Alta na violência reflete dificuldades de combater crimes contra mulher
Por Editorial / O GLOBO
A violência contra a mulher é um problema que tem se agravado, a despeito dos avanços na legislação, da ampliação de canais de denúncia e dos movimentos de conscientização. Mais de um terço das brasileiras (37,5%) diz ter sofrido algum tipo de violência — ainda que verbal — nos últimos 12 meses, segundo a pesquisa “Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil”, feita pelo Datafolha e divulgada na segunda-feira pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Das entrevistadas, 10,7% dizem ter sofrido abuso ou sido forçadas a manter relações sexuais. São os maiores percentuais desde o início do levantamento, em 2017.
É certo que o aumento nos casos pode refletir um ambiente mais aberto a denúncias, em que mais mulheres deixam de ter medo de revelar a realidade cruel a que estão submetidas. Mesmo assim, isso em nada muda a gravidade da situação. Apesar da rotina de agressões, quase metade das que sofreram violência não procurou ajuda. O recurso a uma instituição pública como a Delegacia da Mulher foi citado por apenas 14,2%.
Nove entre dez das mulheres que dizem ter sido vítimas de violência afirmam que a agressão ocorreu na presença de terceiros, como parentes, amigos ou, em 27% dos casos, diante dos próprios filhos. Como já ficou constatado noutros levantamentos, o ambiente doméstico costuma ser mais perigoso para as mulheres que as ruas. Os agressores mais comuns são cônjuges, namorados ou parceiros, representando 40% dos casos. Ex-companheiros são 27%. Crimes em que quase 70% dos autores pertencem ao círculo íntimo da vítima deveriam ser mais fáceis de coibir. Infelizmente não é o que tem acontecido.
Como as mulheres vítimas de violência convivem com o agressor dentro de casa ou em seu círculo próximo, as denúncias se tornam mais difíceis. Podem faltar provas, pode haver medo de represália, descrença na polícia, dependência econômica do agressor ou mesmo vergonha. Por isso o Estado tem obrigação de facilitar o acesso aos instrumentos legais. A mulher que pretende denunciar a agressão precisa de apoio. Já houve caso de vítima telefonando para a polícia para pedir pizza, numa tentativa desesperada de que os policiais entendessem (felizmente funcionou). Vítimas de violência precisam ser incentivadas a denunciar seus agressores, mas também precisam da garantia do Estado de que eles serão punidos e afastados do convívio familiar.
A cada rodada de estatísticas, a cada pesquisa, fica evidente que apenas endurecer a legislação, como o Brasil tem feito, não é suficiente para conter a epidemia de violência. Diariamente, milhares de mulheres são agredidas verbal ou fisicamente, quando não assassinadas, muitas vezes na frente dos filhos. Elas necessitam de ajuda para interromper essa rotina de terror. Se, por motivos compreensíveis, não vão até as autoridades, as autoridades devem encontrar meios de ir até elas.
Trump pressiona América Latina a endurecer guerra às drogas em meio à expansão de rotas e maior demanda global
Por Emanuelle Bordallo / O GLOBO
Eleito sob a promessa de impor lei e ordem aos Estados Unidos (e além), o presidente Donald Trumptem pressionado países da América Latina a endurecer a guerra às drogas no momento em que organizações criminosas turbinam suas atividades para atender à alta demanda na Europa e nos EUA, enquanto novos mercados na Ásia e na Oceania ganham força. Se nas décadas anteriores a preocupação de Washington se concentrava na Colômbia e no México, um estudo do Crisis Group publicado nesta terça-feira aponta uma reconfiguração do mapa regional, com a expansão de rotas para países antes ignorados pelo narcotráfico, mas que hoje são peças-chave do esquema.
Segundo o relatório, a política linha dura defendida pela Casa Branca tem produzido, nos últimos anos, mais violência na região e maior lucratividade para os cartéis, que repassam suas perdas aos consumidores e ampliam seus mercados mundo afora. Embora a caça aos chefões do narcotráfico tenha se notabilizado a partir dos anos 1980, tais operações não têm mais o mesmo impacto na cadeia como um todo, hoje muito mais sofisticada e menos verticalizada. Agora, facções transnacionais terceirizam as etapas a gangues menores, que veem na desigualdade socioeconômica da região uma janela de oportunidade para recrutar cada vez mais membros.
