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Uma usina de bônus

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Em janeiro, a energia elétrica ficou 14,21% mais barata graças ao bônus de R$ 1,3 bilhão na energia gerada pela hidrelétrica de Itaipu em 2023, incorporado com atraso como desconto aos consumidores nas contas de luz. Foi uma queda pontual, mas produziu efeito imediato no IPCA, que subiu apenas 0,16% naquele mês. Agora em março, um decreto assinado por Lula da Silva suspendeu o aumento tarifário de 6% que seria necessário para compensar um saldo negativo milionário na conta de comercialização da usina binacional em 2024.

 

E assim o governo tenta tourear aumentos no custo da energia de Itaipu com potencial para desencadear pressões inflacionárias em série na economia. Mas o faz de forma quase improvisada, tirando de um lado para cobrir outro. O decreto de Lula que autoriza a criação e o uso de um saldo financeiro para Itaipu foi baixado para cumprir exigência da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que espera, desde o fim do ano passado, solução para uma conta que se sabia que não fecharia.

 

Fosse um governo corajoso, não teria pagado o bônus que reduziu as contas de janeiro e teria usado o valor para evitar o reajuste previsto para março. Por isso, o escarcéu lulopetista em torno do decreto de Itaipu soa despropositado. Gleisi Hoffmann, a nova ministra da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), correu às redes sociais para exaltar a medida, afirmando que Itaipu está contribuindo para reduzir custos para o comércio, a indústria e as famílias.

 

Na verdade, o governo não tem encontrado uma solução definitiva para Itaipu, uma usina administrada e operada em conjunto com o governo do Paraguai. Apenas adota soluções paliativas, como, aliás, tem feito em relação a tudo o que se refere à questão inflacionária. O freio da inflação em janeiro, obtido pela queda no custo da energia com o bônus de Itaipu, com certeza será revertido em fevereiro. A taxa do mês será divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no dia 12, mas a forte alta de 1,23% do IPCA-15 do mês – espécie de prévia da taxa mensal – já é suficiente para mostrar que o alívio do mês anterior foi de fato um ponto fora da curva.

 

Os preços, especialmente dos alimentos, continuam pressionados, e uma eventual alta no custo da energia elétrica intensificaria ainda mais a inflação. Descontos pontuais como o do bônus distribuído em janeiro, ou o represamento do reajuste de março, têm fôlego curto na formação da inflação. No caso da energia elétrica, é preciso haver medidas definitivas, como, por exemplo, uma revisão arrojada de todos os penduricalhos incorporados às contas de luz, alguns apenas para atender a interesses políticos e cartoriais.

 

O decreto de Itaipu permite criar uma reserva técnica financeira formada a partir do uso de parte dos bônus tarifários para atenuar reajustes de tarifa de uma usina que quitou, em 2023, todo o seu custo de construção ao longo de cinco décadas, algo em torno de US$ 13 bilhões.

 

Deveria, portanto, estar em fase de redução natural de custos.

Secretária do PT diz que Cultura deu aval a uso de programa de R$ 58 milhões em campanhas

Por Vinícius Valfré / O ESTADÃO DE SP

 

A secretária nacional de Mulheres do PT, Anne Moura, afirmou que comitês de cultura criados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pela ministra da Cultura, Margareth Menezes, foram usados para eleger aliados em 2024 com o aval da cúpula da pasta e que “quem foi para a frente da prisão” precisa ter atendimento diferenciado na hora da “parte boa”. Criado em setembro de 2023, o Programa Nacional de Comitês de Cultura (PNCC) vai custar R$ 58,8 milhões até o final deste ano com ações de mobilização, apoio e formação de artistas. É uma das principais iniciativas da pasta e foi anunciada por Lula ainda na pré-campanha de 2022.

 

As declarações da secretária, que tem base em Manaus (AM), são de setembro do ano passado, em uma reunião com o ex-chefe do comitê do Amazonas, Marcos Rodrigues. Eles romperam politicamente no fim do ano. A conversa foi gravada e registrada em cartório. O Estadão teve acesso ao conteúdo.

Em nota, Anne Moura afirmou que os questionamentos dela à atuação do ex-presidente da entidade cultural “podem estar sendo reproduzidos fora de seu contexto” e que o ex-aliado tenta macular a imagem dela. O Ministério da Cultura afirmou que relato sobre atuação de servidores da pasta é inverídico e informou que o comitê do Amazonas teve atividades suspensas e recursos bloqueados temporariamente para apuração de possíveis irregularidades (leia mais abaixo).

No encontro gravado pelo ex-aliado, Anne Moura exigiu que Marcos Rodrigues envolvesse a estrutura do comitê na campanha dela a vereadora de Manaus – na qual acabou derrotada – e afirmou que a falta de empenho do comitê amazonense na política foi classificada como “um absurdo” pela secretária do MinC que cuida do PNCC, Roberta Martins, do PT do Rio de Janeiro.

