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Um país que envelhece mal

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Em 2023, pelo quinto ano seguido, o Brasil registrou queda no número de nascimentos, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foram registrados 2,5 milhões de nascimentos em cartórios País afora, uma queda de 0,7% em relação a 2022. Não bastasse isso, o índice de registros foi o menor desde 1976.

 

A queda nos nascimentos se dá em todas as regiões do Brasil, com exceção do Centro-Oeste, onde, entre 2022 e 2023, houve aumento de 1,1% no número de registros de brasileiros nascidos vivos.

 

Por unidade da Federação, a tendência de queda se comprova na maioria (18), com destaque para Rondônia (-3,7% de registros), Amapá (-2,7%) e Rio de Janeiro (-2,2%). Em São Paulo, o recuo foi de 1,7%. Tocantins (+3,4%) e Goiás (+2,8%) figuram entre a minoria de Estados (nove) com aumento nos números de nascimentos.

 

Combinados, a taxa de fecundidade abaixo do nível de reposição (que é de dois filhos por casal) e o recuo no total de mulheres em fase reprodutiva exigem atenção especial das autoridades.

 

No mundo desenvolvido, a queda de nascimentos e o envelhecimento da população representam um desafio para a gestão dos sistemas previdenciário, de educação e saúde, entre outros. No Brasil, um país marcado pela baixa produtividade no trabalho e pelo mau desempenho dos estudantes em exames nacionais e internacionais de aprendizagem, a questão ganha contornos ainda mais dramáticos.

 

De acordo com projeções divulgadas anteriormente pelo IBGE, a população brasileira terá seu ápice em 2041 – serão 220 milhões de habitantes. A partir daí, passará a diminuir, chegando a 199 milhões até 2070.

 

Tal padrão já é realidade em países como o Japão, bem como em outros da União Europeia. Ao contrário do Brasil, porém, esses países já alcançaram um alto padrão de desenvolvimento, educação e prosperidade econômica e social. Tanto japoneses quanto europeus desfrutam de índices de produtividade no trabalho superiores aos brasileiros, além de ostentarem níveis médios de desempenho educacional bem melhores do que os nossos. Por isso, estão mais preparados para lidar com o desafio da queda da natalidade acompanhada do envelhecimento populacional e podem lidar melhor com ferramentas tecnológicas, como a inteligência artificial (IA), seja para manter, seja para aprimorar a produtividade. Ademais, a tecnologia não raro é empregada para criar serviços para uma população que envelhece.

 

Por mais que hoje, no mundo, exista uma forte ideologização contra imigrantes, esses países estão em uma posição privilegiada para atrair mão de obra estrangeira qualificada, que será necessária tanto para compensar a queda no número de nascimentos quanto para atender um contingente crescente de idosos.

Já o Brasil, que antes do fim deste século deixará a lista dos dez países mais populosos do mundo – atualmente estamos na sétima posição –, está envelhecendo antes de se desenvolver e distribuir bem entre seus cidadãos os frutos do progresso.

 

Levantamento recente do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) mostrou que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais, ou seja, mesmo escolarizados não conseguem interpretar textos ou fazer contas ligeiramente mais complexas. É imperativo melhorar a qualidade da educação brasileira, além de criar condições para que os cidadãos sejam digitalmente letrados. Só assim o País poderá ampliar sua produtividade e assegurar um crescimento econômico sustentado.

Sem solidez econômica, o País dificilmente conseguirá promover as adequações necessárias na área da saúde, por exemplo. A longevidade humana é uma extraordinária conquista civilizatória, mas exige preparo para lidar não apenas com as enfermidades que acometem os mais velhos, como também com as limitações impostas pela idade mais avançada.

 

E ainda há o desafio nada trivial da Previdência pública. Com menos brasileiros em idade de trabalho e mais cidadãos com direito à aposentadoria, o sistema atual prova-se cada vez menos sustentável.

