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STM - O silêncio é de ouro

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

A ministra Maria Elizabeth Rocha mal assumiu a presidência do Superior Tribunal Militar (STM), no dia 12 passado, e já demonstrou que padece de um mal que acomete muitos membros de cortes superiores: o vício em prejulgamentos.

 

O ex-presidente Jair Bolsonaro, capitão reformado do Exército, nem sequer é investigado por eventuais crimes militares que possa ter cometido em sua tentativa de permanecer no poder após a derrota eleitoral em 2022. Mas isso, ao que parece, não tem a menor importância para a magistrada sobre a qual recai a partir de agora a responsabilidade de conduzir os trabalhos da mais alta instância da Justiça Militar.

 

Segundo a presidente do STM afirmou a jornalistas logo após a cerimônia de posse, se Bolsonaro tiver cometido um crime militar, “pode, sim, vir a ser julgado na condição de militar da reserva e pode, inclusive, perder o posto da patente”. E acrescentou: “Eu identifico alguns (crimes), mas eu acho que não cabe a mim identificar. Esse é o papel do Ministério Público Militar”, concluiu a sra. Rocha, em um estupefaciente reconhecimento da impertinência de seu próprio comentário.

 

Como este jornal já sublinhou não poucas vezes, o julgamento das condutas de Bolsonaro no âmbito do que tem sido tratado como uma tentativa de golpe de Estado não pode apenas ser isento; precisa parecer isento aos olhos de uma sociedade cada vez mais descrente na imparcialidade do Poder Judiciário. Isso vale particularmente para o Supremo Tribunal Federal (STF) e também para o STM.

 

É evidente que, na condição de militar reformado, Bolsonaro pode, sim, ter cometido crimes de natureza militar na tentativa de não transferir o poder de forma pacífica para o presidente Lula da Silva, legitimamente eleito naquela eleição. De acordo com a denúncia oferecida pela Procuradoria-Geral da República (PGR) ao STF contra o ex-presidente e outros, a ele teriam se associado militares da ativa e da reserva na suposta sedição. No limite, por óbvio, isso pode culminar em nova denúncia contra Bolsonaro, agora no âmbito da Justiça Militar, e na sua eventual condenação e perda de patente.

 

A questão é que não cabe à presidente do STM fazer esse tipo de conjectura. Não cabia quando era mais uma entre os membros da corte nem muito menos agora que a preside. Mas à sra. Rocha decerto não ocorreu fazer essa reflexão porque esse tipo de comportamento se tornou banal no Brasil. Dia sim e outro também, os cidadãos são invadidos por opiniões descabidas de ministros de tribunais superiores sobre casos que eles eventualmente podem julgar, quando não se imiscuem em seara não afeita à judicatura, como a análise política.

 

A ânsia de vocalizar opiniões sobre temas em alta no debate público – especialmente os de natureza política – tem corroído a credibilidade dos tribunais superiores e alimentado suspeitas entre cidadãos de boa-fé sobre a real motivação de seus integrantes com esse tipo de incontinência. Quando juízes são vistos como agentes políticos, a aura de isenção da qual deriva sua legitimidade se esvai.

 

A Justiça, civil ou militar, deve ser um bastião de serenidade e respeito ao devido processo legal.

PGR oferece ao Supremo chance de reparar erro de Toffoli

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, mostra-se atento ao seu papel institucional ao pedir para o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), rever sua decisão de anular todos os atos da Operação Lava Jato contra Antonio Palocci.

Na visão do magistrado, o ex-ministro dos petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff merece o mesmo benefício dado a Marcelo Odebrecht —o empresário conseguiu do próprio Toffoli a anulação de seu processo devido a irregularidades na força-tarefa da Lava Jato em Curitiba.

Gonet bem que reconhece excessos cometidos sob a batuta do ex-juiz federal Sergio Moro, hoje senador pelo União Brasil paranaense, e do ex-procurador Deltan Dallagnol na condução de investigações e julgamentos.

Mas daí não decorre que tudo seja imprestável no âmbito da operação. O Ministério Público, diz Gonet, visa impedir que provas livres de vícios sejam indevidamente suprimidas do mundo jurídico —em termos populares, ele quer evitar que se jogue fora o bebê junto com a água do banho.