Na gravação, ela também aparece reclamando de o comitê escolher artistas para atividades “sem combinar na política quem são os artistas parceiros” e disse que levou sua insatisfação ao conhecimento do secretário-executivo da pasta, Márcio Tavares. Número 2 de Margareth Menezes no ministério, antes de assumir o cargo ele era o secretário nacional de Cultura do PT, cargo do mesmo nível hierárquico do de Anne na estrutura do partido.

“Marcos, quando eu fui lá no MinC agora, da última vez, o pessoal me perguntou: ‘Anne, o comitê tá te ajudando?’ Eu disse: não, Roberta, não tá. Ela tava na sede do PT, na reunião e perguntou: ‘o comitê tá te ajudando? Porque nos outros lugares está tudo ajudando’. Porque eu fui pedir dinheiro também, tô pedindo ajuda para ganhar a eleição. Aí ela disse: o comitê tá te ajudando com alguma coisa nas agendas, nas atividades? O comitê não pode te dar dinheiro, mas eles podem promover atividade para te ajudar. Eles estão te ajudando?’. Eu disse: ‘Roberta, deixa eu falar uma coisa para ti. Temos acordos que não foram cumpridos. E depois que as pessoas sentaram na cadeira pagaram de doidos. Eu decidi que não vou me estressar com isso agora. Eu preciso ganhar a eleição. Então se tu puder me ajudar agora, daqui, na articulação tua e do Márcio, eu te agradeço. Depois, quero sentar e conversar com você sobre isso’”.

O PNCC contrata entidades culturais para receber verba pública e coordenar as ações e atividades de fomento à cultura nos Estados. Como revelou o Estadão, a iniciativa beneficia militantes do PT e ONGs (Organizações Não Governamentais) ligadas a dois assessores do próprio ministério.

No Amazonas, o governo selecionou para coordenação o Instituto de Articulação de Juventude da Amazônia (Iaja), ONG que tem Anne Moura como uma de suas fundadoras e tinha como uns dos diretores Ruan Octávio da Silva Rodrigues (PT). Para coordenar o comitê, o Iaja vai receber R$ 1,9 milhão em dois anos. Militante do PT, Ruan Octávio é aliado dela em Manaus e hoje coordena no Amazonas o escritório do MinC.

O ministério afirma que as seleções das ONGs coordenadoras dos comitês de cultura se deram com base na capacidade técnica e na qualificação profissional dos contemplados. Na gravações, as declarações de Anne Moura, entretanto, indicam influência política e partidária dela na escolha. Segundo afirmou Anne Moura a Marcos Rodrigues, a aprovação do Iaja no Amazonas se deu por pressão dela mesma.

”Eu disse [para Roberta]: ‘pois é. Eu não sou de levar problema. E eu tô batalhando a minha batalha. Quando acabar, vou vir aqui, com o coordenador, com todo mundo que precisa ser respaldado. E eu quero pedir que vocês vão lá no Amazonas para botar cada um no seu lugar. Quero que tu diga da tua boca que fui eu que vim aqui pedir para ser aprovado o Iaja. Eu quero que você fale para eles lá. Porque as pessoas estão o tempo todo dizendo que não foi (...) Ela disse: ‘Isso é um absurdo, Anne. A gente faz política. Isso é um absurdo’. Pois, é. ‘Eu quero te pedir esse favor’.

Ela disse: ‘a hora que você me ligar eu vou até o Amazonas e converso com o comitê. A gente não faz coisa solta não. A gente não faz isso’. Aí ela me mostrou os mapas dos comitês. ‘Os comitês, aqui, ó, no Brasil todo, tão articulados com nosso povo. Isso aqui foi uma estratégia organizada com o presidente Lula. A principal pauta que a gente levantou, através da própria Janja... por isso que o Márcio é executivo do ministério, e é inaceitável que isso esteja acontecendo’. Eu chorei, ela chorou.”

Em outro trecho da conversa gravada, a secretária nacional de Mulheres do PT ameaçou uma intervenção no órgão federal de cultura no Amazonas por causa do protagonismo de André Guimarães, assessor de projetos do comitê de cultura amazonense e militante do PSOL. Ela também manifestou indignação pela não predileção por “artistas parceiros escolhidos na política” e com a participação de Wanda Witoto (Rede) em um ato público do comitê. Ambas disputavam parte de um mesmo eleitorado no pleito municipal.

”Mas independente do resultado, nós vamos sentar e fazer um freio de arrumação. O comitê não é do André, Marcos. Mas hoje toda a cidade de Manaus está dizendo que o comitê é do André, embora quem coordene a instituição seja nós. (...) Quero descer o ministério aqui, pessoas que são meus amigos do peito uma vida toda. Quero que cheguem e digam para o André o que é e o que não é. Sabe por que, Marcos? Não quero que o comitê deixe de fazer o que tá fazendo, porque eu acompanho. Tá legal. Mas o comitê dar o microfone na mão da Wanda para ela falar e dizer que isso não tem a ver com a política? (Anne, mas o comitê não deu o microfone...) Vocês escolherem artistas sem combinar na política quem são os artistas parceiros....”.