 

Preso à mediocridade, o Brasil que envelhece e, em breve, passará a encolher pode pagar um preço muito caro se não atentar para os números do IBGE e começar a agir.

O imbróglio dos mototáxis

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Em novos capítulos da batalha judicial em torno da oferta de mototáxi na maior cidade do País, a Justiça de São Paulo primeiro julgou improcedente uma ação civil pública interposta pela Prefeitura que visava a suspender esse tipo de transporte na capital paulista. Ato contínuo, empresas que operam por meio de aplicativos voltaram a oferecer o serviço em São Paulo.

 

Dias depois, porém, a atividade voltou a ser suspensa. O desembargador Eduardo Gouvêa entendeu que a análise de decreto da Prefeitura, de 2023, que proibiu o transporte individual por moto, ainda não foi concluída. Ademais, o magistrado destacou que, como o serviço estava proibido, o município precisa regulamentá-lo, o que sugeriu que ocorra em um prazo de 90 dias.

 

Embora a decisão judicial mais recente suspenda a oferta do mototáxi em São Paulo, os esforços da Prefeitura pela proibição parecem ser um dispêndio de energia em uma guerra perdida. Isso porque é crescente o entendimento de que o poder municipal não tem competência para proibir a atividade.

Como destacou anteriormente o juiz Josué Vilela Pimentel, o decreto municipal que proíbe o serviço de mototáxi é flagrantemente “inconstitucional”. Para ele, “a edição de leis e decretos inconstitucionais, com o intuito de sumariamente proibir a atividade, em nada colabora com a solução do problema vislumbrado pela autora (a Prefeitura)”. Tanto a Justiça quanto as empresas de aplicativo entendem que o serviço de mototáxi é regulado por lei federal, conforme competência legislativa privativa da União.

 

A respeito da fiscalização, o juiz Pimentel afirmou, com razão, que nenhum motorista que se desloca pela capital paulista desconhece o comportamento “por vezes flagrantemente contrário às normas de circulação” adotado por grande parte dos motociclistas, não raro “às barbas” dos agentes de trânsito.

 

De fato, qualquer um que transite por São Paulo vê não só as barbaridades praticadas por motociclistas, como atesta a quase inexistência de agentes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) organizando e fiscalizando o trânsito na cidade.

 

A Prefeitura argumenta ser contra o serviço por entender que dele decorrerá um aumento no número de acidentes fatais. A realidade é que a letalidade no trânsito de São Paulo já aumenta ano após ano, e os motociclistas são as mais frequentes vítimas fatais. Só em 2024, 484 deles perderam a vida no trânsito paulistano.

 

Além disso, nas periferias, como registrou o Estadão, o serviço de mototáxi clandestino não só existe há tempos, como concede até “cartões fidelidade” aos usuários, em geral cidadãos que se veem forçados a optar pelo risco da moto para não passarem horas aguardando por transporte coletivo.

 

Tudo isso só reforça a necessidade de o poder público ofertar mais modais coletivos para a população e, sobretudo, fiscalizar o trânsito, como bem pontuou Pimentel. Proibir o mototáxi não é a solução. “Se o número de acidentes aumenta”, escreveu o juiz, “é claro sinal de que a fiscalização é insuficiente e/ou ineficiente”. Mais didático, impossível.

Alta nas mortes em acidentes com motos exige política de prevenção

Por Editorial / O GLOBO

 

 

A motocicleta vem aumentando seu espaço nas cidades brasileiras à margem das regras de trânsito e sem fiscalização adequada. Como resultado, acidentes com motos se tornaram a principal causa de mortes no trânsito — elas chegaram a 34,9 mil em 2023, 3% acima das 33,9 mil de 2022, segundo o Atlas da Violência, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). É preciso que as autoridades lhes dediquem atenção especial.