— Estamos profundamente preocupados com a retórica beligerante de Washington, principalmente porque as evidências apontam que essas medidas duras de repressão, especialmente prisões e extradições de líderes, criam vácuos dentro das organizações criminosas, que, após a disputa pelo poder, acabam se dividindo — analisa ao GLOBO Elizabeth Dickinson, analista sênior do Crisis Group e uma das autoras do estudo. — Hoje, como a cadeia de suprimentos do tráfico de drogas é muito fragmentada, as intervenções do Estado não afetam a capacidade de a droga transitar de um ponto a outro.
Novas rotas
A expansão das rotas de produção e distribuição no continente aumenta o desafio de combater os cartéis, que adaptaram o negócio para contornar as autoridades, diz o estudo — que entrevistou mais de 200 pessoas em cinco países da região, incluindo agentes de segurança e ex-membros de grupos criminosos.
Além da produção de cocaína, maconha e heroína, os grupos diversificaram suas atividades comercializando drogas sintéticas, como metanfetamina e fentanil, e adotando práticas como extorsão e sequestros. "Em vez de sindicatos hierárquicos que poderiam ser desmantelados quando seus líderes fossem identificados, o comércio funciona cada vez mais por meio de redes de fornecedores que subcontratam cada etapa da rota com operadores de nível inferior", aponta o documento.
No novo mapa regional, a maior parte da cocaína segue sendo cultivada na Colômbia, com presença também no Peru e na Bolívia e, em menor escala, na Guatemala, em Honduras e no sul do México. Os caminhos, no entanto, mudaram, explica o Crisis Group. Hoje, a principal rota para os EUA e a Europa passa pelo Pacífico, tornando países antes intocados pelo tráfico, como Costa Rica e Equador, em áreas de trânsito estratégicas.
O relatório revelou a progressão no valor do quilo da pasta-base de coca, usada na produção de cocaína, durante o tráfico. Segundo o Crisis Group, o material sai da Colômbia custando US$ 550, subindo para US$ 800 quando chega nas cidades fronteiriças do Equador e US$ 1 mil no porto equatoriano de Guayaquil, principal ponto de saída de drogas da América Latina para a Europa pela via marítima. Em 2021, o preço da cocaína após o refino no Equador era de US$ 2 mil por quilo, mas ao chegar na Europa Ocidental os valores podem alcançar US$ 40 mil.
Alta demanda
As transformações na cadeia acontecem no momento em que a demanda por drogas em mercados estrangeiros atinge níveis recordes, especialmente de cocaína na Europa (cujo consumo aumentou 60% na última década) e de fentanil nos EUA, aponta o relatório. Novos mercados também estão crescendo na Ásia e na Oceania, onde é possível praticar preços mais elevados, segundo o Crisis Group. O cenário levou o cultivo de cocaína na Colômbia a quadruplicar na última década, enquanto a sua produção global dobrou.
O aumento do consumo também é um problema local. Na América Latina, o uso de narcóticos dobrou entre 1990 e 2010. Segundo um levantamento da Organização dos Estados Americanos (OEA) de 2019, o consumo de cocaína aumentou em quase metade dos países latino-americanos, enquanto o de metanfetamina disparou no México, principal produtor da droga no mundo.
Ameaça intervencionista
Desde que retornou à Casa Branca em janeiro, Trump ameaçou impor tarifas a países vizinhos que não agissem para conter o narcotráfico, sobretudo de fentanil, e assinou decretos que abrem margem para ações militares diretas de Washington em países latino-americanos.
Uma das medidas mais simbólicas foi a designação de oito grupos da região como terroristas, entre eles os poderosos cartéis mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nova Geração, o venezuelano Trem de Aragua e o colombiano Clã do Golfo — rompendo com uma tradição dos EUA, que geralmente aplica o título a grupos que, como o Estado Islâmico (EI), usam a violência como arma política, não para fins lucrativos. Embora as penalidades sejam sobretudo econômicas, no passado tal rótulo foi um primeiro passo para justificar operações no Afeganistão e na Síria.
Em janeiro, Trump deixou em aberto se a classificação como dos cartéis mexicanos como terroristas implicaria uma invasão ao território mexicano, enquanto aliados republicanos vêm defendendo intervenções militares. Recentemente, o bilionário Elon Musk, à frente do Departamento de Eficiência Governamental (Doge, em inglês), disse que os grupos estariam "elegíveis a ataques de drones".
