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'Boom de filiados' antes de eleição direta gera questionamentos dentro do PT

Por  — Rio de Janeiro / O GLOBO

 

Em meio a uma escalada de conflitos internos envolvendo a escolha de seus novos dirigentes, o PT teve uma leva de novas filiações que, em 47 municípios, fez com que o partido passe a ter mais integrantes do que o número de votos obtido nas eleições de 2024. O salto gerou controvérsia na sigla, já que todos os filiados podem votar nas eleições de diretórios do PT, marcadas para 6 de julho. O dirigente petista Valter Pomar protocolou um recurso à executiva nacional do partido, em que aponta indícios de inconsistências e cobra revisão das novas filiações.

 

O recurso de Pomar se baseia em dados disponibilizados pela Secretaria Nacional de Organização (SORG) do PT, que contabilizou um crescimento de 341,3 mil filiados ao partido entre outubro de 2024 e fevereiro deste ano. Levantamento do GLOBO a partir desses dados identificou que a quantidade de petistas superou a votação do partido nas candidaturas a vereador em 47 municípios. Até o ano passado, essas cidades registravam mais votos nas urnas do que filiados, o que é considerado um cenário mais corriqueiro, já que nem todos os eleitores são membros formais do partido.

 

“É indispensável que a direção nacional do Partido impeça que ocorra aquele tipo filiação que parece ter como único objetivo conquistar espaço nas instâncias partidárias”, escreveu Pomar, integrante do diretório nacional e membro da corrente interna Articulação de Esquerda.

O grupo de Pomar faz contraposição à tendência majoritária Construindo um Novo Brasil (CNB). Hoje, parte da CNB apoia a candidatura do ex-prefeito de Araraquara (SP) Edinho Silva, nome preferido do presidente Lula. A candidatura de Edinho, porém, enfrenta resistência na própria CNB, da qual faz parte.

Sigla turbinada no Rio

O Rio é o estado em que o PT ganhou mais filiados nos últimos cinco meses: 82 mil. O diretório estadual é comandado pelo grupo do prefeito de Maricá, Washington Quaquá, um dos integrantes da CNB que tem objeções a Edinho. No grupo de 47 municípios em todo o país em que o número de filiações superou o de votos, nove ficam no Rio.

 

Em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, o partido mais do que dobrou o número de filiados: saiu de 5,1 mil em outubro de 2024 para 11,9 mil em fevereiro deste ano. A cidade era governada até o ano passado por Waguinho (Republicanos), cuja esposa, a deputada federal Daniela Carneiro, foi ministra do Turismo no governo Lula.

Outro caso citado no recurso de Pomar foi o de São Gonçalo, onde o candidato do PT à prefeitura, Dimas Gadelha, teve um recuo expressivo em sua votação na comparação com a eleição de 2020. Mesmo assim, a cidade deu 10 mil novos filiados ao partido, de um total de 45 mil novas filiações nesse conjunto de municípios em que há suspeita de inconsistências.

Aliado de Quaquá, o presidente do PT no Rio, João Maurício, afirma que o crescimento de filiações reflete o aumento das bancadas no Legislativo e o número de prefeitos eleitos —no estado, o partido passou de um para três em 2024:

— O PT, diferentemente de outros partidos, tem um processo em que os filiados votam na direção. Então há uma base mobilizada para garantir espaço de representação.

No recurso, Pomar pediu o “recadastramento imediato” de filiados em 13 municípios do Rio. Além daqueles que passaram a ter mais filiados do que votos, o pedido inclui cidades que dobraram o número de filiações, como Maricá. Outra solicitação foi para que a eleição ocorra em urnas eletrônicas nas cidades em que o número de petistas dobrou.

Integrante de outra corrente e membro do diretório nacional do PT, o deputado Carlos Zarattini (SP) defendeu recadastramento onde o número de filiados ficou “bastante acima da força local” do partido:

— Em alguns lugares houve um aumento muito exagerado. Isso é tática de vale-tudo. É preciso verificar se houve alguma irregularidade.

Além do Rio, houve aumentos expressivos de filiados ao PT em municípios do Norte e do Nordeste. Em Sergipe, por exemplo, o partido passou a ter 882 filiados neste ano. O número é maior do que os 781 votos conquistados pelo candidato do PT à prefeitura em 2024, Danilo Segundo. Em São Miguel dos Campos (AL), o número de novas filiações, 598, superou o total de votos, 472, que o PT obteve na última eleição a vereador. No município, cerca de metade das novas filiações foram impugnadas, devido a possíveis irregularidades.