 

 

Nos últimos 30 anos, a frota de motocicletas aumentou 40% — de 23,5 milhões para 33 milhões —, número compatível com o crescimento nos habilitados a dirigi-las. As mortes nos acidentes com motos, em contraste, se multiplicaram por dez. O pico havia sido 13 mil mortes em 2014. Elas caíram ligeiramente até 2019, mas de lá para cá — sem considerar 2020, ano da pandemia — dispararam. Chegaram a 6,3 por 100 mil habitantes em 2023, 12,5% mais que no ano anterior.

 

A moto é instrumento de trabalho para grande parcela da população de jovens de famílias desfavorecidas. Entregadores e motoboys estão presentes nas ruas, movidos por incentivos econômicos que premiam quem chegar mais rápido ao destino. Enquanto a prudência e o bom senso aconselham o respeito aos limites de velocidade e leis do trânsito, nem sempre esses itens estão no topo da lista de preocupações dos condutores. Falta treinamento e faltam campanhas robustas de conscientização sobre os riscos, voltadas tanto a quem dirige motos quanto aos motoristas de outros veículos que costumam provocar acidentes.

 

Há, é verdade, experiências bem-sucedidas. Em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes briga na Justiça contra os mototáxis — embora os demais motociclistas estejam livres para levar caronas — e criou uma faixa exclusiva para motos nas avenidas movimentadas, a faixa azul. Com isso, elas deixam de ziguezaguear entre os carros, reduzindo o risco de acidentes. Já há faixas azuis em quase 50 avenidas paulistanas, com mais de 220 quilômetros de extensão. Outras cidades, como o Rio de Janeiro, já copiaram o modelo.

 

Nas faixas azuis paulistanas, entre 2023 e 2024, caiu 47,2% o número de mortes de motociclistas (de 36 para 19), segundo estudo da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). A “taxa de severidade” (vítimas graves ou fatais a cada cem acidentes sérios) relativa a motos é 1,22 dentro da faixa azul e 24,72 fora dela na Avenida dos Bandeirantes, uma das mais movimentadas da cidade. Apesar disso, as mortes de motociclistas cresceram 19,8% — de 403 para 483 — no ano passado em relação a 2023. Não há, portanto, solução mágica. O governo precisa adotar diversas medidas articuladas, dentro de uma política de prevenção contra acidentes baseada em evidências científicas, e não em circunstâncias políticas ou inclinações ideológicas.

 

Bombeiros socorrem vítima de acidente de moto no Rio

Janja defende sua fala na China sobre TikTok: 'Não há protocolo que me faça calar'

Por  — Brasília / O GLOBO

 

 

A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, respondeu as críticas dirigidas a ela por falar sobre o TikTok durante o jantar com Xi Jinping na semana passada, afirmando que "não há protocolo" que a faça ficar calada.

 

— Eu quero dizer que a minha voz vocês podem ter certeza que vai ser usada para isso. E foi para isso que ele foi usada na semana passada quando eu me dirigi ao presidente Xi Jinping após a fala do meu marido sobre uma rede social (...) Como mulher, não admito que alguém me dirija dizendo que eu tenho que ficar calada. Eu não me calarei quando for para proteger a vida das nossas crianças e dos nossos adolescentes — declarou Janja nesta segunda-feira, em evento do Ministério dos Direitos Humanos de enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes.

 

Na semana passada, ela teria criado um mal-estar durante um jantar em Pequim com Lula, Xi Jinping e ministros ao citar os abusos cometidos na rede chinesa, segundo a GloboNews. O presidente da China respondeu que o Brasil tinha o direito de regulamentar o TikTok e até banir a rede social se achasse necessário.

 

— Estou feliz que vocês me convidaram e que vou poder falar, e que não vou precisar ficar calada (...) Não há protocolo que me faça calar se eu tiver uma oportunidade de falar sobre isso com qualquer pessoa que seja, do maior grau ao menor grau, do mais alto nível à qualquer cidadão comum — afirmou a primeira-dama no Ministério dos Direitos Humanos.

 

Em entrevista a jornalistas após a repercussão da conversa, Lula afirmou que foi ele que tomou a iniciativa de abordar o tema e Janja “pediu a palavra” para mencionar os abusos cometidos na rede.

