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A inflação é teimosa

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

A inflação que o governo “segurou” em janeiro, com a redução pontual nas contas de luz, voltou com força em fevereiro – como previsto – e lançou a taxa do mês ao maior nível dos últimos 22 anos. A alta de 1,31% em fevereiro, que empurrou o acumulado em 12 meses para 5,06%, é uma prova cabal da inutilidade de manobras da gestão lulopetista. Se em janeiro, com a “mãozinha” do bônus da usina de Itaipu, o barateamento de 14,21% nas tarifas de energia conteve o IPCA em 0,16%, no mês seguinte a recomposição do mesmo bônus devolveu tudo e mais um pouco.

 

A cada mês a evolução dos preços mostra ao presidente Lula da Silva que de nada adiantam medidas populistas para conter a inflação. Será inócuo zerar a taxa de importação do café e de outros produtos alimentícios, assim como é irrealista querer controlar o preço dos combustíveis ou forçar atacadistas e varejistas a atrelarem suas decisões de negócios à vontade do governo. Mas Lula não se convence. Ao contrário, prefere exercitar uma retórica belicosa ameaçando tomar uma “atitude mais drástica” caso não encontre uma “solução pacífica”.

 

A inflação de fevereiro não foi um ponto fora da curva. O IPCA, que tradicionalmente nesta época é pressionado pelos reajustes das mensalidades escolares, sofreu impacto ainda maior das tarifas de energia elétrica residenciais, que responderam por 0,56 ponto porcentual do IPCA geral. E o mais preocupante são as tendências de alta observadas nos núcleos das taxas, como são chamadas as medidas estatísticas que desconsideram impactos temporários, como a sazonalidade das mensalidades escolares, por exemplo.

 

Recente reportagem do Broadcast/Estadão mostrou que as estimativas do mercado financeiro estão concentradas na manutenção do IPCA acima do teto da meta (4,5%) até setembro de 2026, quando iniciará um recuo lento. O principal temor dos analistas é o de que novos estímulos fiscais acelerem ainda mais a alta dos preços. A preocupação não é despropositada, haja vista algumas medidas recentes, como a liberação de R$ 12 bilhões por meio do FGTS, o incentivo ao empréstimo consignado privado e, talvez, em 2026, a isenção tributária para quem ganha até R$ 5 mil mensais.

 

Medidas de estímulo ao consumo surgem em grande número, impulsionadas por mantras característicos de Lula, como “quero mais crédito para o povo” e “dinheiro circulando nas mãos das pessoas faz a economia crescer”, entre outros de mesma natureza. No entanto, ao sobreaquecer a economia e gerar uma demanda artificial sem um correspondente aumento na produção e na produtividade, o governo ignora um princípio essencial para o crescimento sustentável: o equilíbrio fiscal.

 

Em recente entrevista ao Flow Podcast, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou considerar importante o governo federal voltar a apresentar contas no azul. “Tem gente que discorda disso; tem gente que quer fazer mais rápido”, comentou, reconhecendo não haver consenso em torno da calibragem da política fiscal. Embora Haddad tenha defendido a ideia de que o ajuste “não precisa ser recessivo” – e para isso voltou a defender a tributação dos super-ricos como contrapartida a eventuais cortes de gastos –, a cruzada pela política fiscal tem sido, pelo que se observa no governo Lula da Silva, uma batalha isolada da equipe econômica.

 

A perspectiva de um IPCA pressionado até as vésperas da eleição presidencial do ano que vem aumenta a apreensão sobre o comportamento do Palácio do Planalto em relação à política autônoma do Banco Central (BC). Desde o início de seu terceiro mandato, Lula da Silva torpedeou a direção do Banco Central pelos juros altos. A partir da posse de seu indicado, Gabriel Galípolo, na presidência do banco, iniciou uma trégua, mas o futuro é incerto. Em junho, a meta de inflação irá estourar novamente, como já antecipou a própria direção do BC. Para o mercado, em agosto o acumulado do IPCA em 12 meses deve chegar a 5,82%. Pelo andar da carruagem, a volta da pressão política sobre a autoridade monetária é questão de tempo.