 

Outro município com incremento significativo de petistas foi Santana (AP), onde o partido ganhou 3,9 mil filiados desde a última eleição. Com isso, um a cada dez eleitores da cidade passaram a ser filiados ao PT, embora o partido tenha elegido apenas uma vereadora em 2024. A cidade está na área de influência do líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

 

Comemoração de aniversário do Partido dos Trabalhadores: sigla passa por eleições no meio do ano

LULA Conversa de botequim

Por Merval Pereira / O GLOBO

 

 

‘E o Lula, hein?’

— O que é que tem?

— Voltou a dar mancada com as mulheres.

— O que que ele disse desta vez?

— Que tinha colocado a Gleisi para negociar com o Congresso porque era uma mulher bonita.

— É mesmo? Pensei que tivesse sido por outras qualidades.

— É por isso que a popularidade dele caiu entre as mulheres.

— Também é implicância, tudo o que ele fala levam para o lado mau. Foi só uma piada.

— É, mas a própria ministra das Mulheres disse que ia conversar com ele. Piada, nem o presidente pode, disse ela. Não sei se teve coragem de falar pessoalmente.

— Se tivesse falado, já teria sido demitida. Demitir mulher do ministério é o que ele faz com mais tranquilidade. Já demitiu três. (Daniela Carneiro, ministra do Turismo; Ana Moser, do Esporte; e Nísia Trindade, da Saúde, que saiu dizendo ter sofrido misoginia). Colocou homens no lugar.

— Mas nomeou uma ministra para o STM (Superior Tribunal Militar).

— Essa não vale, foi advogada da Gleisi.

— Ele já disse que procura mulheres qualificadas para cargos no governo, mas é difícil encontrar. Talvez seja pela pouca experiência em governos, porque as mulheres eram relegadas a segundo plano.

— Ele diz isso para a Janja?

— Ele tem uma visão antiquada, impressionante que tenha evoluído em tantas coisas, mas não deixou de lado o machismo. Outro dia disse que preferia ser amante da democracia, porque os homens são mais apaixonados pela amante que pelas esposas. Isso lá é coisa que se diga?

— Mas ele sempre foi assim. Outro dia lamentou que aumentam os casos de agressão doméstica depois de jogo de futebol, aumenta a violência contra a mulher. Mas fez uma ressalva: “Se o cara é corintiano, tudo bem”.

— Foi uma piada sem graça. Ele não pensa assim, o que vale é a condenação.

— Ah é? Então o que me diz quando ele falou, sobre o mesmo tema: “Mão de homem não foi feita para bater em mulher. Quer bater em mulher? Vá bater em outro lugar, mas não dentro da sua casa ou no Brasil, porque nós não podemos aceitar mais isso”.

— Na verdade, no fundo, no fundo, ele acha que mulher é inferior mesmo. Lembra o que ele disse sobre a relação de marido e mulher? Olha aqui [mostra o jornal para o amigo]: “A gente quer que a nossa mulher seja respeitada; a gente quer que o nosso companheiro homem, quando a sua companheira trabalha, ele tenha a dignidade de ir para a cozinha ajudar no serviço da mulher, porque assim ele vai ser parceiro”, disse o presidenciável no Pará.

— Mas ele estava dizendo que o homem tem que ajudar a mulher na casa! É uma visão moderna, antimachista.

— É? E esta aqui: “Quando uma mulher tem profissão, ela tem salário e ela pode custear a vida dela, ela não vai viver com nenhum homem que não goste dela. Ela não vai viver com necessidade, não vai viver por dependência. Vai viver a vida dela, morar com alguém, se gostar desse alguém. Vai ter a opção dela, ela vai escolher”.

— Mas essa é uma fala feminista. Quer a emancipação da mulher.

— Da mesma maneira que quando falou das mulheres petistas de “grelo duro”?

— Não me lembro.

— Quando estava sendo investigado pela Lava-Jato. Mandou Fátima Bezerra e Maria do Rosário irem para cima dele, um procurador de Rondônia, que tinha histórico de bater na mulher.

— Maria do Rosário, aquela que o Bolsonaro disse que não estupraria porque era feia demais?

— Essa mesma. Essa fala de Bolsonaro é que é machista. Lula pelo menos disse que colocou uma mulher bonita para negociar com deputados e senadores.

— E mais uma vez menosprezou a Clara Ant, uma de suas conselheiras mais antigas. Disse para ela entrar no assunto porque “vive procurando o que fazer”.

— De novo, por quê?