Anne recebeu R$ 428,4 mil do PT para a campanha e conseguiu 2.399 votos. Wanda recebeu R$ 396 mil da Rede e obteve 8.374 votos, número de apoios que superou o de 19 dos 41 vereadores eleitos, mas ela não venceu por causa da somatória necessária na chapa proporcional. O parlamentar eleito com a menor votação teve 3.466 votos.

Para Anne Moura, ainda na gravação, o foco da política pública do comitê de cultura deveria ser os aliados do PT por uma espécie de retribuição pelo que os correligionários fizeram em defesa de Lula e do partido no período em que o atual presidente esteve preso cumprindo pena da Operação Lava Jato – todas as condenações foram derrubadas depois que restou demonstrada a parcialidade do juiz do caso e erros na condução dos processos.

”Mas é o seguinte, Marcos: quem foi lá para frente da prisão gritar de manhã, de tarde e de noite para defender o Lula fomos nós. Nós que sofremos sendo chamados de ‘ladrão’, todo mundo virou as costas para nós nos movimentos sociais. E a gente lá ‘somos do PT, vamos resistir, vamos não sei o quê…’. E agora, chega na parte boa, a gente vai ficar olhando as coisas acontecendo? Não vamos ter nenhuma opinião política nesse processo? Tudo tá de pé pela política. Só tem comitê porque tem Lula. E só tem Lula porque tem base, que somos nós. É inaceitável o que tá acontecendo, mas eu vou lutar uma luta de cada vez.”

Comitê ignorou orientação do MinC e fez campanha para dirigente do PT

Apesar das queixas de Anne Moura sobre a falta de “ajuda” do comitê de cultura, o órgão endossou a candidatura dela em postagens nas redes sociais. O perfil oficial do comitê republicou peças de campanha da secretária nacional do do PT.

A iniciativa descumpriu uma orientação expressa enviada pela diretora de articulação e governança da pasta, Desiree Tozi. O documento, datado de 17 de julho, afirmava que todos os comitês e entidades parceiras deveriam publicar conteúdos de “caráter exclusivamente educativo, informativo ou de orientação social”.

Estavam proibidos “nomes, símbolos ou imagens” que demonstrassem “preferências político-partidárias” ou caracterizassem “promoção pessoal de autoridades, servidores candidatos ou pré-candidatos”.

Marcos Rodrigues foi desligado da presidência do Iaja em dezembro de 2024, depois de cerca de quatro anos na entidade. A relação já vinha estremecida e foi rompida de vez com a demissão. Ao ser retirado, ele acusou Anne Moura de usar a estrutura para um projeto político-pessoal.

Anne Moura, por outro lado, afirmou ter sido vítima de calúnia e difamação. Também alega ter sofrido ameaças virtuais praticadas por Marcos Rodrigues porque ele teve “interesses contrariados”. A briga entre ambos resultou em um racha em grupos e movimentos à esquerda no Amazonas.

Procurada para comentar o teor das declarações que aparecem na gravação, a secretária do PT afirmou que desconhece o teor e que os questionamentos feitos por ela “podem estar sendo reproduzidos fora de seu contexto”. Ela evitou ponderar afirmações específicas que lhe foram apresentadas. Na manifestação, por escrito, disse lamentar a atitude do ex-presidente do Iaja e que ele tem como objetivo macular a imagem e a trajetória dela por motivações pessoais.

“Estou muito tranquila e à vontade para prestar quaisquer tipos de esclarecimentos aos órgãos competentes; tenho mais de 20 anos dedicados à luta do povo e nunca estive ligada a prática de nenhuma ilicitude”, frisou.

Ela não comentou as publicações de cunho eleitoral na página do comitê. A atual presidente do Iaja, Samara Pantoja, disse desconhecer o compartilhamento do material de campanha da secretária do PT durante as eleições de Manaus.

Ministério da Cultura diz que conversa nunca ocorreu e que paralisou comitê

O Ministério da Cultura afirmou ao Estadão que, ao contrário do que aparece na gravação, Anne Moura não teve conversas com servidores do ministério e que ela não tem relação com a escolha da ONG Iaja para coordenar o comitê de cultura no Amazonas.

Em nota, destacou que a secretária do PT “não é membro do comitê do Amazonas, nunca integrou sua equipe e não participou de qualquer processo relacionado ao Ministério da Cultura ou à seleção do edital de projetos”.

Entretanto, ao ressaltar que Anne Moura não atua formalmente no comitê, o ministério desprezou vínculos políticos e partidários dela. Como já demonstrou o Estadão, Anne Moura é fundadora do Iaja, participa de atividades e exerce influência sobre a ONG escolhida para liderar as ações culturais no Amazonas. Além disso, o coordenador do escritório do ministério no Amazonas, Ruan Octávio (PT), é aliado dela, foi diretor do Iaja antes de assumir o cargo e atuou para eleger Anne Moura em 2024.