Tendo se manifestado contra a canetada em prol de Odebrecht, o PGR agora elenca diversos motivos para adotar a mesma postura diante do caso de Palocci.

"O pleito formulado não se sustenta em vícios processuais concretos ou na ausência de justa causa, mas na pretensão de se desvincular de um acervo probatório autônomo, válido e robusto, cuja existência, em parte, foi por ele próprio reconhecida em sua colaboração premiada", afirma Gonet, e é difícil tirar-lhe razão.

Basta lembrar que Toffoli, ex-advogado do PT, manteve válida a delação de Palocci —donde se supõe veraz o conteúdo do acordo. "Nos 23 termos de depoimento prestados à autoridade policial", diz o PGR, "[ele] confirmou a prática de crimes no âmbito do Poder Executivo Federal, detalhando esquemas ilícitos."

Aos olhos do ministro, porém, são irrelevantes os argumentos lógicos e os elementos probatórios colhidos na investigação. Suas decisões heterodoxas guiam-se por outras coordenadas —embora não esteja claro quais são elas.

O que se sabe é que partiram de Toffoli ordens pouco usuais em benefício da Odebrecht e da J&F, companhia que teve a esposa do magistrado como advogada em um litígio empresarial.

Com tal retrospecto, pode-se imaginar que Toffoli dará pouca importância ao recurso de Gonet. Mas seus colegas de corte, que também examinarão o caso, não precisam se associar a esse histórico; eles podem —e devem— corrigir o erro.

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Com Castro e Tarcísio, ato de Bolsonaro no Rio terá motociata e expectativa de 1 milhão de pessoas

Por Rayanderson Guerra e Hugo Henud / O ESTADÃO DE SP

 

 

RIO – O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o pastor Silas Malafaia, organizadores do ato em prol da anistia dos condenados pelo 8 de Janeiro em Copacabana e contra o governo Lula, esperam reunir 1 milhão de pessoas na orla da zona sul neste domingo, 16. Antes do ato, Bolsonaro é aguardado para uma motociata com apoiadores, repetindo o cenário das manifestações de 7 de Setembro de 2022 em que o então chefe do Executivo usou o bicentenário da Independência do Brasil como ato de campanha.

 

O contexto dos atos, no entanto, é distinto. Bolsonaro foi condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2023, e se tornou inelegível, apesar de manter a narrativa de que será candidato nas próximas eleições e foi denunciado por tentativa de golpe de Estado, acusado de ter liderado um suposto plano golpista após ter perdido a eleição de 2022 para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

 

O ato de campanha extraoficial de Bolsonaro em 2022 em Copacabana foi cercado por críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao ministro Alexandre de Moraes, relator do processo que poderá acarretar na prisão do ex-presidente.

 

Desta vez, os ataques aos prédios dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, e as consequentes denúncias aos envolvidos nos atos antidemocráticos fazem parte do pano de fundo da manifestação. De acordo com Bolsonaro, o mote dos atos do dia 16 serão “Fora Lula 2026”, “Anistia Já”, liberdade de expressão, segurança e custo de vida.

 

O ex-presidente deve dividir o palco de um trio elétrico com o pastor Silas Malafaia, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, os deputados federais Nikolas Ferreira (PL-MG), Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Altineu Cortes (PL-RJ) e Gustavo Gayer (PL-GO), além dos governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Cláudio Castro (PL-RJ). Outros aliados ainda devem ser confirmados para compor o evento.

 

Até o fim da semana, Bolsonaro vai se reunir com o pastor Silas Malafaia e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, para alinhar a programação oficial do ato no domingo. O deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do PL na Câmara, também atua como um dos organizadores do evento.

 

Ao Estadão, Malafaia confirmou que os discursos no ato ficarão a cargo de Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Eduardo Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira. Sobre a expectativa de público, Malafaia evitou fazer previsões e disse que essa projeção está sendo feita pelo próprio ex-presidente.

 

“Quem está dando expectativa de público é o Bolsonaro. Nenhum evento que eu faço, eu vou te dar expectativa de público. Isso é uma caixinha de surpresa”. O pastor afirmou, no entanto, que acredita em uma grande mobilização: “Eu creio que vai dar muita gente, mas a quantidade... eu não entro nessa, não entrei em nenhuma até hoje.”