— Você não se lembra da piada que ele fez com ela, apanhada por um grampo da polícia? Disse que, uma vez, a Clara estava em casa, dormindo sozinha, e bateram na porta. Eram vários policiais, e ela achou que era “um presente de Deus”. Tirou uma gargalhada da Dilma.

Obra de drenagem é abandonada, e canal em região excluída da COP30 é tomado por invasão e tráfico

Vinicius Sassine / FOLHA DE SP

 

Belém

O abandono de uma obra de drenagem, num dos canais de Belém excluídos do pacote de obras da COP30 (conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas), levou à consolidação de uma invasão de barracos precários na beira do curso d’água, num lugar com comércio livre de drogas e com circulação restrita de pessoas de fora desse universo.

A obra teve início em 2024, e é responsabilidade da Prefeitura de Belém. É financiada com dinheiro do Banco do Brasil, no valor de R$ 36,3 milhões.

O ponto de abandono, com ampliação da violência em razão da operação do tráfico, fica a 5 km do Parque da Cidade, que será o principal espaço para os eventos oficiais e para as discussões sobre clima da COP30, em novembro. São esperados 40 mil visitantes e representantes de mais de 190 países, entre eles chefes de Estado e de governo.

 

Diversas obras estão em curso na cidade para a cúpula da ONU (Organização das Nações Unidas), financiadas majoritariamente por recursos do governo Lula (PT), na ordem de R$ 4,7 bilhões.

Os governos federal e do Pará, da gestão Helder Barbalho (MDB), decidiram incluir obras de drenagem e saneamento –tanto em áreas centrais quanto na periferia– no rol de intervenções feitas para a COP30.

Ao todo, há intervenção em 13 canais de Belém, com alargamento para drenagem de água da chuva, instalação de um sistema de coleta de esgoto e retirada de lixo e entulho.

As ações são uma tentativa de resolver parte de problemas históricos na formação e crescimento da cidade, onde canais e igarapés foram ocupados de forma desordenada.

Belém é a capital brasileira com mais pessoas vivendo em áreas de favelas, conforme critérios usados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os indicadores mais recentes mostram que apenas 20% dos moradores da cidade têm acesso ao serviço de coleta de esgoto.

As obras nos canais são financiadas majoritariamente com dinheiro do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), num valor superior a R$ 1 bilhão. Ao todo, 520 mil pessoas serão beneficiadas, segundo o banco, o equivalente a 40% da população da cidade.

Uma parte da população que vive em torno de canais em Belém foi excluída do pacote de obras da COP30. É o caso do espaço onde houve abandono da obra de drenagem e consolidação da invasão de barracos em condições insalubres, no canal São Joaquim, bem próximo da confluência com o canal do Galo.

Uma placa segue instalada na beira do canal, com a informação de que se trata de "mais uma obra financiada pelo Banco do Brasil". O empreendimento é um projeto de "execução do sistema viário e drenagem em via".

 

Segundo os moradores da rua rente ao canal, a obra foi abandonada. Restaram calçadas quebradas e não há sinal da presença de operários no lugar.

O espaço apertado é disputado por barracos de lona instalados no lado oposto da rua estreita, já na beira do canal. Há bastante lixo na beira, e o esgoto segue direto para a água do canal.

A reportagem da Folha esteve no local e houve pedidos de pessoas que controlam o espaço público para que não fossem feitas imagens da rua. Sem segurança mínima, foi necessário deixar o local após conversa com alguns moradores sobre a obra de drenagem.

A Prefeitura de Belém e o Governo do Pará confirmaram que a obra não integra as iniciativas voltadas para a COP30.

Segundo a prefeitura, não houve paralisação da intervenção feita na drenagem, mas um "ritmo lento quando a atual gestão assumiu".

 

O atual prefeito é Igor Normando (MDB), primo de segundo grau do governador Helder Barbalho. As obras tiveram início em julho de 2024, na gestão de Edmilson Rodrigues (PSOL), derrotado nas urnas em outubro.

"Por deliberação da prefeitura, foi enviada uma notificação para a empresa contratada, que atendeu o pedido e aumentou o número de frentes de trabalho", disse o município, em nota. Houve ainda uma troca do fiscal da obra, para acompanhamento diário do trabalho, segundo a gestão Normando.

Um parque urbano no igarapé São Joaquim integra o pacote de obras da COP30, conforme a prefeitura. "Todos os moradores do entorno serão beneficiados. Além de combater alagamentos, o projeto promove melhorias significativas na infraestrutura local."