Ele virou coordenador regional do ministério em substituição a Michelle Andrews, que deixou o posto para concorrer a uma vaga na Câmara de Manaus pelo PCdoB, partido que formou federação com PT e PV. Portanto, as candidaturas de Anne e Michelle “se ajudavam”. Nenhuma foi eleita.

A pasta destacou também que os comitês são instruídos de forma “clara e expressa” a não se envolverem com processos e campanhas eleitorais e que a declaração de Anne Moura, na gravação, sobre a falta de apoio do comitê seria uma prova da conduta técnica. Entretanto, o ex-presidente do Iaja, que por anos foi aliado de Anne Moura, afirma exatamente o contrário, que o comitê e a ONG eram orientados a trabalhar em benefício do grupo político dela.

O ministério não fez observações sobre as publicações do material de campanha de Anne Moura na página do comitê.

Diante de denúncias do ex-presidente da ONG e da análise de um relatório parcial de atividades, o Ministério da Cultura abriu uma apuração sobre os trabalhos, em fevereiro. No início deste mês, decidiu pela suspensão temporária das atividades e pelo bloqueio dos recursos enquanto a investigação transcorre.

“Medidas serão tomadas nos próximos dias com o objetivo de assegurar a transparência e a boa gestão dos recursos públicos, além de garantir que as atividades do comitê ocorram de forma impessoal, eficaz e eficiente”, ressaltou a pasta.

Sobre a alegação de Anne Moura, segundo a qual os comitês precisam contemplar “artistas parceiros combinados na política”, o ministério disse somente que “a seleção dos grupos culturais para projetos é realizada de forma autônoma pelos comitês estaduais, respeitando a diversidade cultural de cada território e as especificidades regionais”.

Comitês são promessa de campanha de Lula e citados em discurso da vitória

O presidente Lula anunciou que instituiria comitês de cultura nos Estados ainda durante a pré-campanha eleitoral de 2022. “A gente não vai apenas recriar o Ministério da Cultura. A minha ideia é criar comitês culturais em todos os Estados do País para que a gente possa democratizar o acesso à cultura e a participação social”, disse, em junho do ano da disputa presidencial.

Depois de ter sido eleito em vitória sobre Jair Bolsonaro (PL), em 31 de outubro, fez um discurso na Avenida Paulista e reforçou a ideia.

“Quero que vocês saibam que vamos recuperar o Ministério da Cultura e vamos criar comitês estaduais de cultura para que a cultura se transforme numa coisa a que todo mundo tenha acesso, para que a cultura se transforme numa indústria de produzir emprego e de gerar renda. Quem tem medo de cultura é quem não gosta do povo, é quem não gosta de liberdade, é quem não gosta de democracia e nenhuma nação do mundo será uma verdadeira nação se não tiver liberdade cultural”, afirmou.

Em março do ano passado, no segundo ano do mandato, o presidente mencionou o tema durante a abertura da 4ª Conferência Nacional de Cultura, em Brasília, em discurso marcado por críticas ao ex-presidente Bolsonaro. Lula disse que cobrava Margareth Menezes reiteradamente sobre os comitês porque eles serviriam para “enraizar o que a gente acredita”.

“Me explique como estão os meus comitês culturais, eu quero saber, porque a única possibilidade de a gente evitar que um dia volte alguém para destruir é enraizar aquilo que a gente acredita no meio do povo, no seio do povo, nas entranhas da sociedade”, disse.

Caso Ibaneis deveria servir de alerta para Moraes

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Dois anos depois, foi arquivado o inquérito que investigava o governador do Distrito FederalIbaneis Rocha (MDB), por suposto envolvimento nos ataques às sedes dos Poderes de 8 de janeiro de 2023.

A decisão, assinada por Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, deveria estimular o próprio ministro a conduzir avaliação criteriosa dos procedimentos que, sob a louvável bandeira da defesa da democracia, tem adotado nos últimos anos.

Em circunstâncias normais, o arquivamento de um inquérito seria fato corriqueiro. Investigações, afinal, não pressupõem culpa; elas servem para que os órgãos competentes apurem o que ocorreu em determinada situação. Quando os elementos colhidos não justificam a instauração de um processo judicial, interrompe-se a tramitação do caso.

Ibaneis, contudo, não se viu apenas investigado. Durante pouco mais de dois meses, por ordem de Moraes, ele permaneceu afastado do cargo de governador para o qual havia sido eleito em 2022.

Foi uma determinação problemática sob diversos ângulos, a começar pela intromissão indevida do Judiciário em outro Poder. Apear da cadeira o chefe do Executivo —prefeito, governador, presidente— não pode ser atitude banal. É preciso haver um conjunto robusto de evidências a embasar medida tão drástica.

À época, Moraes considerou necessário o afastamento para impedir que Ibaneis destruísse provas sobre possíveis omissões que teriam permitido as ações tresloucadas em Brasília.

Como fica claro agora, não havia evidências sobre esse risco. Ao contrário, o relatório do procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirma ter encontrado documentos pelos quais o governador do DF repudiou os ataques e solicitou auxílio da Força Nacional para proteção da ordem pública.

