensão social de um grande contingente de pessoas, graças não só a programas de renda, como o Bolsa Família, mas a um projeto de acesso à educação superior a famílias nas quais nunca havia existido um universitário.
Esse tipo de indicador supera a narrativa rasa, ainda mais porque foram conquistas logradas num tempo em que as redes sociais apenas engatinhavam, com o pueril Orkut e os primórdios de seus filhos hoje crescidos, como o Facebook.
E agora? O que se tem de semelhante àquele legado em termos de diretriz, de projeto de longo prazo com coerência entre suas partes para um país que, desde então, é completamente diferente? Nada.
O resultado é um Executivo que se move de crise em crise, com respostas sempre insuficientes, analógicas, atrasadas ou completamente alheias à realidade. O episódio da semana é a situação dos deportados dos Estados Unidos — e ainda não se trata de um grupo diretamente atingido pela política de terra arrasada de Donald Trump, que tende a intensificar os envios de brasileiros em situação ilegal.
Dificilmente alguém poderá, em sã consciência, discordar da correta contraposição do governo às condições degradantes e indignas com que os brasileiros foram transportados. Mas, passados três dias, o mais provável é que a administração Lula não consiga obter nada de concessão — nem o Brasil nem os demais países do continente, aliás.
A pronta ação do Ministério da Justiça e da Polícia Federal na acolhida aos brasileiros pode até gerar melhora na imagem do governo, ainda mais em contraste com a babação de ovo da oposição bolsonarista diante dos arreganhos trumpistas. Foi o primeiro tiro n’água da direita em muito tempo, aliás, depois de meses surfando em erros de comunicação ou condução política do presidente e de seus ministros.
Mas isso dificilmente alterará o quadro captado pela pesquisa Quaest. Diferentemente da avaliação ligeira de alguns ministros palacianos, ele nada tem de mau humor momentâneo. O que crises como a do Pix e a da alta de alimentos vão sedimentando é a falta de conexão entre Lula e o eleitor real, aquele que vai ao supermercado, que usa transporte por aplicativo ou trabalha para um aplicativo, que está no corre da economia informal, cujo filho até pode ter se formado graças ao ProUni, mas que já virou essa página e hoje não guarda nostalgia daquele tempo, pelo contrário.
As reuniões de emergência de ministros para atender a cada susto semanal produzem só medidas que, além de claramente desfocadas, evidenciam que Lula está desnorteado, sem saber ao certo como navegar nas novas águas da economia (incluindo o mundo do trabalho), da geopolítica e da vida digital.
No caso dos repatriados de Trump, a entrevista rápida de ministros nervosos comunicou o óbvio: os brasileiros continuarão a viajar algemados e acorrentados, o que fará com a indignação da chegada do voo do fim de semana se dissipe no éter.
É preciso não ser apenas reativo, mas se antecipar aos problemas. Em relação aos Estados Unidos, isso era uma necessidade óbvia. Só essa real mudança, que não se resolve trocando peças, evitará que Lula passe dois anos apagando incêndios.