Malafaia também confirmou a presença do presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, no ato. A participação ocorre após a decisão de Moraes, que autorizou Valdemar a retomar contato com o ex-presidente Bolsonaro.

Nesta quarta-feira, 12, o ex-presidente voltou a afirmar, em um encontro com Costa Neto, em um restaurante em Brasília, esperar até um milhão de pessoas no ato deste domingo. Segundo ele, a tônica do seu discurso será exclusivamente sobre o PL da Anistia, pauta que é tratada como prioridade no partido.

 

Flávio Bolsonaro, por sua vez, classificou o ato como “o mais importante movimento pelo resgate da democracia no Brasil” e afirmou que a manifestação também será um “gesto humanitário” em apoio aos “perseguidos políticos”. O senador destacou que o evento pretende enviar um “recado ao mundo”, reforçando a narrativa de que há perseguição política contra o ex-presidente e seus aliados.

 

Bolsonaro aposta em ato único para demonstrar força

Desde o oferecimento da denúncia pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Bolsonaro e outros 33 investigados no inquérito do golpe, em 18 de fevereiro, o ex-presidente e seus aliados, com o senador Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira, passaram a intensificar a divulgação da manifestação no Rio de Janeiro por meio das redes sociais e entrevistas. “A justiça tem pressa”, escreveu Nikolas ao compartilhar um vídeo de convocação para o ato.

 

Em outra frente, bolsonaristas articularam o cancelamento de manifestações que estavam previstas em outras capitais do País, como São Paulo, Belo Horizonte (MG) e Goiânia (GO). A decisão teve como objetivo centralizar os holofotes e reunir o maior número possível de aliados e apoiadores no Rio de Janeiro, em uma sinalização de força e unidade do bolsonarismo.

 

O Estadão apurou que essa estratégia também visa mostrar que Bolsonaro mantém força política, mesmo após a denúncia da PGR e diante da iminência de se tornar réu no inquérito do golpe. Aliados do ex-presidente avaliam que uma grande mobilização pode funcionar como um sinal de respaldo popular, reforçando sua presença no cenário político enquanto cresce a pressão judicial sobre o ex-presidente.

 

 

Previ, fundo de pensão dos funcionários do BB, registra déficit de R$ 17,6 bi em 2024

Por  — Rio de Janeiro / O GLOBO

 

 

A Previ, fundação de previdência complementar dos funcionários do Banco do Brasil (BB), a maior do país, registrou em 2024 um déficit de R$ 17,6 bilhões, revertendo o superávit de R$ 9,8 bilhões registrado no exercício de 2023, por causa da desvalorização de parte dos ativos nos quais investe no mercado financeiro. Os dados se referem ao Plano 1, o maior da fundação, e foram divulgados nesta quinta-feira.

 

O resultado não pode ser equiparado a prejuízo, nem significa que os fundos administrados pela fundação ficaram sem recursos para fazer o pagamento de aposentadorias e pensões, mas se dá enquanto o Tribunal de Contas da União (TCU) faz uma auditoria na gestão da fundação.

 

O rombo ocorreu no resultado do “equilíbrio técnico”, cálculo que leva em conta estimativas de gastos futuros com as aposentadorias e pensões, além do valor e do retorno dos investimentos.

 

A conta pode ser feita tanto numa ótica anual quanto considerando o desempenho de todos os investimentos, acumulado ao longo do tempo. Por essa segunda ótica, o défícit acumulado no encerramento de 2024 ficou em R$ 3,2 bilhões, ante um superávit acumulado de R$ 14,5 bilhões em dezembro de 2023.

 

Déficit é conjuntural e não é 'rombo', diz Previ

Segundo a diretoria da Previ, o resultado foi impactado pelo tombo nas cotações de ações e salto nos juros futuros, especialmente em dezembro, mas os efeitos do clima de crise no mercado financeiro são “conjunturais”. Tanto que um cenário mais positivo já no início deste ano levou o resultado isolado de janeiro a um superávit de R$ 1,3 bilhão, informou a entidade.

 

— Estamos super confortáveis com o que está acontecendo. Sabemos que é uma questão conjuntural e que nosso portfólio tem muita qualidade, para continuar entregando rentabilidade e nos ajudando a pagar as aposentadorias — afirmou Claudio Gonçalves, diretor de Investimentos da Previ.