O Banco do Brasil afirmou, em nota, que mantém operações de crédito vigentes com Belém e que, no caso da contratação envolvendo as obras de drenagem, o fluxo de comprovação está em andamento, "não tendo ainda alcançado a fase final".

A Secretaria de Segurança Pública do governo do Pará disse que faz rondas diárias e reforço do policiamento ostensivo e preventivo em "áreas sensíveis", o que inclui a região do canal São Joaquim.

 

"A atuação policial segue critérios legais, sendo prisões feitas com flagrantes ou determinação judicial", afirmou a secretaria, em nota.

Reportagem publicada pela Folha no último dia 27 mostrou que obras da COP30 de saneamento e drenagem em pelo menos três canais de Belém geraram avisos de demolições totais ou parciais de casas muito próximas. A retirada dos imóveis ou de parte deles seria necessária para o alargamento dos canais e das vias paralelas, e o risco gera tensão entre moradores desses locais.

CANAL SÃO JOAQUIM EM BELEM

Brasileiros apelam para carcaça de frango e espinha de porco para driblar inflação: 'A gente inventa'

Vinícius Mendes / FOLHA DE SP

 

"Driblar os preços." É assim que Ionara de Jesus, de 43 anos, tenta explicar sua única estratégia para alimentar a casa onde vive com três filhos, de 24 (uma moça acamada), 15 e 13 anos, no Parque Santo Antônio, na periferia de São Paulo.

Enquanto a DW atravessa os corredores de um supermercado do bairro da Zona Sul com ela, porém, dá para ver que, com a atual inflação, os dribles estão sendo menos possíveis.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a inflação dos alimentos chegou a 7,69% no ano passado —um valor bem acima dos 1,11% registrados em 2023. No acumulado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 12 meses até fevereiro, houve uma pequena desaceleração em comparação com janeiro (7,49%), mas seguiu em alta 7,12%.

Realidades como a de Ionara têm preocupado o governo federal desde o fim de 2024, mas, depois que atingiram a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se transformaram num verdadeiro entrave. Na última investida, há alguns dias, o Planalto retirou impostos de importação de alguns produtos básicos, como café, açúcar, azeite de oliva e sardinha.

"Ainda que uma inflação de alimentos caia, inevitavelmente, na conta de qualquer governo, fato é que a atual administração tem pouca responsabilidade no que está acontecendo", explica o economista André Braz, do FGV-Ibre, no Rio de Janeiro.

Segundo Braz, a alta no preço dos alimentos se deve a fatores que vão de resquícios da pandemia de Covid-19 a questões climáticas, que fizeram produtos como o café e o azeite dispararem, por exemplo. "A única coisa que podemos culpar esse governo é pela valorização do dólar causada pela incerteza fiscal", continua.

MUDANÇA NO CARRINHO

Vinculada há cerca um ano ao Programa Operação Trabalho (POT), da prefeitura de São Paulo, desde que ficou viúva, Ionara de Jesus recebe R$ 1.500 mensalmente –um salário mínimo– fazendo algumas atividades esporádicas do projeto, como fiscalizar barracas de feiras de rua ou tecer tapetes.

Como a renda não é suficiente para alimentar a família o mês inteiro, ela confia em doações de cestas básicas para completar a dispensa. No bairro, esse circuito é intermediado pelo Instituto Josefina Bakhita, ligado à ONG Ação da Cidadania, sediada no Rio de Janeiro.

"Algumas coisas que eram comuns na mesa daqui, como café ou ovos, por exemplo, viraram artigos de luxo nos últimos meses", lamenta a diretora da entidade, Marisa Munção, lembrando do aumento de 50% do primeiro no acumulado de 12 meses registrado em janeiro e de mais de 40% no preço do segundo em fevereiro.

É por isso que ali, diante das gôndolas, os "dribles" de Ionara têm que ser certeiros. Um deles é no feijão que, ao invés do tipo tradicional (R$ 7 por quilo), agora ela substitui pelo fradinho, quase pela metade do preço. "E eu vou adicionando água toda vez que requento a panela. Vai rendendo mais".

Depois, diante das farinhas de trigo, ela corre para pegar um pacote, explicando que, com ele, dá para "inventar" um tipo de "bolinho de chuva" que sempre ajuda a matar a fome.

Outro "drible" é sobre o café que, vendido por R$ 32 em uma embalagem de 500 gramas, é trocado há alguns meses por uma caixinha de chá –dessa vez, de capim-santo, mas podia ser de camomila, diz Ionara. Mudar o sabor é um jeito de burlar o desejo.