Ainda há Ministério Público em Brasília

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

A esta altura, a cupidez do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) José Antonio Dias Toffoli por desmantelar integral e definitivamente a Operação Lava Jato já se insere entre os momentos mais baixos da Corte em toda a sua história republicana. O silêncio obsequioso dos pares diante de uma verdadeira razia promovida pelo sr. Dias Toffoli desde setembro de 2023, quando não a complacência em certos casos, conspurca ainda mais a aura de isenção e legitimidade que deve recobrir a mais alta instância do Poder Judiciário.

 

Graças ao monocratismo do ministro, a sociedade, a um tempo perplexa e indignada, passou a ser humilhada por criminosos confessos, alguns outrora muito poderosos, que hoje se apresentam como “vítimas”, ora vejam, de um esquema de persecução penal que estaria carcomido por vícios processuais de cima a baixo. Sob o domínio desse espírito purgador que parece guiar a mão de Dias Toffoli não há matizes. Tudo o que provém da Lava Jato, invariavelmente, há de ser anulado por erros, em tese, generalizados e insanáveis – e tudo isso, claro, a bem do Estado Democrático de Direito, como sustenta Sua Excelência.

 

Ao Brasil decente resta pouco além do conforto de ao menos perceber que ainda há, no plano institucional, quem se erga contra decisões suspeitas – pois suspeito é Dias Toffoli, certa vez qualificado como “o amigo do amigo de meu pai” por Marcelo Odebrecht – exaradas por um magistrado que se mostra engajado numa cruzada pessoal contra os fatos, movido sabe-se lá por quais razões. É como um alento, portanto, que este jornal recebeu o contundente recurso interposto pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra a decisão de Dias Toffoli que anulou todos os processos no âmbito da Lava Jato contra o prócer petista Antonio Palocci.

 

Como se sabe, Dias Toffoli estendeu ao ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil nos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff, respectivamente, os benefícios concedidos ao presidente da República, aos empresários Marcelo Odebrecht e Raul Schmidt Felippe Júnior e ao ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB). Em termos ainda mais duros do que os empregados em outros recursos contra as decisões monocráticas de Dias Toffoli envolvendo condenados na Lava Jato, o procurador-geral Paulo Gonet desmontou, um a um, os argumentos falaciosos da defesa do sr. Palocci para lhe fazer parecer merecedor da condição de inocente. Em que pese o fato de não ter feito nada além de cumprir seu dever profissional, a defesa, data maxima venia, aproveitou-se da tese geral do “conluio” formulada por Dias Toffoli para também adentrar na senda do realismo fantástico aberta pelo ministro do STF.

 

Em um dos trechos mais certeiros de sua peça, Paulo Gonet sustenta que “o pleito formulado (pelo réu Antonio Palocci) não se sustenta em vícios processuais concretos ou na ausência de justa causa”, mas sim, prossegue o chefe do Ministério Público Federal, “na pretensão de se desvincular de um acervo probatório autônomo, válido e robusto, cuja existência, em parte, foi reconhecida por ele próprio em sua colaboração premiada”. Não se trata de uma opinião ou de um mero recurso retórico do procurador-geral. Trata-se de um fato. Palocci é um criminoso confesso que foi assistido por alguns dos mais competentes advogados do País, que seguramente o teriam orientado a não confessar crimes sob quaisquer tipos de coação estatal.

 

Merecem destaque os adjetivos “autônomo”, “válido” e “robusto” escolhidos pelo procurador-geral em seu agravo interno – no qual Gonet pugna pela reconsideração de Dias Toffoli ou remessa do caso para análise do plenário do STF – porque eles dizem muito sobre a fragilidade da tese do “conluio” – ademais sustentada por provas obtidas por meio ilegal – e sobre a inaplicabilidade das decisões específicas de um determinado processo a casos envolvendo réus e situações factualmente distintas.

 

Espera-se que o Supremo, cioso de sua responsabilidade, reforme uma decisão monocrática que atropela a lógica, os fatos e a própria crença da sociedade no sistema de Justiça.

Sensação de impunidade

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Não há pena de caráter perpétuo no Brasil, mas seria muito bom se ao menos os condenados a penas privativas de liberdade ficassem presos pelo tempo determinado pela Justiça, em especial os que cometeram crimes brutais. Compreende-se como natural, portanto, a sensação de impunidade diante da notícia segundo a qual Cristian Cravinhos, um dos assassinos do casal Richthofen, foi colocado em liberdade, no dia 5 passado, depois de ter cumprido apenas cerca de metade da pena de 38 anos e seis meses de prisão à qual foi condenado em 2006.