 

O executivo ressaltou que parte do efeito negativo sobre a rentabilidade dos investimentos da Previ em 2024 se deveu a regras de prudência, como as que obrigam a fazer a chamada “marcação a mercado” de cerca de 15% da carteira de renda fixa, formada, principalmente, por títulos públicos.

 

Na prática, quando investe em títulos do governo, a Previ fica com os títulos até o vencimento, ou seja, não realiza eventual prejuízo por causa de oscilações nas taxas de juros futuros. Mas, por causa da regra de prudência, incorpora nos resultados o efeito teórico da venda desses títulos antes do vencimento.

O presidente da entidade, João Fukunaga, ressaltou que o resultado de 2024 foi marcado também pelo pagamento recorde de R$ 16,4 bilhões em benefícios. Por isso, ressaltou que não é correto falar em “prejuízo ou rombo”.

 

— É déficit, não é prejuízo, não é rombo — afirmou Fukunaga. — Temos reservas, temos solidez, temos segurança para continuar pagando os benefícios, numa gestão ativa dos investimentos.

 

Equacionamento após 3 anos

Embora o resultado do equilíbrio técnico não signifique prejuízo no presente, ele é acompanhado com lupa pela Previc, órgão regulador do setor de previdência complementar.

Pelas regras vigentes, depois de três anos seguidos de determinado nível de déficit — que varia conforme a contabilidade de cada plano de previdência —, o administrador do fundo de pensão é obrigado a apresentar um “plano de equacionamento”.

 

No caso do Plano 1 da Previ o nível de déficit acumulado que enseja o plano de equacionamento é de R$ 18,8 bilhões, "muito longe" dos R$ 3,2 bilhões do fechamento de 2024, lembrou Fukunaga.

 

Frequentemente, esses planos implicam cortes de benefícios ou cobranças adicionais dos participantes e empresas patrocinadoras, com efeitos imediatos.

 

Com problemas de má gestão e ingerência político-partidária, as fundações de previdência das empresas estatais têm um histórico de planos de equacionamento, embora a Previ seja, geralmente, citada como exemplo de boa governança.

 

Em 2016, a Operação Greenfield, da Polícia Federal (PF), apontou perdas de ao menos R$ 8 bilhões com supostas irregularidades nas fundações das estatais, em muitos casos relacionadas com a Operação Lava-Jato. A investigação foi encerrada em 2020 sem conclusão, após denúncias de abuso de autoridade, mas gerou ações em curso na Justiça Federal.

Má gestão é ilação, diz Previ

Mais recentemente, o resultado da Previ serviu de argumento para a fundação do BB entrar na mira do TCU. O ministro Walton Alencar Rodrigues, relator de um processo sobre a governança da fundação no órgão de controle, citou o déficit para cobrar urgência numa auditoria sobre as contas da entidade.

A Previ tem rebatido os argumentos de Alencar. Após uma manifestação do ministro em sessão do plenário do TCU em fevereiro, a fundação dos funcionários do BB negou desequilíbrios em seus fundos e repudiou o que chamou de “ilações de falhas na gestão”.

 

 

Ao apresentar os resultados de 2024, Fukunaga ressaltou que a governança da fundação de previdência tem sido "diligente", reconhecida como exemplo no setor, tanto em manifestações anteriores do TCU quanto em processos de comissões parlamentares de inquérito (CPIs).

 

— Não há qualquer rombo na Previ. O que há é uma oscilação negativa, no ano, decorrente do movimento normal do mercado. Além das ações da Vale, o Ibovespa ficou com rentabilidade negativa de mais de 10% no ano — afirmou Paula Goto, diretora de Planejamento da entidade, ressaltando que a alta nos juros futuros e a aceleração da inflação também afetaram negativamente o resultado de 2024. — Não há qualquer movimentação atípica que justifique o termo rombo.

Zema diz que Lula está em 'modo avião' e que tenta posar de 'pai dos pobres'

Artur Búrigo / FOLHA DE SP

 

Belo Horizonte

Após protagonizar uma troca de farpas pública com Lula (PT) em eventos em Minas Gerais, o governador Romeu Zema (Novo) voltou à ofensiva contra o presidente nesta quinta-feira (13).