Até o momento, no entanto, o combate a narcotraficantes na América Latina tem acontecido em parceria com governos locais, a exemplo da Colômbia e do México, que mantêm acordos com os EUA há décadas. Mesmo no Brasil há casos de colaborações. No mês passado, veio a público que o governo do Rio de Janeiro está articulando com os EUA para que o Comando Vermelho (CV) seja classificado como organização terrorista, em meio às negociações de um acordo de cooperação.
Alternativas
De acordo com o Crisis Group, grande parte das medidas de pulso firme adotadas na América Latina desde que os EUA capitanearam a guerra às drogas no mundo, nos anos 1960, se mostraram ineficazes. No campo retórico, porém, elas angariam apoio de muitos setores populares.
— Os eleitores latino-americanos estão muito preocupados com o crime organizado, então apoiam essas estratégias mais duras — explica Dickinson. — Mas essa repressão vem junto com a falsa narrativa de que isso limitará de alguma forma a sua influência e o nível de violência que exercem na população.
De acordo com o estudo, a "maior aplicação da lei, mais apreensões e uma proibição mais forte tendem a aumentar o preço das drogas e, assim, elevar os lucros dos traficantes". Segundo o Crisis Group, táticas como capturar chefões do tráfico e exterminar plantações tornaram as redes de tráfico de drogas mais fortes e dispersas geograficamente. "Onde antes havia cadeias de suprimentos verticais e cartéis dominantes, agora há uma série de criminosos competindo violentamente entre si ou em conluio lucrativo uns com os outros", explica a organização.
— Não existe uma cura única para o ecossistema criminoso transbordante da América Latina, embora as experiências passadas sejam prova do que não funcionou — afirma Renata Segura, diretora do programa de América Latina e Caribe no Crisis Group e também autora do estudo. — A repressão militar e as prisões de alto nível geram vitórias de curto prazo, mas sempre alimentam novas ondas de violência e levam a reconfigurações das estruturas criminosas.
Para Dickinson, "não há bala de prata" para resolver a questão: — A alternativa é uma combinação de intervenções que realmente se concentrem na redução da violência, melhor policiamento e, em alguns casos, até mesmo o diálogo com grupos criminosos.
Em 2024, a ONU apontou um crescimento no consumo de drogas de modo geral, com 292 milhões de pessoas assumindo ter feito uso de narcóticos no ano anterior.
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A incerteza e seu efeito na economia
Por Míriam Leitão / O GLOBO
A incerteza é mais forte que a política monetária e a política fiscal para reduzir o ritmo de atividade. Subir juros e cortar gastos têm menos efeito do que a incerteza gerada diariamente pelo governo de Donald Trump. Isso está produzindo queda de investimento e de atividade econômica nos Estados Unidos. O cenário de recessão americana não é considerado o mais provável, mas o fato é que as tarifas, mesmo não estando em vigor, já surtem efeito econômico. Foi o que me disseram dois economistas que ouvi ontem, no governo e no mercado financeiro. Diante disso, o que o Brasil pode fazer? "Não criar mais ruído. A hora é de não aprontar confusão, porque o mundo ficou mais complicado”, me disse um deles.
O dólar subiu ontem diante do real e de outras 27 moedas. É a volatilidade que impressiona. No último trimestre do ano passado, o real se desvalorizou em 14% e este ano se valorizou em 6%. Gangorra. Há percepção negativa sobre algumas políticas da gestão Lula, ou temores sobre mudanças de rumo, mas há principalmente um mar de dúvida em relação ao governo Trump. E isso nos afeta.
A incerteza tem impacto econômico porque ela produz paralisia decisória. Investimentos que seriam feitos, não são feitos, empregos não são gerados, impostos não são recolhidos, atividade econômica não acontece. Essa é a realidade hoje em um mundo em que o governante da maior economia é um fator diário de turbulência.
Donald Trump criou um enredo para as taxas que, mesmo não estando em vigor para o México e o Canadá, pairam sobre as decisões empresariais e afetam relações políticas. O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, decidiu elevar em 25% o custo da energia que fornece para Minnesota, Michigan e Nova York. O custo da energia pode ser pouco afetado, porque há outros fornecedores competindo no mercado à vista, contudo aumenta a animosidade.
No Brasil, as análises feitas tanto no mercado financeiro, quanto na área econômica mostram que tudo ficou mais difícil porque “o sistema de governança do país pifou”. Em outras palavras: o governo distribui cargos para os partidos, mas isso não se transforma em apoio na agenda. Os parlamentares têm liberdade sobre o Orçamento, porém não têm responsabilidade. O governo tem que fazer superávit, mas não pode cortar gasto tributário, nem pode aumentar impostos.