Ainda pior, a suspensão da função de Ibaneis se deu sem que tenha sido formulado pedido específico para isso. O que havia, em ação impetrada pela Advocacia-Geral da União e pelo líder do governo no Congresso NacionalRandolfe Rodrigues (PT-AP, à época na Rede), era a solicitação da prisão em flagrante de todos os envolvidos.

Foi com base nessa formulação geral que Moraes deu sua canetada contra o governador, argumentando que o afastamento é menos gravoso que a prisão. Esqueceu-se de ponderar que ninguém pediu a prisão de Ibaneis e que é preciso haver bons motivos para prender qualquer pessoa.

Para coroar a atitude draconiana, Moraes tomou a decisão sozinho e só depois buscou o referendo dos colegas, que o fizeram de forma virtual. Seria melhor que o STF entendesse, de uma vez por todas, que momentos tão relevantes como esse demandam a força do colegiado, com discussões no plenário físico.

Mais importante, os ministros do Supremo precisam perceber que, ao atropelar certas garantias processuais, eles maculam a mesma democracia que, com razão, pretendem defender.

 

Feminicídio fez mais de mil vítimas por ano no Brasil desde 2015

Raquel Lopes / FOLHA DE3 SP

 

 

Desde a aprovação da lei que criou o crime de feminicídio, há dez anos, o Brasil registrou ao menos 11.859 vítimas, segundo dados até janeiro deste ano do Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública), do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Em 2024, o Brasil registrou o maior número de casos da série histórica, com 1.459 vítimas, superando os 1.448 registros do período anterior. Piauí, Maranhão, Paraná e Amazonas tiveram o maior aumento de casos por 100 mil habitantes de um ano para o outro.

Conhecida como Lei do Feminicídio, a norma alterou o Código Penal e passou a tipificar esse crime no Brasil em 9 de março de 2015. A legislação abrange assassinatos de mulheres em contextos de violência doméstica, familiar ou motivados por misoginia.

Delegada no Distrito Federal e doutora em sociologia, Cyntia Carvalho e Silva afirma que a lei trouxe visibilidade a casos que sempre existiram, permitindo um acompanhamento mais preciso e a criação de políticas públicas.

Ela atribui o aumento dos casos nos últimos anos tanto ao crescimento da violência quanto à melhoria na investigação e classificação desses crimes pelos estados. No Distrito Federal, por exemplo, um protocolo exige que toda morte violenta de mulher seja inicialmente tratada como feminicídio.

Os investigadores partem do princípio de que a motivação pode estar relacionada à violência doméstica, ao menosprezo ou à discriminação de gênero. Se a apuração indicar outra causa, o crime é reclassificado.

Uma das vítimas de feminicídio no Brasil foi Géssica Moreira de Sousa, 17. Ela foi assassinada com um tiro na cabeça no DF. O principal suspeito é seu ex-companheiro, Vandiel Próspero da Silva, 24.

Segundo a Polícia Civil, o crime ocorreu em uma igreja, na presença da filha do casal, de apenas dois anos. Vandiel foi até lá para buscar a criança e Géssica teria recusado a entregá-la. Ele foi preso na Bahia. A reportagem não conseguiu contato com a defesa.

No ano passado, o crime cometido contra mulheres por razões de gênero deixou de ser uma qualificadora do homicídio e passou a ser tipificado como um crime autônomo, com penas que variam de 20 a 40 anos de prisão. Quando há agravantes, a pena pode chegar a 60 anos, tornando o feminicídio o crime com a maior punição prevista atualmente no Brasil.

Conhecida como Pacote Antifeminicídio, a lei aumenta as penas para crimes cometidos em contexto de violência contra a mulher motivado por questões de gênero, promovendo mudanças na Lei Maria da Penha, no Código de Processo Penal e na Lei de Execução Penal.

Juliana Brandão, pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, avalia que a nova lei é positiva, principalmente ao reconhecer o feminicídio como um crime autônomo, passando a ter uma dinâmica processual própria. Ela destaca que esse ponto, além do aumento da pena, carrega uma simbologia, mostrando que o país está levando a sério o tema.

Apesar dos avanços, a promotora de Justiça de São Paulo e professora da PUC Valéria Scarance aponta que ainda há subnotificação nos dados, e muitos casos de feminicídio tentado e consumado são tipificados como outros crimes.

"É muito comum, por exemplo, que feminicídios tentados sejam registrados como lesão corporal, como se o agente não tivesse a intenção de matar. Há alguns casos, ainda, em que feminicidas jogam suas parceiras de prédios e os fatos são apurados como suicídio ou queda acidental."

Ela defende ser fundamental melhorar os dados para que as políticas públicas de prevenção sejam mais eficazes, com estratégias sendo constantemente aprimoradas e reavaliadas. E diz que, enquanto as mulheres se tornaram mais independentes e conscientes, os homens, como reação, se tornaram ainda mais violentos.