"Estamos aprendendo a depender menos de cafeína", sorri, encabulada. Alguns minutos depois, quando ela retorna involuntariamente ao corredor do produto, revela à DW outra estratégia recente. "A gente reveza lá em casa: cada dia um de nós toma café. Daí o pacote dura mais."

Já alguns itens que faziam parte da compra doméstica —ultraprocessados, como bolachas e salgadinhos, mas também laticínios, como iogurtes e queijos— foram sumariamente tirados da lista. "Se não sobra dinheiro nem para comprar fruta na feira, como vou comprar essas coisas?", questiona.

CARCAÇA DE FRANGO E SUÃ DE PORCO

A advogada Léa Vidigal, que acabou de lançar o livro Direito Econômico e Soberania Alimentar, lembra como, em meio à alta no preço dos alimentos, o risco de que famílias mais pobres tenham um acesso precário às proteínas se intensifica, "o que é grave, porque a falta delas tem uma série de prejuízos à formação das crianças, por exemplo", observa.

"A desigualdade se mede muito pela qualidade dos alimentos que as pessoas das diferentes classes comem."

Na casa de Ionara, a presença diária de carne vermelha na mesa cessou há mais ou menos seis meses, quando o preço dos bovinos disparou além do que ela podia pagar. Segundo o IBGE, essa elevação foi de mais de 20% só em 2024. Hoje, entre dois e três dias da semana, ela e os filhos comem apenas arroz e feijão, sem nada mais.

"Eles não gostam de salsicha", lamenta, contando que, com o ovo mais caro, ela perdeu um dos substitutos comuns das classes mais baixas diante da impossibilidade de comer carne.

Mas Ionara tem outras estratégias: uma é a carcaça de frango, que não se vende no supermercado, mas é facilmente encontrada em granjas do bairro. Custa cerca de R$ 30 e pesa em torno de 4 kg. "E daí a gente inventa, né? Faz uma sopa, refoga, cozinha uma canja, e ela vai durando umas duas semanas. Às vezes até mais."

Outra é a espinha do porco, que se encontra nos açougues pelo nome de suã. É uma mistura de osso, carne e gordura suína. Ionara o encontra por R$ 10 o quilo. "A gente faz a festa com isso! ", sorri de novo. Com as doações dando conta do suprimento de carboidratos (macarrão, arroz, farinha), uma vez ou outra ela tem conseguido comprar ovos ou até mesmo peças bovinas, como acém (R$ 32 o quilo). "Mas o dinheiro ainda é muito pouco."

De fato, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), uma cesta básica em São Paulo estava custando cerca de R$ 851 em janeiro deste ano —ou 56% de um salário mínimo.

Segundo o Dieese, diante da inflação, o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ser de R$ 7.156,15.

"APROVEITAR O MOMENTO PARA EMAGRECER"

Do outro lado da metrópole, mas ainda na periferia –no bairro da Vila Nova Cachoeirinha, na Zona Norte–, a casa do motorista de aplicativo Luiz Benedito, de 40 anos, também está comendo diferente há alguns meses. Nela vivem, além dele, a esposa, Suelen Camargo, de 36 anos, e os dois filhos, uma garota de 13 anos e um menino de 3.

Na pandemia, Luiz trocou um emprego estável em uma construtora civil, de ajudante de pedreiro, pelas longas jornadas diárias ao volante. Valeu a pena, ele acredita. "Meu salário mais do que dobrou", revela, contente. Hoje, sua renda fica em torno de R$ 4.000.

No entanto, assim como Ionara, não está dando para comer carne bovina todos os dias. "Basicamente comemos só frango agora", conta Luiz, defronte à estufa do açougue de um pequeno mercado da região. Do outro lado do balcão, o açougueiro ouve a conversa com a reportagem e adiciona: "Não é só ele. Todo mundo está fazendo isso aqui agora."

"É que, além de ser mais barato, o frango tem mais proteína do que qualquer carne vermelha", prossegue Luiz. "Minha esposa está até aproveitando o momento para emagrecer."

Os rendimentos um pouco mais altos dão a ele algumas alternativas impossíveis a quem tem uma renda semelhante a de Ionara. O café, por exemplo, não rareou, porque "como a gente é pobre desde sempre, não se importa muito com rótulo. É sempre o mais barato mesmo", diz enquanto coloca no carrinho um pacote que, na promoção, sai por R$ 25 o quilo.

A mesma coisa com o arroz: ele e Suelen tinham uma marca preferida que, no ano passado, chegou a custar R$ 40. "Não dava para comprar. A gente trocou por outra. [A qualidade] Era pior, mas a conta fechava."