 

— Fui eu que fiz a pergunta. Eu perguntei ao companheiro Xi Jinping se era possível ele enviar para o Brasil uma pessoa da confiança dele para a gente discutir a questão digital, e sobretudo o Tik Tok. E aí a Janja pediu a palavra para explicar o que está acontecendo no Brasil, sobretudo contra as mulheres e contra as crianças.

Lula aproveitou para dar uma bronca em quem vazou a informação, durante a entrevista que concedeu em Pequim antes de partir, após visita de três dias à capital chinesa. Para ele, “alguém teve a pachorra” de revelar o que aconteceu num encontro confidencial, em que participaram apenas ministros e parlamentares.

 

— Eu vi na matéria que um ministro estava incomodado. Se um ministro estivesse incomodado, ele deveria ter me procurado e pedido para sair. Eu autorizaria ele a sair de lá — disse Lula.

 

Janja aproveitou o discurso no Ministério dos Direitos Humanos para pedir um esforço para aprovar a regulamentação das redes sociais no Congresso Nacional, afirmando que o tema não deve ser tratado como uma "fofoca de bastidor": — A gente precisa que as mães se unam numa voz forte que seja ouvida no Congresso Nacional para que efetivamente a regulamentação das plataformas aconteça, e que a gente não viva mais casos como o de vivenciar uma menina de oito anos morrer porque cheirou desodorante gente. Então a gente precisa tratar isso de uma forma um pouco mais séria e não como fofoca de bastidor.

Entre Tarcísio e Michelle, Centrão já vê nome preferido por Bolsonaro para 2026

Por  / o GLOBO

 

Se tivesse que bater o martelo hoje sobre quem apoiaria para disputar a Presidência, Jair Bolsonaro optaria pela ex-primeira-dama Michelle. É essa a leitura da cúpula do PL e de lideranças de partidos do Centrão próximos ao ex-presidente.

 

Para esse grupo, dois fatores têm peso decisivo para Michelle Bolsonaro passar a ocupar a preferência do marido em relação ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. O primeiro é a aproximação com o vereador Carlos Bolsonaro, que passou a fazer elogios públicos à madrasta após a última cirurgia do pai, no mês passado.

 

O segundo fator é que Bolsonaro e seus filhos vêem Tarcísio com desconfiança e avaliam que faltam gestos do governador em direção à família. Há cobranças, inclusive, para que ele haja diretamente junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), para ajudar o ex-presidente a se salvar do processo da tentativa de golpe de Estado. Outra queixa é que Tarcísio não atende aos pedidos do clã Bolsonaro para nomeações e outros pleitos envolvendo o governo paulista.

 

Diante desse quadro, uma chapa passou a ganhar força junto ao ex-presidente na disputa contra Lula. Ela seria formada por Michelle como candidata à Presidência e o senador Rogério Marinho como vice. Nesse formato, seria uma chapa “puro sangue”, porque ambos são do PL. Como informou a coluna, uma ala de auxiliares e aliados de Bolsonaro trabalha para fortalecer o nome de Marinho.

Lideranças do Centrão avaliam, porém, que, se Bolsonaro for por esse caminho, terá dificuldades de compor com partidos de centro-direita que podem ter peso decisivo para se chegar a uma eventual vitória. A federação formada por PP e União Brasil, por exemplo, se movimenta para indicar o posto de vice do nome apoiado pelo ex-presidente.

Publicamente, porém, Bolsonaro segue com o discurso de que ele será o candidato, mesmo inelegível.