A delegada Dannyella Pinheiro, da 3ª Delegacia de Defesa da Mulher Oeste de São Paulo, destaca que, nos últimos dez anos, também foram tomadas outras medidas importantes, como a decisão de 2023 do STF (Supremo Tribunal Federal) que declarou inconstitucional o uso da tese da defesa da honra em casos de feminicídio ou agressão contra mulheres.

Ela reforça a necessidade de medidas preventivas, como ampliar campanhas de conscientização, tanto para incentivar mulheres a denunciar quanto para alertar os homens sobre o endurecimento das leis.

"A violência doméstica ainda é um grande desafio, pois muitas mulheres acreditam que o agressor pode mudar, que conhece a pessoa por estar ao seu lado dez, 20 anos. Além disso, hesitam em denunciar devido aos filhos ou de dificuldades financeiras. Por isso, é essencial que o Estado ofereça uma rede de apoio para acolhê-las antes que o caso evolua para o feminicídio", destaca.

Estados e governo federal

A Secretaria de Segurança Pública do Maranhão informou que, em 2024, conta com 23 Delegacias da Mulher e está implantando Núcleos de Combate à Violência contra a Mulher em novas delegacias.

Já o Paraná atribui os dados ao aumento das investigações e da repressão qualificada. Destaca ainda a operação Mulher Segura nas 20 cidades com os piores índices de violência, com um conjunto de ações que vão de aumento do policiamento a palestras comunitárias.

O Amazonas disse que tem fortalecido as ações repressivas, ostensivas e investigativas contra o feminicídio, além de fortalecer as ações educativas a partir das ações da Ronda Maria da Penha e da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou, em nota, que em 2024, destinou R$ 116 milhões para ações de defesa da população feminina nos estados e no Distrito Federal. Além disso, por meio do Pronasci 2, iniciou o financiamento para a construção de 12 Casas da Mulher Brasileira, que até 2027 chegarão a 40.

No ano passado, a pasta coordenou as operações Átria e Shamar, focadas no combate à violência contra mulheres. Já na área preventiva, destacou o programa "Antes que Aconteça", que busca garantir a segurança e proteção das mulheres.

O Ministério das Mulheres não respondeu, assim como o estado do Piauí.

ENTENDA AS PRINCIPAIS MUDANÇAS NA LEI EM 2024

Código Penal

  • Crime Autônomo

Antes: O feminicídio era uma qualificadora do homicídio, com pena de 12 a 30 anos de reclusão.

Depois: Tornou-se crime autônomo, com pena de 20 a 40 anos de reclusão.

  • Agravantes

Antes: A pena era aumentada nos seguintes casos: crime praticado durante a gestação ou nos três meses posteriores ao parto; contra menor de 14 anos ou maior de 60 anos; na presença dos pais ou dos filhos da vítima.

Depois: O feminicídio tem pena agravada quando cometido durante a gestação, nos três meses posteriores ao parto ou se a vítima for mãe ou responsável por criança; contra menor de 14 anos, maior de 60 anos, mulher com deficiência ou doença degenerativa; quando cometido na presença física ou virtual dos pais ou dos filhos da vítima; em descumprimento de medidas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da Penha; ou quando houver emprego de veneno, tortura, emboscada ou arma de uso restrito.

  • Perda de Cargo

Antes: A perda de cargo, função pública ou mandato eletivo dependia de previsão na sentença.

Depois: A pessoa condenada por crime praticado contra a mulher por razões de gênero fica vedada nomeação, designação ou diplomação em qualquer cargo, função pública ou mandato eletivo entre o trânsito em julgado da condenação até o cumprimento da pena.

  • Aumento de Penas

Antes: As penas para lesão corporal, crimes contra a honra e ameaça seguiam as previsões gerais do Código Penal.

Depois: As penas são dobradas quando os crimes são cometidos contra a mulher por razões da condição de sexo feminino nos casos de lesão corporal, crime contra a honra e ameaça.

Lei de Execução Penal

  • Visita Íntima

Antes: Não havia previsão na lei para monitoramento eletrônico ou restrição de visitas íntimas para condenados por crimes contra a mulher.

Depois: Condenados por crimes contra a mulher devem ser monitorados eletronicamente durante saídas temporárias, perdem o direito a visitas íntimas e podem ser transferidos para estabelecimentos penais distantes da residência da vítima.

  • Progressão de Pena

Antes: O condenado pelo crime de feminicídio só poderia ter direito à progressão de regime após cumprir, no mínimo, 55% da pena.

Depois: O condenado por feminicídio só poderá ter direito à progressão de regime após cumprir 50% da pena se for primário e 70% se for reincidente.

Código de Processo Penal

  1. Prioridade Processual

Antes: Não havia prioridade específica para crimes de violência contra a mulher.

Depois: Processos que apurem crimes hediondos ou violência contra a mulher têm prioridade de tramitação em todas as instâncias, além da isenção de custas processuais.

Lei dos Crimes Hediondos

  • Classificação como Crime Hediondo

Antes: O feminicídio era considerado crime hediondo apenas como qualificadora do homicídio.

Depois:O feminicídio está explicitamente listado como crime hediondo.