No Banco Central, o que se espera é que, no Brasil, apesar da alta das taxas de juros, haja “uma desaceleração ordenada, compatível com o nível de restrição da política monetária e com a desaceleração fiscal”. Ou seja, o país vai diminuir o crescimento, mas não vai entrar em recessão. Há um outro fator que parecia uma desvantagem e pode ajudar agora. O país não foi bem-sucedido em se integrar às novas cadeias produtivas, reorganizadas depois da pandemia. Desta forma, a crise das tarifas nos atingirá apenas setorialmente.
Para o Brasil, que sediará a COP 30, o governo Trump é um fator altamente desestabilizador. Ontem, na primeira carta que divulgou como presidente da Conferência das Partes, o embaixador brasileiro André Corrêa do Lago não mencionou o seu maior problema: a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris. Mas a situação será ainda mais constrangedora, porque o governo norte-americano participará da COP30. Após o anúncio de saída, o país permanece por mais um ano. Isso significa que um representante de Trump, já fora do acordo, pode estar em Belém.
Na carta, Corrêa do Lago lembra a dimensão econômica do risco ambiental. “O Conselho de Estabilidade Financeira — a organização internacional que monitora e recomenda políticas para o sistema financeiro global —informou em janeiro passado que os choques climáticos podem ameaçar a estabilidade financeira do mundo”, escreveu o embaixador. Além de todos os riscos que a mudança do clima representa, é também uma ameaça financeira.
O governo Trump produz incerteza na economia, nos rumos da geopolítica, nos debates sobre o combate às mudanças climáticas. Em ambiente assim tão deteriorado, o melhor seria não ter dúvidas internas. Mas há. O governo, na busca de melhores níveis de popularidade, pode tomar decisões para reativar a economia que o Banco Central tenta desaquecer de forma ordenada para garantir a queda da inflação. No mundo e no Brasil, o que há é muita incerteza.
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Para onde o vento sopra?
Por Merval Pereira / O GLOBO
Escolher Gleisi Hoffmann como ministra da Secretaria de Relações Institucionais, a esta altura do campeonato, é decisão de posicionamento do presidente Lula. Escolher Edinho Silva para assumir a presidência do PT em lugar de Gleisi indica o oposto. Por isso as diversas facções internas do petismo estão em guerra. Embora garanta que foi escolhida porque pode negociar com os demais partidos, ela não é conhecida pela habilidade de negociadora.
Ao contrário, é uma negociadora dura, inflexível, que pode ser considerada boa para o PT, mas não para um governo de amplo espectro político. É difícil ver a nomeação de Gleisi como avanço para um governo mais amplo, de coalizão nacional. Se o grupo de Gleisi não aceita a indicação de Edinho para a presidência do PT, ele sim, considerado um negociador moderado, por que ela seria avaliada como negociadora capaz de unir em torno de Lula facções partidárias distintas, ampliando a base política do governo?
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, deve estar preocupado, pois foi alvo de críticas de Gleisi quando mais precisava de apoio político. Provavelmente ela não falará mais em público contra ele, mas não pode ter mudado de opinião só porque foi nomeada ministra. Dentro do governo, trabalhará contra suas ideias econômicas. Não precisa ser nada de pessoal, mas é uma pedra no sapato do ministro que pode vir a ser um substituto de Lula na campanha presidencial de 2026. Talvez por isso mesmo.
É uma situação delicada para o governo mantê-la como principal negociadora, tendo as posições que tem. Interessante que Alexandre Padilha, sendo, ele também, um negociador flexível, não teve vida boa com o Centrão, especialmente quando o presidente da Câmara era Arthur Lira. Foi para a Saúde, de onde viera, sem demonstrar habilidade para superar os obstáculos que a maioria oposicionista colocou no caminho do governo. Saberá Gleisi enfrentar um Congresso hostil sem aumentar o grau de fricção com a oposição?
Há indicações de que o PT só conseguiu apoio parlamentar nos dois primeiros governos Lula comprando literalmente esse apoio. Hoje, as emendas, que já foram moeda de troca eficiente, são impositivas, e o Congresso não precisa mais de governo nenhum para pôr a mão nos R$ 50 bilhões que lhe são de direito devido a manobras legislativas que escantearam o Executivo da intermediação.