Processados, porém, entraram em uma negociação tensa com os filhos, que antes consumiam iogurtes, salgadinhos e cereais com frequência. Hoje, como a compra básica do mês ficou mais cara, sobra pouco dinheiro para esse tipo de item, e a saída têm sido regulá-los. "Tem dia que tem e tem dia que não tem. Paciência."

Na avaliação de André Braz, do FGV-Ibre, há uma explicação econômica central para isso: o fato da comida ter pesos diferentes nos orçamentos domésticos.

"As classes mais altas, além de protegidas da inflação pelos rendimentos de todos os seus investimentos, comprometem sua renda com uma cesta maior de consumos, que vão dos serviços a bens duráveis", diz. "Mas, quanto menor a renda, menos espaço para outra despesa que não seja comer. Logo, se a pessoa só compra comida, ela só pode sentir a inflação da comida."

Uma estratégia comum para lidar com isso é recorrer a compras por atacado. Com os alimentos mais caros, Luiz, por exemplo, mudou recentemente de hábito para produtos de limpeza ou de higiene pessoal: duas vezes por mês, ele vai a mercados atacadistas, que se tornaram populares nas periferias de São Paulo, em busca de grandes embalagens. Lá ele compra detergente, água sanitária, desinfetante e xampu. Os galões variam entre 5 e 10 litros.

"É um dilema, porque, de um lado, você precisa ter o dinheiro ali na hora para pagar. Nem sempre a gente tem, né? Mas, por outro, eles rendem por muito mais tempo em casa. Alguns até mais, porque a gente joga água para durar mais um pouco."

"SUCO ESTÁ COM PREÇO DE VINHO"

Na casa da gestora de marketing Marcella Dragone, 40 anos, na Vila Madalena, região famosa pelos bares e restaurantes da Zona Oeste de São Paulo, a comida chega de diversos lugares. Um açougue entrega periodicamente as carnes para alimentação da família, composta por Marcella, a filha, de 7 anos, e o marido, que gerencia a área de atendimento de um banco.

Um serviço por assinatura supre os orgânicos, dos quais ela não abre mão desde que a garota nasceu –e que ficou mais caro no começo de 2025. O que falta ela costuma comprar em um hortifruti perto de casa, e é ali onde sente a inflação dos alimentos na pele. "Mas eu não faço muita conta", admite.

Quando o preço aperta, a solução tem sido comprar "sob demanda" –caso de salames e presuntos crus que, antes, estavam sempre à mão na dispensa. "Agora só compramos essas coisas quando vamos receber alguém em casa, amigos ou familiares." Em outros momentos, ela troca as marcas de antes. "Nesse caso, não precisa deixar de consumir: é só baratear o próprio produto", explica.

O iogurte, por exemplo, foi um dos substituídos: saiu um fabricante importado cujo pote de 200 gramas custa R$ 32 –"uma fortuna!", exclama Marcella– por vários copinhos de uma conhecida marca nacional, cerca de R$ 2 cada. A mesma coisa com o suco de uva que, até alguns meses atrás também tinha rótulo certo, independente do custo.

"Mas o suco está com o preço do vinho agora", comenta ela. Na geladeira do hortifruti se vê, enorme, o valor de R$ 32. "Custava R$ 20 até alguns dias atrás!". A solução está logo ali: a bebida feita pelo próprio supermercado –e de sabor laranja, "que está saindo mais em conta". O preço, no dia em que conversou com a DW, estava em R$ 15.

Mas Marcella não abre não de comer alimentos saudáveis. "Antes de ser mãe, eu não tinha problema em comer ultraprocessados, mas agora não entram em casa de jeito nenhum", revela. É por isso que alguns itens permanecem na lista apesar de estarem bem mais caros. Além do leite integral, é o caso dos próprios orgânicos, por exemplo, que chegam à sua casa semanalmente.

Em janeiro, segundo o IPCA, só a cenoura disparou 36%, enquanto o tomate, 20%. A explicação, por ora, está nas safras. "Alimentos in natura são mais sensíveis às variações climáticas, e o verão é especialmente ruim nesse sentido, porque ou chove muito ou o calor é forte", explica Braz.

Na rotina apressada dela –e do marido–, comer fora não é trivial: acontece entre duas e três vezes por semana, principalmente por delivery.

Segundo a Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (FHORESP), essa chamada "alimentação fora do lar" subiu 6,29% em 2024. Uma taxa alta, mas ainda assim menor que a inflação dos alimentos em geral. "Às vezes, parada no trânsito, eu já vou pedindo alguma coisa ou até fazendo mercado."