 

Sentenciados a penas ainda mais severas pela participação no duplo homicídio, o irmão de Cristian, Daniel, e a namorada deste, Suzane von Richthofen, filha do casal assassinado, já estavam em liberdade. E o fato de que os três já caminham livremente, a despeito da hediondez do crime que cometeram, é uma afronta não só à memória das vítimas e seus familiares, como também a uma sociedade amedrontada pela leniência do Estado para combater a criminalidade.

 

Evidentemente, os criminosos em questão não fugiram da cadeia. Seus advogados apenas cumpriram o dever profissional ao explorar todos os instrumentos legais para resguardar os interesses de seus clientes. Eis o problema de fundo. O Brasil é dotado de um sistema recursal e de progressão de regime mal formulado, mal executado e mal fiscalizado.

À falta de legislação mais severa para impedir rápidas progressões de regime para criminosos violentíssimos porque, ora vejam, eles tiveram bom comportamento no cárcere – o que não é mais do que a obrigação de qualquer apenado – soma-se o despreparo do Estado para bem definir quem, de fato, pode progredir no cumprimento da pena e, sobretudo, fiscalizar a contento essa progressão.

 

Dia sim e outro também, a sociedade é tomada por um misto de revolta e desalento ao tomar conhecimento de crimes graves, muitos culminando em morte, cometidos por bandidos que claramente não deveriam estar cumprindo pena em liberdade. A um só tempo, o atual arcabouço jurídico-penal premia criminosos violentos e prejudica o processo de ressocialização de apenados que, de fato, são dignos da progressão de regime. Veja-se, à guisa de exemplo, a facilidade com que o Congresso aprovou o fim das saídas temporárias de presos em feriados nacionais, conhecidas como “saidinhas”.

 

O Estado brasileiro, em suas múltiplas esferas de atuação – Congresso, polícias, Ministério Público, Poder Judiciário, administração prisional – precisa ser mais inteligente no trato dos condenados sob sua custódia. Isso passa tanto por uma completa refundação das cadeias Brasil afora, muitas transformadas em usinas de ódio e degradação da condição humana, mas também, e sobretudo, por uma análise mais criteriosa sobre quem deve permanecer intramuros por mais tempo e quem, eventualmente, pode voltar ao convívio social. Ou seja, impõe-se uma revisão do sistema de progressão de regime.

 

Uma das dimensões da pena é a sua natureza retributiva, uma justa resposta do Estado a uma injusta agressão do cidadão infrator. Resta claro, no caso Richthofen, mas não só, que de justa a reparação não teve quase nada.

Lula diz que colocou ‘mulher bonita’ na articulação para ter boa relação com Motta e Alcolumbre

Por Cícero Cotrim (Broadcast)Sofia Aguiar (Broadcast)Amanda Pupo (Broadcast) e Adriana Victorino / O ESTADÃO DE SP

 

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quarta-feira, 12, que colocou uma “mulher bonita” na articulação política porque quer ter uma boa relação com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) e Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

 

“É muito importante trazer aqui o presidente da Câmara e o presidente do Senado. Porque uma coisa que quero mudar, estabelecer relações com vocês. Por isso, coloquei essa mulher bonita para ser ministra de Relações Institucionais, porque não quero mais ter distância de vocês”, disse o petista, se referindo à nova ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT). Gleisi assumiu a pasta responsável pela articulação política na segunda-feira, 10.

 

A deputada licenciada assumiu o cargo no início da semana. No discurso de posse, Gleisi disse que chegou no governo para “somar” e garantiu que vai dialogar “com as forças políticas do Congresso e com as expressões da sociedade, suas organizações e movimento”.

 

Durante o anúncio do novo crédito consignado privado, no Palácio do Planalto, Lula disse ainda que “não quer mais” ter distância de Motta e Alcolumbre e que é necessário mostrar que os chefes do Executivo e do Legislativo têm o mesmo compromisso, de defender a soberania e o bem-estar do País.

 

“Não quero que alguém ache que o presidente da República está distante do presidente da Câmara, está distante do presidente do Senado. Temos que mostrar para a sociedade que nós somos, em lugares diferentes, pessoas com o mesmo compromisso de defender a soberania do país, o bem-estar do brasileiro”, afirmou.