A briga dentro do PT ainda está grande. Edinho, escolhido de Lula para presidir o partido, sofre pressão interna do grupo de Gleisi contra ele. A escolha de Lula pela ala mais dura e agressiva do PT para a negociação política indica algo. Não dá para entender de outra maneira, que não seja como fritura de Haddad para mudança na economia. Está demonstrado que o governo partirá para uma política desenvolvimentista, na tentativa de que o crescimento do PIB amorteça a inflação. Mas todos temem que aconteça o contrário.
A briga interna do PT foi revelada pelo vazamento de conversas entre as diversas facções na casa de Gleisi, para supostamente acertar os ponteiros. Soube-se depois, para desgosto de Edinho, que a reunião marcou a dissidência da maior facção petista, a Construindo um Novo Brasil. Edinho considerou que ele e Lula foram levados a uma armadilha pelos adversários da sua indicação, mas Lula não tentou apaziguar os ânimos. Só ouviu. Aguarda-se o que acontecerá, pois historicamente as decisões de Lula dentro do PT nunca foram questionadas.
O enigma do momento é entender se a escolha de Gleisi por Lula significa a guinada à esquerda que muitos temem, ou se ele imporá o nome de Edinho, bloqueando a ala mais radical que não quer o ex-prefeito dirigindo a legenda. A posse de Gleisi ontem teve discursos moderados e a indicação por parte dela de apoio às prioridades do ministro da Fazenda. Daí à realidade do cotidiano, no entanto, vai uma diferença que determinará o lado para onde os ventos lulistas soprarão.
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Chance de faculdade para jovem de classe média-alta é mais que triplo da registrada por pobre
Leonardo Vieceli / FOLHA DE SP
A probabilidade de um jovem de classe média-alta cruzar a barreira do ensino médio e ingressar em uma universidade é mais que o triplo da registrada por um filho de uma família pobre no Brasil. A conclusão é de um estudo de pesquisadores da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).
Para analisar o tema, o levantamento comparou dados dos jovens das famílias 20% mais ricas do país, que envolvem as classes média e alta, com estatísticas das 20% mais pobres.
O estudo leva em consideração brasileiros da mesma faixa etária (18 a 24 anos) que estavam na condição de filhos em seus domicílios e que já haviam concluído o ensino médio. O que muda entre eles é a faixa de renda domiciliar per capita (por pessoa), considerada uma "origem social" pelo estudo.
A partir da divisão dessa população por rendimento, o levantamento segue um modelo estatístico que calcula as possibilidades de cada grupo ingressar na graduação.
Em 2022, período mais recente analisado, a probabilidade de entrada no ensino superior dos jovens das famílias 20% mais ricas era 3,4 vezes maior do que a dos 20% mais pobres.
"É um número muito grande, é mais do que o triplo", diz André Salata, coordenador do laboratório de estudos PUCRS Data Social. O pesquisador também está à frente do levantamento.
"O que explica [a diferença] é justamente a origem. Os jovens das famílias de cima [da distribuição de renda] têm muito mais recursos econômicos e culturais do que os jovens que vêm de baixo. Isso tem uma influência muito grande", afirma.
Em média, o rendimento per capita das famílias 20% mais pobres estava próximo a R$ 267 por mês em 2022. Em igual período, a renda era de quase R$ 3.762 por pessoa entre os 20% mais ricos, também em média.
O segundo grupo, contudo, não reunia apenas famílias com supersalários. Para se ter uma ideia, as 20% mais ricas tinham rendimento que variava de R$ 1.851 a R$ 37.470.
De acordo com Salata, diferentes motivos explicam as barreiras no acesso às universidades para os jovens pobres que conseguem concluir o ensino médio.
Todos os fatores, diz, têm alguma relação com a origem social, incluindo restrição de renda, necessidade de trabalhar e nível de escolaridade dos pais.
"Se você vem de um meio social em que não é familiar lidar com pessoas que têm ensino superior, muitas vezes você nem pretende fazer o ensino superior", afirma.
Democratização perde força
O pesquisador chama a atenção para o comportamento dos dados ao longo da série histórica.
Conforme o estudo, após uma tendência de democratização no acesso ao ensino superior a partir do início dos anos 2000, esse processo passou por uma espécie de estagnação ou até piora, dependendo do recorte, nos últimos anos.