Lei Maria da Penha

  • Medida Protetiva

Antes: A pena para descumprimento de medidas protetivas era de detenção de 3 meses a 2 anos.

Depois: A pena foi aumentada para detenção de 2 a 5 anos.

 

MANISFESTAÇAO CONTRA VIOLENCIA DA MULHER

 

 

Quais cidades do Interior têm o melhor desempenho econômico do Ceará?

Escrito por Ingrid Coelho / DIARIONORDESTE
 
 
Berço da maior empresa de internet banda larga do Nordeste, a cidade de Pereiro, no Interior do Ceará, é o município cearense com o maior desempenho econômico, conforme divulgou na última semana o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece).
 

Das dez cidades com melhor desempenho econômico listadas no documento do Ipece, quatro estão fora da Região Metropolitana de Fortaleza. Além de Pereiro, as outras três são: Sobral, Aracati e Icapuí.

"(O destaque de) Pereiro se deve ao fato de sediar uma das maiores empresas de telecomunicações do Nordeste, a Brisanet, que passa por forte movimento de crescimento e de investimentos", lembra o economista Alex Araújo.

Icapuí: pesca, turismo e fruticultura

Ele detalha que cada cidade conta com suas particularidades que contribuem para os resultados apontados no estudo do Ipece. "Icapuí possui uma combinação de atividades relacionadas à pesca e turismo, mas os investimentos em energia renovável dos últimos anos estão colaborando para o crescimento econômico", afirma.

O professor do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC), João Mário de França, ressalta, além do turismo na cidade, "o cultivo de melão e a fabricação de defensivos agrícolas" como fatores que contribuem para impulsionar a economia local.

Aracati: comércio e serviços

O economista pontua que Aracati tem retomado a sua relevância na influência regional e se destaca como centro comercial e de serviços no litoral leste. "Sua posição de turismo é consolidada, a partir de Canoa Quebrada e de eventos como foi o Carnaval agora".

João Mário de França, lembra ainda que Aracati se destaca pelo volume populacional ante outros municípios do Vale do Jaguaribe. "Isso revela um potencial de consumo. As principais atividades econômicas da cidade são o turismo e a criação de camarões, com atividades de apoio à pesca".

Sobral "é o caso de desenvolvimento municipal mais maduro", segundo Alex Araújo. "Os resultados são impressionantes na economia — centro regional e industrial, concentração de universidades e hospitais e indicadores sociais — com claro destaque para os resultados em educação. Aqui trata-se de um caso de reversão completa do distanciamento da capital, com a cidade ofertando muitas oportunidades e uma excelente qualidade de vida urbana".

Fortaleza cai no ranking

A capital cearense é a terceira colocada no ranking de desempenho econômico, tendo caído uma posição de 2019 para 2022.

Alex Araújo relaciona isso ao momento de "'deseconomia de escala', que a cidade vivencia". "Perdeu muita atividade industrial, concorre com os municípios vizinhos por moradia (veja a renda per capita do Eusébio, por exemplo) e seu gigantismo atrapalha a mobilidade. É uma ótima cidade para viver, mas tem ficado cara para morar e trabalhar".

Ele pondera que Fortaleza é o núcleo de uma das mais relevantes regiões metropolitanas do País. "Mas falta-lhe uma estratégia de desenvolvimento econômico que minimize o impacto negativo do seu gigantismo".

Veja as 10 cidades com melhor desempenho econômico em 2022:

  1. Pereiro
  2. Eusébio
  3. Fortaleza
  4. São Gonçalo do Amarante
  5. Maracanaú
  6. Sobral
  7. Aquiraz
  8. Aracati
  9. Itaitinga
  10. Icapuí

O IDM-E integra o Índice de Desenvolvimento Municipal. A dimensão de economia dentro do IDM "busca avaliar a capacidade de crescimento sustentável dos municípios cearenses". Sua composição considera os elementos:

  • PIB Per Capita;
  • Taxa de Formalização do Mercado de Trabalho; 
  • Participação e Empregados Formais com dois Salários-Mínimos ou mais; 
  • Participação de Empregados Formais com Ensino Superior Completo;
  • Razão entre o Valor Adicionado dos Serviços e o Valor Adicionado da
  • Administração Pública;
  • Densidade de Banda Larga;
  • Participação do Valor de Investimentos Públicos no PIB.

Fonte: Ipece

Segundo a publicação do Ipece que revela as cidades com o mais relevante desempenho econômico, os indicadores considerados para essa medição "refletem a capacidade dos municípios cearenses de gerar riqueza, formalizar o mercado de trabalho e qualificar a mão de obra local, aspectos fundamentais para a promoção do desenvolvimento municipal".

"Além disso, são considerados fatores que impulsionam a modernização e a competitividade das economias locais, como a infraestrutura digital e a capacidade de atração de investimentos públicos, essenciais para sustentar o crescimento a longo prazo", diz o Ipece.

Índice de Desenvolvimento Municipal

O Índice de Desenvolvimento Municipal considera, além do desempenho econômico, as dimensões global, ambiental, social e de governança pública. No IDM, as cidades mais bem posicionadas são Sobral, Eusébio, Marco, Aracati e Jaguaribe.