Em vídeo publicado em suas redes sociais, Zema afirmou que ficou assustado após o encontro com o presidente, a quem definiu como "desconectado da realidade".

"Ele veio aqui em Minas de certa maneira se posar como pai dos pobres e dizer que só ele e o Getúlio [Vargas, ex-presidente] é que trabalharam pelos mais necessitados. Esse filme nós brasileiros já vimos e não gostamos", disse o governador mineiro.

Os dois estiveram juntos em duas cerimônias na última terça-feira (11) no estado. Em Betim, trocaram farpas sobre número de auxiliares e a dívida estadual.

Em Ouro Branco, o presidente se dirigiu diretamente ao governador ao instá-lo a listar as obras financiadas no governo de Jair Bolsonaro (PL), aliado de Zema, no estado.

"O Zema é governador há seis anos. Ele governou quatro anos com Bolsonaro. O Zema, no próximo discurso que ele tiver, quero que ele traga para mim quanto é que o Bolsonaro colocou no estado de Minas Gerais", disse Lula na ocasião.

O governador, que tinha se manifestado antes do petista no evento, decidiu estender o embate com um áudio divulgado por sua assessoria e agora com o vídeo em suas redes sociais.

"Esse presidente modo avião talvez seja um motivo dele não se lembrar do desastre que foi o governo PT para o Brasil em 2015-16 [no governo Dilma Rousseff]. O governo que provocou a maior crise, a maior recessão da história", disse Zema.

"Aquela crise lá atrás foi criada com a mesma receita que ele está seguindo agora. Gastança, irresponsabilidade fiscal, e a economia crescendo com anabolizante", completou o governador.

Citado como possível candidato à Presidência nas eleições de 2026, Zema tem elevado suas críticas ao governo Lula na tentativa de reforçar a imagem de um antagonista ao petista.

O objetivo é cacifar seu nome de forma nacional e torná-lo mais competitivo em pesquisas eleitorais entre os governadores da direita cotados a assumir o espólio de Bolsonaro, que está inelegível.

ROMEU ZEMA

A direita está organizada, enraizada e pronta para o combate contra o PT

Por Fabiano Lana / O ESTADÃO DE SP

 

 

presidente Lula imagina que um eventual sucesso na área econômica, somado com uma estratégia massiva de comunicação, incluindo bilhões em propaganda, seja suficiente para reverter a erosão constada em sua popularidade e abrir caminho para a reeleição. A questão é muito mais profunda e essa tese é uma ilusão. Há uma disputa moral em jogo e o que os integrantes do governo têm a apresentar neste momento são princípios que fogem à maioria da população. E, pior, a nova tábua de valores da sociedade, em sua maioria, acaba por confrontar pontos dogmáticos da esquerda.

 

O Brasil tem mudado de maneira vertiginosa. Tome-se um exemplo a princípio isolado, mas que pode ser um microcosmo do todo que se apresenta: qualquer estudante de “humanas” das últimas décadas, sobretudo dos anos 80 e 90, se deparou em algum momento com a coleção “Primeiros Passos”, em que autores dissertavam sobre temáticas como socialismo, racismo, história, entre outros, em livros curtos e didáticos. O tema “ideologia”, por exemplo, foi escrito pela filósofa Marilena Chauí, aquela que odeia a classe média. Era época em que ninguém se assumia “de direita”, não só na área cultural ou acadêmica, mas também na política. Um cara ser de “direita” era sinônimo de ser visto como um tremendo esquisitão a afugentar as meninas.

 

Se a gente faz um corte e pula vinte anos na história, ser de esquerda ainda tem lá o seu, digamos, charme – cada vez menor. Mas não mais o monopólio das atrações. A direita se estruturou e se organizou de maneira admirável, de maneira a preencher todos os vácuos de décadas em que permaneceu submersa na opinião pública e, principalmente, publicada, da sociedade brasileira.

 

Para começar, percebam, nas maiores livrarias do Brasil, que não é tão fácil encontrar algum exemplar dos “Primeiros Passos”. Mas é possível comprar exemplares da coleção “O Mínimo sobre”, também de bolso, com temas como racismo, conservadorismo, doutrinação, arte, “Olavo de Carvalho” e Ideologia de gênero, entre outros, no catálogo.