Algumas estratégias de Marcella até se assemelham à de Luiz, da Vila Nova Cachoeirinha, e até às de Ionara, no Parque Santo Antônio. Com o primeiro, ela divide a ideia de adquirir embalagens grandes de produtos de limpeza– e até pelos mesmos motivos: rendimento e preço.

Uma diferença é que, no caso dela, a compra é feita por uma plataforma online, que também entrega no seu domicílio. O hábito, adquirido na pandemia, permaneceu. "Praticidade também não abro mão."

E como Ionara, Marcella tem a mesma estratégia de substituição de carne bovina por suína, mas na ordem do filé mignon, porque se o vermelho sai por R$ 127 o quilo –quase 8% de um salário mínimo–, o de porco custa menos de R$ 35, "e é tão saboroso e nutritivo quanto o outro", observa.

Bolsonaro consegue apoio de partidos para anistia, e governo Lula entra em alerta

Mônica Bergamo / Mônica Bergamo é jornalista e colunista / FOLHA DE SP

 

O governo Lula entrou em alerta com a informação de que Jair Bolsonaro (PL) já conseguiu apoio suficiente na Câmara dos Deputados para a aprovação de uma lei de anistia para atos golpistas.

VOTO A VOTO

O projeto precisa ser aprovado por 257 dos 513 parlamentares para virar lei. Lideranças do PT fazem cálculos de que o número já foi alcançado.

VOTO 3

Apoiadores de Bolsonaro afirmaram à coluna, no entanto, que ainda não têm segurança absoluta de que conseguiriam, hoje, aprovar a matéria com margem de segurança.

VOTO 4

Mas a maioria estaria próxima —eles teriam, hoje, 237 votos. Faltam, portanto, vinte para chegar ao piso mínimo.

VOTO 5

Para isso, faltaria atrair o apoio do Republicanos, presidido por Marcos Pereira. Bolsonaro, que já fez um périplo e conversou com o presidente do PSD, Gilberto Kassab, do PP, Ciro Nogueira, e do União Brasil, Antonio Rueda, pode se reunir com Pereira nos próximos dias para tratar do assunto.

VOTO 6

Caso o Republicanos garanta apoio de ao menos parte de sua bancada à proposta, o líder do PL, Sóstenes Cavalcante, deve propor que ela seja levada ao plenário nas próximas semanas.

VOTO 7

A base de Lula deve opor forte resistência.

A atriz e autora Martha Nowill lançou seu livro "Coisas Importantes Também Serão Esquecidas", na terça-feira (11), na Livraria Megafauna do Teatro Cultura Artística, em São Paulo. O evento contou com bate-papo mediado pela psicanalista e colunista da Folha Vera Iaconelli. Os convidados acompanharam leituras feitas pela atriz Regina Braga, pelo escritor e colunista da Folha Antonio Prata e pelo ator Paulinho Vilhena. O ator e marido da autora, Luiz Braga, também passou por lá.

com KARINA MATIAS, LAURA INTRIERI MANOELLA SMITH

Racha no PT se agrava e corrente de Lula ameaça lançar candidato alternativo a comando do partido

Por Vera Rosa / O ESTADÃO DE SP

 

 

BRASÍLIA – Desde 2002, quando foi eleito pela primeira vez para o Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não enfrenta uma rebelião no PT como agora. A crise foi deflagrada pela corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), majoritária no PT, porque uma ala desse grupo, que é o mesmo de Lula, não aceita Edinho Silva, nome indicado por ele para presidir o partido.

 

Ex-prefeito de Araraquara, Edinho conversou nesta terça-feira, 11, com a nova ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e com o senador Humberto Costa (PE), presidente interino do PT. Tenta construir uma aliança em torno de propostas para um partido menos belicoso, mas, diante das dificuldades, seus aliados querem antecipar a inscrição da candidatura para os próximos dias, com o objetivo de criar um fato consumado.

 

As eleições que vão renovar a cúpula do PT, com voto dos filiados, estão marcadas para 6 de julho, mas integrantes da corrente de Lula, Gleisi e do próprio Edinho têm lavado tanta roupa suja em público que a sigla CNB já é chamada nas fileiras do partido de “Construindo uma Nova Briga”.

 

Agora, há até mesmo denúncias de que os dois lados estão promovendo filiações em massa, com uso da máquina, para obter votos nas eleições de julho. De outubro do ano passado a 28 de fevereiro, houve 341 mil novas adesões ao PT, um crescimento de 13%. Hoje, o partido tem quase 3 milhões de filiados.