O conselheiro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Thiago Holanda, acredita que o sucesso dos municípios no IDM se deve a combinação de comunidade e gestão. "Fatores como liderança política engajada, planejamento estratégico e, principalmente, participação ativa das comunidades".

"Sobral é uma cidade já conhecida pela excelência na educação e continua se destacando por ser uma cidade com investimento de empresas nacionais e até internacionais. Além disso, por ter uma população com boa capacidade técnica, acaba tendo boas notas nesses critérios avaliados pelo índice", detalha Holanda.

Já os municípios com menores IDM em 2022 são Apuiarés; Monsenhor Tabosa; Chaval; Paramoti; São João do Jaguaribe; Tarrafas; Umirim; Tururu; Salitre e Missão Velha.

BRISANET EM PEREIRO

 

O mito do encarceramento em massa

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

O sistema penitenciário tem três finalidades: proteger a sociedade dos criminosos, desencorajar aspirantes ao crime e reabilitar os apenados. Mas os cárceres brasileiros fracassam miseravelmente nesses fins e promovem seu exato oposto. Transformados em usinas do crime, os presídios, que deveriam ser o símbolo máximo do poder do Estado, são o emblema gritante de sua falência.

 

Contribuem para a calamidade falhas crônicas: o déficit de vagas e a consequente superlotação; a baixa oferta de trabalho ou educação e o consequente ócio destrutivo; a convivência de delinquentes contumazes de alta periculosidade com condenados por delitos de baixo potencial ofensivo ou presos provisórios e o consequente recrutamento para as “academias do crime”; enfim, as condições desumanas de detenção e a consequente bestialização dos detentos.

 

Mas um diagnóstico seletivo motivado por ideologias delirantes produz soluções contraproducentes. A obsessão progressista com “estruturas de poder” e “sistemas de opressão” esvazia as responsabilidades individuais e reduz a criminalidade a um problema de “justiça social” e o criminoso, a “vítima do sistema”. O sonho de uma esquerda hegemônica nos departamentos de humanidades produz monstros como o “abolicionismo penal”, segundo o qual as prisões e, no limite, todas as penas deveriam ser abolidas e substituídas por programas de reeducação e assistência social.

 

Dados são torturados para legitimar mitos como o “encarceramento em massa” e seu consequente remédio: o desencarceramento em massa. Ao mantra do “Brasil prende demais” aplica-se um verniz científico com estatísticas como “a terceira maior população carcerária do mundo”.

 

A falácia dos números absolutos é facilmente refutável: qual é o grande escândalo, se o Brasil tem a sétima maior população do mundo e o maior número de homicídios do mundo? Como dizer que o País prende “demais” quando, na melhor das hipóteses, apenas pouco mais de um terço desses homicídios é esclarecido, e, na pior, menos de um décimo?

 

Dos 849 mil apenados, segundo a Secretaria Nacional de Políticas Penais, 201 mil estão em liberdade, e metade não utiliza tornozeleira eletrônica. Os 663 mil presos de fato colocam o Brasil na 31.ª posição global em encarceramento per capita – não parece “demais” para um país que, em termos per capita, oscila entre os 20 países do mundo em que há mais homicídios. De resto, só 359 mil estão em regime fechado, os demais estão em regime semiaberto (112 mil), aberto (4 mil) ou são provisórios.

 

Ainda que os ideólogos mais extremistas estejam confinados às torres de marfim da academia, o proselitismo abolicionista insufla o ideário de boa parte das elites do sistema de Justiça. A Súmula Vinculante 56 da Suprema Corte, normatizada na reforma da Lei de Execução Penal, estabeleceu que os presos podem ser colocados em liberdade quando faltam vagas no sistema prisional. É como resolver a falta de leitos no Sistema Único de Saúde (SUS) enxotando doentes das enfermarias, ou extinguir os erros médicos e a violência policial extinguindo os hospitais e a polícia.

 

Em artigo no site jurídico Jota, o criminalista Fillipe Azevedo Rodrigues evidenciou como a mendacidade abolicionista alimenta um ecossistema de impunidades: o regime semiaberto, que deveria proporcionar uma transição segura e gradual, garantindo que os apenados trabalhem e contribuam para a sociedade, se transformou num instrumento de desencarceramento e negligência estatal à pena de prisão.

 

O problema não é o excesso de encarceramento, é a falta de cárceres. O País precisa construir mais e melhores presídios e colônias penais que garantam um regime de progressão de pena realmente justo e reabilitante, atendendo às finalidades retributivas, preventivas e educativas do Direito Penal. A mistura explosiva de violência, corrupção e impunidade alimenta a descrença da população no Estado de Direito e a revolta com suas autoridades. A cada delito de um criminoso que deveria estar detido, a chaga se aprofunda.

 

A solução não é prender muito, como quer uma direita truculenta, nem prender pouco, como quer uma esquerda leviana. A solução é prender bem.

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