Por exemplo: a probabilidade de os jovens 20% mais ricos ingressarem na universidade era equivalente a 4,2 vezes a dos 20% mais pobres em 2004. Essa vantagem chegou a baixar para 2,5 vezes em 2012. A disparidade, contudo, subiu a 3,4 no período mais recente (2022).
Um cenário similar, segundo o estudo, foi visto quando outras duas variáveis de origem social foram testadas nos cálculos de probabilidade.
Uma das variáveis é a escolaridade dos pais. Nesse recorte, a probabilidade de acesso ao ensino superior era 3,9 vezes maior em 2003 para os jovens cujos responsáveis tinham ensino superior, na comparação com os jovens cujos responsáveis possuíam apenas os anos iniciais do ensino fundamental. Essa disparidade chegou a cair para 2,4 vezes em 2014, antes de alcançar 2,9 em 2022.
A outra variável de origem social considera o perfil da ocupação dos pais dos jovens.
Em 2002, a probabilidade de ingressar na faculdade era 5,8 vezes maior para os filhos de profissionais com qualificação de nível superior, na comparação com os filhos de trabalhadores manuais menos qualificados. Essa relação chegou a baixar a 2,4 e a 2,3 com o passar dos anos, mas fechou 2022 em 2,6.
"O que a gente observa é que houve uma redução da desigualdade de ingresso no ensino superior a partir do começo do século até aproximadamente 2015. Depois, o processo se interrompeu", diz Salata.
Na visão dele, a redução das desigualdades a partir do início dos anos 2000 esteve associada a um contexto "muito específico".
Nesse sentido, o pesquisador cita a forte expansão do ensino superior, o fortalecimento de políticas voltadas à democratização nas universidades e a redução de desigualdades econômicas entre os estratos sociais.
Em 2025, Salata diz não apostar em uma grande reversão do quadro de estagnação dos últimos anos.
"A gente não está tendo uma queda significativa da desigualdade como teve anteriormente, e o ritmo de expansão do ensino superior está mais lento."
O estudo foi publicado na revista acadêmica Dados, voltada para a área de ciências sociais. O artigo usa informações do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) como base. Há resultados desde 1992.
Naquele ano, os jovens das famílias 20% mais ricas tinham uma probabilidade de ingresso no ensino superior que correspondia a 1,7 vez a do grupo 20% mais pobre. O patamar era inferior ao de 2022 (3,4 vezes), mas não significava uma situação melhor, pondera Salata.
É que, no início da década de 1990, havia mais barreiras para a conclusão do estágio anterior do sistema educacional, o ensino médio, conforme o pesquisador. Com isso, a concorrência estava menor no nível superior à época, acrescenta.
Dados do Censo Demográfico divulgados em fevereiro pelo IBGE apontaram que a parcela da população de 25 anos ou mais com graduação concluída quase triplicou no Brasil em 22 anos.
Passou de 6,8% em 2000 para 18,4% em 2022. O percentual, contudo, ainda é inferior ao das pessoas sem instrução ou com fundamental incompleto (35,2%).

Estadão Analisa com Carlos Andreazza: “Lula sem choradeira”
No “Estadão Analisa” desta segunda-feira, 10, Carlos Andreazza fala sobre as trocas de ministros que tornam mais penosa a segunda etapa da reforma ministerial, quando o governo precisará agradar a aliados centristas.
Quando, no fim de dezembro, reuniu seus ministros no Palácio da Alvorada e admitiu que faria mudanças no primeiro escalão, o presidente Lula da Silva deflagrou um processo no qual poderia escolher entre dois caminhos prováveis: um muito difícil e o outro ainda pior.
Realizá-las de uma só vez ou fatiá-las, trocar ministros em profusão ou optar por trocas pontuais, pouco importa – tempos difíceis se avizinhavam para uma reforma anunciada como tábua de salvação de um governo sem rumo e sem ideias.
Afinal, reformas ministeriais costumam dar dor de cabeça a quem as promove, em razão da complexa tarefa de acomodar novos e antigos aliados, redistribuir cargos e orçamentos, recuperar ou adquirir musculatura política para aprovar agendas prioritárias ou preparar a coalizão para a próxima disputa.
No atual estágio de Lula da Silva, a essas dificuldades seriam acrescidas outras, como a ineficiência do Ministério e a impopularidade do governo e do presidente, agravando ainda mais o que já é difícil.
Sobre o programa
Acompanhe Estadão Analisa com o colunista Carlos Andreazza, de segunda a sexta-feira às 7h, com uma curadoria dos temas mais relevantes do noticiário.