A má-fé ‘estratégica’ de Lula em Pequim

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

A visita do presidente Lula da Silva à China foi marcada por anúncios comerciais relevantes: a promessa de R$ 27 bilhões em investimentos, acordos nas áreas de semicondutores, energia e infraestrutura, além da abertura de mercado para produtos do agro brasileiro. A China é o maior parceiro comercial do Brasil, e encontros de alto nível são cruciais a uma estratégia de inserção internacional. Nesse sentido, a passagem de Lula por Pequim não pode ser confundida com sua aparição na Praça Vermelha ao lado de Vladimir Putin e seus comparsas ditadores – um episódio que manchou a diplomacia brasileira associando-a a uma celebração imperialista em meio à agressão à Ucrânia.

 

No entanto, é precisamente pela relevância da relação com a China que se exige do chefe de Estado brasileiro uma conduta madura, guiada por interesses nacionais, e não fetiches ideológicos. Lula, mais uma vez, falhou nesse teste. Sua visita foi marcada por declarações e gestos que extrapolam a esfera da cooperação pragmática e o colocam como entusiasta de uma aproximação geopolítica com a China, inspirada por motivações partidárias, em detrimento da equidistância diplomática característica do Itamaraty.

 

A afinidade do lulopetismo com o regime chinês e outras experiências autocráticas não é nova. Mas, na atual conjuntura, ela se torna ainda mais preocupante. Reiteradamente, Lula tem feito provocações gratuitas aos EUA, como quando declarou, aludindo às políticas tarifárias de Donald Trump, que Brasil e China estão “determinados a unir suas vozes contra o protecionismo e o unilateralismo”, como se ambos os países fossem baluartes do livre comércio. O petista foi além, ao comparar suas vitórias eleitorais à revolução comunista de 1949, violentando, por ignorância ou má-fé, o fato histórico de que os avanços socioeconômicos da China vieram da ruptura com a tirania homicida de Mao Tsé-tung e da liberalização do mercado sob Deng Xiaoping. O constrangedor episódio em que a primeira-dama Janja da Silva interpelou Xi Jinping, sugerindo enviesamento do TikTok contra a esquerda, é um emblema caricato desse voluntarismo trapalhão que permeia a diplomacia presidencial.

 

Lula disfarça seu alinhamento a Pequim sob o manto de um pragmatismo virtuoso: garantir investimentos e acesso ao mercado chinês. É uma inversão da realidade. A verdade é que Lula utiliza os negócios como pretexto para satisfazer suas inclinações ideológicas e ambições pessoais. O comércio Brasil-China cresceu exponencialmente nas últimas duas décadas sob governos de diferentes matizes, inclusive sob Jair Bolsonaro e suas invectivas contra Pequim. Além disso, países como EUA, Índia, Japão e até Taiwan mantêm com a China relações comerciais robustas, a despeito de profundas rivalidades geopolíticas. A Índia, aliás, é exemplo de pragmatismo que o Brasil faria bem em emular: coopera com a China quando lhe convém, mas preserva sua soberania estratégica e não se alinha automaticamente a nenhum polo.

 

O Brasil não precisa bajular ditaduras para vender soja, carne ou minério. Acima de tudo, não precisa recorrer ao ditador Xi Jinping para discutir a regulação das redes sociais, como fez Lula de forma desconcertante, desdenhando dos princípios constitucionais de liberdade de expressão e separação entre os Poderes.

Diante da polarização entre China e EUA, o Brasil tem todas as condições de adotar uma postura independente e propositiva. Nosso histórico pacífico, a qualidade de nossos quadros diplomáticos, nossa importância ambiental e o peso de nossa economia nos conferem credenciais para atuar como voz moderadora e construtiva. Mas, para isso, é necessário que a diplomacia sirva ao interesse do Estado brasileiro – não às idiossincrasias de um líder obcecado por glórias internacionais.

 

Lula, em vez de liderar o Brasil com sobriedade em um mundo multipolar, arrisca transformá-lo em satélite de uma autocracia. Ao fazê-lo, trai a tradição do Itamaraty, pisoteia valores inscritos na Constituição, como a primazia da democracia e dos direitos humanos, e arrisca alienar parceiros do Ocidente. Os negócios com a China são bem-vindos. A subserviência, não.

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