 

Sim, é como se a “Primeiros Passos” tivesse se virado à direita. Vejam um trecho do livro sobre feminismo da coleção, escrito pela historiadora e agora deputada estadual pelo PL-SC, Ana Campagnolo. “Diferentemente do que fazem crer as feministas, as mulheres foram inseridas no mercado de trabalho por uma transformação social sem premeditação e não por uma luta organizada de um movimento das mulheres”, afirma a obra, na totalidade dedicada a confrontar o que se chama de feminismo.

 

Mas a coleção “O mínimo sobre” é apenas uma margem de um movimento muito maior de domínio. Por exemplo: se aparece alguma notícia desfavorável à direita ou aos seus líderes em algum órgão, há uma miríade de influencers, youtubers, twitteiros a busca desmentir, a tentar passar uma versão mais favorável. Logo, esses contra-ataques, imediatos, circularão nos grupos de WhatsApp da escola, das famílias, do trabalho. Muitas vezes com moralismo, indignação, deboche ou humor. As redes sociais são a ferramenta de combate e há a indicação clara do que é preciso seguir para se informar. É algo que não se vê paralelo na esquerda neste momento.

 

A produtora Brasil Paralelo também faz parte desse mecanismo de doutrinação, com produções próprias, indicações de filmes, na busca de direcionar como se deve pensar sobre cada assunto. Os valores em geral são claros em todo esse ecossistema: família, pátria, religião, hierarquia, obediência, mérito individual por qualquer conquista econômica obtida, loas à livre iniciativa, trabalho, e, transversalmente, o anti-esquerdismo. Ultimamente, com a ascensão de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, até mesmo o liberalismo mundial tornou-se um inimigo a combater (nesse caso especial, por razões diferentes, estão juntos com a esquerda numa comprovação prática da chamada da teoria da ferradura, na qual os polos opostos tendem a convergir seus pensamentos).

 

Padres, pastores, também possuem seu papel nessa reorganização da direita. O Frei Gilson, que atrai milhões de pessoas nas suas missas pela madrugada com uma mensagem conservadora (ou quiçá reacionária) de submissão da mulher ao homem, é apenas mais um personagem desse sistema que tem sabido falar rápida e diretamente com uma parcela gigantesca da população. Quando publicações e influencers da esquerda criticaram sua postura e seus pensamentos, na semana passada, foi imediatamente defendido por milhares. Até mesmo o papa Francisco, com seus valores “progressistas”, foi substituído por outros religiosos com concepções diferentes de mundo.

 

Esse movimento vai muito além da liderança de gente como Jair Bolsonaro (seu papel político foi tirar muita gente do armário reacionário). Tem estrelas como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), Pablo Marçal ou o cantor Gusttavo Lima. Mas é algo que tem a ver mais com a exacerbação de valores de uma população que é majoritariamente a favor a redução maioridade penal; contra a legalização do aborto (mas não favoráveis à prisão da mulher); contra a descriminalização das drogas; querem punição rigorosa para qualquer tipo de delito, a partir do roubo de celular, que penaliza bastante as pessoas mais pobres, não só a classe-média alta do bairro Pinheiros, de São Paulo; que não sabe muito bem o que é, mas rejeita a tal “ideologia de gênero” e por aí vai.

 

A paralisia da esquerda nessa guerra cultural é notável atualmente. O confronto político tornou-se desigual. Talvez, de fato, a inflexão da luta de classes para as chamadas pautas identitárias não tenha conquistado mentes e corações. Quando um trabalhador pardo da periferia é tido como opressor apenas por ser homem, é razoável que ele procure votar numa força política que se oponha a isso, não é mesmo? Enquanto a esquerda colocava todo mundo contra todo mundo, a direita, de maneira pulverizada, desordenada, mas com mensagem coesa, se preparou com afinco para colocar todo mundo contra a esquerda. O ano de 2026, nas eleições presidenciais, será o tira-teima desta disputa, que é mundial, em palco brasileiro

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Opinião por Fabiano Lana

Fabiano Lana é formado em Comunicação Social pela UFMG e em Filosofia pela UnB, onde também tem mestrado na área. Foi repórter do Jornal do Brasil, entre outros veículos. Atua como consultor de comunicação. É autor do livro “Riobaldo agarra sua morte”, em que discute interseções entre jornalismo, política e ética.

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