 

O presidente aproveitou para rebater críticas, dizendo que alguns ex-ministros de outros governos “querem dar palpite” sobre a economia agora, quando tinham inflação de 80% ao mês nas suas gestões. Ele fez um afago ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, dizendo que tem a “felicidade” de tê-lo à frente da pasta.

 

Lula acrescentou que Haddad “nem sempre é o mais feliz” ao pegar o microfone e tem de tentar “passar charme” quando fala. Mas elogiou o trabalho do ministro, destacando que o governo já fez 24 ações para tratar da economia e que mudanças na política econômica levam tempo. “Se todos colaborarem, vamos terminar governo com Haddad passando pela história como melhor ministro da Fazenda que Brasil já teve”.

 

 

Lula anuncia seu primeiro grande investimento público: será em propaganda para falar bem de si mesmo

Por J.R. Guzzo / O ESTADÃO DE SP

 

 

governo Lula acaba de anunciar, até que enfim, o seu primeiro grande investimento público do ano. É um alívio. Já estava demorando, e como o presidente nos instrui a cada quinze minutos nas suas epístolas para plateias do PT, nada é tão importante nesta vida quanto o “gasto do Estado” . Há 40 anos ele garante que vamos ficar todos ricos com a distribuição de dinheiro do Tesouro Nacional, e que não há outra maneira de resolver qualquer problema da humanidade, num arco universal que vai do preço do ovo à cura da cirrose de fígado. É pena que ainda não vai ser desta vez que você vai receber a sua parte.

 

É preciso se conformar com a escala de prioridades do governo Lula, e neste preciso momento, mais uma vez, ele tem certeza de que a prioridade não é você, nem o preço do ovo e nem a cirrose de fígado. “Pobres”, então, nem pensar. Já são louvados o tempo todo nos discursos de Lula. Já têm a esmola do Bolsa Família. Já têm a esmola para os estudantes do “Pé-de-Meia”. Será que não chega? Está na hora de todos eles pensarem um pouco mais “na nação” e um pouco menos nos seus interesses pessoais. Neste momento, o governo tem de “alocar recursos” a “políticas públicas” mais urgentes.

 

O resultado é esse primeiro grande “investimento público” que Lula vai fazer em 2025: o presidente, Janja e a sua esquadrilha de estrategistas decidiram que a melhor coisa que o governo pode fazer no momento é gastar, até dezembro, R$ 3 bilhões em propaganda do governo. O sistema oficial de saúde não tem dinheiro para comprar uma dose de insulina, e sabe lá Deus o que mais. Mas eles acharam uma grande ideia gastar os R$ 3 bilhões não em insulina, ou em qualquer coisa útil, mas naquilo que o governo faz de mais inútil: elogiar a si mesmo gastando dinheiro do pagador de impostos.

 

Lembre-se, na próxima vez que for encher o tanque do seu carro, ou acender a luz de casa, que uma parte da despesa vai ser transferida direto do seu bolso para o bolso de Lula e daí, no fim das contas, para o bolso dos que vão realmente ficar com essa montanha de dinheiro. É uma safadeza, em qualquer circunstância. Você já ouviu falar, alguma vez na sua vida, que que os governos da França, ou da Alemanha, ou dos Estados Unidos, gastaram R$ 3 bilhões com publicidade oficial? Tenha dó, diria o ministro Alexandre de Moraes.

 

Nas condições atuais de temperatura e pressão, porém, a delinquência-raiz se transforma em deboche. Qualquer dos países acima, se a insânia da propaganda oficial fosse aceita por ali, com certeza teria, pelo menos, alguma coisa para mostrar – uma nova ponte, digamos. Aqui as pontes caem. O governo Lula, por exemplo, tem hoje uma ponte a menos, no mínimo, do que tinha quando começou – a que desabou no Rio Tocantins. Pois então: o governo vai torrar R$ 3 bilhões do Erário em anúncios das suas obras, mas não tem obras, e o que vão lhe mostrar é relógio suíço fabricado em Pedro Juan Caballero.