 

Por trás do racha existe a disputa pelo controle da tesouraria do PT. A soma dos fundos partidário e eleitoral da sigla está na casa dos R$ 700 milhões por ano.

 

Edinho não aceita que a secretária de Finanças, Gleide Andrade, pré-candidata a deputada federal, permaneça no cargo. Em 17 de fevereiro, o Diretório Nacional do PT aprovou, depois de muito bate-boca, uma mudança no estatuto para permitir a reeleição de parlamentares e dirigentes do partido que já tivessem exercido três mandatos consecutivos. A modificação foi apelidada de “emenda Gleide”, pois favorece a manutenção da atual tesoureira, guardiã do caixa.

 

O estopim da troca de alfinetadas ocorreu após a divulgação de que Lula participou de um jantar na casa de Gleisi Hoffmann, na última quinta-feira, 6. O cardápio foi a sucessão no PT. A portas fechadas, um seleto grupo de dirigentes do partido, todos da CNB, disse ao presidente que a candidatura de Edinho – apoiada pelo ex-ministro José Dirceu e pelo titular da Fazenda, Fernando Haddad, entre outros expoentes petistas – sofria inúmeras resistências.

 

Lula foi avisado, então, de que aquela ala da CNB procuraria um nome alternativo para a disputa. “Vamos acertar um candidato que unifique o PT e ajude o governo”, afirmou ao Estadão o deputado Jilmar Tatto (SP), secretário de Comunicação do PT, que estava naquele jantar.

 

O “vazamento” do encontro irritou Lula, que distribuiu broncas. O presidente não quer passar a imagem de um chefe do Executivo que virou refém da luta interna do PT. Além disso, está preocupado com as consequências da divisão em seu partido neste momento de acentuada queda de popularidade, quando tenta conquistar apoios para pôr de pé seu projeto de reeleição, em 2026. O próximo presidente do PT comandará a campanha de Lula ou de quem ele escolher como seu herdeiro político, no ano que vem.

 

Corrente divulga nota para pedir respeito a Lula

Na tentativa de amenizar a crise, a coordenação da CNB divulgou nesta terça-feira uma “nota de esclarecimento”, dizendo que Lula “merece respeito”. O texto destaca que o presidente foi convidado para participar da reunião na qual ficou definido que Humberto Costa assumiria um mandato-tampão no lugar de Gleisi até julho.

 

“Também foram feitas considerações sobre o perfil da futura direção, que seja capaz de conduzir o partido com unidade na defesa do governo Lula e das conquistas para a população, como foi durante toda a presidência de Gleisi Hoffmann”, assinala a nota. “Por toda a sua trajetória como fundador e maior liderança política do país e do PT, o presidente Lula é e sempre foi referência natural e absolutamente legítima nos processos internos do partido. Lula merece respeito”.

Durante o jantar na casa de Gleisi, porém, o presidente ouviu uma avalanche de críticas a Edinho. Alguns dirigentes disseram até mesmo que o ex-prefeito de Araraquara seria visto como representante de denunciados nos escândalos do mensalão e da Lava Jato.

 

Além da anfitriã e de Jilmar, estavam presentes Humberto Costa; o líder do PT na Câmara, José Guimarães (CE); o presidente da Fundação Perseu Abramo, Paulo Okamotto; o prefeito de Maricá (RJ), Washington Quaquá, e a secretária de Finanças do partido, Gleide Andrade.

Para Edinho, que também foi ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom) no governo Dilma Rousseff, Lula caiu numa “armadilha” ao comparecer àquele jantar. “Estou muito indignado”, disse o ex-prefeito de Araraquara. “É revoltante que uma reunião para construir a unidade tenha sido vazada como instrumento de luta interna.”

 

Na casa de Gleisi, Lula ponderou que nunca tinha visto um candidato a presidente do PT ser eleito por unanimidade. Defendeu Edinho, mas, de acordo com relatos, quis encerrar a polêmica e afirmou que toda decisão seria tomada em conjunto com a coordenação da CNB. “Nosso desafio é reeleger Lula e construir a unidade do partido. E vamos conseguir”, observou Humberto Costa.

 

Disputas de poder no PT não são episódios inéditos. Em 1994, antes da campanha presidencial, uma ala à esquerda, comandada por Rui Falcão (SP), hoje deputado federal, conseguiu derrotar o grupo de Lula e controlar a legenda. A diferença, agora, é que Lula ocupa a Presidência pela terceira vez e o confronto racha sua própria corrente, considerada o “centro” político do partido.

 

 

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