 

A lista de quem vai anunciar e de quanto cada um vai gastar é uma peça de comédia. Acredite se quiser, mas até o antigo Instituto de Pesos e Medidas, hoje sob a marca Inmetro, entrou na festa: vai detonar 40 milhões em propaganda. Propaganda do quê? Vão dizer que o metro passou a ter 110 centímetros? Lula teria feito alguma melhoria no litro? É muito desespero para atacar a rapadura. Mas o desastre neste investimento público é do tipo PT-Perda Total. Não sobra pedra sobre pedra.

 

Os Correios, por exemplo, vão gastar até o fim do ano R$ 380 milhões em publicidade. De novo: vão anunciar o que? Em 2024 os Correios fecharam o ano com um prejuízo superior a R$ 3 bilhões, depois de dar lucro até Lula ser declarado presidente. Esse ano, só em janeiro, já perderam mais de R$ 400 milhões. Qual seria a sua nova “estratégia de comunicação”? Vão anunciar que superaram as suas metas e estão rompendo novos patamares de prejuízo? O Banco do Brasil, sozinho, vai gastar outros R$ 750 milhões. Para que? Estão precisando de mais clientes? É daí para baixo.

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Opinião por J.R. Guzzo

Jornalista escreve semanalmente sobre o cenário político e econômico do País

Inflação renitente reflete dificuldade do governo em reconhecer seus erros

Por Editorial / O GLOBO

 

 

Se a alta de preços — em especial dos alimentos — já azedava o humor dos brasileiros e fazia acender luzes de emergência no Palácio do Planalto, tudo ficou pior com a divulgação da inflação de fevereiro. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 1,3% — a maior para o mês desde 2003.

 

Não deu nem tempo de o governo comemorar a trégua de janeiro, quando subira apenas 0,16%, influenciado pelo pagamento de um bônus da hidrelétrica de Itaipu, que reduziu a conta de luz. Em fevereiro, o preço da energia saltou 16,80%, provocando o efeito contrário. O reajuste das mensalidades escolares também pesou no resultado (educação como um todo teve alta de 4,7%). Pelo menos, a alta dos alimentos desacelerou (eles subiram 0,7% ante 0,96% em janeiro). Mas alguns produtos registraram aumentos expressivos, como ovo (15,4%) e café (10,8%).

 

Não é apenas a inflação que preocupa, mas também a forma errática como o governo tem reagido. Inconformado com o preço dos alimentos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva culpou atravessadores e disse que poderá tomar “atitudes mais drásticas, porque o que interessa é levar comida barata para o prato do povo brasileiro”. Não explicou quais seriam. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, tentou minimizar a declaração, assegurando que não haverá pirotecnias ou intervenção nos preços. Mas, em janeiro, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, já assustara o mercado ao dizer que o governo buscava “intervenções” para baratear alimentos (depois negou que a palavra “intervenções” significasse intervenções). Os desacertos traduzem um fato singelo: o Planalto não sabe o que fazer.

No início do mês, depois de reuniões entre ministros e empresários, o governo tirou da cartola mais uma inciativa para baixar os preços. Anunciou que zeraria o imposto de importação sobre carne, açúcar, café, massas, sardinha, milho, biscoito, óleo de girassol e azeite. Apesar de correta, a medida terá pouco impacto, uma vez que fatores como clima e alta do dólar são determinantes na formação dos preços.

 

A realidade é que, em 12 meses, a inflação está em 5,06%, bem acima do teto da meta (4,5%). Esse cenário não favorece a queda dos juros, hoje em 13,25%. Já está contratado pelo menos mais um aumento na próxima reunião do Copom. Esperava-se que, depois, a situação arrefecesse. Mas o resultado de fevereiro não contribui em nada para dissipar as apreensões que continuam no ar. Ao contrário.

 

Lula se diz indignado com os preços, mas não ajuda. A forte expansão de gastos promovida pelo governo petista contribui não apenas para o aumento do endividamento público, mas também para a alta da inflação. Preocupado com a queda nos índices de popularidade, ele tem insistido em manter a economia artificialmente aquecida, estimulando a demanda e pressionando os preços. É verdade que o cenário internacional, convulsionado pelas decisões de Donald Trump, não é favorável. Mas, em vez de ficar caçando vilões imaginários, Lula deveria reconhecer seus próprios erros.

 

Preço dos ovos subiu 15,4% no mês passado

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